quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Até que a morte nos separe





Tinham uma idade indefinida.

Ela, Dona Emília, tem uns olhos azuis encovados, orlados por um rendilhado de rugas, que mal deixam perceber aquelas duas pequenas safiras que miram o mundo de uma forma muito especial.

É tão velha que ela própria já perdeu a conta aos anos, fala em coisas de um passado longínquo, lembra acontecimentos de há muitos anos como se tivessem passado ainda ontem.

Ele, Senhor Sebastião, é tão velho como ela, mas os olhos já deixaram de brilhar. O tempo apagou a luz que o guiava, as pernas já deixaram de obedecer e o tino, muitas vezes, atraiçoa o pensamento. Já não consegue andar sozinho e é o braço fraco da Dona Emília que o ampara até ao banco onde, à porta, adormece perante os raios de Sol.

Vivem os dois naquele rés-do-chão do pátio das violetas. Os vizinhos são o seu amparo e a assistência social o seu modo de vida.

As queridas meninas, como diz a Dona Emília, todos os dias lhe levam a marmita com o alimento que os mantém.

No resto a Dona Emília consegue manter a casa, pensa ela, como sempre a tem mantido.

Tiveram uma filha que um dia abalou com um estrangeiro. Nunca mais deu notícias.

Trata do marido com um carinho e de forma tão protectora que, por vezes,
faz esquecer que já dobrou há muito a idade dourada.

Ela fala muito com ele, não sabemos se a escuta, pois em regra a sua mente anda longe, muito longe, tão distante quê se perde no tempo e se encaixa nos seus anos de juventude.

-Sabes Sebastião, hoje as meninas trouxeram a sopa que tu gostas. É de cenoura e tem massinhas. Não tarda vou tratar do teu almocinho, mas vais engolir tudo e não ficas com a comida a brincar na boca. As vezes és mesmo como um miúdo!

Ele não escutava nada, parecia olhar aquela voz que lhe era familiar, mas os olhos tinham perdido a luz e os ouvidos apenas lhe levavam um zunido que o embalava num emaranhado de recordações perdidas no tempo.

Era enternecedor ver a Dona Emília, alquebrada, sem forças a arrastar com tanto carinho o seu marido para o aconchego do lar, logo que o Sol se escondia. Punha um braço pela cintura e com o outro segurava a bengala e lá o ia arrastando docemente, com um sorriso nos olhos e um esgar de dor nos lábios.

Há dias que não via o Senhor Sebastião e isso preocupou-me, pelo que me atrevi a perguntar:

-Ti Emília que é feito do nosso homem?

Olhou-me da profundeza do azul apagado dos seus olhos e quase num soluço respondeu:

-Sabe que há dois dias que o não consigo arrastar do cadeirão, nem para aqui
nem para a cama. Está teimoso, nem a sopinha lhe consigo dar, lá lhe meto
umas colheradas pela boca abaixo mas é mais a que vai por cima do cobertor.
Não sei que fazer, tenho que arranjar maneira de o levar ao médico.

Fiquei muito mais preocupado e descansei-a:

-Deixe estar que eu vou aos bombeiros e eles tratam de levar o seu marido ao hospital.

Vislumbrei umas lágrimas nos olhos cansados.

-Obrigado menino e que Deus o ajude.

Os bombeiros chegaram tarde, o pobre homem há três dias que estava morto. Deitado num cadeirão de verga, tapado com um cobertor cheio de sopa. Já começava a exalar um cheiro desagradável.

Trataram de todas as formalidades e levaram o pobre coitado.

Alguém iria tratar do funeral.

Dona Emília não acreditou na morte do seu homem. Pensou, foi para o hospital mas vai voltar.

Passava os dias, sentada no seu banco, perscrutando ao longo da rua na esperança de o ver aparecer.

Os dias iam correndo e o seu amor tardava, o esmorecimento ia minando a esperança, a solidão era a única coisa que lhe restava.

Não podia esperar mais, ele não vinha, ela ia ter com ele.

Fechou os olhos e partiu.


10 comentários:

Sandra Botelho disse...

Quando 0 amor é verdadeiro...Impossivel resistir a saudade!
Chorei viu seu danado...
Bjos achocolatados

Sonhadora disse...

Meu querido Manuel
Tocou-me profundamente este texto, muito bem escrito. como sempre.
Lindo mesmo cheio de ternura.

beijinhos
Sonhadora

Luna Sanchez disse...

Alguns encontros são para sempre, né, Manuel?

Bonito texto.

Beijo.

ℓυηα

acácia rubra disse...

Gostei de ler este texto.

Terá o verdadeiro amor acabado, quando eles acabaram?

Penso que amores assim já só nos textos do Manuel.

Beijo

AnaT disse...

Que Lindo...

Magia da Inês disse...

Olá, amigo!
Que peninha!...
Senti um nó na garganta durante toda a leitura...
Você é demais... ou faz rachar o bico de tanto rir ou faz chorar...
Beijinhos.
Brasil

Kimbanda disse...

Manuel estimado amigo,

Sem dúvida ele foi bem mais feliz que ela, pois sua mente há muito que divagava em outras estações.

Não vejo esta história como sendo triste.

Triste é constatar que dificilmente nos dias que correm, as relações sejam até que a morte os separe.

Gostei muito deste conto e receio ao repetir que gosto da sua obra, me tornar maçador.

Receba a minha admiração e meu kandando sincero.

Ludmila Ferreira disse...

Por acaso o senhor gostaria de adotar um ser complexo e de mudanças repentinas sem explicação?...

Diz que sim... ^^

Pequeno fragmento....

Sei que no fim das contas sou sozinha, e que minha capacidade de escolher entre os meus me limita apenas um mestre neste momento.... Sr. Manuel.

Obrigada mesmo.

beeijOdalua!

Ludmila Ferreira disse...

Ao meu leito Nº 1 e meu blog favorito dou as felicitações por toda cultura, desenvolvimento e capacidade de me fazer voar e viver momentos mais que felizes quando estou aqui.

Desejo sim ter um "encontro" de amizade verdadeira, que na verdade acho que já tenho.... mesmo sendo a distância....


Para sempre....


beeeijOdalua!

Sandra Botelho disse...

Oi amigo querido. Vim deixar-te um beijo e desejar-te uma semana linda
Bjos achocolatados