quinta-feira, 17 de maio de 2012

A coisa







A tarde estava fria e os cães ladravam numa agitação pouco habitual.

Permanecia junto à lareira e o crepitar dos troncos não lhe deixavam vontade de ir, lá fora, espreitar o que mantinha os animais no desassossego. Talvez algum animal desconhecido, uma raposa ou, o mais certo, alguém que não é bem-vindo por estas bandas.

O melhor é vestir o capote, pôr um gorro na cabeça e agarrar a caçadeira, não vá o diabo tecer alguma surpresa.

Abriu uma nesga da porta e o ar gélido ia-lhe fazendo cair o nariz, olhou sem nada descortinar.

Saiu para o terreiro, os cães continuavam numa inquietação mas, quando o viram, quase por encanto se encolheram e soltaram uns pequenos ganidos de medo ou inquietação.

Olhou em redor e, de repente, viu um vulto que o deixou arrepiado, sentiu como que um choque que começou nos braços, desceu o corpo e lhe tolheu as pernas.

Era algo de irreal, vulto negro onde dois olhos, cor de fogo, chispavam. 

Apontou a arma e fez dois disparos para amedrontar, mas a estranha figura, abriu os braços e agitando as mangas da capa preta, desapareceu nos ares como se fosse um morcego.

 *******

Voltou ao quente da lareira, não sem antes aferrolhar com muito cuidado todas as portas e janelas.

A noite não foi fácil, acordava com a sensação de medo e ao mesmo tempo tão irreal.

Levantou-se antes do Sol, os cães estavam calmos, preparou um bom pequeno-almoço antes de se por a caminho do povoado.

Tirou o Jeep do barracão que lhe servia de garagem, soltou o Boca-Negra que saltou contente para o lugar da frente e partiu a caminho da vila.

Estava frio, mas os primeiros raios de sol ia amenizando o ar.

Parou à porta da igreja, ia falar primeiro com o padre Esteves, contar o sucedido e tentar conhecer a opinião de uma autoridade nestas matérias, pois ninguém melhor do que um padre para assuntos do sobrenatural.

*******
Notou que estava a fazer esforço para não se rir, franziu a cara e colocou a mão na boca para se conter.

-Padre Esteves, não percebo a sua atitude, vim pedir ajuda e conselho e, afinal, ainda estou a ser alvo de chacota. Que se passa consigo?

O padre, tentou suster o riso, mas não conseguiu.

-Sabes Carmelo, és muito bom rapaz mas quando bebes desatinas como os outros. A bebida provoca alucinações, e foi o que aconteceu. És mesmo lixado, homens morcegos a voar nas tuas terras, tem cuidado senão ainda vais para o Guiness.

Ficou pior que estragado, era triste não ter provado um gole de qualquer bebida e estar a ser acusado de bêbedo. Por estas e por outras é que as pessoas se estão afastar da Igreja.

Ia voltar à quinta, carregar a arma com zagalotes e ficar de atalaia a ver se aquela assombração tinha coragem de aparecer. Metia-lhe dois tiros nos olhos, todos iam acreditar e o descanso voltava aquelas paragens.

Meteu-se no carro e voltou a casa, o Boca-Negra continuava encolhido, o que não era habitual.

Quando parou o carro ao portão ficou estarrecido, os outros cães, estavam esfolados e pendurados no varal onde costumava suspender o porco na matança. Espectáculo macabro, os bichos com as fauces escancaradas pareciam coisas do outro mundo.

Aqui o medo passou a fazer parte deste cenário, ficou de tal forma que nem conseguiu tirar os animais e abrir uma cova para os enterrar, a noite estava próxima e não queria arriscar, hoje o Boca-Negra ia dormir dentro de casa, coisa de que ele tanto gostava.

Encheu a lareira de grossos troncos, ia estar uma noite fria, trancou o ferrolho e, lembrando uns filmes que tinha visto, pendurou réstias de alhos nas portas e janelas e colocou o crucifixo, que estava no quarto, em lugar de destaque bem em frente à entrada.

A noite foi calma, não sentiu barulhos ou algo que lhe perturbasse o sossego do sono.

Acordou antes do Sol raiar, abriu a porta ao cão para o animal ir satisfazer as necessidades, mas o bicho olhava a abertura e nem sequer se aproximou, ficou de cauda encolhida fitando o dono.

Resolveu sair para ver se assim o Boca-Negra se decidia, mas a surpresa foi dele, os cadáveres tinham desaparecido, nada de cães.

Agora, pensou, é que o safado do padre vai julgar que eu ando mesmo a beber, se eu lhe contar que encontrei os cães naquele estado e de manhã foi como se nada tivesse acontecido, vai ser lindo. Vai ficar com aquele sorriso sacana que tão bem saber fazer e, eu, mesmo sendo amigo sou obrigado a dar- lhe um sopapo no focinho.

-Vida minha, que hei-de fazer? Desabafou.

Não tinha explicação, matar e esfolar três cães de grande porte não era tarefa fácil, além de os pendurar daquela forma, pesados como deviam ser, parecia de mais para uma só pessoa. Havia, no entanto, um pormenor que lhe fazia confusão, toda essa carnificina e nem um pingo de sangue se notava.

Aqui havia coisa, oh se havia! Agora tinha a certeza do que tinha visto. Era mesmo verdade, o diabo andava por ali.

Precisava da ajuda do padre, ele devia saber como lidar com mafarricos, mas o maricas, na última vez, ainda se riu e tratou-o como a um simples bebedolas.

********

A coisa estava a ficar insuportável e o medo começava a tomar conta da situação. Nunca teve receio dos humanos e sempre soube resolver todos os problemas por mais difíceis que elas fossem mas, agora, era algo que não sabia controlar. Nunca tinha acreditado no sobrenatural mas neste momento começava a ter outra visão.

Pediu ajuda ao padre, decerto com maior formação nestes assuntos e, foi acusado de ter visões ou de ter bebido o que o magoou muito pois nunca foi homem para abusar.

Estava, quase em pânico, mas ia manter a calma e tentar uma solução que estava a germinar na cabeça.

Manhã cedo ia a caminho da cidade para comprar tudo o que precisava e, com sorte, o plano iria resultar, tinha a certeza.

Ia usar os conhecimentos que tinha adquirido na tropa e ia montar uma ratoeira à “Coisa” que o andava a atormentar.

Foi difícil comprar tudo o que precisava, teve mesmo que inventar a necessidade de destruir umas rochas na propriedade, mas lá conseguiu tudo o que necessitava.

Amanhã ia por mãos à obra, hoje já se estava a fazer tarde e a criatura podia aparecer, tinha que se trancar em casa, e proteger tudo com o crucifixo e os alhos.

 Ia dormir com a caçadeira nas mãos e ao mais pequeno ruido, não hesitava ia, mesmo, disparar.

*****

A noite foi tranquila, dormiu no sofá da sala com o Boca-Negra deitado aos seus pés.

Bem cedinho meteu mãos à obra, abriu buracos onde enterrou as cargas de explosivos, colocou os detonadores, guiou os diversos fios para uma bateria que escondeu em casa e que iria conduzir a electricidade, suficiente, para provocar a explosão.

Foi meticuloso, nada ficou à vista, a terra foi reposta e alisada.

*****

Esperou com impaciência o fim do dia, custava a acreditar mas, pela primeira vez rezou para que a besta aparecesse. Janela bem aberta e bem atento a todos os movimentos. O tímido Sol há muito tinha desaparecido e tudo continuava calmo, começava a desesperar, tanto trabalho para nada.

O Boca-Negra, de repente, começou a ficar inquieto, o vento apareceu como por encanto, um verdadeiro espojinho tomou conta do largo, um riso demoníaco entoou, o cão desapareceu latindo que metia dó. No meio do terreiro a execrável figura, bramia as membranas de forma assustadora, olhos chispando, mãos ameaçadoras com garras sinistras apontando na direcção do Carmelo.

Era o momento, ligou a bateria e o estrondo foi enorme, os vidros saltaram das janelas, a poeira encheu o espaço num cogumelo de terra e pedras. A criatura foi apanhada em cheio, levantou num voo, como um avião ferido de morte, asas em chamas e desapareceu no horizonte.

Carmelo respirou de alívio, amanhã ia reparar os estragos e esconder o que desse a conhecer o que tinha acontecido.

Dormiu tranquilo, como há muito não acontecia.


***

De manhã, com o tractor, ajeitou o melhor possível os estragos, praticamente nada se notava, só faltava repor os vidros.

Meteu-se no carro e abalou a caminho da vila, hoje sim, ia mesmo beber uns copos com os amigos.

Entrou no Café do Zé Gago e estranhou o comportamento de todos, sisudos e distantes:

-Mas o que se passa por aqui? Isto parece um velório.

Ti Chico, que estava encostado na esquina do balcão, explicou:

-Já entendi, que não estás a par do que aconteceu! 
 Encontraram hoje, de manhã, o padre Esteves morto á porta da Igreja, todo queimadinho, negro que nem um tição.


Pobre homem!



 

14 comentários:

quem és, que fazes aqui? disse...

Agora, depois de ler a estas horas (22:24) este conto eu é que não vou dormir.

Não esperava um final deste e olhe que eu gosto de textos como este.

Numa palavra - Fantástico!

Beijo

Laura

Fátima disse...

Coitado do padre minha Nossas Senhora!
Mas um conto espetacular Manuel. Parecia cinema.
Bjs meu amigo.

Luís Coelho disse...

Coitado do padre para o que lhe havia de dar...
Será que era gay e andava a preparar o terreno...?

Bloguinho da Zizi disse...

Que "coisa".
Confesso que tive um certo medo, mas não pensei que fosse o Sr. Padre.
Conseguiste me surpreender.
Beijinhos e um final de semana repleto de paz, sem coisas pra atrapalhar.

Sandra Botelho disse...

Que conto heim...Perfeito. Como sempre adorei. Bjos achocolatados

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Nunca li um texto sem pestanejar!
Formidável! Cheguei a pensar, que fosse o Padre mas, como não acredito em assombração!!!!

Bom demais,Manuel!
Um beijo,
da Lúcia

SDaVeiga disse...

Pergunta: como é que ele desapareceu nos ares como um morcego?!?
E que raios de padre é esse que esfola cães?!? E como é que fez isso se estava a falar com o Carmelo na igreja?!?
Isso vai haver sequela ou é de mim?!?

Beijinhos e bom Domingo,
Sónia

Magia da Inês disse...

°♪¸.♫♫♪
Amigo, fantástico!
Esperava qualquer desfecho menos esse!!!
Boa semana!
Beijinhos.
Brasil
❤♪¸.•°`♡

SOL da Esteva disse...

Manuel, Amigo

Não paras de surpreender. Afinal, é esse o interesse.
Jamais pensei adivinhar ser este o personagem.
Coisas! Assim se concretiza o dito: "com os espíritos posso eu. Cuidados, é com os humanos!".

Boa!

Abraços

SOL
http://acordarsonhando.blogspot.pt/

rosa-branca disse...

Olá amigo Manuel, isso é que é imaginação. Então não é que eu nunca suspeitei do padre? Virou-se o feitiço contra o feiticeiro. Adorei o conto e ainda bem que ainda faz Sol senão quem não dormia era eu. Beijos com carinho

Vivian disse...

Minha nossa meu amigo!!!!
Que conto incrível!!!!Fiquei presa á leitura!Toda arrepiada!Ainda bem que é dia!rs Não leria à noite...
Uma figura apavorante!E era só o padre!Sempre a surpreender!!!
Beijos e meu carinho!

BRISA disse...

Querido amigo
Senti pena do padre tbm. Mias valeu a pena o conto. Uma feliz semana para vc com carinho
Ana Brisa

Sandra Botelho disse...

Pobre padre...Que conto heim amigo...Nossaaaa...Como sempre perfeitos. Bjos achocolatados

AFRICA EM POESIA disse...

Manuel

um beijo...

sem palavras

estive lá.

senti...dor.

beijos