domingo, 24 de novembro de 2013

A Despedida



Para o meu cunhado, António Nunes, companheiro de muitas jornadas.










O raio da gaiata era tão linda como um radioso nascer do Sol.
Branca como a neve, cabelos ruivos, em pendentes caracóis, davam-lhe um ar quase angelical, que era desmentido pela sensualidade de uns lábios carnudos, que apetecia morder, e por uns olhos amendoados onde o brilho de avelãs eram um constante desafio.

Sabia como era e fazia questão em o realçar, vestia uma camisola justa e bem decotada, de forma a por em evidencia dois hemisférios que pareciam querer saltar. A saia parecia um cinto largo, donde pendiam duas pernas longas e torneadas, por um artista que percebia da poda. 

Até os joelhos, coisa rara, eram perfeitos.

Deslizava elegante, ecoando o saltitar dumas elegantes sandálias vermelhas com incrustações coloridas.

Ia distribuindo charme e recebendo olhares gulosos de tantos homens, como outros, invejosos, de algumas mulheres.

Passava numa estudada inocência, numa vaidade
que se compreendia, ela não tinha culpa era a obra de um, qualquer, Deus!

***
Não sou nada de especial, apenas a simpatia me torna aceitável. Nasci, algures, numa terra que nem vem nos mapas, tão pequena que um dia descobri que não tinha espaço para mim, sufocava-me os pensamentos, cerceava-me as ideias e não me deixava dar azo às minhas fantasias.

O ar era respirável, o problema estava mais no horizonte limitado, na falta de ideias, na monotonia das parcas conversas no café, que também era mercearia, loja de ferragens e vendia, ao mesmo tempo, roupas de gosto duvidoso.

As noites começavam cedo e as manhãs ainda mais.

Acho que 99,9%, dos homens, trabalhavam na agricultura, o 0,1% que falta era eu, que pensava que a escrita podia ser uma ocupação e não apenas um gosto.

Foi num dia invernoso, que às 7 da manhã, entrei na velha camioneta da carreira e, sem olhar para trás, abalei à procura de outros horizontes.

Já passaram alguns anos, deixei a falta de espaço e vim encontrar um mundo que não era, propriamente, o que espera, mas fui-me adaptando.

Hoje transformei-me numa espécie de free-lance. Vou escrevinhando umas crónicas para umas revistas e, quando calha, uns artigos para um jornal. Não é muito mas, o suficiente para uma vida decente, com a vantagem de fazer aquilo que mais gosto.

****

O dia acordou azul, não sei se há dias azuis mas, eu caracterizo os dias, tenho essa mania. Hoje acordei inspirado, com grandes ideias para uma crónica, vou escrever sobre a influencia do acordar no comportamento das pessoas, se calhar não é uma grande ideia, mas acordei, com ela, neste dia azul.

******

Não acredito, propriamente no acaso, mas hoje, por acaso a minha vida deu uma volta.
Descia o Chiado e uma visão toldou-me os pensamentos. Era linda, cabelos ruivos, pele leitosa, olhos cor de avelã e uns lábios como cerejas maduras esperando ser colhidas.
Fiquei a olhar com um sorriso meio aparvalhado e sorri-lhe, olhou-me e sorriu também. Afinal, se calhar, não sou só simpático.

Não resisti e perguntei-lhe:

-Sabe? Para este dia  ser o melhor, da minha vida, só a sua companhia num café!

Quando abriu mais o sorriso, o dia ficou mais claro e quando disse que aceitava, para mim, ficou totalmente azul.

Sentámos na esplanada e pedimos os cafés, perguntei se não queria um bolo, abanou a cabeça e respondeu:

-Não obrigado, aceitei este café para me poder sentar um pouco e, também, porque o seu sorriso foi o único que hoje me pareceu sincero.

Ficamos perdidos durante muito tempo, ela desenvolta, à vontade, eu embevecido nas palavras.

Vivia nos arredores de Lisboa e hoje era já a terceira entrevista.

Vestia, reconhecia, para evidenciar o que sabia ter e, percebia, que as roupas compradas nas lojas dos chineses no seu corpo ganhavam o glamour das grandes marcas, não tinha culpa, não foi ela que se fez, foi obra de Deus e, a felicidade de ser parecida com a mãe ajudava.
A mãe era linda!

Tinha acabado um curso de economia, fez dezenas de currículos que, enviou para tudo o que era conhecido, respondia a todos os anúncios que apareciam, foi a 12 entrevistas e apenas recebeu, dalguns homens, propostas pouco profissionais ou, então, para distribuição de panfletos na via pública, não tinha dúvidas em aceitar se as condições fossem minimamente decentes, agora 300 euros, sem qualquer subsídio para refeição e transporte, pareceu-lhe uma espécie de escravatura.

Ouvi encantado, não só pela doçura da voz mas também pelo desespero e necessidade de desabafo, suspirei fundo antes de responder:

-Perdoe a minha deselegância nem sequer me apresentei. Sou Rodrigo, licenciado em comunicação social e vivendo de trabalhos esporádicos, embora não me possa queixar, há piores.

Fugi, é o termo, duma pequena aldeia na busca de horizontes e não sei se os encontrei, mas vou continuar essa busca.

Não me disse o seu nome, se calhar não é importante, mas fico feliz porque confiou em mim.

-Sou Esmeralda, peço também desculpa. Tenho que ir embora o comboio não espera. Este é o meu telefone, quando não estiver muito ocupado dê-me noticias, gostei de o conhecer!

Levantou-se rodando as pernas e começou a descer a Rua Garrett com a graça natural que a natureza lhe ofereceu.

Olhou para trás e sorriu.

Foi o princípio.

*****

Levantei-me e o dia tinha um ar rosado, o meu coração estava sobressaltado, o meu pensamento numa rodilha de ideias descoordenadas. A vontade dizia-me sim, o bom senso refreava o desejo.
Ganhou a vontade, foi mais forte. Ia telefonar.

-Bom dia Esmeralda!

Do outro lado uma voz entoou:

-Esmeralda! É para ti filha.

Senti o restolhar dum telemóvel a mudar de mão:

-Bom dia, não conheço o número.

Dei uma pequena gargalhada:

-É natural só espero que, ainda, se lembre do dono!

Senti uma mudança no tom da voz, ficou mais doce:

-Não acredito! É o Rodrigo?

-Sim, respondi, sou o Rodrigo e não quero ser inconveniente, mas dormi num sonho cor-de-rosa consigo no pensamento.

Ficou calada, sabia que estava lá, ouvia o respirar, mas foi por pouco tempo:

-Sabe Rodrigo, não fique vaidoso, mas também pensei muito em si.

Ganhei coragem e convidei-a para almoçarmos amanhã, pensei num jantar mas. alguém me disse um dia  " nunca se convida, na primeira vez, uma mulher para jantar pode parecer que estamos a incluir o pequeno-almoço"  nunca esqueci o conselho.

Apareceu como combinado, vinha linda o que era fácil, fomos almoçar a um pequeno restaurante em Belém, foi um almoço de  frases simples, de olhares cúmplices, de toques casuais, de quase promessas, de vontades perceptíveis.

Longos silêncios de olhos nos olhos, de adivinhar pensamentos e de ganhar coragem para, confessarem que tudo tinha mudado nas suas vidas.

Nunca mais se deixaram, ele embebedava-se naqueles olhos amendoados, nos lábios de mel e no sorriso que partia corações, ela bebia as palavras dele, os devaneios, os sonhos e aquele desejo de encontrar o espaço que há tanto tempo procura.

Estavam, verdadeiramente, apaixonados.

*****

São 6 horas e 50 minutos, de uma manhã de Primavera, o aeroporto de Lisboa regurgita de pessoas que andam de um lado para o outro, malas que se arrastam, despedidas em olhos vítreos por lágrimas contidas.

O altifalante dá os últimos avisos:

-Ultimo chamada para os senhores passageiros do voo, 127542 da TAP, com destino a Boston , é favor dirigirem-se à porta de embarque  número 26.

Esmeralda e Rodrigo despediram-se, mais uma vez, da família e encaminharam-se para o voo.

Iam procurar, longe, o que o seu país lhe tinha negado.






21 comentários:

✿ chica disse...

Lindo e consegues me fazer ler sem deixar de ficar presa às palavras, desejando que o fim não chegue. E os finais, maravilhosos sempe. Te ler é muito legal! Gosto! abração,chica e tantos tem esse mesmo final dos dois, sair de seus países em busca de algo que ali não puderam ter. abração,chica

Magia da Inês disse...

¸.•°♪♬♫º°

Belo relato que prende atenção.

❥ Boa semana!
Beijinhos.♩♫♬°º•.¸
Brasil.°º✿

quem és, que fazes aqui? disse...


Assim é, Manuel. Este país exila os jovens, mata os sonhos e sepulta os que ficam.

Beijo

Laura

JP disse...

Gostei como sempre deste gosto ou ocupação de escrever.

Gostei dos amores de Rodrigo e da Esmeralda. Na busca dos seus sonhos...como muitos hoje em dia que têm de deixar a sua terra para os encontrar.

Abraço

Flor de Lótus disse...

Bom dia,Manoel!Lindo conto tão bom te ler, ainda mais quando é um conto de amor que parece andar tão raro hoje em dia, ou eu que não tenho procurado nos lugares certos.
Um ótimo domingo!Beijos

Rita disse...

Que bom poder voltar as visitas de vcs, hj
meu dia foi melhor,
Vim deixar um abraço de agradecimento por todo
carinho que vc tem comigo, muito obrigado pelas
palavras que são deixadas na minha pagina
Que Deus abençoe ricamente sua vida, e amigos eu guardo no coração
Abraços de sempre.....Bjussssss

└──●► *Rita!!

Rita disse...

Que bom poder voltar as visitas de vcs, hj
meu dia foi melhor,
Vim deixar um abraço de agradecimento por todo
carinho que vc tem comigo, muito obrigado pelas
palavras que são deixadas na minha pagina
Que Deus abençoe ricamente sua vida, e amigos eu guardo no coração
Abraços de sempre.....Bjussssss

└──●► *Rita!!

rosa-branca disse...

Olá amigo Manuel, tantas Gemeraldas e tantos Rodrigos estão a sair do país por não terem condições de trabalho. O que estão a fazer aos nossos jovens? Longe da família de tudo e por vezes sozinhos. Lindo este seu conto em que o amor venceu. Adorei meu amigo. Beijos com carinho

Sónia DaVeiga disse...

A mudança faz-se mais facilmente a dois! :-)

Beijinhos e boa semana!

© Piedade Araújo Sol disse...

para Boston...
tão longe!
e quantas lágrimas deixaram neste País!
quantas ainda virão?!
um texto que prende a atenção do principio até ao fim.
muito jeito para narrativa.
gosto muito de o ler Manel.
uma boa semana.
beijo

:)

São disse...

Pelo menos, a estória tem um final sentimentalmente feliz.

Quando nos faz entrar no aeroporto lembrei-me de Jacques Brel.

Bons sonhos para si e seu cunhado

O tempo das maçãs disse...

Que lindo conto, Manuel.O amor, apesar de tudo, resiste firme e forte.

Beijinho *_*

Ps: Fiquei pensando no pequeno almoço.Não sei o que é...

Palavras disse...

Olá meu caro,

é sempre muito bom te ler! suas histórias tem sabor de "casos mineiros". Parece até que você vive aqui or essas beiradas!!! rsrs

Grande abraço

Leila Rodrigues

Janita disse...

Fiquei com uma dúvida, Manuel!
A bela Esmeralda que abalou com o Rodrigo, rumo a um futuro melhor, é a mesma gaita que nos descreve no início, como a branca de neve e tão bela como um nascer de Sol radioso?
Ou há duas, uma para cada um?

Hoje, fiquei a sentir-me uma espécie de patinho feio, com tanta beleza feminina aqui descrita.:(

Abraço! :))

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Uma história de vida como muitas outras nesta actualidade bem portuguesa.
Gostei da narrativa - erótica, sensual. Poderia ter outro final, mas este está actualizado e transporta-nos a vidas iguais.
Estes personagens poderão ser os nossos filhos ou netos.
Um abraço e votos de uma boa semana.

Mary disse...

Passando para te desejar uma excelente noite!


Bjo

Mary disse...

Passando para te desejar uma excelente noite!


Bjo

Evanir disse...

Em primeiro lugar não vou mais pedir
desculpas por me ausentar .
Por ser os mesmos motivos sempre só
posso agradecer a benção te poder estar aqui hoje.
A saudade é eterna companheira daqueles ,
que ama amigas e amigos de verdade por isso estou aqui.
Na medida do possível estarei colocando em sala
mimos de Natal enquanto puder estarei fazendo
é importante uma amizade deixar recordações.
E lindo a troca de carinhos de uma amizade imorredoura .
O maior presente , que posso oferecer é minha amizade
meu carinho respeitando sempre o limite de cada um
de nós.
Um abraço carinhoso ,Evanir.

LUZ disse...

Olá, Manuel!

Uma história muito bonita e apaixonante.

E fizeram eles muito bem. O mundo espera-os.

Boa semana, que está quase a findar.

Evanir disse...

É preciso reviver o sonho
e a certeza de que tudo vai mudar.
É necessário abrir os olhos e perceber
que as coisas boas estão dentro de nós
onde os sentimentos não precisam de
motivos nem razão para amar nossos irmãos.
O importante é aproveitar o momento
e aprender o quanto a vida é breve
para deixar em brancas nuvens tudo ,
que poderemos ser
útil e amorosos nessa vida.
Se não houve amor ,que as verdadeiras amizades
continuem eternas e tenham sempre um lugar
especial fazendo morada em nossos corações.
Que eu seja para sempre nem ,
que seja uma lembrança porém te peço
nunca esqueça da nossa linda amizade .
Eu deixei na postagem um mimo ,
que é para vc uma lembrança minha.
Se aceitar ficarei grata e feliz.
Se for de outra forma ,
que prevaleça para sempre nossa amizade.
Um feliz e abençoado final de semana.
Carinhosamente deixo beijos no seu doce coração.
Evanir.Amigo acredite eu também estava com saudades de você.

Bloguinho da Zizi disse...

Lindo!
Apaixonante!
E assim tantos relacionamentos começam.
Viajei no teu conto.
Gratidão!