quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Festa




Tinha uns olhos tão tristes como uma chuvosa noite de Inverno e hoje essa tristeza estava mais vincada, hoje a solidão fazia parte dessa angústia sua companheira de todos os dias.

O aniversário é sempre uma data que aviva a memória e em que a reminiscências do passado alimentam a nostalgia que nos acompanha nas noites tristes de Inverno.

Hoje, se ainda alguém se lembrasse, fazia 79 anos mas a família já o tinha esquecido, talvez até não se recordassem bem que ainda existia.

Tudo começou quando se negou a vendar a casa e a ir para um lar, foi nesse dia que os filhos o votaram ao esquecimento como se fosse mais um trapo velho sem utilidade.

Mas isso é coisa que já perdoou.

Nasceu em 1931, ano de todas as lutas, numa pobre aldeia perdida na imensidão da pobreza da planície alentejana.

Neste dia mais um ano se cumpria na sua vida, mais uma etapa no acumular da solidão que todos os dias ia consumindo e, mais uma vez, a esperança que a campainha da porta lhe trouxesse a prenda com que mais sonhava, os netos e os filhos que há muito o haviam esquecido.

O relógio de cuco ia martelando as horas em ritmados cantares e o diáfano manto da noite ia escurecendo, mais e mais, o negrume da alma do pobre
Hipólito.

Todo o dia alimentou a esperança que fosse hoje que os filhos esquecessem a ganância do dinheiro, pela venda do andar, a troco do depósito do velho num lar onde se espera calmamente pela hora.

O dia passou, enxugou com a manga da camisa a lágrima que sem pedir licença escorreu entre as rugas do cansado rosto.

Pensou em comer a sopa, tomar os medicamentos que o prendiam à vida e ir para a cama mas não queria que o seu aniversário, quem sabe o último, fosse assim.

Vestiu o casaco e saiu para o escuro da noite. Voltou uma hora depois, pousou as compras e foi pôr a mesa.

Um bolo de aniversário, o primeiro de há muitos anos, uma garrafa de espumante, pensou em champanhe mas era muito caro.

Encarou os ausentes e fez um discurso, não lhe saiu muito bem, mas disse o que lhe ia na alma.

Abriu a garrafa com um estrondo de circunstância e encheu as taças que tinha disposto na mesa. Partiu o bolo e distribuiu pelos pratos.

Foi o aniversariante e foi os convidados.

Estava feliz, tão feliz que cantou em voz cansada:

- Parabéns para mim nesta data tão triste, neste dia
em que todos esqueceram que o Hipólito ainda existe….

Comeu do bolo e foi vazando, com satisfação, os diversos copos de espumante.

Sentou-se no sofá e adormeceu sem precisar dos medicamentos da Doutora Odete. Dormiu bem e tranquilo.

Sonhou com a mãe que o embalava embrulhado num velho xaile. Andou pelos campos com o pai juntando as ovelhas. Dançou com a mulher que a doença lhe levou. Brincou com os filhos no largo do jardim. Foi buscar os netos à escola. Sorriu numa satisfação que há muito não experimentava.

Acordou com o sol a entrar pela janela.

Olhou a desarrumação, os copos vazios, os pratos sujos de bolo e os restos de uma festa de aniversário.

Soltou uma rouca gargalhada e pensou:

-Oh Hipólito estás mesmo a ficar caquéctico, então os filhos fizeram-te uma festa e não te lembras de nada!!!!!

Sorriu para o dia que lá fora o saudava.








13 comentários:

Menina do cantinho disse...

Mais um texto fantástico, com uma linda história.
Infelizmente, é também esta uma realidade cada vez mais presente neste mundo.
Existe um número assustador de Hipólitos...
O que leva um filho a abandonar assim um pai? Um pai que tantos sacrificos fez para que crescesse com dignidade.
Egoismo, maldade, interesses... onde vamos parar?!

Beijinhos

Sonhadora disse...

Meu querido amigo
Hoje não o leio, venho apenas oferecer o meu selinho de 400 seguidores, que teria gosto que aceitasse.

beijinhos
Sonhadora

Luna Sanchez disse...

Eu chorei.

Que bonito o jeito que o senhor Hipólito escolheu para driblar a dor da solidão...que bonito, Manuel!

Este fica sendo, até agora, o meu texto preferido lido aqui, embora eu sempre goste dos teus escritos.

Um beijo.

ℓυηα

acácia rubra disse...

Parece quase impossível, mas conheço alguém que fez quase o mesmo...

Beijo

SDaVeiga disse...

A ignorância é uma benção...

É triste o abandono a que votamos quem tanto nos ensinou e tem ainda para ensinar.
Queremos tudo novo, do último modelo, e esquecemo-nos que as pessoas não são coisas, que envelhecer é natural e que amar é essencial...

Estou a adorar a sua escrita interventiva!!! Pode ser que alguém se lembre se ir visitar os Hipólitos da sua família depois de ler isto.

Solange disse...

Manuel...

um abraço vale, e vale muito...
seu carinho foi recebido com alegria...

e hoje, me fez chorar... que lindas e profundas suas palavras...

que texto tocante... incrível.

beijo e super abraço

SDaVeiga disse...

Como eu não me esqueço dos amigos que tanto me ensinam, cá fica um prémio: http://pensamentosdaveiga.blogspot.com/2010/12/olha-um-premio.html

Magia da Inês disse...

- Parabéns para mim nesta data tão triste, neste dia
em que todos esqueceram que o Hipólito ainda existe….

Ai, que maldade!!!

Bom fim de semana!
Beijinhos.
Brasil

Magia da Inês disse...

- Parabéns para mim nesta data tão triste, neste dia
em que todos esqueceram que o Hipólito ainda existe….

Ai, que maldade!!!

Bom fim de semana!
Beijinhos.
Brasil

AFRICA EM POESIA disse...

Manuel

Obrigada pelo mimo este numero existe porque tenho amigos como tu...

Não vi a direcção vou procurar...


BEIJOS


A tua história e uma delicia gostei muito dela podemos e devemos tirar vários ensinamentos...


um beijo

Ludmila Ferreira disse...

Oiee meu queeridoo, que saudade de vocee!

Coomo vaii... ? Adooreii seu texto mais uma vez,comoo sempre voce me surpreende.. Sempree me vejoo com lagimas noss olhos quando vejo os teus escritos!

Paarabéns!

Manda pra mim teu email de novo?

beeeijOdalua!

Magia da Inês disse...

Oiiiiiiiiii, amigo!
Tenha pena de nós!!!
Aguardamos outra história... (sou sua fã n° 1)
mas de preferência... daquelas que, quando chegamos na última linha, rachamos o bico de tanto rir...
Boa semana, amigo... com tudo de bom!
Beijinhos.
Brasil

Kimbanda disse...

Olá amigo e estimado MAnuel!

Contados, são mais os aniversários que passei a sós do que os acompanhado. Primeiro foram aniversários muito melancólicos, depois fui-me esquecendo... para não virar Hipólito.

Kandandos