quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Todos os dias parecem iguais....


Escrevi este conto há longos meses e pensei que nunca o iria publicar.
Tinha 30 páginas. Demasiado para um Blog. Cortei, cortei e possivelmente descaracterizei o que pretendia.
Restou o que vou publicar. Hoje vai a primeira parte.
Peço perdão, mas........as limitações são muitas.


Não foi fácil tomar esta decisão, mas há muito que Emília o pensava fazer.
Veio para esta casa tinha seis anos, aqui casou, aqui nasceram os três filhos, daqui saiu, para o cemitério, o único homem que conheceu e a quem amou acima de todas as coisas. Agora as coisas estavam diferentes, o Ernesto acabara de fazer 22 anos e ia casar, a Alzira estava a fazer os 18 e pensava sair de casa, e não tardava a Célia com 16 também iria querer seguir o seu caminho.
Como se lembrava da primeira vez em que pela mão do pai foi à escola, metida naquela vestido branco com florzinhas que a madrinha lhe tinha oferecido na Páscoa, e na fita que lhe prendia os fartos caracóis que lhe desciam pela nuca. O pai enfiado no seu melhor fato, apertado na frente e parecendo que os botões a todo o momento podiam rebentar.
Engordou mas a roupa continuava na mesma, embora a mãe tentasse fazer os impossíveis para remediar o que não tinha forma de ser remediado.
Foi um momento inesquecível quando me entregou à Dona Laura, a minha professora, com um sorriso de felicidade porque a sua menina, como dizia, ia começar um novo ciclo da vida.
Quando o pai morreu, tinha acabado de fazer 10 anos, foi como se o mundo desabasse de repente. Não sabia como a vida seria possível dali para a frente.
Foi difícil, mas a mãe com uma determinação que ninguém lhe conhecera, conseguiu desempenhar os dois papéis, trabalhou como nunca ninguém pensou, de dia na fábrica a fazer calças e à noite a lavar e a passar a ferro a roupa de quem a procurava.
Foram tempos difíceis, mas mesmo assim foi muito feliz.
Tinha 16 anos quando conheceu o Amadeu. A princípio não o tomou a sério, não estava disposta, mas as coisas acontecem sem que nós nos apercebamos.
Foi tudo tão de repente, e a forma como começou a amar aquele homem, a beber as suas palavras, a ter ciúmes das raparigas que falavam com ele, era verdadeiramente inacreditável. De menina insegura tornou-se uma mulher decidida e foi mesmo ela quem lhe propôs viverem juntos.
Os pais bem tentaram contrariar aquela asneira, assim diziam, mas estava determinada e nada a faria demover. Por fim aceitaram e depois de um casamento pobre, mas feliz, foram viver para casa dos pais.
Agora, que já fizera 40 anos, olhava para o espelho para ver as pequenas rugas que se adivinhavam nos cantos dos olhos, mas ainda gostava da imagem que tinha na frente. Tinha uma pele rosada, os grandes olhos cor de avelã brilhavam com a mesma juventude de sempre, os fartos caracóis louros já deixavam perceber alguns fios brancos que ficavam camuflados nos cachos de ouro que lhe emolduravam a testa.
Sentia que e menina se transformava depressa demais e não iria tardar para sentir que a velhice não estava muito longe.
Desde que o Amadeu morreu, daquela forma tão trágica, nunca tinha pensado que ainda estava a tempo de começar de novo, mas havia vezes em que pensava que ainda estaria a tempo de encontrar um novo rumo para a sua vida.
Ainda tinha presente quando lhe trouxeram o marido moribundo, trucidado pelo rodado do tractor. Nunca se chegou a saber como aconteceu, pois foi encontrado na vereda que levava à horta que ajudava ao sustento da casa.
Tinha que pensar na sua vida, os filhos estavam criadas e estavam a seguir o seu rumo. O Ernesto acabara o curso e ia trabalhar para o Porto como engenheiro numa fábrica de coisas eléctricas. A Alzira sempre foi uma menina difícil, descontente com tudo e todos, com uma cabeça cheia de sonhos. Namorava um rapaz, filho de boas famílias, e estavam dispostos a ir viver juntos. Ia ser uma relação difícil.
A Célia era a mais chegada à mãe. Ainda, hoje, não adormecia sem que não lhe desse um beijo de boas noites. Mas estava uma linda rapariga e os moços já começavam a rondar a porta.
A mãe cansada de trabalhar, deixou que o Alzheimer se apoderasse do que restava, e recolheu a um lar onde esperava, alheia a tudo, que a vida acabasse.
Agora estava decidida e ia ser difícil mudar de opinião.

4 comentários:

Filipinha disse...

Onde está o resto???

Quero ler mais...

Se 30 páginas é muito para um post... Publica-se em vários... :):):)

Manuel disse...

Agora nada a fazer, o mal ou bem, está feito.

Filipinha disse...

Das coisas boas acho que mais vale pouco que nada!

Espero ler mais contos.

AnaT disse...

Esta parte já consegui (finalmente...) ler agora vou já ler a outra, pq estou mm curiosa para saber o resto!... ( e qto ao conto todo, que se publique, ora pois...)