quarta-feira, 23 de maio de 2012

Pas de Deux






Era um amor feito de coisas velhas, estranho, desbotado pelo tempo, mas era um amor, embora impregnado de mistérios e camuflado em beijos amorfos e sentimentos que há muito tinham morrido.

Nem sempre foi assim, pois começou numa tarde amena de Primavera ao som de um slow que obrigava a cingir os corpos em passos vagarosos e sensuais numa "salle de danse" em Paris.

Depois foi o encanto de tardes de mãos dadas, noites intensas em plenitude de corpos fundidos em arroubos de desejos incontidos.

Tardes no Melody, ao som de uma imitação de Jaque Brell, no lamento de um fastidioso “Ne Me Quites Pas”, sorvendo em pequenos goles um intragável Bacardi como se fosse a melhor bebida do mundo. Ela, na saia travada, ajeitava as pernas escondendo dos olhares dos homens, que à socapa, iam mirando as coxas firmes e generosamente expostas. Ele, intelectual vanguardista, citava frequentemente Cesar Vallejo como se nas palavras conseguisse arranjar remédio para a falsa dialética com que se arvorava no caminho da cultura.

Casaram numa manhã de chuva, no Consulado, perante a autoridade e quatro acompanhantes, dois militantes de um partido ecologista, a Paulette empregada da pensão e o namorado, um português transmontano, dono de um pequeno bar.

Não houve lua-de-mel, não era necessária, pois já andavam há muito nesse enlevo.

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Foram dois meses de encanto, longos passeios ao longo do rio que lavava as margens da cidade.

Os serões eram passados em tertúlias onde se discutiam “Les nouvelle vagues”, se bebiam Pastis e se recitavam versos de Neruda, Borges e Rimbaud. As gargalhadas confundiam-se com o cheiro do canábis que iam inalando até o entorpecimento tomar contas dos corpos e toldar os pensamentos. Matilde assistia, primeiro, na curiosidade da descoberta, dos falatórios que não percebia, dos versos que nada lhe diziam, das discussões pseudo-intelectuais sobre liberalizações, globalizações e outras coisas que não entendia. Depois foi o enjoo daquela bebida onde o sabor de anis lhe deixava um travo acre na garganta, o adocicado e enjoativo cheiro daquela maconha em que iam imbuindo a mente na procura de uma liberdade que os prendia.

As noites mágicas perderam a magia e passaram a ter a monotonia das processionárias.

*****


Deixou de acompanhar o marido, tinha náuseas e tédio dos velórios em que se tornaram as noites macambuzianas, das retóricas, dos cheiros e das palavras soletradas por desenraizados na procura de algo que nem eles sabiam bem o que.

Matilde começou por passar as noites só, depois com Paulette, ia até ao bar do transmontano. As pernas, na saia travada, continuavam a prender os olhares gulosos que em sorrisos as iam conquistando e, ela, começava a apreciar toda essa embasbacação.

Depois foi fácil, a troca de olhares, as conversas em redor de uma bebida, as mãos que se tocavam numa casualidade provocada, o sortilégio dos homens que se diziam sós e carentes.

Eram sortidas rápidas mas o suficiente para restabelecer  o equilíbrio e a estabilidade.

*****

Matilde e Balduíno continuam o seu amor.

Ele, durante o dia, dorme na ressaca do Pastis, do entorpecimento da erva e da interiorização das prédicas das noites “tertulianas”.

Ela, passeia pelas cosmopolitas ruas de Paris. 

À noite encontram-se no quarto da pensão, cruzam-se antes das suas missões.

Trocam um beijo cansado, amorfo e desbotado, um beijo do que resta do amor.

Eles continuam a amar-se, num amor estranho, desbotado pelo tempo.

É o seu amor.


18 comentários:

Parole disse...

No começo tudo é bom, depois vem o enfado, as conversas que não chegam a lugar algum, o fingimento pelo que resta de algum amor e a pergunta: o que estamos fazendo aqui? Uma pena, pois parecia que eles seriam muito felizes...

Nunca me canso de repetir... maravilhoso te ler, querido.

Beijinhos.

quem és, que fazes aqui? disse...

Para além de todo o texto que revela o cansaço de um casamento e de duas vidas divergentes, gostei, sobretudo do final

"Eles continuam a amar-se, num amor estranho, desbotado pelo tempo.

É o seu amor."

É sempre estranho este amor que consegue agarrar- se ao desbotado do tempo...

Beijo

Laura

✿ chica disse...

Lindo,amor que se transformou com o tempo, mas sempre amor!! abração,chica

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manuelamigo

És um exemplo de como escrever bem; este texto sobre o amor que restou, interpretado por um dueto estranhíssimo mas compreensivelíssmo, é um primor.

... e não se trata de troca de galhardetes: muito simplesmente tu gostas do que eu escrevo, eu gosto do que tu escreves. Obrigado

Abç

Já to pedi na nossa TRAVESSA: manda-me o teu imeile para o meu hantferreira@gmail.com

Janita disse...

Olá Manuel.
Uma estória que tanto poderia ter acontecido nos anos sessenta como no ano 2000.
Quantos amores se vão prolongando, amorfos, sem desejo nem paixão e desbotados pelo tempo?
Permita-me discordar numa coisa:
"Ne Me Quitte Pas" de Jacques Brel, somente poderia ser fastidioso se ouvido numa imitação muito grosseira.

Um beijo.
Janita

SDaVeiga disse...

Apesar de trágica, é bonita esta história.
Só que eu não chamaria "amor" ao que eles têm, mas sim "rotina"...

Beijinhos

Centelha Luminosa disse...

Ah, meu querido, como gosto dos teus textos. Eles tem os ingredientes certos pra que eu mergulhe neles, visualizando cenas, ouvindo vozes e sussuros...
É...todo início de relacionamento é uma delícia, depois a falta de habilidade dos parceiros em manter a chama acesa, deu no que deu...um amor desbotado, que é como um casarão velho que precisa uregentemente ser pintado!


Adoro quando me visita. Me sinto feliz com teu comentário encantador!

Beijos coloridos, desbotados jamais!!

Vivian disse...

Olá,Manuel!!

Que texto lindo!Sempre aprendo quando venho aqui!Sabes meu amigo, podes achar bem estranho mas à mim um amor assim não daria certo.Ou acabaria com tudo ou tentaria ainda reviver as primeiras chamas do amor.
Preciso de troca,de confiança, de complicidade, de alguém que me entenda, me ouça.Que tenha pelo menos algum interesse semelhante ao meu.Graças à Deus meu casamento é assim...e isso depois do meu padrasto me dizer que eu jamais casaria!Pois homem algum iria querer-me!
Ele sempre achou meu gênio terrível.Porque quando não concordo falo!
Coisas da vida,né?!
Mas cada um cada um.E respeito.
És um mestre!Obrigada!

AFRICA EM POESIA disse...

gosto sempre de te ler... e assim esquecemos "tristezas".


deixo poesia e o convite: passa no meu blog de dedais...

Consenso

Consenso é palavra bonita
Que muita gente pergunta
O que dizer?
Pois consenso é muitas vezes
Apenas uma palavra de dicionário


Consenso - certeza
Consenso - equilíbrio
Consenso - anuência
Consenso - Tanta coisa...


Mas no dia a dia
Não sinto nenhum consenso,
ao nosso redor...
E é pena...
Pois consenso...
É apenas o pouco ou nada.
Ter ideias e partilhá-las
E respeitar as do outro lado
E nas duas partes
Surge o consenso!
Que afinal...
É tão fácil de conseguir!...
É só preciso... querer!...


LILI LARANJO

Sonhadora disse...

Meu querido Manuel

Sabes o que eu tenho pena? Que estas pérolas se percam numa gaveta.
Adoro os pedaços de tantas vidas...os amores e desamores que retratas tão bem.

Deixo um beijinho com carinho e desejo um bom fim de semana
Sonhadora

Luís Coelho disse...

Parece-me que é preciso namorar todos os dias como da primeira vez.
O amor é como um jardim, se não o regarmos morre.

Há dia em que apenas podemos perdoar e outros também podemos fingir para não magoar, mas tudo isto faz parte da nossa corrida.

BlueShell disse...

O tempo e amonotonia, a rotina fazem isso a um grande amor.
Como eu dizia ontem a uma olega..."não deixes de namorar!Mesmo casados deveis ter monetos em que façais o memo que faríeis se fosseis namorados. Nunca deixes que o casamente seja venido pela rotina, pelrepetir de gestos...isso arrefece o amor..e depois cada um procura longe o que poderia estar tão perto: o jogo da sedução, o mistério de "onde me vais levar a jantar? - é surpresa"! O ohra matreiro dela antes de o cobrir de beijos infantis retocdios de uma sensualidade que só ele 2 entendem...esse é o maor que cultivo: nem sempre o fiz...e paguei caro por isso....Um preço demaviado elevado...
Aprendi a lição e agora "namoro" com o meu marido.
Um amor puro, singelo e arrebatador!

Tem um bom fim de semana, Manuel. Bj

SOL da Esteva disse...

Continuas a deixar-me sorver os caminhos que me conduzem a um fim menos esperado.
Pessoalmente, acho maravilhosa a tua forma de escrita; eu jamais o conseguiria.
Parabéns, Amigo, por este "Pas de Deux".

Abraços

SOL

Magia da Inês disse...

♫♫♪¸.•°`
Trágica... tão trágica uma vida assim!...
Bom domingo!
Boa semana.
Beijinhos.
Brasil°º✿
¸¸.º°❤
°º✿

Smareis disse...

Ólá Mamuel,

Maravilhosa história.
Uma grande transformação com tempo, mas que ainda continua o amor.
O amor que é amor continua sempre mesmo que envelhecido, mas sempre forte como uma rocha.

Eu adoro sua escrita, são inteligente e dirigida com muita maestria. Parabéns amigo!
Beijos e ótima semana.

Sonhadora disse...

Meu querido Manuel

Já tinha comentado, mas não ficou, deve ser o blogger que anda maluco.
O texto como sempre adorei...e há tantas vidas assim de costas voltadas e cada um vivendo a sua vida.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

rosa-branca disse...

Olá amigo Manuel, um amor como tantos que existem neste mundo. Triste o sentir, que tudo não passa de fachada. No começo tudo são rosas, mas as rosas têm muitos espinhos. Embora triste adorei o seu conto e é sempre um prazer lê-lo. Beijos com carinho

vieira calado disse...

Não conhecia o blog.

Parabéns!