segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma bica curta - Parte3




Acordei com humor de cão. A boca sabia-me a esfregão do chão, os tinnitus nos ouvidos pareciam querer estourar com a minha cabeça. A culpa era do whisky, não devia ter bebido tanto mas precisava de acalmar, os meus pensamentos estavam num turbilhão e precisava de coordenar as ideias. A bebida não foi a melhor solução mas sempre ajudou.

Desde que a minha ex fez as malas e desapareceu, tal como um D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, fiquei para aqui perdido neste casarão. O que me vale é a Dona Carminda que cuida de mim como se fosse dum filho. Trata-me da casa e da roupa e por vezes ainda me mimoseia com uns petiscos para me lembrar de uma vida que já tive.

Tomei um duche, quase frio, na tentativa de que a vida voltasse a este corpo, ajeitei-me o melhor possível e sai para o frio da manhã.

A Joana quando me viu fez sinal de que o meu pequeno-almoço estava a ser tratado.

O café surtiu algum efeito, o cérebro começou, lentamente, a trabalhar e a tentar arrumar as ideias que andavam totalmente tresmalhadas.

O meu velho Dodge esperava por mim e, para minha satisfação, respondeu à primeira tentativa da chave.

Precisava falar, de novo, com o padre, havia informações que só ele me podia dar.

Recebeu-me com o mesmo ar de beatitude, sorriso bondoso num rosto calmo.

-Então filho porque, de novo, na casa do Senhor?

Sorri, estudei as palavras e perguntei:

-Sabe Senhor Padre, preciso falar com os familiares do casal Cascudo e só o senhor me pode ajudar. Disse-me que sabia dos pais e de um irmão da Dona Marta e de uma irmã e do sobrinho do Senhor José Maria. Para poder arquivar este estranho caso preciso falar com todos eles. Posso contar com a sua ajuda?

Pensei que ia ficar irritado, mas não, sorriu e disse-me:

-Não sei se ajudo muito, os pais da Marta vivem numa aldeia próximo de Tomar, já lhe dou o nome exacto, não me lembro bem, espero ter na minha agenda. Quanto á irmã é mais difícil, talvez a Dona Inocência, não sei se conhece, é a senhora do café.
Quando o José Maria estava entre nós ela era o elo de ligação com a irmã. A relação com a cunhada não era boa e era através da senhora do café que trocavam notícias.

Deu-me o nome da aldeia, apertou-me a mão e com muita delicadeza terminou a conversa.

Má sorte a minha, estava outra vez nas mãos daquela mal encarada mulher.
Seja o que Deus quiser!

À porta do café um tipo, com cara de fuinha, tentava acender um cigarro com um isqueiro “bic”, sem conseguir com o vento forte que se sentia.

Arrisquei:

-Amigo porque não entra, será muito mais fácil.

Olhou-me com uns olhos desbotados e, baixando a voz, segredou-me:

-A bruxa não deixa entrar com cigarros.

Sorri e preparei-me para a encarar.

Quando me viu mudou o semblante e esboçou um sorriso:

-Bom dia e bons olhos o vejam. Vem beber uma bica curta?

Fiquei admirado com tão calorosa recepção.

-Venho sim, minha senhora, mas também queria uma informação. Preciso falar com a irmã do Senhor José Cascudo e sei que tem o telefone, preciso que mo diga.

Olhou-me com um ar tão admirado que parecia que o Arnold tinha voltado ao café.

-Bom, e se tiver acha que lho ia dar? Pensa que os números de telefone de amigos se dão assim a qualquer um?

-Vai dar porque se não der nem sabe os sarilhos que eu sou capaz de lhe arranjar!

Olhou-me com uma raiva incontida mas foi dizendo:

-Só lhe passo o número se me jurar que nunca vai dizer que fui eu que o fiz.

Fiz uma cruz sobre a boca e ela percebeu o gesto. Deu-me o número e insistiu:

-Por amor de Deus mantenha-me fora de tudo isto.

Jurei que sim e segui a caminho do meu escritório, precisava ver o correio e de fazer alguns telefonemas.

Este caso estava a ser mais complicado do que à primeira vista me parecia, tinha combinado receber 1.200 Euros no inicio, 1.200 a meio e 2.600 no fim e pelos vistos só o valor inicial estava certo e mal dava para as despesas. Mas que fazer? A vida de investigador tinha destas coisas.

No escritório continuava o odor a “Ralph Lauren” e era estranho que ao fim de tantos dias o cheiro ainda se mantivesse.

Seria a minha imaginação?

Vi o correio, facturas para pagar e publicidade sem interesse.

Tirei o bilhete com número de telefone que a gorda me deu e ia começara preparar uma mentira a ver se resultava:

-Boa tarde! È a Dona Helena Cascudo? Preciso falar, pessoalmente, com a senhora.
Quando me poderá receber? Sim, sou o perito da companhia de seguros e necessito fechar o processo dos seus malogrados parentes e a sua assinatura é indispensável. Amanhã às 11 horas? Óptimo, lá estarei. Confirma-me a morada? Obrigado!

Parece que resultou.

Sai cedo, tinha alguns quilómetros pela frente e continuo com a mania da pontualidade.

Era uma vivenda simpática, ladeada de um jardim com flores amarelas.
A Dona Helena era uma mulher muito interessante e recebeu-me com um sorriso afável:

-É o senhor dos seguros, não é verdade?

Sorri antes de confirmar:

-Sou, para formalizarmos isto fale-me um pouco sobre o seu irmão.

-O Zé Maria foi uma jóia até casar com aquela megera que o absorvia e que não o deixava sequer privar com a família. Antes de casar aparecia por ai, ajudava-nos e presenteava muito o sobrinho, depois de casar só às escondidas é que telefonava, era a Dona Inocência, do café, quem nos servia de intermediária.
Agora o meu mano está morto, coitado, foi uma tragédia.

Fez beicinho e fingiu enxugar uma lágrima.

-Mas, perguntei eu, porque seria que a Dona Marta o afastava de família?

Fez um esgar com os lábios antes de responder.

-Dizia que a família eram sanguessugas que viviam agarradas a ele, eu e o meu Mário nunca o pressionamos para nada, sempre que ele nos ajudava é porque gostava da família e porque podia, a vida corria-lhe bem e gostava de ajudar, de repente tudo acabou, aquela cobra fazia dele o que queria.
Agora, graças à herança nós estamos bem e para eles, infelizes, tudo acabou tudo.

Agora chorou mesmo, vi a lágrima fazer um risco no rímel. Limpou o nariz antes de continuar:

-Casei muito nova e fiquei viúva quando o meu filho tinha três anos, foi o Zé Maria que tomou conta de nós, foi um verdadeiro pai para o Mário. Foi ele quem o criou até aos 16 anos.

Voltei a casar mas a sorte não quis nada comigo e voltei a ficar viúva. O meu segundo marido, bom homem, nunca foi bem aceite pelo enteado e eu sofri muito com isso. Nessa altura, para o Mário, o tio foi um grande apoio até que aconteceu a desgraça.

-Desgraça? Interroguei eu.

Fungou, mais uma vez.

-Sim uma grande desgraça! O meu marido gostava muito de pescar e um dia, ninguém sabe explicar o que aconteceu, o motor do barco explodiu e ele desapareceu no rio.
Só ao fim de três dias encontraram o corpo a uns 30 quilómetros daqui.
Jurei que nunca mais me voltaria a casar e olhe que não é por falta de pretendentes, que os tenho tido, mas acho que os casamentos só atraíram a desgraça. Jurei para nunca mais!

-E o seu filho?

-O Mário está na oficina, ele tem uma firma de coisas da electrónica, sempre foi um apaixonado por essas modernices. Faz comandos à distância e essas coisas assim, é um rapaz muito esperto. Foi com a herança que recebeu do tio que conseguiu.
Se quiser falar com ele é perto está a oito quilómetros, na vila aqui do lado.

-Não é preciso, depois mando o relatório para assinar, menti eu, pois não haveria nenhum relatório.

A viagem de volta foi rápida. Quando cheguei ao escritório o cheiro a perfume era muito mais acentuado.

Em cima da minha secretária estava um envelope com 1.200 Euros e um cartão onde, laconicamente, numa letra desenhada se podia ler - 2º pagamento.

Como era possível, a porta não estava arrombada e a única chave existente era esta que tenho em meu poder. Liguei para a portaria e o porteiro confirmou que ninguém, com o aspecto que lhe indiquei, tinha entrado no prédio.

Não me vou deixar levar por essas coisas do sobrenatural, mas o meu pensamento não deixa de se interrogar:

-Será que a tipa morreu mesmo?



8 comentários:

acácia rubra disse...

Vamos perguntar ao autor?

Se ele for como eu, começo a escrever e não sei como vai acabar, talvez não saiba.

Mas esperemos que lá chegaremos.

Cada vez está mais interessante. Estou a adorar. Já tenho suspeitas mas só...

Beijo

Sandra Botelho disse...

Amigo está cada vez melhor...
Bjos achocolatados

Luna Sanchez disse...

Caso não tenha morrido, ao menos adquiriu (ou sempre teve) poderes, como o de atravessar paredes ou fazer-se invisível, né, Manuel?

=)

Beijo.

ℓυηα

SDaVeiga disse...

Oh pá, que isto é melhor que novela brasileira!!!

Eu em vias de largar a cafeína totalmente e vem-me este senhor viciar nas bicas curtas!!!

E nem com a alergia ao cheiro a perfume eu desisto!!!
;-P

QUERO MAIS!!! QUERO MAIS!!!

Elaine Barnes disse...

ôh amigo , não li as outras,mmas, esta sim, fica difícil pra eu entender. Com calma lerei as outras. Por hora, achei muito bem descrito e interessante, prendeu-me a atnção.
Tem um post lá nos olhos da coruja amigo, se puder...
http://nosolhosdacoruja.blogspot.com/
Montão de bjs e abraços cheios de carinho

AFRICA EM POESIA disse...

MANUEL


É Natal
um beijo e sou uma Sonhadora ainda acredito que um dia vai ser natal para todas as crianças...

MAGIA


Natal...
Palavra mágica...
Só em Dezembro...
Porquê Natal?...
Porque não...
Todos os dias?...

Vamos fazê-lo...
Vamos parar...
Vamos pensar...
E ver que cada um...
Se olhar ao seu redor...
Todos os dias...

Pode fazer...
Sempre Natal!...


LILI LARANJO


O meu livro já saiu...

Magia da Inês disse...

♥ Olá, amigo!♫
♫♥ Que rolo, hem?... Mais dinheiro do além!!!
♫♫ Beijinhos. ♥♫
♫♥ Brasil
♫♫♫♥

acácia rubra disse...

Bom Natal!

Beijo