domingo, 17 de maio de 2015

Chamamento














Já estive aqui, pensou. Não era muito dado a fixar os lugares, mas este tinha algo que lhe avivava as recordações, era uma espécie de odor que o cérebro guardava num casulo e que estava a libertar para lhe despertar a imaginação.

Sentia no ar memórias, difusas que queria mas tinha dificuldades em descodificar.

O largo tinha lembranças, o velho banco do jardim era diferente, na altura era de madeira pintada de verde e este é de pedra, branca, polida. Os canteiros não são os mesmos, abunda a relva e pequenos arbustos trabalhados, em figuras simétricas, mas na recordação estão presentes renques de amores-perfeitos, sardinheiras, salpicando, de vermelho vivo o verde dos rododendros que, ainda, escondiam os botões rosas prestes a florir.

Tudo tão diferente e, ao mesmo tempo, tão igual ao que resta na memória gasta pelas recordações.

Foi ali, naquele prédio, agora tão diferente! A pintura amarela substitui, os azulejos de flores azuis que naquela época cobriam as paredes. As janelas, de guilhotina, foram trocadas por molduras de alumínio fosco com persianas brancas.
Só a porta se mantem, no mesmo verde-escuro, com molduras de vidro martelado e batentes de punhos fechados.

Não sabe bem o que fez voltar, para estes lados, ao fim de 60 anos, foi um chamamento, uma força interior que o conduziu como, se fosse guiado, por algo muito superior.


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Pois, pensou, Januário. Fora aqui, neste jardim, junto a esta porta verde que faz, hoje, 60 anos conheceu  a Mafalda.

Lembra-se bem quando cruzou aquela porta e os olhos se enfeitiçaram uns pelos outros, foi lindo, mágico e para a vida.

Ela era, como se dizia, criada de servir, ele magala, de infantaria, e com guia de marcha para a guerra colonial.

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No dia em que embarcou, Mafalda estava no cais, chorou como todas as mulheres que viam partir, os maridos, namorados ou os filhos.

Jurou que iria todos dias, à Igreja, acender uma velinha a São Jorge, padroeiro dos soldados, para que trouxesse de volta, são e salvo o seu Januário.

Não se sabe se, São Jorge, ouviu a preces, mas passados 10 meses, de comissão, o jeep onde Januário seguia pisou uma mina, foi pelos ares, o condutor perdeu uma das pernas, mas ele, embora muito mal tratado, salvou a vida.

Foi desmobilizado e pode voltar para os braços da sua amada para num casamento, simples juntarem as suas vidas até que a morte os separe. Como o senhor padre disse.

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Hoje, está aqui, não sabe porque, foi uma força invisível que lhe orientou os passos. Não foi fácil, as pernas já não obedecem, é um velho cajado que o vai amparando.
Mas está onde tudo começou, é como uma homenagem, à Mafalda, que uma doença ruim levou vai fazer um mês.

Está muito cansado, a idade, os ossos, os sentimentos e as emoções são demasiado para as suas, fracas, forças.

Sentou as pernas doridas, no frio da pedra, do único banco vazio, e deixou o cansaço fazer o resto.

Fechou os olhos, sentia o odor dum perfume que bem conhecia, uma música suave que lhe embalava o sono que o estava a invadir.

Sentiu-se levitar, a mão de Mafalda segurava a sua, delicadamente.

Olhou para trás, o seu corpo continuava o sono no banco frio do jardim.

Mas ele subia, subia sempre, embevecido no sorriso, doce, da Mafalda.




17 comentários:

Rita Sperchi disse...

Que lindo meu amigo fiquei emocionada, é assim mesmo o amor sempre prevalece em tudo, e que la no céu ele a sua tão querida Mafalda fiquem juntos na eternidade

Boa tarde de domingo
E um começo de semana de muita paz

└──●► *Rita!!

Gina G disse...

Morreu de uma morte romântica. :)

✿ chica disse...

Lindo e comovente! Sempre maravilhoso te ler! abração, ótima semana e tudo de bom,chica

CÉU disse...

Sessenta nos de lembranças, e boas, como nos diz no seu conto, não se esquecem facilmente. Pobre Januário! Os homens, qdo viúvos, ficam sem eira nem beira, já com as viúvas, as coisas lá se vão recompondo.

Excelente vídeo. Vi o filme, k, se chamava,
creio eu, "Mamma Mia", com a talentosa Merly Streep.
Eu k até não gosto muito de musicais, vibrei, intensamente, com o desempenho dela e de todos os intervenientes.
Estávamos poucos na sala de cinema, foi, por volta das 14h e o pessoal, incluindo eu, estava todo animado e a dançar.

Boa semana.

Um beijinho pra ser pra si.

São disse...

Não gosto nem de musicais nem dos Abba , mas gostei muito deste filme...


Descreveu bem a morte, meu caro


Bons sonhos

Smareis disse...

Olá Manuel, boa noite!

Sorte teve Januário, voltar com vida para os braços da amada, e viver por tanto tempo juntos. Uma linda história de amor. Não precisou ficar muito tempo sozinho, tua amada veio busca-la.
Esse conto fez-me lembrar de meus pais.

Como todos os seus escritos, sempre leitura de primeira qualidade. Um conto excelente e muito bem construído.

O vídeo é excelente!
Essa musica fez muito sucesso na voz do ABBA aqui no Brasil.

Um abraço, um punhado de sorriso, e uma ótima semana!

Gracita disse...

Oi Manuel
Emocionante! Suas palavras tão bem colocadas nos envolve numa leitura prazerosa e ver todo este romantismo na figura de homem apaixonado foi muito tocante. Mas o Januário partiu feliz. Iria encontrar novamente a sua amada
Uma boa semana para você
Um grande abraço

lidacoelho disse...

Bom dia Manuel
Ler-te nestas andanças é mergulhar no mar das nossas recordações.
Também fui à guerra e também trouxe marcas. Danos físicos que nos carregam diariamente.

Depois um acaso nos leva ao encontro de vidas passadas e num sonho acendemos a fogueira onde vivem as chamas da paixão e as melodias do amor.

Bonito.
Um abraço de agradecimento pela tua presença em lidacoelho.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Esses "chamamentos" , me parece, pelo que conheço, são mais comuns para os homens, nos casamentos duradouros. Nisso, eles viram o "sexo frágil" do casal,ficam mais nostálgicos, saudosos, em demasia...A mulher, supera melhor, a solidão da viuvez!Creio que é pela "dependência" do homem, na vida doméstica.Quando o homem sobrevive à mulher, o "chamamento" vem em tempo recorde!
Boa noite!

Helena Medeiros Helena disse...

Meu querido amigo: agora com pouquíssimo tempo para visitar os blogs amigos, como este teu que tanto admiro. Acertaste, é isto mesmo que estás a pensar... uma princesinha irá chegar para completar a minha felicidade, pois ser mãe sempre foi o meu sonho maior. E com tantos encargos para cumprir, falta-me tempo para estas visitas, mesmo assim, dei uma lida nas postagens anteriores, apenas não vou comentá-las uma a uma, mas um elogio não posso deixar de fazer, pois continuas a me encantar com tuas narrativas. Como este conto tão doce, tão lírico, tão romanticamente belo. Sensibilizou-me a forma como trataste o último encontro de um casal que viveu a vida de forma tão bonita, e agora, unidos numa morte suave poderiam continuar a "viver" a beleza desse amor. Uma sensibilidade única que tu tens, meu amigo!
Estou deixando um punhado de sorrisos a brincar entre as estrelas que deixo para enfeitar os teus caminhos.
Com carinho,
Helena

Mary disse...

Um Amor que nem a morte foi capas de vencer!

Lindo, Lindo!


Bjos Manoel!

Maria Luisa Adães disse...

Manuel

Muito lindo o que escreveste

Muito terno, muito doce e tão verdadeiro...

E a parte final
É um encanto maior!

Adorei, amigo, adorei!

Beijo

Maria luísa


SOL da Esteva disse...

O Amor, quando verdadeiro, é eterno e permanente; não é separação material que faz perder a presença do outro Ser Amado.
Este teu Conto, Manuel, é um verdadeiro Poema, assim o saibamos entender,
Parabéns.


Abraços


SOL

Smareis disse...

Tem texto por lá Manuel.
Corrigindo um erro do meu comentário acima.(veio busca-lo).

Ótima semana!
Um abraço!

Blog da Smareis-É só clicar aqui!

CÉU disse...

Obrigada, Manuel. Dancemos, então com a imaginação.

Boa semana!

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Manuel.
Um amor eterno, como nas histórias de conto de fadas. Tão bonito quanto difícil de encontrar.
Um abç amg

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Como sempre escreves muito bem - é como andar de bicicleta. Parabéns mais uma vez.

Ao contrário da Sãozitamiga, adoro os Abba e tenho muita pena que o grupo se desfizesse. No rádio do meu carro tenho os Abba e ouço os CDs uns atrás do outro desde a Chiquitita até ao infinito...

Abç do Pernoca Marota