terça-feira, 20 de março de 2012

Marcela

Para todos, hoje, dia mundial do Blogue.




Desceu a rua devagar fingindo uma indiferença que não sentia. Olhou, quase de forma casual, a janela da Marcela como se isso não fosse o motivo desta passagem.

Andava meio doido, pensava nela de uma forma tão imensa que até parecia que estava impregnado do seu cheiro.

Olhou a montra do café, sem grande esperança, mas podia acontecer ela estar lá, mas não, só o senhor Ascenso ao balcão ia ajeitando os bolos na vitrina. Podia entrar e perguntar se a tinha visto hoje mas  podia parecer mal e tornar as coisas mais difíceis.

Ela não simpatizava com ele e já o tinha feito sentir. Foi no baile, da Sociedade os Amigos do Grilo, que a convidou para dançar e ela com andar de desdém o enxotou com um:

-Dá à sola menino e desempara-me a loja faz favor!

Adérito ficou triste mas aceitou a frase como um desabafo, afinal nunca tinham sido apresentados e uma menina tem que saber manter as distâncias.

Ia ser persistente e quando ela se apercebesse das suas boas intenções ia ter, de certeza, um comportamento diferente.

***

Pensou fazer uma serenata, mas aqui na terra era capaz de ser um pouco insólito,  pois as pessoas um pouco conservadoras reagiam mal a tudo que fosse inovação. Mas como em tudo na vida há sempre um primeiro dia para começar.

Ia escrever uma cantiga, não sabia bem como, pois nunca fizera nada do género, mas como já havia dito, era preciso iniciar.

Pensou que o nome da sua amada não era fácil de rimar, pois para Marcela apenas lhe vinha à cabeça vitela, o que diga-se não parece nada apropriado, nem fivela e muito menos morcela.

Ah lembrou de repente que bela podia  servir para a cantiga. Talvez assim:

Marcela estou à luz da vela
Com o coração meio partido
A pensar em como tu és bela
Eu podia ser teu marido

Podíamos mesmo casar
Oh meu amor...meu amor
Não posso assim mais andar

Pensando em ti minha flor

Oh meu amor...meu amor
Oh meu amor desgraçado
Oh meu amor...meu amor
Tenho coração destroçado



De facto era difícil encadear esta rima de forma a impressionar a sua eleita, tinha que ser algo de especial, quase mágico, que a entontecesse, frases em que a paixão fosse tão evidente que a sufocasse.

Bem tentou mas a sua inspiração não ia além de um pobre verso de pé quebrado um pouco piegas, reconheceu, mas nem todos podem ser poetas. Ele, Adérito, era abegão e perito na sua arte.

Prantou-se frente ao espelho e fazendo ritmo com uma caixa de fósforos meia cheia ou, se preferirem meia vazia, entoou de forma esganiçada

Oh meu amor....meu amor
Não posso assim mais andar


O pobre cão não estava à espera e não suportou, latiu e fugiu desesperado antes que a casa desabasse.


Tomou nova posse e insistiu

Marcela estou à luz da vela
Com o coração   .......


A caixa de fósforos tentava, em vão, seguir o ritmo sem o conseguir, não por culpa dela, mas porque os soluços da voz não permitiam afinar qualquer som.

***

Levou quase toda a noite, estou estilos, poses e até chá de perpétuas roxas para aclarar a voz. Quando o cansaço venceu adormeceu em sonhos de Romeu sem Julieta, em serenata ao som de bandolins que traziam nos trinados dos acordes uma Marcela levitando como uma pétala de rosa que docemente ia poisar nas suas mãos trémulas.

***

Era sábado, o dia estava cinzento, nostálgico, quase feito para o amor.

Adérito sentiu a mensagem, o chamamento, o momento. Sabia que tinha chegado a hora.

Ao cair do dia ia avançar, tendo o lusco-fusco como aliado. Tomou posição debaixo da janela da sua eleita, os fósforos estavam prontos na caixa meia cheia, ou meia vazia.

Começou a aclarar a voz,  nuns arranques libertadores dos resquícios do tabaco, quando num repente São Pedro, talvez para não assistir ao assassinato das musas, abriu as comportas e o diluvio caiu impiedoso sobre os fósforos deixando a caixa empapada e a pingar.

Adérito, tal como a caixa, parecia uma esponja a gotejar.

Olhou com tristeza para a janela e pensou que não valia a pena, o destino não deixava.

Se tivesse coragem ia comprar uma corda.
Mas a paixão não era assim tanta.
Ia aguentar.





20 comentários:

Fátima disse...

Ah Manuel!
Vc é mesmo um grande escritor!
Parecia que eu estava ali em uma daquelas janelas assistindo ao seu amor!
Bjs.

✿ chica disse...

Lindo...E na certa, Marcela nem merecia aquele amor...abração,chica

Evanir disse...

O Poeta é um fingidor,
finge tão completamente que chega a
fingir que é dor a dor que deveras sente .
*Fernando Pessoa*
Um Feliz Dia Internacional Da Poesia
Creio Que Existe Em Todos Nos Um
Cantinho De Poetar No Coração.
Mais Esse Dom Não Foi Dado
A Todos.
Um Abraço Carinhoso Pelo
Dia Internacional Do Poeta.
De Um Dia Tão Importante Para Todos Nos.
Tem Um Mimo Na Postagem .
Caso Gostar Foi Feito Com
Muito Carinho.
Beijos e Beijos.
Evanir.

Smareis disse...

Manoel,

Você tem uma forma divina de escrever.
Que paixão...! mais São Pedro até que foi bem camarada com Adérito, e esfriou os pensamentos dando um belo banho frio kkk.Ele devia saber que a paixão não era assim tão grande...

Adorei amigo, sempre muito agradáveis seus contos.

Abraços!

Luís Coelho disse...

O amor tudo suporta: desprezo, chuva indiferença, arrogância e até maus tratos.
Um amor verdadeiro nunca desiste daquilo que ama e só mesmo esse amor justifica todos os passos, preocupações e trabalhos...

Uma leitura agradável e quanto ao nome Marcela - não combina lá muito bem em poesia.

PERSEVERÂNÇA disse...

Querido amigo, agradeço pela visita tão delicada,
Bjs no seu coração
Nicinha

Edilene disse...

Adorei. Bom saber a hora de desistir. Adorei o conto. Uma delicia vir ao seu blog, nele viajo com você. Beijos e muito obrigada pelo seu carinho.

acácia rubra disse...

Como os ensaios nunca saem como a representação final, Manuel, adorava ver com teria saído a serenata. Mas o S.Pedro, senil e pouco dado a amores, estragou tudo.

Pobre apaixonado...

Beijo

Sonhadora disse...

Meu querido Manuel

Como sempre adorei, e fizeste-me lembrar um poeta que havia na Amareleja, que escrevia assim:

Os olhos do mê amori
São duas rodas dum carro
Prantam-se no meio da rua
Não deixam passar ninguém

Quanto à tua história...digo apenas que gostaria de ler um livro teu com todos esses pedaços de vida que contas tão bem.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Luís Coelho disse...

Marcela não é nome poético nem se combina com nomes mais populares ma saboreia-se como outras frutas ou até mesmo a rica morcela de arroz.

Bonito texto onde a imaginação não tem limites.

Menina do cantinho disse...

Sofrer por amor... ai como eu o entendo. Mas lá se vai aguentando

SOL da Esteva disse...

Manuel, Meu Amigo

Há "fados" e Fados. Decididamente o Adérito não era fadado. Nestas coisas do Amor há que contar com a reciprocidade e se não há empatia...
"(...) -Dá à sola menino e desampara-me a loja faz favor! (...)"
Boa!

Abraços

SOL
http://acordarsonhando.blogspot.pt/

Mel disse...

Coitado, nem o cão o suportou... ainda bem que choveu e ele não passou carão na frente da amada.

Sempre deliciosas suas histórias.

Beijinhos.

Vivian disse...

Olá,Manuel!!

Ah!Meu amigo, que texto maravilhoso!!!
Mas ainda bem que a paixão não era tanta para a corda!
É sempre um prazer ler-te!
Beijos!!Boa semana pra ti!

Magia da Inês disse...

Nem a caixa de fósforos e nem a corda iam aguentar o tal do Adérito... também com um nome desses!....
Adorei a narrativa e fiquei esperando até o último momento que o mocinho fizesse alguma coisa!...
Você é um mestre na arte de prender a atenção.
Boa semana!
Beijinhos.
Brasil

♫♫.•*¨*•♫♫¸

Guma Kimbanda disse...

Olá amigo Manuel,

Hoje está a ser possível entrar na rede e poder matar saudades lendo, já que escrever não me tem sido possível.
Um prazer enorme aqui vir, pois o Manuel é um contador de estórias nato. Assim como alguém já aqui disse e não é a primeira vez, o Manuel deveria pensar a sério em compilar uns contos e disponibilizar aos amigos e leitores a possibilidade de ter em livro o prazer de o ler e reler.
Até lá vamos contentando-nos em lê-lo nesta janela que nos aproxima e mantém laços de grande amizade e admiração pela sua obra.
Grato pela sua companhia e partilha, deixo o meu sincero kandando e voltarei com gosto sempre que a oportunidade o proporcione.
Inté amigo Manuel.

rosa-branca disse...

Olá Manuel, gosto do seu nome. Era o nome do meu pai. Mais um maravilhoso conto o qual adorei e mais uma vez errei o final da história. Talvez ela não merecesse aquele amor tão puro. Adorei. Beijos com carinho

Palavras disse...

Amigo,

é muito bom vir aqui te ler!
É um exercício para os meus olhos!

Grande abraço

Leila

Evanir disse...

Hoje é aniversário de uma amiga
muito especial para mim.
E para todos nos blogueiros caso não a
conhecer o endereço dela esta na postagem do blog.
Que tal deixar seu carinho a essa pessoa
tão especial?
Uma linda tarde beijos no coração.
Evanir.
A aniversariante é a Marcia Luconi.
Saudades Amigo!!!

Smareis disse...

Manoel, o amor sempre faz a diferença na nossa vida.
Passei pra ver as novidades e deixar um abraço!

Grande abraço amigo!