quarta-feira, 15 de agosto de 2018


Quando parei este Blogue, pensei que seria para sempre.
Era a minha ideia, mas há coisas que não prevemos.
Um dia, alguém que me olha lá de cima, tenho a certeza que sim, pediu-me 
para continuar, por ela e para mostrar que não tinha perdido a esperança.
Voltei, não sei se para ficar, mas cara Leninha como desejavas, para ti, este pequeno conto. 
A esperança, graças a ti, não a perdi.
As saudades são muitas.






Josefine


Penso que era Josefine, pelo menos foi o que me pareceu ouvir, mas não tomem como certo, pois eu, por vezes confundo as coisas. Não é assim muito importante, pois foi uma aparição fugaz, só o momento e o olhar que me deixaram, assim, nesta confusão.

Se não fosse a voz rouca do homem quando gritou: 

-Josefine, allons-y. 

Se calhar nem reparava, mas o tom perentório despertou a minha adormecida atenção. Olhei e não estou arrependido, os olhos eram lindos, dois rubis encastoados, num rosto onde a tristeza não conseguia esconder a obra prima do criador em dia de muita inspiração. Parecia pedir socorro, num gesto mudo, quando se voltou e seguiu à frente do homem.

Acho, mas não tenho a certeza, que ela ainda me olhou num soslaio muito subtil. 
Confesso, talvez seja vaidade ou uma certa presunção, mas penso que  o meu ar paternal tem um efeito positivo nas mulheres.


Passei o resto da tarde com o pensamento enredado em futilidades. 
Seria que a menina de olhos de rubis, estava sequestrada vivendo debaixo de ameaças ou, o homem da voz rouca era apenas um pai que não queria ninguém a rondar a porta?

Às vezes penso que não fui corajoso, poderia ter abordado, saber se necessitava de ajuda, mas o homem, da voz rouca, tinha um aspecto muito dissuasor, cabeça rapada no cimo de um pescoço quadrado, tronco redondo, donde saíam dois braços que pareciam troncos com dois pilões nas pontas.


Acho que não foi covardia, foi bom senso, pois um homem morto nunca iria ser útil.





Mas, para ser objetivo, vou contar tudo. Eu sou um citadino puro habituado ao bulício e ao desassossego da cidade. A minha irmã mais velha, atreita a bucolismo e a essas coisas da natureza, casou com um transmontano que foi até Lisboa cursar agronomia. 
Foi bom, pois,  juntaram o útil ao agradável. 

Ela, a Luísa, queria fugir da cidade e respirar o ar puro do campo e ele, o Júlio, sonhava em fazer das terras dos pais uma grande quinta, criar gado e explorar a vinha. 
Foi o par perfeito, realizaram os desejos e vivem felizes com um par de rebentos, uns tantos cães e, nem sei quantos, mas pelo menos meia-dúzia de gatos.

Em Agosto é a festa da aldeia, a população triplica, os emigrantes voltam e a terra parece uma grande urbe.

Eu, também ajudo, não sou de cá mas nesta data venho visitar a família e fico uns 
dias. 
Já conheço muitos, tenho que beber e conversar com os demais, percorrer a feira, assistir aos arraiais e, pasmem com isto, cantar e dançar com os grupos folclóricos, dizem que tenho jeito.

Acho que era capaz de me habituar a esta vida, mas a profissão não dá, quer cidade.

Pois foi num desses momentos em que, no meio do pó, descia a rua onde as barracas vendiam toda a espécie de guloseimas e artesanatos, que eu ouvi aquele “Josefine, allons-y”.

Olhei mais pelo tom da voz e, pela curiosidade, estou arrependido.

Não me sai do pensamento, bem olho na esperança de a ver por aí, se a encontrar não sei o que fazer mas, vou arranjar uma maneira, sou perito em arranjar soluções para assuntos difíceis, ou tenho essa pretensão, embora me pareça que o acompanhante, pai ou guarda-costas, não deve ser osso fácil de roer, mas pode haver uma solução. 


Se for o pai apresento-me e peço a mão da filha, ele só tem duas soluções pensa, que sou maluco, e aceita ou, não pensa nada, dá-me um soco e deixa-me a dormir. Sou perito em soluções fáceis para assuntos difíceis, o problema é raramente resultarem.

Estava a entardecer, fui para casa. Juro que não sonhei com ela, sou uma pedra, é 
cair na cama e vai até de manhã, de seguida.

************

Hoje é outro dia, levantei-me com uma fome danada, a mana tinha um pequeno-almoço como o dos filmes, não me fiz rogado.
Ela, o meu cunhado e os meus sobrinhos, iam a Bragança. Insistiram comigo mas prefiro ficar, tenho algo a descobrir.
Não contei nada, dei a desculpa da festa, e resultou.
O Júlio até se atreveu:

-Se não fosse a chata da tua irmã, deixávamos a ida para outro dia e 
fazia-te companhia. Mas sabes como ela é!

******
Ainda bem que o Júlio não pode vir, é uma grande companhia, mas não me convinha nada. 

Voltei e fui até ao final do caminho, comi um frito no Zeca das farturas, comprei um colar de pedrinhas coloridas para a minha sobrinha e uma flauta para o Luis, meu sobrinho. 

Num palco enfeitado com fitas, três bailarinas bem despidas abanavam os rabos, enquanto um cantor, com uma concertina, ia entoando uma velha canção. 

Pensei voltar, quando de repente me surgiu uma ideia peregrina, sou assim, a minha cabeça está sempre na procura de soluções e não é que acabei de ter uma possibilidade de descobrir algo.

Foi num momento que passei o filme na minha mente, ontem quando o voz rouca berrou a frase, eu estava na barraca da dona Zulmira, até já conheço os feirantes pelos nomes.

Aqui, onde os frascos de mel e outros produtos ligados à apicultura se encontram alinhados em prateleiras e no balcão pratinhos para os passantes poderem apreciar a qualidade dos produtos, garanto que são ótimos porque os provei e, foi no momento em que estava a saborear queSe eu ouvi, a Dona Zulmira também se deve ter apercebido. Vou falar com ela, compro um frasco de mel para adoçar a conversa, não preciso a Luísa têm muitos, mas eu quero arranjar uma espécie de introdução.

A Dona Zulmira iluminou o rosto com um sorriso, aliás tinha um riso bonito, e perguntou:

Então é hoje que vai levar uma das minhas especialidades? Melhor não encontra em lado nenhum as minhas abelhas são especiais.

-Vou mesmo, respondi, um daqueles de urzes.

-Boa escolha, foi dizendo enquanto metia o frasco num saco de papel.

Antes de pagar perguntei:

-Lembra-se, ontem quando aqui passei, um senhor grande, como um sobreiro, chamou uma tal Jaqueline e disse qualquer coisa em francês. Sabe quem são?

-Sei, se sei, respondeu, são uns imigrantes em França. É o senhor Isidoro, jóia de pessoa, e o filho Jaquim.

-Não são esses, exclamei, era uma menina linda com uns olhos verdes que até pareciam brilhar.

A Dona Zulmira deu uma saudável gargalhada, colocou os cotovelos sobre o balcão e disse, quase em sussurro:

-Nada disso! Era mesmo o senhor Isidoro e o filho Jaquim, o rapaz é meio amalucado, diz que nasceu no corpo errado e outras parvoíces assim, anda sempre vestido de mulher e pintado como essas, o senhor sabe às que me refiro, e quer ser Josefina. O pobre homem não sabe o que fazer, coitado, o que lhe havia de calhar, tão boa pessoa.

-Não posso acreditar, disse eu, está a brincar comigo?

-Eu a brincar? Antes fosse, para bem dos pobres pais e descanso daquela cabeça amalucada. A pobre da mãe, com a vergonha, já nem sai de casa. O pai vem com ele com receio que saia sozinho e seja maltratado pelas pessoas. Sabe como esta gente é? Com o pai ninguém se mete com ele, é uma joia, mas não o virem do avesso.

A estas horas, já devem estar muito perto de França, pois partiram hoje bem cedo.

******

Volto amanhã para Lisboa, afinal o campo não é para mim.

3 comentários:

Acordar Sonhando . SOL da Esteva disse...

A veia não se secou. É só picar a terra em volta e germinará de novo.
Já postei um comentário (19AGO)que (receio) não irá germinar, mas eu tenho grandes esperanças que tudo voltará ao que já nos habituaste.
Força, Manuel. Espero por ti.

Abraço
SOL

Blue Wild Cat disse...

Olá Manuel!
Que grande prazer sempre tive ao aqui vir e ler.
Passou bastante tempo, mais do que imaginara, mas também voltei aos poucos a escrever num blogue novo.
Vejo que este conto foi aqui postado já vai um tempinho. Quem sabe quanto tempo, se é que aqui o meu amigo Manuel volta, mas na expectativa que sim, deixo aqui o mesmo kandando repleto de estima e admiração!

A Casa Madeira disse...

O dom da escrita nunca se apaga.
Gostei do nome Josefhine é que a minha se escreve assim.
Que bom ler-te.
E por mais pedras que tenham a vida; só posso te dizer
que temos que continuar andando...
Abraços.
PAZ E BEM.