segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Diogo..................


Sempre detestou o seu nome mas que havia de fazer. O pai, que andou pelas Américas, ficou devoto de um santo milagreiro e achou que se havia de chamar Diogo e assim ficou.
Na escola não foi fácil, pois de vez em quando havia um que se atrevia a gritar:
-Diogo abre o rabo que lá vai fogo. Depois a pancadaria e o castigo.
Mas teve que crescer assim, recalcando a ideia absurda do pai, a quem nunca perdoou.
Agora era homem já feito e de vez em quando ficava desconfiado com certas entoações de voz quando o chamavam.
Era uma obsessão, já o sabia, mas era mais forte que ele e ainda não se tinha habituado a viver com o nome que lhe tinham dado.
A tia, com quem vivia presentemente, já lhe havia explicado que Diogo equivalia a Jacó, nome hebraico muito respeitado, segundo as escrituras, seria aquele que segura o calcanhar, porque Jacó nasceu segurando o calcanhar de seu irmão gémeo.
Para Diogo, eram teorias da tia que não o gostava de ver tão desgostoso com o nome, que ela achava tão lindo como o irmão o achou.
Diogo, como diria Raymond Chandler, era tão bonito como uma verruga no meio de uma testa ou como furúnculo na ponta do nariz.
Era um homem azedo e frustrado. Nunca tivera uma namorada e as mulheres fugiam dele como se tivesse alguma doença contagiosa. Até as colegas de trabalho, era escriturário numa Companhia de Seguros, pareciam estar apostadas em o evitar.
Vivia, como já dissemos com uma tia, professora reformada, num terceiro andar no Parque das Nações e era aqui que pareciam estar a evoluir os sonhos do Diogo.
Tinha uma vizinha no sexto esquerdo que estava a dar, finalmente, um alento à sua vida.
Era linda, torneada e com um rabo, parafraseando outra vez o escritor, que parecia a nona sinfonia de Beethoven tocada por um pandeiro mágico.
Quando se cruzavam na rua, Diogo, ficava de boca aberta olhando de forma idolatrada para aqueles passos de passarinho saltitante, aquele busto farto e atrevido, os lábios carnudos e húmidos de volúpia e desafio.
O traseiro bamboleante provocava no pobre Diogo emoções que se tranformavam, depois, em sonhos voluptuosos e bastante cheios de emoções.
E o sorriso? Meu Deus quando lhe sorria parecia que nada mais existia neste Mundo.
Tudo mudou e o homem azedo e taciturno passou a sorrir e a olhar a vida de maneira mais colorida.
Andava do ar, tudo lhe parecia diferente.
Agora os momentos passados em casa eram junto á janela. Suspirando na esperança de a ver sair ou entrar. De sentir o elevador passar em frente á sua porta e adivinhar o perfume que o inebriava e o levava a todas as fantasias que povoavam o seu imaginário.
Era uma loucura de ideias e pensamentos que o invadiam e o transformavam.
Parecia, até, que já gostava do seu nome.
A tia, Dona Alzira, começou a estranhar o comportamento do sobrinho sempre tão reservado e agora tão expansivo e falador.
Antes passava os tempos em frente do televisor e agora não deixava a janela como se tendo apercebido da linda vista de que desfrutavam.
Ainda bem, sempre sonhou com esta mudança.
-Diogo estou tão contente por ver que agora estás um menino feliz. A que se deve esse milagre filho?
-Tia, parece que estou apaixonado e julgo que ela me corresponde. A maneira como me olha e me provoca faz-me pensar que sou correspondido.
-Ainda bem. Eu conheço ou ainda não queres dizer?
-Tia, é a vizinha do sexto esquerdo.
-Quem? Não pode ser!
-Queres dizer do quinto andar?
-Não tia, é mesmo do sexto, já confirmei.
-Estás enganado, no sexto esquerdo mora a Daniela. Diz que é Daniela mas é homem, é um Drag Queen, transformista ou lá o que é?

De repente o mundo desabou.

-Tia que merda de nome que me puseram!

4 comentários:

Filipinha disse...

Adorei!!!!

E a música nem se fala. Sou fã de Ney Matogrosso...

Manuel disse...

Obrigado.
As suas palavras são motivadoras.

AnaT disse...

"Feliz do homem que não espera nada, pois nunca terá desilusões."
Alexander Pope

P.S.: Será mesmo feliz?...

Manuel disse...

A felicidade é um estado de alma, não a podemos procurar é ela que nos procura.