sexta-feira, 6 de junho de 2014

A longa Espera







Faz hoje um ano, parece que o foi ontem, o tempo passa tão depressa que quando tentamos recuperar os pensamentos já se perderam na memória do tempo.
Mas há coisas que ficam, não se perdem, são absorvidas de tal forma que passam a fazer parte do nosso quotidiano.

Como ia dizendo, faz hoje um ano, e recordo bem, era uma sexta-feira soalheira, um pouco quente e eu estava recostado no banco do jardim, um pouco contemplativo sobre as águas do tempo, que em leves ondulares se iam diluindo em espuma nas paredes do cais.

As gaivotas, um pouco atrevidas, descansavam nas amuradas, indiferentes às correrias da garotada.

Foi quase por acaso mas, reparei nela, talvez pela forma, um pouco excêntrica, como estava vestida. Na cabeça um enorme chapéu, de palha, amarelo, contrastava com duas enormes flores vermelhas.
Vestia uma espécie de túnica, da cor das flores, e nos olhos uns enormes óculos escuros, com umas armações de florinhas douradas.

Era um pouco surreal, parecia uma personagem tirada da Alice no País das Maravilhas, mas fascinou-me a figura e, embora disfarçando atraia-me o olhar. Tentei encobrir, mas ela reparou, e olhando com um sorriso aberto cumprimentou-me:

-Boa tarde cavalheiro! Já me conhece? Deve conhecer pois eu estou aqui todos os dias, só nos dias de chuva me recolho, ali, na paragem do autocarro, tem que ser!

Fiquei  intrigado, isto tem que encerrar, decerto, uma história que a minha curiosidade queria conhecer.

Retribui o sorriso e fiquei sem saber, bem, o que dizer mas arrisquei:

-Não me recordo de já a ter visto, é raro vir para estes lados, pois se viesse, decerto, já tinha reparado numa senhora tão simpática!

-Oh que gentil! Venho sempre, faltei uns dias porque a saúde me deixou, mas estou de volta! Só espero que ele não tenha chegado nos dias em que faltei, mas tenho a certeza que não, ainda se deve recordar da morada.

Tirou os óculos, por um momento, devia ter sido uma mulher muito interessante mas, agora, um emaranhado de rugas e vincos mostravam os estragos que os anos fizeram. Voltou a colocá-los e fitou o horizonte, na procura de algo que apenas ela sabia.

-Mas, arrisquei, quem espera tão devotadamente?

-Desculpe não lhe tinha dito, espero o meu Ernesto! É o meu marido, deve chegar um dia destes e eu tenho que estar aqui, para o levar para casa!

-Desculpe a minha ignorância, repliquei, mas ele quando vier deve avisar, não é?

-Tenho receio que não, ele saiu muito zangado, e com razão, eu era uma parva com os ciúmes, ele é muito bonito e as mulheres não o largam. Nesse dia discutimos e ele saiu de casa, para embarcar, era comissário num barco, e nunca mais voltou.

-Há quantos dias,  perguntei?

-Dias não sei, não os contei, mas fez 12 anos em Maio.

Fiquei um pouco perturbado. Doze anos? É estranho é muito tempo!

-Mas Dona, ia eu dizer.

-Rosete, sou Rosete, completou.

-Mas dona Rosete o que lhe disseram na companhia, a que pertence o barco?

-Foram simpáticos, muito simpáticos mas devem ter pensado que eu era maluquinha. Na marinha não tinham, nem nunca tiveram um comissário com o nome do meu marido.
Eu sei que não quiseram dizer, deve ter ido nalguma missão secreta, uma espécie de espião, é o que é!

-Oiça lá, perguntei, como era mesmo o nome do seu marido? Eu fui da marinha, estou reformado mas lembro nome de muitos colegas.

-Todos o conheciam, era o comissário Ernesto Vieira da Silva Pilrito.

-Pilrito? Conheci um, mas não é e, acho que, nunca foi da marinha!

-Que pena, disse ela, quando o vi a si até pensei que poderia ser o meu Ernesto, os mesmos olhos, o queixo voluntarioso, o nariz aquilino, tantas semelhanças mas, já vi que não é, o Ernesto tem um cabelo preto, bem cheio e o seu é branco e já um pouco calvo.

Que pena!


Mas gostei de o conhecer é simpático como o meu Ernesto.

                ********

Pobre senhora, pensei, à espera do nada, tal como eu que voltei, da guerra, e não sei quem sou.

Amnésia, dizem, eles!

Se calhar até me chamo Ernesto. 
Mas não! 
Não me lembro da senhora!





14 comentários:

Palavras disse...

A espera é filha do amor, sobrinha da paixão e terna namorada da solidão...
Fiquei aqui imaginando um final feliz para os dois...

Belo texto meu caro amigo!!!

Grande abraço

Leila

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Fez-me lembrar daquele anuncio com uma linda senhora vestida de amarelão.

«Ambrósio...apetece-me...algo...»

Para a próxima vez deixa de ser tantã e por simpatia transforma-te o Ernesto Pilrito

✿ chica disse...

Como sempre, só poso te aplaudir! Vale cada parágrafo de leitura aqui! abraços,chica

O tempo das maçãs disse...

Um conto muito rico, Manuel, cujo personagens circulam amorosamente entre a realidade e o sonho.

Adorei, querido.

Beijinho.

Magia da Inês disse...

°❤❤彡º°。

Muito lindo! Mas, muito mais triste do que lindo!

Bom fim de semana!
Beijinhos.

✿✿° ·.

dilita disse...

Olá Manuel!
Parecia que estava a assistir ao
vivo, à cena descrita neste texto.
O Manuel tem esse predicado na forma como escreve.
Gostei, mas é tão triste, e como parece real, maior é a evidência. Mas também penso que tinha de ser assim, pois se a Sra. estava tão baralhada; não dava para fim feliz...
Abraços, e boa semana.
E mais postagens. Aguardo.
Dilita

SOL da Esteva disse...

Adorava saber escrever do modo que o fazes!
Admiro a imaginação concorrente da a surpresa.
Como, também, vim da Guerra...
Quem sabe?
Parabéns, Manuel.



Abraços


SOL

Rita Sperchi disse...

Lindo e triste

Mas quem serão Ernesto??

Ficou na saudade

Bom jogo
Bom dia dos namorados
Bjusss

└──●► *Rita!!

© Piedade Araújo Sol disse...

muito bom!

gostei!

:)

São disse...

Se a senhora era simpática , até poderia dizer que uma vez encontrara o marido dela ...há muitossss anos atrás

Assim poderiam iniciar uma agradável relação para ambos,

Tudo de bom

Bloguinho da Zizi disse...

De volta caro Amigo!
E sempre uma surpresa no final das tuas histórias.
Assim é a vida, cheia de desencontros....

Abraços e beijinhos

Magia da Inês disse...

°º。✿✿彡
°º。✿
Bom fim de semana!
Beijinhos do Brasil.✿º°。

Nita Oliveira disse...

Gostei de ter passado por aqui. Vou ficar.
Beijo.
Nita

SOL da Esteva disse...

"...arrisquei, quem espera tão devotadamente?"
Eu!
Quem sou eu para não arriscar?
Volto quando o destino deixar.

Abraços


SOL