terça-feira, 16 de outubro de 2012

A viagem








Era uma estranha sensação, andava um pouco perdido e pela primeira vez não sentia aquela dor aguda que o apoquentava há tanto tempo, o médico dizia que era da coluna, da falta de cuidado quando se estirava no sofá, se calhar era mas se tinha tão belos sofás porque raio se ia sentar numa cadeira?

Na verdade hoje nada lhe doía. Tinha que se despachar, mas coisa esquisita passou a mão pela cara, que estava gelada, e pareceu-lhe que não precisava fazer a barba.

Foi espreitar o espelho e via-se reflectido como se fosse um negativo. Era ele mas não parecia, pois as sombras cobriam-lhe o rosto e não dava para se aperceber bem do que via.

Foi procurar os óculos mas hoje era dia não. Onde se terão metido os malvados? Quando não precisar deles logo vão aparecer.

Andou assim perdido, do quarto para sala e da sala para o quarto, sem saber bem o que tinha que fazer.

Há coisas que nos ultrapassam, acabou de se levantar, não se recorda de fazer nada e, na realidade já estava impecavelmente vestido, de verdade com um fato que detestava, com uma gravata que não se lembrava de usar há anos e com uns sapatos pretos que antes lhe magoavam os pés, mas de hoje nem os sentia.

O estranho era estar vestido a rigor embora com um pouco de cheiro a naftalina e não sabia, exactamente  o que tinha que fazer, não abe lembrava de nenhum compromisso mas, não se admirava porque a cabeça por vezes já lhe ia pregando partidas.

Estava cogitando neste mar de incertezas quando, os sinos da Igreja, o despertaram para um pungente toque a finadas.

Era um repicar tão triste e tão lúgubre que, lhe pareceu sentir duas  lágrimas a escorrer pelo rosto, passou a mão mas não, era só impressão pois a cara continuava fria, mas bem enxuta.

Tentou coordenar os pensamentos mas apenas o vazio lhe povoava o pensamento.

Mas era estranho, estava vestido, barbeado, gravata impecavelmente colocada, sapatos brilhando e sem saber porque e nem para que!

Os sinos continuavam no repicar triste e soturno.

Foi então que pensou que se tocavam a finados alguém tinha morrido. Estava tudo explicado, era isso, estava preparado para ir a um funeral. Não se lembrava de quem, mas não admirava, a cabeça por vezes já o atraiçoava.

Subiu a rua, passos suaves e firmes, há muito que sentia as pernas tão firmes. Estranhou que ninguém lhe respondesse quando os saudava com o habitual bons dias.

À porta da casa mortuária estavam os seus amigos e alguns familiares. Mas afinal quem tinha morrido? Porque seria que todos o desconheceram e ninguém respondeu às suas palavras?

Entrou, não percebeu, ninguém se desviou mas nenhum obstáculo o impediu.


Na peanha, num ataúde aberto descansava um homem com um pano na cara, um fato igual ao detestável que ele vestia, uns antiquados sapatos pretos como os dele e, coincidência tão estranha, a mesma insuportável gravata.

Tentou levantar o pano da cara do homem mas, não entendia, os dedos passavam e o lenço continuava na mesma posição.

De repente percebeu, agora já sabia, tinha chegado a sua hora.

Hora de partir e ninguém o tinha avisado



18 comentários:

Catita disse...

arrepiante é só o que posso dizer, mas ao mesmo tempo, interessante ver o ponto de vista do morto eheheh

✿ chica disse...

Noooooossa!!!Que final!!! Ele próprio era o galã da "festa" e por isso estava arrumado...

Sempre maravilhoso! abração,chica

Parole disse...

Para esse tipo de viagem eu dispenso aviso... rs ... Excelente, Manuel.Apesar do tema, soube conduzir o texto com leveza.

Beijinhos.

Luís Coelho disse...

Olá Manuel.
Este texto ficaria bem para a altura dos Mortos. Dia de Finados.

Por vezes pergunto-me se será assim o nosso final. O coração pára de bater e o corpo perde toda a sensibilidade, mas o nosso espírito continua vivo.

Que todos esses espíritos descansem em paz. O nosso "canastro" desaparecerá sepultado num canto do cemitério.

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Meu querido amigo

É daqueles compromissos a que não podemos faltar e que queriamos não estar lá, mas todos temos a nossa hora.
Como sempre fico encantada e leio com prazer.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Meu querido amigo

É daqueles compromissos a que não podemos faltar e que queriamos não estar lá, mas todos temos a nossa hora.
Como sempre fico encantada e leio com prazer.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Bloguinho da Zizi disse...

Caro Manuel
Esse é o fim de todos nós. Não sei se com tanta consciência como a do teu personagem...mas é o fim, ou seria o começo?
Gostei!
Beijinhos

quem és, que fazes aqui? disse...

Estava à espera deste desfecho. Desta vez consegui acertar, Manuel.

Como sempre, fantástico!

Beijo

Laura

JP disse...

Excelente Manuel (como sempre). Mas partidas dessas, meu amigo, é melhor nem pensar nelas.

Abraço

rosa-branca disse...

Olá amigo Manuel, hoje cheirou-me a morte, mas como eu hoje também não sei ao certo se estou viva, nem sequer me pus a imaginar o final. Maravilhoso meu amigo. Será que podemos um dia assistir a tal? Um compromisso realmente inadiável. Adorei como sempre um deleite. Beijos com carinho sempre

SOL da Esteva disse...

Certamente é deste modo que nos veremos, a nós mesmos, naquela hora. Ninguém nos saudará e nem se aperceberá deste nosso lado da visão.
Hoje, "cheirou-me" a homem morto.
Mas, o teu Conto, está muito bem conseguido.
Parabéns, Manuel.


Abraços


SOL

Flor de Lótus disse...

Oi,Manoel!Nossa deve ser muito estranho esse momento quando nos damos de conta que fomos dessa pra melhor, ver ali nosso corpo morto,estático...
Beijosss

Magia da Inês disse...

º°♪♫♫
Leitura envolvente, com um toque de mistério...

Bom fim de semana!
Beijinhos.
°º♪ Brasil ♫♫♫

Rita disse...

Ai que arrepioooooooo, me deu medo
mas uma mensagem bonita apesar de
ver ele mesmo ali .....Coisas da vida
Ao acordar tenha u lindo dia
Abraços
Rita!!!

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Que crônica magnífica, Manuel!
De preferência,que seja assim: nada de avisos, para mim, quero ser a última a saber, quando chegar a minha hora final.

Um beijo,
da Lúcia!

SDaVeiga disse...

Dantes faziam-se velórios em casa de dias, para dar tempo ao espírito de quem tinha morrido de perceber o que se passava.
Esse teve a sorte de ir a tempo à mortuária!

Faz-me lembrar o filme "Mortinho por chegar a casa": o primeiro filme português que vi no cinema e que adorei!

Além de compositor e escritor, podes ser guionista! :-D

Beijinhos e bom fim-de-semana!

Vivian Fernandes de Goes disse...

Minha nossa!!!!Impressionante, como deixa em suspense(nos dá margem para imaginar muitas situações)só nos revelando a verdade no final! E sempre um choque!Belo meu amigo!!
Beijos!

Maria disse...

Gosto da sua imaginação. Lê muito, não lê, Manuel?
E lê Torga? Um dia explico-lhe porque faço esta pergunta.
Vou ler as suas histórias aos pouquinhos.
Maria