sábado, 18 de julho de 2009

A vingança.....


A vingança não se serve. Apenas serve. (Mia Couto)


Não esperava o murro e o seu corpo tombou pesadamente com o rosto a bater com estrondo nas pedras da calçada.
O sabor a sangue invadiu-lhe a boca, uns zumbidos irritantes povoaram-lhe o cérebro. Quis fazer um movimento para se levantar mas estava descoordenado e apenas o instinto o levou a desviar a cabeça dum pontapé.

Sentiu no ombro o impacto da bota.

Ficou numa prostração total, apenas ouvia os sons intervalados de mulheres gritando, de correrias, de homens agitando a bandeira da harmonia.

Não soube quanto tempo esteve naquela doce prostração. As ideias descoordenadas passaram como filme em câmara rápida. Viu as lutas na escola, o medo, as tareias com que os mais velhos o mimoseavam diariamente.

Lembrou-se da promessa que havia feito a si mesmo. A jura de nunca mais se deixar bater. De morrer, se necessário, mas de nunca mais ser o bombo de ninguém.

Agora estava prostrado, dorido, com a sangue a empapar uma boca magoada. Tinha os pensamentos embotados. Estava confuso.

Levantou-se a custo, numa bebedeira de sons que lhe povoavam o cérebro. Olhou com a vista enevoada o agressor seguro pelos braços fortes do Aguinaldo e do Ramires.

Agarrou-se á parede para ajudar o equilíbrio que lentamente ia recuperando. Devagar foi-se aproximando até ter a sua cara encostada á face de quem tão cobardemente o agredira.

Rapidamente puxou da faca com que amanhava o peixe e por sete vezes a fez entrar no corpo do inimigo, sentiu a sangue jorrar e o gemido do porco na agonia. Os braços fortes não aguentaram o peso da morte e deixaram o corpo tombar e bater com força no basalto da calçada.

Olhou a posição grotesca do cadáver, mirou todos os que o rodeavam e disparou num choro convulsivo.

Estava vingado.

Tinha cumprido a promessa.

Tinha jurado que nunca mais ninguém lhe ia bater.

Nunca mais!

3 comentários:

AnaT disse...

É realmente violento!...

Filipinha disse...

Não posso levar textos com violência... :(

Manuel disse...

Mas a violência faz parte do nosso dia a dia. Porque meter o pescoço na areia?