segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Uma bica curta





Estava na minha frente.

Tinha umas mãos longas e de uma beleza que faziam inveja, brancas e com umas unhas bem cuidadas, cortadas numa linha recta, cobertas com um verniz rosado e decoradas com pequenas flores vermelhas.

Se os artistas tivessem mãos diferentes de todos os outros, eu diria que tinha mãos de artista, mas conheço artistas com mãos nodosas.

Olhei-a não querendo parecer muito impressionado.

Era, quase, uma escultura renascentista onde a beleza dos traços se confundiam com a delicadeza das formas nas proporções certas, nos locais exactos.

-A que devo o prazer da sua visita?

Sentada numa posição quase “cleópatrica”, pernas unidas numa postura estudada e que servia para realçar algo que passa a fronteira do imaginável, pois são perfeitas até nos joelhos onde, em regra, quase todas falham. Mas estas, meu Deus, até nisso eram correctas. Lindas, longas, torneadas e com uns contornos onde os ossos não estragavam o conjunto.

O rosto, meu Senhor o rosto, tinha a doçura de um Anjo, a candura de um bebé e a beleza de uma Afrodite. Era quase irreal.

Olhou-me do alto de uns olhos azuis, penetrantes e com um sorriso foi dizendo:

-Andei-me informando e todos são unânimes em dizer que o senhor é o melhor,
até me dizem que será o Mourinho dos detectives. Preciso dos seus serviços,
preciso muito.

Sorriu e pareceu-me que o Sol tinha nascido no meu escritório.

Rolei entre os dedos um lápis, gesto mecânico que me ficou quando deixei de fumar. Olhei-a tentando descobrir o que se escondia debaixo daquele ar de anjo.

-Minha senhora, não sei se sou o melhor e isso pouco me interessa, cumpro bem para aquilo que me pagam. Se lhe puder ser prestável, desde que dentro da legalidade, estou pronto a ouvir o que tem para me dizer.

Fez como que um beicinho e fiquei sem saber o que fazer, se fugir desta tentação ou se correr para ela e aconchega-la nos meus braços.

Contive as maquinações do meu pensamento, olhei-a bem nos olhos e insisti:

-Bom, em que poderei ser útil?

-Senhor Gilberto, julgo que é esse o seu nome, preciso que descubra quem anda a ameaçar o meu marido:

-Ameaçar, mas ameaçar como? Para esses casos nada como avisar a polícia!

Humedeceu os lábios com a ponta da língua, gesto maquinal mas cheio de uma sensualidade estudada.

-Não quero a polícia, quero resolver particularmente este assunto. O meu marido é um homem muito importante no mundo dos negócios e, como deve saber, nesta situação é fácil arranjar muitos inimigos. A inveja impera e temos que nos manter atentos.

Continuei a rolar o lápis enquanto o meu pensamento tentava enquadrar aonde esta conversa me podia estar a levar. A mulher era demasiado perfeita para estar a falar verdade. Era pedir muito. Tentei o meu melhor sorriso e perguntei:

-Mas porque não é o seu marido a procurar ajuda para este caso?

Fez o gesto de cruzar a perna e o meu coração parou, mas desistiu e o meu coração retomou o ritmo normal.

-Como lhe disse o meu marido é um importante homem de negócios e o trabalho absorve-lhe o tempo por completo, não tem tempo para mais nada.

O meu pensamento não pode deixar de ser um pouco pecaminoso, pois com uma mulher como esta e apenas com tempo para o trabalho era um pouco estranho, mas isto sou eu a pensar pois se calhar ainda lhe resta tempo para mais algumas coisas.

Sorri, um sorriso um pouco amorfo mas foi um sorriso:

-Bom… Vou ficar com todos os elementos para começar. Vai-me deixar um sinal para despesas.

Entregou-me um envelope, perfumado, com todas as indicações e onde juntou um molhe de notas:

-É suficiente para as primeiras despesas? Perguntou com um sorriso capaz de fazer desabrochar uma flor.

Estendeu-me uma a mão gelada e saiu num deslizar de suavidade e sedução.

Abri o envelope, contei os 1.200 Euros, passei um recibo que guardei na carteira e dei um olhar atento pelas indicações que, numa caligrafia miudinha, me eram fornecidas por aquele monumento que acabara de sair.

Nos papéis dizia que era a Senhora Dona Marta Cascudo, casada com o industrial José Maria Cascudo. Nunca tinha ouvido, ou lido, tais nomes mas, possivelmente, era ignorância minha.

As ameaças, eram todas feitas em colagens muito pouco originais.

Guardei tudo na pasta e sai para um jantar rápido.

No Bar do Elias nada de novo.
Balcão corrido onde alguns personagens que pareciam ter saído de algum romance de Raymond Chandler, iam digerindo, em gestos mecânicos, os restos do que parecia ter sido uma refeição.

Sentei-me na mesa do costume, no canto, onde podia observar passando despercebido.

Enquanto tragava, o bife grelhado, fui estudando os elementos que a Dona Marta me deixou. Pouco coisa de interesse, apenas hábitos, horas e locais. Amanhã ia começar, ia postar-me em frente à residência para poder seguir o dia desse Senhor Cascudo.

Paguei e segui para casa.

O dia estava frio e a relento parecia querer roer as nossas articulações. O carro, como sempre com a humidade, só pegou depois de muita insistência. Mas pegou.

O trânsito era o do costume, taxistas acelerados desrespeitando tudo e todos, senhoras e senhores em andar morno provocando filas e todas as tropelias de uma manhã dos apressados a caminho dos empregos.

Cheguei, antes das oito horas, à morada que estava nas instruções mas, estranho, não havia nenhuma habitação no local, apenas uma pequena oficina de bate-chapas, um armazém de hortaliças, um clube nocturno de aspecto um pouco duvidoso e um local de estacionamento onde antes teria sido um edifico.

Perguntei na oficina se estava no sítio certo. Estava no sítio certo mas no local errado. A morada era essa mas ninguém habitava esta rua.

Era estranho, podia ser brincadeira, mas tinha deixado um sinal de 1.200 Euros.

Entrei num café na esquina da travessa. Um par de namorados estavam tão embevecidos a treinar comerem os dois com a mesma boca que tive que me desviar para não estorvar tão bela tentativa.

Ao balcão uma senhora, tão gorda que só se conseguia deslocar de lado, olhou para mim com um olhar tão interrogativo que fiquei na dúvida se também serviriam café, mas tentei.

-Uma bica curta.

Arrastou o corpo de uma forma tão diligente até à máquina que pensei que afinal a gordura era apenas aparente.


-Aqui tem o seu cafezito! É novo por aqui, nunca o tinha visto?

Afivelei um sorriso e respondi:

-Estou de passagem, vinha a ver se encontrava o Senhor José Maria Cascudo mas, devo estar enganado na morada.

-O Doutor Cascudo! Exclamou a mulher.

Senti a esperança renascer e, agora sim, com um sorriso verdadeiro perguntei:

-Sim, sim, conhece?

Olhou-me com uns olhos piscos muito velhacos. Passou a língua, gorda como o resto, por uns lábios ressequidos e com um ar enigmático disparou:

-Conheci sim senhor, foi um bom cliente!

Comecei a ficar um pouco perplexo, a criatura estava-me a parecer por demais enigmática.

-Mas já não conhece?

Sorriu, da forma como só as cascavéis sabem sorrir. Sibilina, enigmática.

-Conheço como se podem conhecer os mortos. O senhor Doutor que morava, na casa que foi demolida, aí na travessa, morreu mais a esposa num grande acidente de automóvel, no ano passado. Não leu nos jornais?

Fiquei confundido, duas pessoas a gozarem comigo num período de 24 horas era demais.

-Será o mesmo?

-Isso não sei, mas com esse nome não deve ser fácil haver muitos.

Parecia lógico, arrisquei;

-Como era a mulher?

Olhou-me com um ar reprovador, pensando sei lá o que.

-Uma cabra, linda e jeitosa como todas as mulheres gostariam de ser, mas uma cabra que não deixava o homem respirar, não o largava um instante. Ciumenta até da própria sombra, mas não lhe valeu de nada. Morreram juntos. Ficaram feitos em carvão, nada se aproveitou.

Fez um trejeito de choro, mas não se saiu nada bem.

Paguei, meti-me no carro e sai disparado. Há coisas na vida que não sei explicar.

-Será que a tipa morreu mesmo?



11 comentários:

Menina do cantinho disse...

ADOREI...
Gosto imenso deste cheirinho a mistério. Muito bom.

Beijinhos

acácia rubra disse...

À despedida a mão estava fria...

Mas e o dinheiro?

Vou pensar no assunto.

Beijo

Luna Sanchez disse...

Ui, que medo da morta! Rs

Manuel, os joelhos femininos costumam pecar? Fiquei intrigada com isso...

Beijo, beijo.

ℓυηα

MH disse...

DIVINO...
Que história tão boa, com aquele toque de sedução e mistério. E quem sabe a dita Sra. não ficou bem viva...
Gostei muito.

Bjnho

SDaVeiga disse...

Pensei que ela ía mandar matar o marido e pôr as culpas no detective, mas afinal já estavam os 2 mortos!!!

Fabulosa a imaginação deste escritor de fazer inveja à Agatha Christie!!!

Boas passeatas!

P.S.: Se precisar de ideias para gastar o dinheiro, é só dizer! ;-)

Sonhadora disse...

Meu querido manuel
Como sempre muito bem contada a história, esta muito misteriosa, adorei.

Beijinhos
Sonhadora

Magia da Inês disse...

Olá, amigo escritor!
E agora?
Quando continua a segunda parte?
De onde veio o dinheiro?
Do além???
Não acredito...
Bom fim de semana!
Beijinhos.
Brasil

evanirgarcia disse...

Olá encontrei seu blog hoje...
Agora que li metade da história gostaria de retonar aqui.
Entrei seguindo vc convido a seguir-me.
www.meudeusetudo.zip.net

AFRICA EM POESIA disse...

Manuel

Nada como a simplicidade. não é de faz de conta que a vida se faz.. eu gosto de simplicidade e dou-me bem com isso...
um beijo grande e espero a direção para o envio do livro.

um beijo...

Ana Odete disse...

Muito bom.
"Mai" nada.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ah manuel, como vc sabe manter um mitério e dar água na boca das nossa almas. Fica um sabor de quero mais!