terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Desenraizado













Hoje vou deixar um pequeno conto com uma final, quase, feliz.




Nem sempre pensou desta maneira, tinha até as ideias um pouco destorcidas, quase, retrogradas, pareciam doutras eras. Foi a educação que recebeu, muito conservadora arreigada a conceitos puritanos e cheia de  parece mal, tudo era pecado. Se olhava para as pernas de uma rapariga era-lhe logo prometida uma passagem para o inferno. Só muito mais tarde descobriu que o enganavam pois as pernas de uma rapariga conduziam, precisamente, ao céu.

Cresceu assim, numa espécie de medo, na promessa de um inferno, ou dum purgatório, se os pecados fossem menores.
Foi crescendo num sentimento de revolta, azedo e com dificuldade de se socializar.

Os rapazes nunca o convidavam para os jogos de futebol, era um coxo como diziam.
Ele bem tentava apanhar a bola e fazer uma finta mas não saia nada. Ficava no jogo mas a redondinha nunca mais lhe passava por perto, evitavam-no. Jogava sempre, a bola era dele, até ao dia em que, o Inácio, apareceu com uma nova, de couro ensebado, linda.
Nunca mais teve lugar nas equipas!

As raparigas eram esquisitas, cochichavam umas com as outras, risinhos parvos, passavam os recreios a mandar mensagens nos telemóveis, depois mostravam às amigas as respostas em frases tão encolhidas e metaplasmos que só elas, mesmo, conseguiam entender.

Olhavam para os rapazes mais excêntricos, as tatuagens, pircings e penteados malucos eram uma espécie de atracção que lhe davam o primado entre todos.

Ele, ainda tentou alguns avanços, mas a sorte nunca lhe sorriu.
Não percebia porque, era o mais alto e o mais forte, os outros pouco lhe ligavam mas tinham um respeito muito especial pois, como diziam, tinha um grande caparro.

Mas não estava muito preocupado, a sua vocação era ser artista, cantor, actor de novelas ou até, quem sabe, galã de filmes românticos.

Já tinha pedido à mãe para o inscrever numa escola de representação, ou ir para o Conservatório mas estava difícil, a velha, fazia uma cara mesmo feia, o que lhe era fácil, mas ele não ia desistir, não queria ser advogado como o pai.

Hoje a mãe, Senhora dona Isaura, como gostava de ser tratada estava, para variar, com um ar um pouco mais bem-disposto e o Afonso aproveitou:

-Mamã, eu quando acabar o liceu quero ir para o conservatório!

A senhora dona Isaura, franziu  o sobrolho de forma um pouco característica, mirou o filho, admirada, antes de responder:

-Mas Afonsinho, como quer o menino ir para o conservatório se apenas tem jeito para tocar no rabo das empregadas? Não diga que não, que eu já o vi a acariciar o traseiro da Rosete!

Afonso corou até as orelhas, era verdade a Rosete gostava e não se importava, agora a velha ter visto não estava, propriamente, nos seus desejos. Agarrou coragem, fingiu não perceber, e voltou à carga:

-Não é nada disso mamã! Eu não quero aprender musica, quero estudar representação para ser actor famoso, assim como Sir Laurence Olivier ou, mesmo, Sir Donald Sinden.

A velha soltou, talvez pela primeira vez na vida, uma sonora gargalhada, tão estridente que as empregadas vieram, muita à socapa, espreitar à porta da sala.

Voltou e empertigar-se antes de responder:

-O menino não quer ser como nenhum desses exemplos que falou, quer ser desses, das telenovelas, para se enrolar nas sem vergonhices de se lamberem em beijos e delirarem em apalpões, o menino sonha com essas coisas pecaminosas que o levam direitinho ao inferno.
-Mas não se importa, pois, enquanto cá andar vai-se consolando com os vícios desses pobretanas.
-Não! Um Castelo Branco nunca irá manchar a família nessas tristezas.
-Vá continue no seu tocar no rabo da Rosete, que eu finjo não ver e, ela parece gostar.
Por hoje chega de palermices!

Afonso ouviu sem mostrar qualquer  mudança e, quando retorquiu, não se lhe notou nenhuma emoção:

-Sabe, senhora minha mãe, que é verdade que eu brinco inocentemente com a Rosete. Sim, faço isso! Mas será que quando o seu motorista a leva para os estábulos a apalpa, de alto a baixo, lhe beija o pescoço e depois se embrulha, com a senhora na palha, tem a mesma inocência que o meu toque na Rosete?
-Não me diga que não, porque eu já vi!

Dona Isaura teve um chilique, abriu os olhos desmesuradamente, esticou as pernas em pontapés no ar e caiu, redonda, num bem dissimulado desmaio.

Acudiu todo o pessoal, dona Emília, a cozinheira, foi rápida a fazer um chá de camomila para lhe acalmar os nervos.

Afonso saiu de mansinho e foi refugiar-se no sossego do seu quarto. Ficou à espera que o mundo desabasse.

********

O ambiente, na casa, mudou de forma radical.
O pai há muito que era uma figura de corpo presente, não se dava por ele. Vivia num mundo muito próprio, estava com as pessoas mas não as conhecia.

Tudo começou em Maio, há três anos. Foi com a filha, Mafalda, a um Centro Comercial, no regresso, um cão, atravessou-se na estrada, tentou travar mas vinha com alguma velocidade e, o carro, só parou com estrondo contra um posto de betão.

Quando os desencarceraram estava uma jovem, acabada de fazer 18 anos, já cadáver, e o pai com lesões que deixavam algumas reservas.

Foram oito meses de hospital, primeiro em coma induzida depois, a pouco e pouco, foi abrindo os olhos para a vida embora, o cérebro, tenha continuado adormecido num buraco negro.

Quando voltou para casa era um estranho, não reconhecia nada nem ninguém, deambulava como um estranho nos enormes corredores, sentava-se num banco no jardim e, levava as tardes, a olhar as mãos como se elas fossem um livro.

Um dia o Afonso sentou-se ao seu lado, segurou-lhe as mãos e segredou-lhe:

-Paizinho, eu, amo-te muito!

Olhou o filho e acendeu um leve sorriso, depois, voltou a contemplar as mãos como se nada se tivesse passado.

Por vezes dava um assomo, de conhecimento, e entrava no quarto que fora da Mafalda, olhava como se estivesse a ver algo que só ele conseguia, sorria para as bonecas que continuavam colorindo a cama, depois voltava a contemplar, as mãos, e voltava tão calado como tinha entrado.

****

Afonso, desde que confrontou a mãe, passou a fazer parte da plebe, que a Dona Isaura tão abominava, deixou de ter  direito a refeições na sala, passou a comer na cozinha, com os empregados. A sala era para os senhores, os empregados e os traidores, como dizia Dona Inácia, já tinham sorte em ter refeições.

Afonso, não ficou incomodada com isso, era bem tratado e tinha companhia, deixou a presença do pai, que amava muito, e do nariz empinado da mãe, sempre mal disposta e recriminativa.

Nunca foi um rapaz feliz mas, passava bem pela vida, não lhe faltava nada, só os afectos mas a isso já se tinha habituado.

Agora estava como um estranho na própria casa, o pai deslizava pelas memórias apagadas, passava por ele e nem sequer se apercebia, a mãe no alto da sua falsa moralidade, nunca lhe perdoou por ter ficado em vez da irmã. Sim ela achava injusto perder a filha, de que gostava, e ficar com um rapaz de que nem tinha a certeza se era filho do marido.

Afonso, estava triste mas determinado, respeitava a mãe, porque era o dever de filho, mas não gostava dela, nunca sentiu qualquer afecto, mesmo quando muito pequeno já sentia essa espécie de rejeição, não tinha culpa era quase genético, nasceu com ele.

Agora que, a dona Isaura, abriu as hostilidades, do alto do seu falso moralismo, desprezou o filho como se desprezam os sapatos que pensamos nunca mais calçar.

Ia ser difícil, uma luta muito desigual, por um lado uma loba implacável, ávida dum poder quase régio, do outro, um falso cordeiro que se ia camuflando numa ingénua aparência à espera do momento certo.

A Rosete passou a ser a sua guardiã, que o despertou para os prazeres da vida, que ele já imaginava, mas de que agora tinha a certeza, pela grande experiencia, que estava acumulando.

O pior era doença do pai, não sabia bem se era doença!

Se o pai se libertasse daquela, espécie, de hibernação, as coisas seriam diferentes, pois ele era o único que conseguia manter a fera dominada.

O dinheiro, aliás, toda a fortuna era do pai, que além da herança que recebeu dirigia, também, um dos mais importantes escritórios de advogados do país, talvez fosse essa a razão de conseguir liderar e manter a fera no sítio certo.

Agora, a única esperança, era que aquela apatia e alheamento que o tolhia um dia o deixasse voltar à vida.

Amanhã, dia 23, se ainda fosse viva a Mafalda completaria 21 anos, mas o pai, o cão, o poste, o carro e quem nos governa não deixaram.

Tinha muitas saudades e, em silêncio, tinha feito o seu luto. Nunca se manifestou muito, pois, para ele, ela continua viva bem dentro do coração. Muitas vezes, no escuro do seu quarto, sente a sua presença, sabe que vem ver o mano de quem tanto gostava. Ao princípio ficava arrepiado mas agora sente um bem-estar que não sabe explicar, porque compreendeu que é, apenas, o desejo e as saudades que fazem que imagine essa presença.

Sabe, sente, que ela reprova este mau estar entre o irmão e a mãe e, se estivesse cá, já tinha terminado esse mau estar.
Era tão suave e subtil a resolver as pequenas desavenças que, tem a certeza, que está muito triste com tudo isto.

Esta noite sentiu a sua presença, acordou assustado, acendeu a luz mas apenas um suave fragância a Crystal Noir se sentia no ar. Era o perfume que a Mafalda usava.

Tinha a certeza, a irmã havia deixado um sinal, era preciso dar o primeiro passo.

Amanhã, bem cedo, vai colher uma bela rosa amarela, são  dessas que a mãe gosta muito.

Depois? Bem depois, seja o que Deus quiser!

*******

Estão na sala a tomar o pequeno-almoço ao lado, muito aprumada, a Rosete vai servindo, quase adivinhando os desejos.

A mãe, com os dedos esticados, segura uma torrada que, em pequenas dentadas, desaparecia no meio dos lábios que hoje, talvez por respeito, não estavam horrorosamente vermelhos.

Ao lado, o pai, alheio ao que o rodeava ia comendo um prato de cereais.

Entrou na sala, com algum receio, o pai olhou com doçura e a mãe mirou-o com a maior indiferença.

A custo as palavras saíram-lhe:

-Mãe, hoje a nossa Mafalda completaria 21 anos, queria dar-te esta rosa e pedir para perdoares a minha insensatez, ainda não cresci o suficiente para controlar as minhas palavras!


O momento foi muito intenso, Afonso, ficou um pouco sem jeito no meio de um mundo quase irreal.

A mãe, pela primeira vez na vida, levantou-se para o abraçar, borrou um pouco a pintura dos olhos, deve ter vertido alguma lágrima.

Mas o milagre, o verdadeiro, estava para acontecer.

O pai deixou o prato, daquelas papas, e veio juntar-se ao abraço, tinha um brilho diferente nos olhos.

Olhou a mulher, segurou no braço do filho e  com emoção rematou:

-Tens razão Afonso, basta de viver no passado, vamos os três à Igreja!
-Vamos rezar e dizer, à Mafalda, que estamos aqui, unidos e assim vamos continuar, para sempre!


-Vamos voltar à vida por ela e, também, por nós.



11 comentários:

Gracita disse...

O amor é capaz de fazer milagres.
Lindo conto Manuel. E quem sabe depois das pazes ele consiga realizar o sonho tão acalentado? Parabéns pelo belo conto.
Um abraço

São disse...

Gostei muito.

Bom 2015.

Evanir disse...

Ao completar 10 anos de blog
não poderia deixar de agradecer pelo seu carinho amizade,
e companheirismo.
Uma década se passou quantas coisas aconteceram,
quantos momentos vividos de pura emoção.
O meu muito obrigada por fazer
parte dessa década vivida...
Seu carinho é muito importante
que eu possa dar continuidade
para seguir sempre em frente...
um feliz e abençoado final de semana.

Sónia da Veiga disse...

Muito bonito, Manuel! :-)
As rosas amarelas fazem milagres! ;-)
Beijinhos e bom ano! :-D

lidacoelho disse...

Olá Manuel
Estava com saudades daqui.Habituei-me a estas histórias e ao coloridos que lhes emprestas.
Um final feliz numa vida infeliz.
Nada que uma rosa amarela não resolva. Aceita um abraço, mas não te convido para a Igreja. Lá só vai que lá quer ir.

Rita Sperchi disse...

Dizem que rosas amarelas dão sorte
então ta ai, nada de viver enraizado
Ser feliz e ter fé

Abraços de bom final de semana

└──●► *Rita!!

Mirtes Stolze. disse...

Bom dia Manuel.
Muito bom ler as suas historias, que bom que a rosa fez o coraçao amolecer.
Que finalmente eles consiga permanecer na harmonia. Um abençoado final de semana. Beijos.

Magia da Inês disse...

❤ه° ·.

Um final quase feliz, quem sabe se não ficaria feliz um dia!
Parabéns mais uma vez!!!

Bom fim de semana!
Beijinhos.✿ه° ·.
✿✿⊱ه° ·.

Flor de Lótus disse...

Oi,Manuel!Feliz 2015 que seja um ano repleto de alegrias e realizações!!
Belo conto meu caro Manuel infelizmente nem sempre os finais são felizes,mas a gente quase chega lá.
Beijoss

SOL da Esteva disse...

Voltar á vida, reviver o belo e o bom e esquecer os telhados de vidro. Eis o milagre da rosa amarela.
Manuel, sempre precioso no teu contar.
Parabéns.


Abraço



SOL

Vivian disse...

Que belo enredo, meu amigo!
Astúcia e sensibilidade muito bem entrelaçadas!

A falsa moral é algo terrível e infelizmente bem real...Assim como o fanatismo religioso.

Beijos!