quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Segredo ( Afinal havia um)









As coisas não ficaram fáceis.

A pouco cumplicidade que, apesar de tudo existia, morreu nesse momento.
Raimundo, o bem comportado, rompeu as regras e estava arrependido, mas agora nada podia fazer, já estava feito.

Mónica, olhou o irmão num misto de ódio e desprezo, atirou-lhe à cara o que restava do café, levantou-se, furiosa, praguejando:

-Nunca tive duvidas, és um maricas camuflado, um lambe cús, um fingidor, sonso e falso como um judas. Tenho nojo de ti e vou fazer da tua vida um inferno! Vais-te arrepender para sempre!

Bateu com a porta e desapareceu.

***

Foi mudar de roupa, o café que a irmã lhe atirou fez os seus estragos. Não parecia preocupado, estava habituado ao chorrilho de ameaças constantes, era por tudo e por nada. Mas ela precisava dele e muito, quando estava falida, o que era constante, retirava as ameaças e aparecia mansa como um cordeiro. 

"Sabes mano que um dia te pago tudo, com juros, mas preciso de duas notas de 20 Euros."

E, isso, ia acontecer, mais cedo ou mais tarde.

Mas agora ia ser duro e inflexível, nem um tostão mais, nem a ponta de um corno. Se queria ter dinheiro que fosse trabalhar, em vez de andar a roçar o rabo, com o namorado, pelas esplanadas e a fazer vida de menina rica.
 
Ela, agora, pensava que era treta, mas não, ele tinha um segredo, um segredo, que guardava porque precisava de certezas, absolutas, e ainda não as tinha. Mas ia ter, não tardava, ia ter!

Agora não está feliz, muito pelo contrário, adora a irmã, embora reconheça que ela não é flor que se cheire, é egoísta, só pensa no próprio bem-estar, mas é a mana mais velha.

Não foi, sempre assim, o namoro é que a modificou, da irmã carinhosa, e protectora, tornou-se uma mulher calculista e, um pouco, gananciosa.

A mãe, um dia, perguntou-lhe porque não trazia o namorado cá a casa, para o apresentar à família. A resposta não convenceu. Disse, que ele, só iria quando a fosse pedir em casamento. Quem podia acreditar nisso.

Raimundo é uma pessoa pacífica, parece um deixa andar, mas puro engano, está sempre atento, observa e tenta perceber todas as situações de uma forma subtil, sem deixar rastos.
Muitas vezes pensa, perdoando a redundância, se fosse um psicólogo, era um bom psicólogo.

Ele ama a irmã mas não compreende a mudança, desde que anda com esse tal Daniel, um gajo de mau aspecto, tipo chulo.

Raimundo conheceu-o por acaso. Foi num domingo, que viu a irmã toda agarrada a um tipo a caminho do metro, tão absorvida que quase chocava com o ele sem o ver.
Teve que a acordar:

-Então Mónica não falas ao mano?

Notou que ela ficou um pouco constrangida, mas emendou a tempo:

-Tu aqui? Não estava à espera, vou ao cinema com o meu namorado! Olha apresento-te o Daniel, o meu querido!

O tal, Daniel, olhou-o de alto-a-baixo antes de lhe estender a mão, balbuciou um muito prazer, pegou no braço da Mónica e seguiram no caminho das escadas do metro.

Raimundo ficou muito desiludido, não esperava grande coisa mas era muito pior.
Untuoso, ar encardido, aspecto de cão vadio.

Não gostou, nada mesmo, não era homem para a irmã, mas nada podia fazer, ela era grande para saber o que queria, só era pena não escolher o que devia.

Nessa noite, a Mónica, estava mais atenciosa do que era normal, quase simpática. Estava ansiosa pela chegada do irmão, mal ele abriu a porta:

-Então Raimundo, que me dizes do meu Daniel?

-Não tenho nada para dizer, é a tua escolha, tu é que sabes! A propósito o que é que ele faz? Qual é o trabalho dele?

Mónica rasgou um sorriso, de orelha a orelha, mas respondeu:

-O meu Daniel não faz nada, a não ser gerir as fábricas do pai que é muito rico. Ele é o único herdeiro e, um dia, será tudo dele. A agora só tem que tomar conta e dar ordens para os outros cumprirem. É um senhor!

-E, tu, mana já conheces os teus futuros sogros?

-Em breves todos nos vão conhecer, o meu Daniel vai preparar uma festa para me pedir em casamento e, todos se ficam a conhecer.
 Não tarda vamos ser uma família!


******

As coisas não estavam famosas mas havia uma aparente calma que, de repente, desapareceu com aquela mensagem que não devia ter espreitado. Jura, que não foi com intenção de bisbilhotar foi, mais, para acabar com o barulho irritante do aviso do telemóvel. Fez mal, reconhece, mas também foi muita falta de prudência mandar uma mensagem dessa forma, sujeito a acontecer o que acabou por suceder.
Podia ter telefonado, seria mais seguro.

Agora não tinha outro remédio, tinha que ir adiante, tinha que arriscar, sem ter certezas absolutas, mas estava certo de poder avançar com o que tinha, até agora, descoberto.
Foram muitas horas de espera, espreitar pelas esquinas, seguir, com todos os riscos, o alvo da sua investigação.
Ainda havia pontos que precisava de acertar, melhor, mas não tinha tempo e, sabia que, um descuido lhe podia sair caro. Muito caro mesmo.

Hoje mesmo, ia armar-se em Hercule Poirot, vai avançar e libertar a irmã duma situação e livrar-se ele, ele próprio, duma enrascada onde se meteu sem saber como sair.
Seja o que Deus quiser!

Mal a irmã chegou, nem a deixou pensar:

-Preciso falar, contigo, com muita urgência, é muito importante! Vem ao meu quarto sem os pais perceberem! É muito importante para ti!

Módica encarou-o de fronha franzida, antes de responder:

-Se é para pedires desculpa prepara-te, porque comigo tudo tem um preço.

-Anda, não sejas parva, confia no mano.

Fechou a porta antes de começar:

-Tu não és a melhor irmã do mundo, mas és a minha e eu gosto muito de ti.
Gosto tanto, que me sujeitei a alguns perigos para descobrir a verdade, pois as desculpas do teu namorado não são normais, não convencem, pelo menos a mim. Tu andas cega e acreditas em tudo o que te diz.
Achas normal não saberes nada da vida dele? Acreditas nessa de te pedir, em casamento, num festa com toda a família? Acreditas?
Estás mesmo cega!
Eu não acreditei e, não gostei nada da pinta do gajo, fui à procura e descobri tudo.
É esse o segredo que me tem andado a engasgar, o segredo que tu querias mas que eu queria que não fosse verdade.

-Deixa-te de merdas, disse Mónica, o Daniel é o melhor que há no mundo e não penses que me vais fazer mudar de ideias, ele é o homem da minha vida é o que eu escolhi para casar, não percas tempo com tretas.

-Ouve rapariga, gritou Raimundo, ouve o resto. Ouve com atenção! O teu Daniel é um fantasma, não existe, tu andas com um Viriato, um fulano que nunca trabalhou a vida e que mora, na Quinta do Mocho com a mulher e dois filhos menores.
É este o meu segredo, agora já o podes usar, tenta fazer o dinheiro que querias.

Tenho pena mas é o meu único segredo!


20 comentários:

CÉU disse...

Bem, é caso para dizer: "Afinal havia outro". Pois esta Mónica vai longe, vai, já foi, aliás!
O Raimundo, seu irmão, ainda se deu ao trabalho de andar a fazer investigações. Que tonto, por um lado, por outro, é bom descobrir aquilo k estava encoberto.
Pronto, está desvendado o segredo: a maninha relaciona-se intimamente com um homem casado, com filhos, residente na Quinta do Mocho e, provavelmente africano.
Resumindo: gente "séria" é outra coisa!
Obrigada por ter fechado a narrativa.

Boa sexta feira e excelente fim de semana.

Beijinho com muita estima.

Gracita disse...

Olá Manuel
E que segredo heim?
Mesmo a irmã não sendo uma flor de pessoa merecia coisa melhor.
Ser enganada dessa forma é uma lição dura de aprender
Mas a vida tem as suas surpresas e cega de amor não percebeu o quão canalha era o namorado
fantástico o epílogo do seu conto
Um abraço

CÉU disse...

Olá, Manuel!

Tenho uma "queixa" a apresentar. Posso, "Excelência"?
Então, o "menino" anda a colocar no seu blogue a mesma canção k eu pus no meu (risossssssssssssssssss)? Voyage, voyage é uma estupenda e fabulosa canção francesa, k o youtube "só" fez pra mim.

Ora, encontramo-nos na "barra" do "tribunal". É desta k me vai conhecer e eu a si. Todavia, tenho de dizer-lhe, k vou de burka, portanto, "E não há nada pra ninguém", como diz a canção, creio k de Jorge Palma.

Bom fim de semana e com um beijinho, sempre fica mais "celestial", porque me chamo Celeste (ai, k mentira... Que Deus me perdoe)!

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Quando numa família há irmãs com irmãos, ocorre essa preocupação, esse zelo dos machos, em espreitar os namoros das "meninas donzelas" de casa ...Por mais que briguem, por variadas razões do dia a dia, sempre há o amor fraterno. O primeiro episódio, bem exigia essa continuação...Caso não haja um terceiro capítulo, subentende-se que Mônica acatou a informação - conselho - do mano cuidadoso!
Fico aguardando a próxima novela, Manuel.
Obrigada, pelas carinhosas visitas.
Bom final de semana...
...beijo

CÉU disse...

Quer dizer: "porta sim, porta não" aparece uma conversa minha.
Bem, depois, fale-me das "audiências", não das do tribunal, claro, mas as do seu blogue. Olhe k já tenho feito subir, e muito, as visualizações em alguns blogues masculinos. Ponho-me com esta conversa da treta e as pessoas começam a seguir a "novela". Passei só pra dizer k o botão está no mesmo sítio.

Bye-bye.

PS: não há novidades no meu blogue.

Magia da Inês disse...

❤ه° ·.
Um enredo bem comum nos dias de hoje...
A sua maneira de contar a história é instigante e sagaz... deixa o leitor curioso demais!...
Ótimo fim de semana cheio de alegria e muita saúde!
Beijinhos.
♩♫ه° ·.

CÉU disse...

Encontrei um comentário seu no blogue do "Sol da Esteva", e decidi vir até cá, sim, pke há imensoooooooooooooooooooooooooooooooo tempo k o não visitava. "Quem tem vagar, faz colheres", diz-se no meu Alentejo. Meu sim, pke o "senhor" é doutra província, Bejense, mais propriamente.

Fique bem e durma com os anjos.

Maria Luisa Adães disse...

Manuel

De novo te encontrei
e feliz fiquei

Estou bastante ausente
esperando que meu marido
seja operado,
numa operação difícil!

Espera por mim, amigo meu!

Maria Luísa

SOL da Esteva disse...

Só, mesmo, a tua intuição para "dar a volta ao texto" e criares um genial texto, como o que agora apresentas.
Havia ficado convencido que segredos, segredos, só os que haviam no Conto que, afinal, tinha continuidade.
Fico agradavelmente surpreso e dou-te os Parabéns.


Abraços


SOL

Janita disse...

Afinal, havia outra!!

Isto de escrever contos é quase como quem escreve um guião de novelas! Vai-se escrevendo conforme a opinião e a vontade manifesta dos espectadores, neste caso, dos leitores!

O Raimundo também tinha um segredo e já que a mana tanto queria saber, soube!!

A ficção é como um retrato da vida real e nem sempre as revelações são a contento de quem quer saber as coisas de outrem com intenções de tirar partido disso.

Temos pena, menina Mónica, afinal o seu Daniel também tinha outra!

Perfeito, Manuel! Gostei desta 'extensão'. :-)

Um abraço e espero o seguinte!

Mirtes Stolze. disse...

Boa tarde Querido Manuel.
Como sempre no final sempre me surpreende rsrs, seus contos são fantásticos. Acho que o Raimundo fez certo em investigar, família é mesmo assim procuramos ajudar uns as outros. A irmã se deixou enganar, porque quando estamos em um relacionamento procuramos no minimo saber o endereço de quem estamos nós relacionando. Uma linda semana meu amigo. Abraços.

Smareis disse...


Olá Manuel!

Acontece muito nos dias de hoje homens casados agirem dessa forma (entre seduções e mentiras). Ele só não contava que o irmão da rapariga estava de olho nele e andava investigando-o. Deu-se mal!
Gostei muito da continuação, pelo menos se descobriu o tal segredo.
Um abraço com desejo de uma excelente semana Manuel.
Até breve!

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Caíste de novo na tentação do folhetim... :-))))) Até agora duas partes, mas espero que venha a terceira... O tema está muito bem tratado - tu não sabes escrever mal, bem pelo contrário e é a enésima vez que o tenho dito - o final não é como nos filmes de cóbois. O rapaz casou com o revólver e guardou a garota na gaveta jurando que nunca mais a utilizaria. E ficaram todos muito felizes. FIM. Leão da Metro rugindo.

Construção da estória - perfeita; Português - excelente; suspense - q.b.; enfim para ler e pensar nos artifícios da vida e da sorte e aplaudir o autor, realizador e maquilhador..., :-))))) Não sou o Martelo Rubelo de Suza.

Abç

Pernoca Marota

CÉU disse...

Como sempre, os seus comentários, exprimem aquilo que sente. MUITO OBRIGADA!
Beijo e um abraço, bem sincero.

Mirtes Stolze. disse...

Olá Manuel.
Passando para desejar um feliz dia dos namorados. Aqui no Brasil é hoje, só não sei qual é a data em Portugal. Um lindo fds. Abraços.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Oi, Manuel, tudo bem? Senti a sua falta, lá na Cadeirinha cearense, e, como você não apareceu, vim "arruando" por aí, até chegar aqui, para deixar o meu abraço e o desejo de uma excelente semana, desejando que tudo esteja bem, com você e a família.
Até breve!

Mirtes Stolze. disse...

Meu amigo vim lhe dizer que abrir um novo espaço http://vivereserfelizdavida.blogspot.com.br/ Uma feliz noite. Beijos.

A Casa Madeira disse...

É essas coisas acontecem é a vida como ela é de fato.
Adorei conhecer seu blog.
Prazer em conhecer.
Janicce.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Que tudo esteja sereno, a se resolver mais tranquilo!
Meu abraço, amigo.

Acordar Sonhando . SOL da Esteva disse...

... Há mais um qualquer segredo que me escapa.
Que as maleitas se tenham ido com a Primavera!...


Abraços



SOL