sábado, 24 de abril de 2010

Aqueles olhos





Deixaram a sua aldeia com a mágoa estampada no rosto e um nó no peito, que os deixava como se estivessem desenraizados na grande cidade.

Em duas malas os parcos haveres de uma vida que iam agora começar.

Ele ia trabalhar numa obra junto ao seu padrinho Arnaldo, que os mandou vir e lhe arranjou o emprego.

Ela ia servir na casa de uma senhora, parece que era doutora, ou outra coisa assim.

Á noite juntavam-se no quarto que alugaram naquele terceiro andar da Rua da Esperança.

Falavam das coisas do dia. Ele da sua arte em misturar a areia e o cimento, dando a consistência para os pedreiros construírem as casas, como a que um dia ainda iriam ter.

Ela falava, vaidosa, de uma patroa que era doutora e do filho que tinha uns olhos lindos, grandes e verdes como nunca antes tinha visto alguns.

Dizia embevecida;

-Sabes Abílio, que quando tiver um filho gostava que tivesse uns olhos como aqueles.

Vou pedir a Deus.

-Valha-te Santa Eulália mulher! Como pode ser se os teus são escuros e os meus também e assim a modos que meio remelosos? Como podia um cachopo ter os olhos como dizes?

-Que falta de fé homem. Deus pode fazer tudo assim nós saibamos pedir,

Os tempos passaram, na monotonia das horas de dias vividos, no amassar do barro ou do lavar da roupa que outros sujaram.

Um dia, na quietude do fim de um dia de trabalho, Arménia olhou censoriamente para o seu homem:

-Sabes Abílio, eu sempre te disse para teres cuidado mas tu não me ouves e agora parece que estou prenha. Amanhã, a minha senhora disse que me levava uma coisa para fazer a análise. Não sei que vai ser de nós?

-Mulher tudo se há-de arranjar.

O tempo deu tempo ao tempo e a semente deu origem ao fruto.

Arménia e Abílio foram pais de um lindo bebé de olhos grandes e verdes como a esperança.

-Ai Abílio parece que Deus ouviu as minhas preces.



9 comentários:

FERNANDINHA & POEMAS disse...

OLÁ QUERIDO MANUEL, MARAVILHOSO TEXTO...!

DESCONHECIA, MAS VOU VOLTAR... ADOREI...!

DESEJO-TE UM BELO FIM DE SEMANA,
ABRAÇOS DE CARINHO,
FERNANDINHA

Elaine Barnes disse...

Que beleza heim! Não sei se a fé removeu a montanha ou se ela o traiu rs... Muito bom! Montão de bjs e abraços encantados com seu comentário.

Manuel disse...

Cara Elaine, cada um julgará à sua maneira.

Sonhadora disse...

Manuel
Linda história com sempre...muita ternura.

Beijinhos
Sonhadora

VASCODAGAMA disse...

ADOREI
Obrigada pelo comentário no m/blog
Vou voltar
BEIJO

Solange Maia disse...

Manuel,

cheguei aqui através da leitura de outro blog, e que encanto !

escreves divinamente...

adorei esse texto em especial, e os olhos verdes, tão esperados, que deixam o ar cheio de possibilidades...

inteligente...
fascinante...


parabéns !!!!

beijo

Sandra Botelho disse...

Belo texto...
Gosto de ler você sempre aprendo mais e mais...
Quanto ao poema, não é apenas um poema sou eu derramada em palavras...
Bjos achocolatados

Kimbanda disse...

Manuel, estimado amigo:
Uma bela estória de vida, trabalho, fé e falta dela.
Final feliz, a quem pelo trabalho e a luta pela dignidade e muito amor, presenteou.
Felicito-o pela forma e conteúdo que foi um prazer ler.
Kandandos

Luz disse...

Amigo Manuel,
Mais uma história de vida e, que vida! Direi mesmo de muitas vidas...
Amor, trabalho e, fé em algo que tanto se desejou e concretizou..., mas agora como..., a natureza, a consciência quiçá podem responder...

É sempre um enorme gosto ler as suas histórias que são tão reais...

Um grande beijinho da Luz