domingo, 4 de outubro de 2009

A última carta



Um dia escrevi esta carta. Não por mim, mas sim, por um repto que me lançaram.


Meu amor.

Não sei o que se passa mas desde que cheguei a este lugar horroroso não tive mais noticias tuas.

Quando pergunto, dizem que reze por ti.

Eu não sei rezar e tenho a mente muito perturbada. Ando a dormir a maior parte do tempo e o meu corpo perdeu a força e a genica que tanto elogiavas. Julgo que os comprimidos que me obrigam a engolir não me deixam livre o pensamento, é estranho que para tratarem, dizem , a minha depressão me encerrem com esta gente que grita, que anda indiferente, que se arrasta da cama para o banco, que se baba e que olha em frente como se vissem para além do infinito.

As noites são horrorosas, mas tenho força para enfrentar e luto para ficar bom e poder estar outra vez junto a ti.

Tenho saudades do teu corpo, dos teus afagos, do nosso amor. Quero rebolar, contigo, no chão da sala. De te despir num frenesim de beijos, de carícias. De sentir a tua língua a procurar a minha, das tuas unhas arranhando as minhas costas. E quando o nosso amor explode parece que o mundo é só nosso. Ficamos cansados, ofegantes, corpos colados num prostrar tão saboroso.

Sinto vontade de passear contigo, de mãos dadas como crianças num parque.

Tenho o desejo de olhar os teus olhos que me prometem tudo o que mais quero.

Anseio possuir o desejo da tua paixão, beijar os teus olhos na vontade duma procura de afectos, na certeza de um amor que é nosso, só nosso.

Mas todas estas vontades morrem quando me dão a injecção que entra no meu sangue como um fogo que me toma e me leva para um mundo que não é o meu. A minha cabeça parece que rodopia numa espiral de sonhos, depois é o silêncio e o escuro.

Quando volto a acordar é como se tivesse nascido de novo, tudo é estranho, tudo é diferente. Devagar, muito devagar volto á vida. Lentamente as ideias regressam à minha mente.

Depois são os pensamentos e os porquês. Porque estou aqui, porque não me vens ver, porque não respondes as minhas cartas?

Será que não te disseram onde estou? Será que não recebes os lamentos, que periodicamente deixo no papel para te enviar?

Será que já morri e penso que ainda habito no teu espaço? Ou será que tu....não quero pensar nesta parvoíce!

Tenho que acabar esta carta, tenho que arranjar maneira de ta enviar, tenho que descobrir forma de não ma tirarem.

O enfermeiro já aparece ao fundo do corredor, depois é a injecção, a espiral, o afundar nesse buraco fundo e escuro.

Fugir não posso.

Vou dormir.

Até um dia meu amor!

8 comentários:

Telma Ramos disse...

Esta Carta fez-me doer no peito! Lembrei-me as vezes que o meu ex-marido foi internado no Hospital Miguel Bombarda e como seria assim que ele se sentia :(
As vezes que fui visitá-lo foram muito marcantes porque aquilo é um sítio que não dá para descrever, só vendo... e eu ía lá vê-lo e ele que tinha que passar esses horrores lá dentro! A Esquizófrenia é uma doença muito triste :( ... podem acreditar!

Manuel disse...

Pode crer que sim. Eu conheci uma moça, que me inspirou, que bateu no fundo e com muito esforço, da familia, conseguiu vencer.

Telma Ramos disse...

Pois, depende... o meu ex-marido também teve a minha Grande Ajuda, de Amigos, de Médicos...mas está mesmo mal...47 anos, com uma reforma antecipada (de miséria) por invalidez e são poucos os dias que se consegue ter uma conversa normal com ele...infelizmente...Uma pessoa Inteligente, Culta, Trabalhadora, Meiga, Amigo dos Amigos, Amigo das Crianças, Amigo dos Idosos...enfim...uma vida normal que tinha e que acabou muito cedo... :(

Manuel disse...

A vida é muito complicada e difícil de compreender. Quando me falam em Deus, eu olhando à volta, tenho que ficar muito céptico.

AnaT disse...

Mto bonita, mas esta é repetida... ;o) (Novembro 2007)

Filipinha disse...

Pois... Gosto muito desta carta mas já tinha lido!

Mas quando os textos são bons vale a pena repetir.

Manuel disse...

Eu sei que muitos, ou quase todos ja leram esta carta.
Alguém, que passa por uma fase menos boa, pediu-me para a repetir e eu não sei dizer não.

Luz disse...

Esta carta faz-nos estremecer e coloca-nos perante tantas questões, são tantos os porquês que nos assaltam...
Mas ainda bem que o Manuel um dia escreveu esta carta por um repto lançado, afinal faz bem a muita gente e, é sempre tão bom saber que temos um amigo assim, que temos alguém que nos conforta com pureza.
Gostei muito de a ler e, continue a partilhá-la sempre que vir ser necessário, fazer bem nunca fez mal. Assim como o não saber dizer não, sei bem o que é, não falo apenas por mim, mas por alguém que sempre fora assim e também me ensinou a sê-lo, quando estamos a falar de sentimentos, de emoções, do verdadeiro sentir que como humanos devemos praticar não há que dizer não, não devemos ter medo de assumir a nossa natureza desde que com autenticcidade!
Obrigada por esta carta.

Beijinho