domingo, 12 de janeiro de 2014

A aposta








Quando nasceu, a parteira, limpou a testa e exclamou:

-A rapariga é forte como um toiro!

Podia parecer uma profecia, mas não, a recém-nascida era mesmo poderosa.

E assim cresceu, nunca conheceu doenças, na escola tomou as rédeas e passou a liderar tudo e todos. Os mais fracos procuravam a sua companhia, que lhes garantia estarem protegidos.

Aos oito anos já se batia, ao almoço, com uma malga de sopa de cavalo cansado, aos 12 pegava no machado e, com mestria, ia lascando um tronco para tirar as achas para a fogueira.

Nasceu forte e assim continuou, era uma mulher interessante, mas impunha um certo respeito e os rapazes só se aproximavam, mas tinham receio, pois quem a levasse sabia, como dizia mestre Malaquias, que precisava ter tomates para domar potra tão difícil.

Nunca se preocupou com isso, saía de manhã, com o pai e a enxada, que nas suas mãos, ia sulcando a terra para as sementes que o progenitor ia, atrás, espalhando.

Parecia um homem, mangas arregaçadas, limpava a testa com o braço, cuspia na mãos e o aço entrava na terra que, a pouco-e-pouco, ficava arroteada e pronta para receber o grão que era o sustento da família.

Ao fim do dia, depois da janta ia, com os restantes homens, beber uma malga de vinho na tasca do Ti Emílio.

Gracejava com todos e nenhum se atrevia a um braço de ferro, tinham receio de ficar envergonhados.

O dono da taberna, Ti Emílio como todos o tratavam, enquanto com um pano, encardido,  ia limpando o tosco balcão perguntou:

-Então vossemecês já ouviram falar dum lobisomem, que dizem, aparece à meia-noite no cemitério?

Alguns sentiram uma espécie de arrepio, um frio na coluna e os pelos eriçavam, mas não davam parte fraca. O Esteves bradou alto e bom som:

-Quem acredita nessas coisas? São mesmo uns cagarolas!

-Então, perguntou o Ti Emílio, és homem para ir sozinho e depois contas à gente como é?

Esteves ficou um pouco enrascado, não estava à espera dessa, mas ainda resmungou:

-Até ia se tivesse vagar, mas tenho umas coisas a tratar!

Foi uma risada geral e em coro disseram:

-Pois, bela desculpa! Então não tens vagar?

Ti Emílio estava com disposição para a brincadeira e voltou à carga:

-Dou 100 mil réis a quem for e mostrar que os tem no sítio!

-Alto ai, falou Mercedes, eu não tenho nada disso, mas por 150 mil réis vou sem ter medo!

-Calma, disse Isidoro, não temos homem  mas temos mulher, Ti Emílio dá os 100 eu dou os 50 e está feito.

-Então, confirmou Mercedes, preparem o dinheirinho que eu vou e volto num ai!

******

O cemitério ficava, mais ou menos, a um quilómetro da saída do povoado. Era pequeno, com uma vetusta capela em granito, no topo de uma pequena elevação, o único acesso era um caminho em saibro que ondulava entre urzes e silvas.

De noite, o local, era um pouco tenebroso e poucos, ou nenhum, se atrevia a deambular por esses sítios.

*****

Mercedes não se intimidou, colocou o xaile nos ombros e meteu as tamancas ao caminho.
O saibro saltava com ruído perante os passos apressados, mas, a rapariga, tinha fôlego suficiente, por isso ia apressando o andamento.

No fundo, lá no íntimo, estava arrependida desta ousadia, só os 150 mil réis a faziam esquecer a parvoíce em que se tinha metido.

Mas não era mulher de falhar e seguiu em frente, no alto já avistava os contornos da capela que, recortada na luz baça do luar, tinha um aspecto um pouco sinistro.

Estugou os passos, chegou ao terreiro, olhou pelo portão mas um
 fogo-fátuo brilhou.
Mercedes olhou estarrecida, mas quando se voltou a ponta do xaile ficou presa na grade do portão.

Foi o pânico total, largou numa correria, só parou no fim do carreiro, já na entrada do povoado, com os bofes a saltarem pela boca.

Recuperou antes de entrar na tasca, depois como se nada tivesse passado, em alto e bom som, reclamou o prémio.

Ti Emílio estava surpreso com a ousadia. Tinha que largar o dinheirinho. Raio da rapariga era mesmo tesa!

-Mas ouve lá cachopa, perguntou Isidoro, quem nos garante que fostes mesmo ao cemitério?

Mercedes nem alterou a voz, olhou os homens de frente e com a maior calma possível atirou:

-Fui ao cemitério e voltava se fosse necessário, mas já sabia que na altura de pagar se iam cortar, por isso e por causa das dúvidas deixei o xaile pendurado no portão.

Vá! Podem ir ver se tiverem coragem!

Agora passem para cá o dinheiro, cambada de covardolas!






 

14 comentários:

rosa-branca disse...

Eheheh...mulher de armas. Assim é que é. Maravilhoso este conto meu amigo e com um final hilariante. Beijos com carinho

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Surpresa de história, mas ainda assim sabemos da coragem determinada de certas damas.

Foi e voltou e agora os homens que lhe vão buscar o xaile...

✿ chica disse...

rssssssssssssssss.Eta Mercedes valente e sabida...Soube bem se aproveitar...Adorei! abração praiano,chica

Bloguinho da Zizi disse...

Muita coragem!
Mas fez muito mais do que qualquer um dos homens.
Como sempre, teus contos nos levam à cena, só que eu fiquei no portão à espera dela. rsrsrs
Boa semana Manuel!
Beijinhos

JP disse...

Valente aquela Mercedes...também alimentada a sopas de cavalo cansado para que precisava ela do xaile...))

Belo conto, para variar :)

Abraço

LUZ disse...

Olá, Manuel!

Esta, melhor que "Mercedes Benz".

As mulheres, são, geralmente muito espertas, mesmo mentindo.

Boa semana.

© Piedade Araújo Sol disse...

gostei, pela surpresa do final, já valeu a pena ter lido.

:)

São disse...

rrrsssss

Grande Mercedes!!

Saudações

Maria Luisa Adães disse...

Olá Manuel

Mas que mulher atrevida e esperta!

Caramba
as mulheres fortes são um prodigio
e nào têm medo de nada e mentirosas como ela,
as fracas se parecem aos homens
que só recuam nos seus feitos
por medo de quem é forte!

O texto é muito interessante e a linguagem do mesmo, regionalista,
como gosto de encontrar por aqui e por ali e por isso, aqui caminho
e me junto a ti!

Com ternura,

Maria Luísa

Pérola disse...

Adoro suas histórias!
Sempre sou surpreendida com sua criatividade na hora de escrevê-las.
Você escreve e a gente vai imaginando a cena, como num filme que nos é contado. Gostei da coragem da Mercedes e fico aqui pensando o quanto um fogo fátuo deve assustar mesmo. haha'
Beijos!

Flor de Lótus disse...

Oi,Manoel!Tu e teus contos surpreendentes. Tem uma música que diz "sou mais macho que muito homem" e Acho que é o caso da tua personagem ela foi lá e deixou os homens todos incrédulos.
Beijos

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia Amigo
Agradeço a visita e aqui acrescento que ainda hoje aparecem mulheres guerreiras. Com bigodes, dizia o tio Joaquim. Capazes de lutar e vencer na vida envergonhando muitos que esperam sentados que as coisas se resolvam ou que por artes mágicas caiam do céu.

Rita disse...

Eita mulher forte heim, gostei da história cheia de medo rsrsrsr
Mas quem quiser ir la busca ro xale dela pode ir né ........
Maravilhoso

Bom final de semana!

Abraços de sempre


└──●► *Rita!!

O tempo das maçãs disse...

rsrs Muito esperta a Mercedes, Manuel. Nem entrou no cemitério e ainda ficou com o prêmio.

Como sempre uma história deliciosa.

Beijinho.