terça-feira, 15 de julho de 2014

Pergaminhos







Já confunde a idade, pois os anos passados têm-lhe desgastado o corpo e a memória.

Olhos fundos e encovados têm um brilho de memórias, encerradas, num cérebro gasto pelos anos decorridos.

Na cadeira do lar, olha um infinito de reminiscência e recordações e sorri, com um sorriso desdentado.

Olha em volta e fita um longínquo horizonte, de lembranças, que o tempo vai apagando. As mãos, pergaminhos de seda, entrelaçam-se em gestos delicados.

Fala, com voz suave e pausada, de coisas da vida, coisas de um passado, distante, que guarda e que vive.

Esquece o momento, baralha as refeições, não sabe o agora, mas tem presente um tempo afastado, de recordações, que baralha ao sabor das suas fantasias.

Sente-se como, quando a mãe lhe arranjava as tranças, e o pai, pela mão, a levava a ver o circo montado no Largo da Igreja.

Sabia que era a rapariga mais bonita nos bailes da aldeia.

Lembra o dia do casamento, brilhando nova, num velho vestido de noiva que já fora da mãe.

Lembra os momentos em que os filhos nasceram, como cresceram e como um dia abalaram.

Tem, no pensamento, as desventuras de uma vida difícil, amargurada mas cheia de recordações, que alimentam uma velhice que se vai diluindo nos intermináveis dias de um lar.

Foi uma princesa, quiçá uma rainha.

Teve brilho nos olhos e na pele, rosada, a maciez do pêssego.

Foi invejada por muitas mulheres, muitos homens a olharam com admiração.

Agora, como vela bruxuleante, vai-se apagando lentamente, dia a dia.

Na boca, desdentada, o sorriso velho, e apagado, vai iluminando o que resta de uma vida longa e desgastada. 

Mas sorri, sorri sempre como se o amanhã fosse eterno.


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20 comentários:

Carmem Grinheiro disse...

Manuel, este seu texto, além de extraordinariamente bem delineado, dá-nos exatamente a realidade duma vida, que já indo longa, e perdida no presente, ainda mantém o sorriso e as lembranças do passado, porque é o que lhe vale a pena recordar, porque aí foi feliz.
A vida/as pessoas são cruéis para o idoso que já não tem sua própria autonomia.
Este tema, a mim, incomoda, aflige profundamente.
Abço amigo

Janita disse...

Gostei, Manuel, muito!

Narrativa bem delineada de uma vida que poderá ser a de qualquer um/a de nós...um dia!
Conservar o sorriso, numa boca já quase sem vida é o mesmo que manter a lucidez e a vontade de continuar a viver.
Gostei da denominação que deu às mãos onde a idade não pode ser disfarçada: Pergaminhos, que contam a história, de uma vida já vivida.

Um abraço.

Janita

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Um caso para pensar...
Estamos todos a caminho...
As memórias fazem-nos fintas e aqueles a quem nos demos fazem as suas vidas. Lentamente estamos completamente sós. Até os olhos ficam mais fundos como que a tentar lobrigar uma réstia de felicidade.

Cuidemos sempre dos nossos neurónios para que o alemão não nos roube em dívida e ainda nos saque em juros

✿ chica disse...

Saio daqui pensando na vida... Lindo e teu modo de escrever nos encanta sempre! abração,chica

Bloguinho da Zizi disse...

Caro Manuel
Venho agradecer seu carinho lá no Bloguinho. Sou grata!
Lendo este teu conto, minha memória foi até a minha avozinha. Só a vi duas vezes em toda a vida. E as mãos dela eram exatamente assim pergaminhos de seda.
Tinha o olhar longínquo e uma serenidade que me deixava a pensar onde ela estaria naquele momento. Hoje sei que era no passado recordando os tempos que viveu.

Sempre bom estar por aqui.
Meu carinho e meu beijinho

SOL da Esteva disse...

Meu Caro Manuel

Passo a passo, delineaste o caminho certo que cada um vai, ou irá, trilhar. Só não estou seguro que todos, e cada um, tenham a "Graça" de manter o sorriso até ao limite.
Fico-me a meditar como será!...
Como sempre, uma Crónica magnífica.


Abraços


SOL

rosa-branca disse...

Amigo Manuel, esta é a grande realidade do presente. Já dizia a minha avó que uma mãe é para cem filhos mas cem filhos não são para uma mãe. Ás vezes fico a pensar na vida. Eu não tive mãe, andei de galho em galho, corri oito casas para me criar, a minha madrasta não me quis e agora tenho-a aqui em casa com 86 anos. Estou zangada e muito com a vida...e ás vezes com a caneta. Acho que vou parar de escrever. Adorei a sua história. Beijos com carinho

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Alcançar a fase do "pergaminho" é, de certa forma, nostálgico mas, parece que todos querem atingi-la...Lembro-me da minha avososinha, eu menina e ela numa rede, a se embalar e a falar de pessoas da família, que não eu não conhecera, e a quem ela se referia como se viva estivessem. Seu texto,Manuel, retrata muito bem a parte da vida que todos, ou quase todos, gostariam de alcançar...(de preferência lúcidos)...(?)...

Mirtes Stolze. disse...

Bom dia Emanuel.
Escreve com precisão o que é a velhice, vejo muitas pessoas com medo dela, algumas ate desejando não ficar velhas, isso na minha família, e eu desejando ficar velhinha rsrs, assim é a vida.Linda postagem, não consigo entender como muitos abandonam os seus pais, acho que a velhice é uma vitoria, e quem chega la com gratidão e um sorriso no rosto é uma vencedora[o] perdi meus pais com mais de 70 anos , ambos com lucidez e muita alegria, cada palavra dita por eles ate hoje é o meu guia, felizes daqueles que gravam na mente as orientações de seus pais, serão pessoas estáveis e felizes independente das circunstancias.
Uma feliz quinta´feira.
Abraços.

São disse...

Quando se conserva a memória e a independ~encia é muito bom, neste momento estou a acompanhar o drama de uma amigo cuja mãe tema Alzeihmer e se está degradando irremediavelmente a seus olhos.

Que DEus nos poupe a tal sofrimento (próprio e alheio)!

Bom dia :)

© Piedade Araújo Sol disse...

retratos de vida.

gostei do seu texto que com uma leveza tal esconde uma realidade por vezes bem violenta.

mas, o seu texto acaba muito bem, com um sorriso nos olhos do personagem.

gosto muito da sua maneira de escrever.

um beijo comovido.

:)

Magia da Inês disse...

✿✿º°。
Enorme sensibilidade... lindo... você sempre me surpreende com seus textos.
Bom domingo!
º°。♡♡彡
Boa de semana!
Beijinhos.
♪♬♫º°

Flor de Lótus disse...

Bom dia,Manoel!hoje aqui no Brasil comemora-se o dia do amigo e eu não poderia deixar de passar aqui e dar-lhe um abraço, pois mesmo separados pelo oceano somos amigos.
Belo texto a vida se esvai e não nos damos conta cada segundo que passa é um segundo menos de vida,mas que bom que apesar de ela já estar mais pra lá do que pra cá não perde o sorriso e a alegria de viver.
Beijoss

Evanir disse...

Amigos (as)guardo no fundo do coração.
Num cantinho bem especial.Nesse dia do amigo.
Sinta - se abraçado (da)por mim.
Eu ainda não consegui decifrar..
Porque pessoas que amamos vão embora
sem ser possível dete-las.
E também não conseguimos
do nosso coração.
Meu abraço nesse dia e por todos os outros dias
da minha vida.
Fique com Deus.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
Amigos Para Sempre.
Evanir.

Mirtes Stolze. disse...

Boa tarde Manuel.
No comentário anterior errei e coloque Emanuel, me desculpa, mas sabia que era você rsrs, só ao escrever fiz errado.
Obrigada pelo carinho, as suas palavras tocaram o meu coração.
Um feliz dia do amigo.
Um abraço com carinho.

Vanuza Pantaleão disse...

A eternidade está no amanhã, vamos sorrir...abraços!

Cadinho RoCo disse...

Mais vale a vida m sorriso do que em lamento.
Cadinho RoCo

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Meu querido amigo

Um texto que nos leva a pensar em nós. Um caminho que nos espera a todos.
Um texto emocionante.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Rita Sperchi disse...

Vendo essa flor tão murcha, lembrei de tantas coisas, e quando vc disse Sorri sorri sempre que o amanhã é eterno me deixou emocionada....adorei

Bom final de semana de frio!!

╭✿¸•⊰.•*ღ ღ¸╭•⊰✿Rita!!!!!!

Manuel disse...

Agradeço a todos tão lindas palavras.