domingo, 17 de fevereiro de 2013

Podia ter sido diferente!







Já foi há muito tempo e a minha memória já me atraiçoa, só o pensamento me mantêm algumas recordações.

Tenho a certeza que foi em Maio, as tardes primaveris traziam o chilrear dos pardais que, em bando, tomavam conta das árvores.

Eu estava à janela, a tentar descobrir como me desenvencilhar de um nó de gravata que se tinha ensarilhado de forma estranha. Foi aí que a vi.         
Estava na rua em frente ao café do Esgalho, o Sol batia-lhe na cabeça e os cabelos pareciam espigas de milho douradas.
Desci a escada a dois e dois e, num instante, fiquei ao seu lado, descobri o melhor sorriso e meti conversa:

-És a Susana que mora na Travessa do Possolo, filha do Zé da Nora, não és?

Escarneceu e com ironia foi dizendo:

-Deves estar a armar-te em parvo ou que? Tás farto de saber quem sou! Até andamos, na primária, na mesma escola, tu nos rapazes e eu nas raparigas.

Tive que me esforçar, pois o raio da rapariga desconcertou-me.

-Tens razão, desculpa mas não sabia como meter conversa. Sou mesmo parvo!

-Se tu o dizer quem sou eu para contradizer, mas afinal o que queres? Perguntou.

-Estar contigo, conhecer-te melhor. Até quem sabe sermos amigos, respondi.
-Bom! Começou ela, posso ser isso tudo e até mais, é só uma questão de preço, comigo nada é à borla! Queres passear comigo uma hora, pagas vinte e cinco tostões, para ser amigo, só amigo, é o mesmo preço, se quiseres algo de mais especial o preço começa nos 10 escudos e pode ir até aos cinquenta. E, para tudo, quero pagamento adiantado, nada de paga depois.

Com essa de não receber antes, o padre Virgulino levou-me à certa e ficou a dever-me 5 escudos, mas lixou-se porque caiu no alçapão da Igreja e partiu o pescoço. Alguém o abriu sem ele dar por isso. Gozou, não pagou, mas não lhe fez proveito!

Fiquei sem palavras, não sabia o que dizer, foi tudo tão inesperado e só me saiu:

-Mas isso é pecado e é proibido.

Deu uma gargalhada, virou-me as costas e foi dizendo:

-Se os padres gostam é porque não é pecado! Além disso o físico é meu!

Fiquei com uma sensação de frio a percorrer-me o corpo, como que um arrepio que começou nas pernas, percorreu a coluna e se concentrou num ponto do cérebro, que me dava como que uma agastura difícil de explicar.

***

Estou a ser parvo, pensei, a rapariga esteve a gozar comigo, ela não é nada disso. Se fosse já muita gente comentava e eu nunca ouvi nada.

Que o padre Virgulino, de forma que ninguém soube explicar, se emborcou pelo alçapão abaixo e o encontraram no outro dia mais morto que morto, isso é verdade, mas se calhar aproveitou este episódio para caçoar comigo. A gaja é tramada!

Amanhã vou falar com ela, não quero ser mais gozado. Isto tem a ver com a escola, eu como era filho de um Morgado era a vítima das brincadeiras dos rapazes, até que um dia me deu a veneta e dei uma valente sova no Marcolino, foi remédio santo, nunca mais me atazanaram o juízo.

****

Encontrei-a no Café Central, foi fácil, o cabelo brilhava ao longe, estava só, numa mesa, ao lado da janela. Quando me viu não se conteve:

-Sch, Roberto, ainda te lembras de mim? Pagas um café?

Pedi dois ao balcão e fui sentar-me na mesa, mas antes perguntei:

-Posso?

Deu uma sonora gargalhada:

-Podes eu não te cobro nada, companhia à borla!

Bebemos, calmamente, os cafés em pequenos sorvos, quase como num ritual.

-Sabes? Comecei, ontem desconcertaste-me, quase acreditei em ti. És tramada!

-Mas, perguntou ela, e agora em que parte deixastes de acreditar?

-Em tudo rapariga, em tudo!

-Pois, disse ela, não acreditas que virei puta!

Mas é verdade, não me considero mas sou, eu não quero ficar nesta parvalheira, quero sair daqui, quero respirar e para isso preciso de dinheiro. Os meus pais são os melhores, mas não tem onde cair mortos, trabalho não há e eu, quero e preciso de dinheiro. Tenho um corpo que muitos desejam, não tenho pejo em explorar o que é meu. Mas sabes que a crise até nisso existe, até hoje não tive um único cliente, contínuo casta e pura como quando nasci, mas tenho esperança que as coisas melhorem, quero ir para Lisboa estudar.

-Mas, balbuciei, disseste que o padre te ficou a dever 5 escudos!
Olhou-me de uma forma, tão angelical, que voltei a sentir o tal arrepio.

-Acredita Rodolfo, o safado do padre apalpou-me o rabo, gritei com ele e disse-lhe que ia fazer queixa. Prometeu dar-me 5 escudos para ficar calada mas o sacana nunca me pagou!

-Mas, diz-me, Susana tens mesmo vontade de fazer isso?

Percebi uma lágrima disfarçada, talvez fosse impressão minha, mas os olhos azuis brilhavam intensamente:

-Não sei e tenho medo de quando chegar a isso não ser capaz! Tenho mesmo muito medo!

Foi aqui, tenho a certeza, que as lagrimas correram pelo rosto.

-Seca essas lágrimas! Pedi. Vou-te fazer uma proposta, esqueces esses planos malucos, eu empresto-te o dinheiro para ires estudar. Depois, quando arranjares emprego vais-me pagando. Que dizes?

Agora chorou mesmo, vi o peito arfar e o rosto ficar sulcado por riscos brilhantes. Passou os braços em volta do meu pescoço e:

-Juras que fazes isso? Juras mesmo? Porque não vamos os dois?



* * *
Durante dois anos, pontualmente, todos os meses lhe enviei um vale.

Um dia recebi uma carta, lacónica, só percebi que tinha um emprego, não precisava mais do empréstimo e que um dia me iria pagar tudo. Só isso, mais nada, nenhum agradecimento.
Pensei, um dia aparece, por aí, e logo agradece!

Vão passados, talvez 50 anos, e estou na mesma janela apanhando um pouco do Sol que me ajuda a aquecer as articulações e me alivia as dores destas malditas artroses.

Olhei para onde fora o café do Esgalho, hoje é uma loja de chineses. Parece-me ver um cabelo brilhando, como espigas de milho douradas, e lembrei-me da Susana que depois daquela carta nunca mais deu notícias.

Passou tanto tempo e nunca a esqueci, e ainda hoje, decorridos todos estes anos tenho a certeza, que ainda a amo e vou continuar a amar!

Faltou-me coragem para tudo ter sido diferente!

16 comentários:

quem és, que fazes aqui? disse...



Podia, de facto, ter sido pior. Sobretudo depois daquele arrepio
"como que uma agastura difícil de explicar".

Boa semana. Beijinho

Laura

JP disse...

Caro amigo....

Por momentos, no princípio, lembrei-me logo das tequillas. Mas depois verifiquei que não era nada disso....

Mas Manuel, o importante foi a ação e o sentimento.

Abraço

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bonita história como muitas que conhecemos e muitas mais que nunca passaram além das quatro paredes onde se criaram.

✿ chica disse...

Tuas histórias e contos nos provocam emoções diferentes, mas sempre nos encantam. Podes crer! abração,chica

ana costa disse...

Oxalá existissem muitos "Manuéis" neste mundo... quem sabe o sofrimento, a miséria, e a desgraça que se conseguiria evitar...
Esta história deixou-me deveras emocionada pois todos sabemos que esta é a verdadeira história de muitas jovens com as quais nos cruzamos no virar de cada esquina...
parabéns!
beijo

Smareis disse...

Olá Manoel,

Belíssima história, uma realidade que vemos muitos nessa vida.

Depois de um tempinho ausente do blog estou de volta.Já tem postagem nova.
Deixo um grande abraço!
Ótima semana!

Refletindo com a Smareis---Clique Aqui----

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Mais uma história inventada, das suas, que como sempre, espelham realidades.

O personagem deste texto, parece me ser um homem bom e que acredita em tudo e todos.

Há homens, assim. Aliás, os chammados "homens de boa vontade" ficam sempre no vazio e raramente são felizes.

Bem, a Susana, deve estar numa boa, ou numa má, mas só Deus o sabe.

Penso que as pesoas não se devem acomodar à idade, mas sim, aos tempos que vivemos. Podemos ser tudo, com honestidade e força de vontade.

Quanto ao vídeo, é sucesso já garantido e já vendeu muitooooooooooooo, mas para lhe falar com franqueza, não acho graça nenhuma a chineses, nem Japoneses, e dançar como um cavalo, muito menos.

Boa semana.
Beijo da Luz, com estima.

Rita disse...

Ficar emocionada com que escreve já
é uma alegria para todos
Obrigada pelo carinho de sempre
Um abraço
Riita!!!

BlueShell disse...

Há momentos que podem fazer toda a diferença....

Está tudo...mais ou menos , Manuel.
grata pela preocupação,.

Um beijinho
Isa
Blueshell

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Como sempre ótimissimérrimo!!!!

Na nossa Travessa tens lá concurso. Espero por tu

Abç

Henrique

Centelha Luminosa disse...

Olá meu amado Manuel!!

Ahhh, que peninha, meu amigo que por falta de atitude, de coragem, de agarrar as rédeas do destino com as próprias mãos e modificar a vida, ele tenha deixado de viver um grande amor, talvez...

A história é triste, mas o escritor é sempre maravilhoso, hábil com as palavras, inteligente e sábio, porque prende a atenção da gente como ninguém é capaz de fazê-lo!

Beijos e abraços , amigo querido, da LU...

Mary disse...

Que longa espera.
Como deve ser angustiante a dor da ingratidão.

Um linda história, apesar do final triste, de longa espera.

Bjo meu amigo Manuel

SOL da Esteva disse...

Pois é, Manuel!
O Amor não escolhe idades nem se dilui no tempo.
A história é uma das muitas "verdades" escondidas, infelizmente, pelas terras fora.


Abraços



SOL


Magia da Inês disse...

✿✿彡

Teve tudo na mão!
A gaja não o convidou para ir junto?!... agora é tarde!!!
Bom fim de semana!
Beijinhos do Brasil.
¸.•°✿✿彡

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Meu querido amigo

Mais uma história muito bem contada como sempre...pena que não tivesse um final feliz.
Pena as tuas histórias não passarem para um livro.

Um beijinho
Sonhadora

Vivian Fernandes de Goes disse...

Ah, meu amigo...posso estar enganada, mas este rapaz se deixou enganar, moça muito estranha!
Mas um belo texto!!!
Beijos!!Meu carinho e admiração!