domingo, 16 de outubro de 2011

Quase um conto infantil






Tinha um ar de princesa, um sorriso de anjo e a beleza de uma Afrodite.

O nariz, um pouco arrebitado, dava-lhe um ar traquina que as duas covinhas na face acentuavam.

Os olhos eram grandes e profundos mas possuídos de uma tristeza que o sorriso nos lábios não sabiam disfarçar.

Quando nasceu, há 19 anos, todos pensaram que não iria vingar, prematura e tão frágil, que a família quando espreitava a incubadora ficava convencida que a menina não passaria desse dia.

Quiseram os desígnios do destino que aquele bebé, tão fraco, se transformasse numa bela moça de olhos tristes.

*****

Quando fez 15 anos, uma doença, estranha e misteriosa, tomou conta dela de tal forma que o padre lhe chegou a dar a extrema-unção, mas de um dia para o outro, o rosto voltou a tomar cor. Não conhecia os pais, olhava-os de uma forma estranha e começou a falar uma língua desconhecida e que ninguém entendia.

Fixava os que a rodeavam como se não estivessem ali, não os percebia e não se fazia entender.

Arengava em palavra estranhas, frases entoadas em sons semelhantes a estalidos doces e musicais que se perdiam, sem que os que a escutavam conseguissem perceber algo do que dizia.

A família, desiludida, desistiu da medicina e enveredou pelos bruxos, curandeiros, pais de santos e a todos os que apregoando poderes e sabedorias iam fazendo rezas, mesinhas, imolações, sacrifícios e tudo o que a imaginação lhes permitia, para ir esvaziando os bolsos dos pais da Marcela.

Um dia, no meio de uma sessão mais emotiva, saltou com uma fúria que ninguém esperava e esgatanhou barbaramente a cara do curandeiro que fugiu, espavorido, com a face fortemente dilacerada.

Depois voltou para a cama e adormeceu num sono calmo e tranquilo.

Quando acordou estava serena, de nada se lembrava, nem da doença, nem da agressão e muito menos da língua estranha que, diziam, que tinha falado.

Havia, no entanto, algo que não se atreveu a contar, ouvia os pensamentos dos outros e sabia o que ia 
acontecer. Era estranho perceber que o futuro lhe estava sempre tão presente.

************

O tempo estava agreste e o vento, com fúria, fazia estremecer os estores das janelas, enquanto a chuva fustigava impiedosamente os que se arriscavam.

Marcela espreitava através dos vidros os que, afoitamente, se atreviam a enfrentar a borrasca que com tanta violência se tinha abatido.

Olhava e os seus sentidos iam antevendo as agruras e as alegrias dos que se arriscavam a cruzar a rua.

Aquele ali, tentando segurar um guarda-chuva que o vento tentava roubar, ia imaginando o que iria dizer a uma colega que tinha erigido como dona do seu coração.

A idosa, encolhida na porta, esperando uma aberta, pensava no frigorífico vazio e nas goteiras que neste momento pingavam no cubículo onde parecia viver.

Na esquina um homem pensava de forma estranha, gostava da mulher e ao mesmo tempo desejava que partisse e o libertasse do fardo da doença que a apoquentava. Já tinha pensado em trocar a hora dos comprimidos ou, mesmo, esquecer alguns de forma a libertá-la do sofrimento e, a ele, de um fardo que apesar de todo o amor, se estava a tornar muito pesado.

Marcela perscrutava todos estes pensamentos e sentia todos os dramas e chorava baixinho sabendo que nada podia fazer.

*****

Acordou com um ruído estranho no seu quarto, algo de etéreo, resplandecente de luz e que pairava como uma nuvem.

Uma melodia suave, enchia de doçura, enquanto fragrâncias que ultrapassam a imaginação deixavam caricias que inebriavam.

Uma voz, tão suave como uma pena deslizando numa suave brisa, clamou:

-Marcela és a eleita e a força do Senhor está contigo. Tudo o que quiseres será feito.

Depois, a miragem diluiu-se em mil estrelas iridescentes que se esfumaram como por encanto.

******

Acordou pela manhã com a estranha sensação de que, a partir de agora, a sua vida mudaria e que tudo iria ser diferente.

Espreitou da sua janela os dramas da rua, mas o apaixonado não estava, a idosa tinha desaparecido e, até o marido que desesperava, com a doença da mulher, estava ausente.

Olhou na procura de dramas para dar a sua ajuda mas, todos pareciam felizes com o sol a brilhar, os rapazes corriam alegremente atrás de uma bola colorida, as meninas saltavam à corda numa alegre algazarra e os velhotes na esplanada do café olhavam de soslaio as mini-saias que passavam.

Todos pareciam felizes e sem problemas.

*****

Marcela estava triste porque tinha poderes mas não tinha onde os usar. Entrou em depressão, deixou de ouvir os pensamentos dos outros, tornou-se agressiva e caiu, novamente, num sono profundo.

Um dia vai acordar novamente.

Que nos reservará?



22 comentários:

Evanir disse...

Não se permita entristecer,
Mostre a todos o valor do seu sorriso
aproveite esse Dia para ser feliz
Faça chuva ou Sol estarei sempre aqui para dizer
que te amo.
Um lindo final Domingo.
Beijos no coração.
Evanir

Gina disse...

Voltará com 'um ar de princesa, um sorriso de anjo e a beleza de uma Afrodite.' Com estes atributos depressa se apaixonará... E perderá todos os poderes. Será uma pessoa normal... e feliz.

Gilmara Wolkartt disse...

Uma beleza de conto,apesar do final triste.
Gd beijo

acácia rubra disse...

Talvez por ser "quase um conto infantil", baralhou-me.

Ando baralhada. Não foi o conto, não.

Beijo

Adelaide disse...

Caro Amigo Manuel,

Não quero que fique na escuridão quando vem ao meu blog de Alemão.
Eu gosto mto de línguas mas tenho andado um pouco parada. Porque não visita o meu blog CREPÚSCULO "mara511.blogspot.com" Aí não fica na escuridão, pode crer...Mas, se encontrar algo que está mal diga que eu até agradeço. Tem-me visitado muito pouco, por isso, estou quase a ficar zangada...ai! ai!

Sua amiga
Adelaide / Adel

Janita disse...

Olá Manuel.
Este conto "quase infantil" está muito bem contado, como todos os que conta.
A mim fez-me lembrar um pouco dois filmes que já vi há muito tempo.

Um, aquele com o John Travolta "Fenómeno" em que ele de um dia para o outro começa a falar diversos idiomas sem nunca antes os ter aprendido. Até umas frases em português o ouvimos dizer. O outro, um cujo título não me lembro, com o Mel Gibson que lia o pensamento das mulheres.

Peço-lhe desculpa por esta divagação, mas quem sabe eles não lhe tenham servido de inspiração?

Os estados depressivos são terríveis e o Manuel aborda temas muito sensíveis.
Parabéns pela capacidade de o fazer tão bem.
beijos.

Janita

Vivian disse...

...Manu querido,
não me encontrastes lá
em casa,
mas eu vim deixar beijinhos
desde um Brasil primaveril.

muahhhhhhhhhhhh

parole disse...

O "quase" muda tudo.Faço a mesma coisa quando nada dá certo... vou dormir e saiba que melhora.rs

Adoro ler suas histórias bem contadas.

Beijos, querido.

✿ chica disse...

Puxa, lindo e de uma grande profundidade teu conto...

Ter poderes e não poder usá-los... Faz pensar...abraços,chica

Edilene disse...

Bom demais o drama de Marcela, meu filho pediu que lesse em voz alta, e se encantou com os poderes de Marcela! : Que bom se pudesse ler os pensamentos das meninas da escola e da professora! Grande Beijo!

Vinicius.C disse...

Muito bom meu amigo, esse quase é inteiro- adorei!

Que vc tenha um ótimo dia- espero por vc no Alma!

Guma Kimbanda disse...

Como, Marcela não ficar apreensiva?
Se tudo à sua volta estava tão tranquilo, todos com um ar feliz.
Alegria e felicidade são um estado de graça, como tal não dura muito.
Quem dera quando acordar, ouvir somente seus pensamentos, que já é algo que dá "pano para mangas".

Excelente narrativa, que me fez recordar, que hoje em dia olho, observo, contemplo e me ouço a dizer repetidamente:)
"Que estranho".

Kandandos amigo Manuel e obrigado pela sua companhia que muito aprecio.

Vivian disse...

Manuel!

Mas que conto surpreendente!!
Fiquei toda arrepiada!!
Tai um dom que é um fardo carregar...
O que acontecera quando ela acordar??!!
Teu talento sempre me encanta, meu amigo!!
Beijos pra ti!

Sandra Botelho disse...

Oi amigo, to de volta...hehehehe! Consegui encontrar nesses bares da vida, sentada num cantinho, palida e triste, a minha inspiração.
Tomava um martine, e fumava um cigarro, nos olhos uma tristeza indolente lhe deixava a face vazia. Um barzinho mais ou menos, onde o cantor alcoolizado de olhos vermelhos cantava, Não se váaaaaa!. Quando ela me viu, do canto dos seus labios vi surgir um quase sorriso sabe? Daqueles que querem ,mais não querem sorrir?...Tirei ela dali, pelas mãos, a levei pra ver o mar, pra voar, pra sentir o gosto doce de um beijo e o sabor ardente dos desejos.
Aquela mulher que antes parecia farrapos voltou a se iluminar, jogou o copo fora, apagou o cigarro e voltou pra mim. Estamos nós duas lá no Meu Aconchego.
Te espero, por lá tá?
Bjos achocolatados

Evanir disse...

Hoje minha visita é para anunciar
uma novo circulo de minha vida.
Continuarei com as homenagens
que é a razão do blog (A VIAGEM)
A imagem escolhida por mim no novo visual
tem tudo a ver com o futuro, não só do blog,
mas da surpresa que a qualquer
momento será anuciada no blog.
Hoje sou parte da vida de cada
pessoa amiga e tão amada por mim,
também sou membro do Clube dos Novos Autores.
Com muita alegria convido você a paricitipar com
todos nós do clube também.
Minha Viagem prossegue amando e acarinhando todas
minhas lindas amizades.

Deixando um pedido muito importante para mim.
Eu não estou deixando vocês ,
E sim, entrarei na casa de cada um de vocês.
Conto com o carinho de sempre em meu blog,

Esteja comigo como sempre estiveram
Deus estara com você e comigo.
Segure nas mãos de Deus e na minha e vamos nessa
Deus já abençoou.
Com carinho.
Evanir
um feliz final de semana

BlueShell disse...

Ouvir os pensamentos do outros e nada poder fazer...é (devia ser) exasperante... caíu num sono profundo: talvez seja melhor assim.
E quando acordar, se acordar...logo se verá...pode ser aé...que tido tenha voltado ao normal...ou não!!!

Pazer te ler, sempre!
Bj
BShell

Sonhadora disse...

Meu querido Manuel

Como sempre os teus contos são de uma clareza que quase que entramos pela história.

Deixo um beijinho com carinho
Sonhadora

AFRICA EM POESIA disse...

Vim deixar beijinho
Vim dizer que...


segunda dia 24 ás 17horas estou em Alvalade Loja verde para sessão autógrafos do meu livro Sporting em poesia.

gostava de te ver lá.

Vou tentar ver os amigos que vivem longe de Aveiro...e tenho um livro que quero assinado pelos Amigos

Depois vamos ao jogo..

vou cedo para Alvalade

SDaVeiga disse...

Muito bonito, mas não me parece que seja o fim adequado. Se uma mulher consegue suportar a dor dos outros, sofrendo com eles, não haveria de se sentir feliz com a sua alegria, pois é capaz de a partilhar também?!?
E entrava em depressão por isso e só ao fim dum dia, quando havia aguentado tempos infinitos de sentimentos tristes?
Nááááááá!!!
Ela só ficou esgotada de usar os seus poderes, pois o Sol a brilhar e a felicidade de todos foram obra dela e ela nem se deu conta! Só adormeceu para aprender a lidar com os poderes adequadamente, mais nada! De certeza!!!
Assinado: Optimista de serviço!!! ;-P

Sandra Botelho disse...

Um conto de fadas lindo de viver e de ler.
Amei amigo o conto.
Bjos achocolatados

SOL da Esteva disse...

Manuel

Entendo bem (muito bem) os teus Contos; vejo-lhes o fundo de verdades ancestrais que eu "via" na minha aldeia; e os "casos" eram contados e ouvidos pelas crianças que éramos, com sofreguidão e curiosidade.
Muito bem ornado de pormenores e com o fim nas expectativas do leitor.
Parabéns

Abraços

SOL

。♥ Smareis ♥。 disse...

Oi Manoel muito bonito seu conto.Mas o final foi meio triste, tem um talento pra escrever contos incrível. . Beijos e ótima semana.