segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Golpe






Quando quis reagir já era tarde e apenas sentiu o impacto forte de um punho que o deixou incapaz de qualquer defesa. Sentiu como se um raio lhe tivesse paralisado o cérebro, um zumbido de abelhas enevoou-lhe os pensamentos, as pernas bambaram como canas fustigadas por vendaval, depois sentiu a calçada aproximar-se e parar com estrondo no seu rosto.

A muito custo abriu um olho mas o mundo girava tão rápido que o voltou a fechar e ficou à espera que a vida voltasse, de novo, ao seu corpo.

Quando, finalmente, abriu os dois deu conta que era o centro da atracção, sentiu-se como um Menino Jesus, rodeado pelo burro, a vaca e meia dúzia de camelos que o olhavam como se fosse o homem elefante.

Dobrou uma perna, depois a outra, joelhos e mãos no chão e levantou-se. Passou a mão no queixo e sentiu a dor.
 

Olhou em redor mas apenas rostos difusos, manchas diluídas pelos raios de Sol que lhe encadeavam os olhos se fixavam na figura central desta comédia. 

A pouco-e-pouco foi voltando à vida, as ideias começaram a clarear e os rostos a ficar mais definidos. Olhou intensamente todos os que o rodeavam na esperança de lobrigar quem tão bárbara e traiçoeiramente o tinham atingido.

Alguém, bondosamente, lhe estendeu uma mão para o ajudar a levantar. Era um homem, ainda jovem, que com a ajuda doutro amigo lhe colocou o braço nas costas e com muito cuidado o ajudou a levantar e o deslocou para que ele se pudesse sentar na berma do passeio.


-Que me aconteceu, alguém me pode explicar o que e quem me atingiu?

Ninguém sabia nada, diziam eles, só se aproximaram porque o viram mal tratado e estendido no meio do chão.

Esfregou o queixo, abanou a cabeça na esperança que deixasse de chocalhar o turbilhão de sons que o atormentavam.

Aos poucos as pessoas foram-se dispersando, cada uma comentava à sua maneira, sem na verdade ninguém saber o que tinha acontecido.

Foi recuperando energia, procurou o telemóvel para pedir ajuda à família mas não o tinha, procurou a carteira que, igualmente, desaparecera.


******


Os dois jovens, que tinham ajudado a vítima, foram os primeiros a desaparecer da cena.

O mais velho sorriu e gracejou:


-Um IPhone e uma carteira, com trezentos Euros, nada mau para este trabalhinho.




11 comentários:

acácia rubra disse...

Infelizmente é uma coisa que tem vindo a verificar-se. Apanhamos com murros vindo de não se sabe de onde nem de quem...

Inesperado este desfecho.

Beijo

Jacque disse...

Ótima postagem, Daniel... Obrigada pela visita...

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manuelamigo

Venho cá pela primeira vez, o que é um tudo nada diferente do que disse in illo tempore, o Thomas: Venho cá pela primeira vez, desde a última em que estive cá...

Venho e gosto. E pasmo com esta estória bem contada; «Um IPhone e uma carteira, com trezentos Euros, nada mau para este trabalhinho.»

Dá que pensar. Mas, é o retrato, não é, é sim um retrato da época em que vivemos. Obrigado por esta dádiva que me (nos) fazes

E agora, até à minha Travessa, que será também tua quando lá fores. E olha que já te sigo. Amor com amor se paga...

Abç

Palavras disse...

Oi meu caro,

Quem sabe contar é outra coisa!

Delícia de crônica!

Abraços

✿ chica disse...

Bem contado fato que infelizmente acontece nessas "ajudas"...abraços, lindo dia,chica

Fatima disse...

Que coisa né Manuel!
Acontece muito por aqui tb.
Bjs.

SOL da Esteva disse...

Manuel

Ficam sempre as expectativas de se conhecer o caminho que segues!...
Muito bem arquitectada e com tanto de imprevisível como de surpresa final.
Ajudas? Ai, que ajudas destas ninguém as desejará.
Bem explorada a trama.

Abraços

SOL

Vivian disse...

Olá,Manuel!!

Ah!!Meu amigo...o pior é que acontece tanto!!!Mal intencionados e oportunistas!!
Beijos pra ti!!!
Obrigada!

Magia da Inês disse...

♡°
º✿
º° ✿
Aiiiiiiiii... que horror!!!
É assim mesmo!
Beijinhos.
Brasil
✿♡°

Janita disse...

Olá Manuel.

Mas que história bem arquitectada esta!
Os murros chegam quando menos se esperam e podemos ficar KnockOut em três tempos.
Agora, a grande golpada vir da ajuda, é obra!

Parabéns, Manuel! Sempre a surpreender-me.

Um beijo.
Bom fim de semana.

Janita

Sandra Botelho disse...

É meu amigo, a vida humana tem o valor de alguns tostões.
Isso é triste...
Bjos achocolatados