quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Aquele almoço




Senti um leve puxar no casaco, olhei e ela estava ali.

Olhava-me num ar de súplica, cabelos desgrenhados e com a fome estampada no rosto sujo.

Tinha uns olhos lindos mas de uma tristeza tão profunda que a beleza se transformava numa angústia.

Estendeu uma mão esquálida, encardida, mostrando um monte de pensos rápidos e num murmúrio de súplica pediu:

-Senhor compre uns!

Fiquei naquele jeito de quem fica sem modo de não saber o que fazer e sem firmeza na voz perguntei:

-Tens fome?

Vislumbrei uma ténua luz no fundo daqueles olhos e um leve abanar de cabeça confirmava o que eu pensava.

-Anda, vamos ali aquele restaurante comer!

Vi medo no corpo franzino:

-Mas, senhor, eles não me deixam entrar.

Sosseguei-a:

-Vamos juntos e eles deixam.

Quando entrou parecia um pequeno animal tremendo de medo. O empregado fez um pequeno gesto que acalmou quando viu que a pequena ia pela minha mão e, ficou mais tranquilizo, quando me ouviu perguntar:

-Que te apetece comer?

Olhou tudo e encolheu os ombros.

-Um bife com batatinhas fritas? Perguntei.

Os olhos pareceram querer brilhar e por momentos vi um sinal de vida escondida por debaixo de tanta opressão.

-Pode ser, respondeu a medo.

Olhei-a melhor e vi que debaixo de tanta sujidade havia uma beleza escondida. Um sorriso morto pela vida no rosto amargurado de uma criança.

Reparou que a estava a observar e perguntou:

-Para pagar a comida tenho que fazer coisas ao senhor?

Senti o mundo desabar, apeteceu-me chorar, fugir, desaparecer, esconder-me. Mordi os lábios para acalmar a revolta mas encontrei um sorriso para responder:

-Não minha querida, quando comeres podes ir à tua vida e, se quiseres, dar um beijinho e dizer obrigado, mas só se quiseres.

Olhou-me com uma ternura que não pensei possível debaixo daquela mascara de infortúnio.

-Sabe o meu pai traz homens que fazem coisas comigo e que depois lhe dão dinheiro? Eu não gosto nada!

Percebi um soluço e vi uma lágrima naqueles olhos tristes, um pedido de socorro naquele rosto, um frémito de medo naquele corpo.

Devagar mas com tanta delicadeza ia devorando a carne pegando na faca de forma desajeitada.

-Quantos anos tens? Perguntei para mudar o rumo da conversa.

-Acho que fiz 12 anos, mas não tenho a certeza.

-E a tua mãe?

-Está doente por causa do vinho e parece que tem uma doença má mas eu não sei o nome.

-Tens irmãos?

-Tenho, ou tinha, um irmão pequenino mas as senhoras da Assistência já o levaram. Não sei dele.

Olhou-me com uma leve doçura e percebi que por debaixo daquela sujidade havia uma menina que, também, sabia sorrir.

-Senhor porque me pagou esta comida?

-Vi que tinhas fome e eu precisava de uma companhia para almoçar. Não te importas?

Sorriu mais uma vez.

-Tens filhas? Perguntou muito séria.

-Não, não tenho filhas.

Olhou-me de uma forma estranha e ia começar a dizer alguma coisa, mas arrependeu-se e apenas abanou a cabeça.

Percebi que algo ficou por dizer e insisti:

-O que ias dizer?

-Estava a pensar que se não tem filhas eu podia ser sua filha.

Deu-me um beijo rápido e desapareceu.

Nunca mais a vi.



13 comentários:

Sonhadora disse...

Manuel

Lindo e triste...realidade tão chocante...as lágrimas caiem em silêncio.

Beijinhos com carinho
Sonhadora

acácia rubra disse...

É, infelizmente, esta a realidade das ruas do nosso país.

Simplicidade, ternura, solidariedade e um grande texto.

Beijo

Luna Sanchez disse...

Acho que a menina o adotou como pai, ainda que em um combinado sem palavras.

=)

Beijo.

ℓυηα

AFRICA EM POESIA disse...

Manuel

Primeiro Linda a História que podia ser de cada um de nós se estivessemos mais atentos...

Depois...


O Negro tem os quadrados cinzentos

o branco está mais branco.
O meu livro só vai para as livrarias em Janeiro .
Entretanto espero vender bastantes. mnda-me a direcção que envio-te não pagas portes... e tem dedicatória.
beijinhos

Ludmila Ferreira disse...

Mee sentiii tãoooo em casaa, não com a pobreza mais a tristeza da solidão..

beeijOdalua!

Carla Diacov disse...

sigo seguindo-te!

Adorei aqui!
Tudo...
E também adoraria ver tua honrada visita pelas minhas chafurdadas coisas;
carladiacov.blogspot.com
larcavodica.blogspot.com
odesimundasdoneochiqueiro.blogspot.com
carlacarlacarlac.multiply.com

Menina do cantinho disse...

Fiquei sem palavras... uma realidade tão próxima de todos nós.

Beijinhos

Belo texto*

AnaT disse...

5*****

Magia da Inês disse...

Oi, amigo!
Você sempre me surpreende com suas histórias... cheguei a pensar que a menina ia ter um novo pai e ter uma vida descente...
Amo esse seu jeito de escrever.
Bom fim de semana!
Beijinhos.
Brasil

Elaine Barnes disse...

Como dói essa triste realidade. Felizmente ainda existem pessoas que fazem o bem sem olhar a quem. A solidariedade poderia salvar o mundo se fosse total. Montão de bjs e abraços de Parabéns!

Sylvio de Alencar. disse...

Não é bem o estilo de minha preferência, mas o conto..., a história, muiiiito legal!!!!!!
A idéia, os sentimentos envolvidos, e o desenrolar das coisas, dos acontecimentos: muito bons!!!!

Abrçs.!

Solange disse...

Manuel...

que realidade dura...
mas, naquele instante ela teve um pai... naquele instante...
dói...

beijo querido....

SDaVeiga disse...

Só é pena que não seja pura ficção... :-(

Se todos fizermos um pouco, poderemos fazer a diferença.
E talvez a tempo de evitar mais sofrimento.

Bom exemplo Manuel. É sempre bom dar esperança.