quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os corvos - II





Quando entrou no jeep sentiu-se uma pessoa importante, ele e três guardas.

As pessoas, na rua, estranharam aquele aparato, o que seria que o Onofre fez para ir preso e guardado por três homens? Era mesmo um exagero três guardas para uma criança de 12 anos, só neste povo. Os bandidos andam a solta e as crianças são presas. Valha-nos Deus!

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Não havia duvidas estava morto e bem morto.

Em tronco nu, deitado de lado e com uma enorme pasta de sangue seco no lado esquerdo do crânio, onde um exército de formigas formavam um enorme mancha negra.

Os olhos apresentavam um aspecto macabro, os corvos tinham provocado estragos que os deixavam irreconhecíveis.

Taparam o cadáver com uma lona, dois guardas ficaram de plantão até a chegado do delegado de saúde o que só iria acontecer muito mais tarde.

Onofre foi levado a casa, estava excitado, tinha uma aventura para contar ao Armando e uma recordação amarga para o resto da vida.

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Eram 10 da noite quando à luz de gambiarras o médico legista deu ordem para a remoção do cadáver para o instituto onde seria feita a autópsia, embora tivesse adiantado que, aparentemente, fora a pancada na cabeça a causadora da morte que deveria ter acontecido às primeiras horas da manhã, mas só depois do estudo do cadáver se poderiam ter certezas.

Dois guardas ficaram no local para garantir que nada fosse alterado até os peritos, na manhã seguinte, procederam análise e recolha de elementos que pudessem ajudar à descoberta do que aconteceu.

A autópsia foi conclusiva na causa da morte, uma forte pancada com um objecto possivelmente de metal e, confirmando a previsão no local, deveria ter acontecido entre as 9 e as 11 horas, cerca de 4 a 6 horas antes do Onofre o descobrir.

Iam ser feitas as diligências habituais para tentar descobrir a identidade do morto, fotos, impressões digitais e pessoas desaparecidas, pois no cadáver não encontraram nada que ajudasse, apenas umas moedas no bolso das calças.


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Onofre, mais conhecido como o neto do Chico Faria, ficou contente quando viu aparecer o amigo Armando, já restabelecido dessa coisa de papeira, e foi preciso relatar a aventura juntando alguma dose de suspense e mistério.

Armando pesaroso por ter estado ausente não se conteve e avançou logo com uma ideia:

-Temos que ir lá e descobrir o que aconteceu!

-Tás parvo! Exclamou Onofre.

Armando estranhou o amigo, sempre pronto para a aventura e agora, quase, em pânico. Mas não desistiu e avançou com a ideia:

-Eu vi na televisão como fazem os gajos do CSI e nós pudemos fazer o 
mesmo. Vamos lá e levamos a máquina fotográfica da minha tia, ela empresta, vemos tudo com cuidado e pode ser que a gente encontre aquela coisa, aaaaa..., como se diz mesmo?

-Pista? Disse Onofre.

-Isso mesmo, encontramos essa coisa e ficamos a saber tudo, passamos a ser famosos e vais ver que até vamos ao programa do Goucha.

A cabeça do Onofre estava numa roda-viva, toda aquela engrenagem parecia querer saltar dos carretos. Por um lado o medo que ainda sentia, mas o espirito de aventura falava alto.

Talvez, para ganhar tempo, ou coragem perguntou:

-E depois onde temos aquelas boazonas do CSI que descobrem aquelas coisas nos computadores?

-Oh, disse Armando, isso não interessa a gente apanhamos essas pistas, tiramos as fotografias e entregamos ao senhor Pica e ele trata do resto.

Armando começava a mostrar algum interesse e pensava que se o morto já não estava lá nada de mal podia acontecer.

-Tá bem, arranja a máquina para as fotografias que eu levo a minha lanterna, o canivete, e uma lente de aumentar para vermos melhor as coisas pequenas e amanhã logo a seguir ao almoço vamos lá.

*********

Mal tinham acabado de comer a açorda e com o todo o material dentro de um pequeno taleigo puseram-se a caminho, bonés na cabeça por que o dia prometia uma escalmorreira de fritar pássaros ao sol.

O caminho foi trilhado da forma habitual, tentando apanhar as mariposas que voavam por entre as marcelas e iam pousar nas flores dos loendreiros que bordejavam as margens secas do ribeiro, ou os gafanhotos que em enormes saltos desapareciam por entre as ervas secas.

Os pássaros estavam bem escondidos entre a ramagem dos sobreiros e azinheiras para fugir ao calor sufocante e a algum bolego que os rapazes, decerto, não deixariam de atirar se as encontrassem a jeito.

Quando se estavam a avizinhar do velho sobreiro, ouviram ao longe o barulho de um carro que se aproximava nos solavancos dos buracos do caminho.

Só tiveram tempo de fugir e de esconderem nas rochas.

O carro chegou num rolo de pó sufocante, era grande e preto, embora com a terra que o cobria parecia mais cinzento.

Mas era um belo carro!
Saíram três homens, o mais velho parecia ser o chefe, os outros dois eram enormes, atléticos e com aspecto de guarda-costas.

Andaram à volta do lugar onde apareceu o cadáver, remexeram a terra como se procurassem algo que pudesse estar enterrado. Os dois rapazes, aterrados e encolhidos entre as rochas tentavam escutar mas não percebiam as coisas que ele dizia, sim só o mais velho falava, era português mas com uma pronúncia tão difícil e tão esquisita que não conseguiram perceber nada, mas mesmo nada, do que dizia. Armando estava a tentar tirar uma foto mas o medo e a transpiração não lhe deixavam segurar a máquina. Onofre sacou-lhe a objectiva e com muito receio conseguiu, por uma fresta das rochas, tirar três fotografias, uma ao carro e as 
outras duas aos homens.

Os personagens esgravataram e acabaram por desistir, Onofre pareceu-lhe que o mais velho tinha dito algo como:

-Temos que encontlar o cablão do motolista!

Meteram-se no automóvel e partiram para donde vieram.

*******

Mal o carro desapareceu num horizonte de pó, os rapazes, saltaram do esconderijo.

Andaram numa roda-viva, olhavam na esperança de encontrar algo diferente, vasculharam as redondezas, fotografaram pedras, paus e até um carreiro de formigas, mas muito desiludidos pois esperavam encontrar uma coisa importante, afinal nada.

Voltaram tristes e esfomeados.

Depressa esqueceram a aventura. Afinal não tinham aquelas coisas para procurar impressões dos dedos e essa coisa do ADN, que de verdade nem sabiam o que era, era melhor esquecerem e deixar os polícias descobrirem, eles tinham muitas aventuras para viver.

******

As brincadeiras levaram-nos até ao adro da Igreja onde o guarda Pica e um colega faziam patrulha.

-Então Sherlock Holmes, perguntou o guarda, já descobristes o mistério?

Onofre deu uma gargalhada antes de contar:

-Fomos lá outro dia e apanhamos um susto daqueles, se não nos tivéssemos escondido detrás dos bolegos os gajos ainda nos davam alguma coça.

-Mas o que se passou, conta tudo direitinho.

Os rapazes relataram a aventura, com todos os pormenores e os guardas estavam estarrecidos.

-Sabes, disse o guarda, quem te devia dar uma sova e bem grande?
Era eu, mas vamos ver já essas fotografias.

-Estão na máquina da minha tia Zefa, ela não sabe que a gente a levou mas não se importa.

*******

Zefa ficou admirada quando viu aparecer à porta os rapazes acompanhados pelos dois guardas:

-O que foi que estes mariolas fizeram desta vez?

Armando adiantou-se a responder:

-Parece que descobrimos os gajos do crime do sobreiro, as fotografias estão na sua máquina fotográfica.

-Pois, disse o senhor Pica, precisamos que nos empreste a máquina.

-Mas, disse Zefa, eu apaguei todas as fotografias da máquina, olhei para aquilo e não percebi nada, umas tinham o dedo na frente e não deixavam ver o que era, outras tiradas contra o Sol estavam brancas, só se aproveitava uma dum pé de rapaz.

Então apaguei tudo.

Tenho pena!

(Se calhar queriam outro final…mas com miúdos o que esperavam?)









19 comentários:

Parole disse...

A história ficou ótima, Manuel, com ritmo crescente de emoção e um final leve, condizente com a idade dos personagens.

Beijos, querido.

Fátima disse...

Cinematográfico!
Gostei muito Manuel.
Bjs.

quem és, que fazes aqui? disse...

Ai, Manuel, até o fim foi ótimo!

Bom feriado e obrigada por ter podido rir no fim.

Beijo

Laura

quem és, que fazes aqui? disse...

Ai, Manuel, até o fim foi ótimo!

Bom feriado e obrigada por ter podido rir no fim.

Beijo

Laura

AFRICA EM POESIA disse...

Manuel
A história foi assim..
é mesmo história e pedia um final diferente. parabéns...

gostei muito e

deixo-te um beijinho

✿ chica disse...

Sempre muito bom e consegues ir até o final muito bem.Lindo mais esse capítulo!! abração,chica

SDaVeiga disse...

És mesmo mau!!!

Plecisamente pol sel com os miúdos é que devia tel colido melhol!!! ;-P

Gostei!

Beijinhos

AFRICA EM POESIA disse...

Pois...
Eu estive aqui e comentei...
agora o
senti o silêncio vim verificar e...não vejo nada...

coisa da net

mas...estive adoentada reacção a uma injecção e pensei que ia morrer.
mas... cá estou.
beijinhos para ti

VerMent* disse...

O guarda Pica, como eu, deve ter ficado bem aborrecido com os fotógrafos desastrados..huahahaah

#Muito boa a estória! Até!

Luís Coelho disse...

Uma continuação a despertar interesse
Os garotos afinal também se julgam inspectores com capacidade de descobrir as pistas do crime.

Vivian disse...

Olá,Manuel!!!

Bah!!!Surpreendente,meu amigo!!!
Lembrei meus tempos de menina!rs
Claro,nunca presenciamos nenhum crime,mas na nossa imaginação(minha, da minha irmã e de nossa prima),passamos por aventuras bem parecidas!rs
És um mestre!E digo sempre com toda a sinceridade!
Ótimo final de semana!!!
Beijos!
*Obrigada pelo carinho.Meus dias tem sido bem corridos,mas ando bem feliz! Logo virá as férias e tudo vai ficar mais tranquilo.

Magia da Inês disse...

❤♡ Kkkkkkkkkkkkkkk!!!
Só você mesmo!!!

Bom fim de semana!
Beijinhos.
Brasil
•.¸¸✿⊱╮¸¸.•

Guma Kimbanda disse...

Olá amigo Manuel.

É o que acontece nesta era do digital. Se fosse uma máquina fotográfica analógica, por ventura estariam as fotografias por revelar dentro do rolo.

Foi óptimo seguir este conto, independentemente dos "finalmentes", pois os "entretantos" prenderam-me por completo a atenção

Forte kandando a atravessar tanto mar... Inté

Janita disse...

E esta, hein?!
Deixei-me extasiar pela descrição dos pormenores, fui sentindo o entusiasmo dos catraios, apreciando as mariposas que voavam por entre as marcelas e, quando tudo levava a crer que os nossos heróis iriam ao programa do Goucha, considerados uns prodígios por haver contribuído para a descoberta de um perigoso gang, liderado por um chinês, eis que tudo fica reduzido a uma brincadeirinha?
Assim não vale, Manuel!
:)

Sonhadora disse...

~Meu querido Manuel

Como sempre uma história com a marca do autor...o final é sempre inesperado, adorei.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

SOL da Esteva disse...

Pois, Manuel, despertou até ao final. Não fico despontado, mas esperava um final algo diferente.
Afinal, o cadáver ficou órfão de final menos feliz.
Mesmo assim, Amigo, muito boa.

Abraços

SOL

Smareis disse...

Olá Manuel,

Pois é amigo, sua história me prendeu muito, sempre me supreendo com o final risosss.
Concordo com o Guma Kimbanda, é o avanço da tecnologia, se fosse antes ainda estava o rolo de foto na maquina.
Grande abraço amigo!

òtima semana!

Flor de Lótus disse...

Oi,Manuel!O texto nos prende do início ao fim,adoro seus contos e causos.
Uma ótima semana!
Beijosss

Sandra Botelho disse...

Eu adorei o final...perfeito e inesperado. Bjos achocolatados