segunda-feira, 13 de abril de 2009

Já não sabe a idade.......



Já confunde a idade, pois os anos passados têm-lhe desgastado o corpo e a memória.
Olhos fundos e encovados têm um brilho de memórias encerradas num cérebro gasto pelos anos decorridos.
Na cadeira do lar olha um infinito de reminiscência e recordações e sorri com um sorriso desdentada.
Olha em volta e fita um longínquo horizonte de lembranças que o tempo vai apagando. As mãos, pergaminhos de seda, entrelaçam-se em gestos delicados.
Fala, com voz suave e pausada, de coisas da vida, coisas de um passado longínquo que guarda e que vive.
Esquece o momento, baralha as refeições, não sabe o agora, mas tem presente um tempo afastado de recordações que confunde ao sabor das suas fantasias.
Sente-se como quando a mãe lha arranjava as tranças e quando o pai, pelo mão, a levava a ver o circo montado no Largo da Igreja.
Sabia que era a rapariga mais bonita nos bailes da aldeia.
Lembra o dia do casamento, brilhando nova, num velho vestido de noiva que já fora da mãe.
Recorda os momentos em que os filhos nasceram, como cresceram e como um dia abalaram.
Tem no pensamento as desventuras de uma vida difícil, amargurada mas cheia de recordações, que alimentam uma velhice que se vai diluindo nos intermináveis dias de um lar.
Foi uma princesa, quiçá uma rainha.
Teve brilho nos olhos e na pele rosada a maciez do pêssego.
Foi invejada por muitas mulheres, muitos homens a olharam com admiração.
Agora, como vela bruxuleante, vai-se apagando lentamente. Dia a dia.
Na boca, desdentada, o sorriso velho e apagado vai iluminando o que resta de uma vida longa e desgastada.
Mas sorri, sorri sempre como se o amanhã fosse eterno.


1 comentário:

AnaT disse...

É o percurso da vida... (tal qual uma vela que se vai apagando...)