quarta-feira, 13 de junho de 2012

Retalhos






(Este conto tinha 56 páginas e tenho a certeza que ninguém, mas mesmo ninguém, iria ter paciência, ou tempo para perder, com estes meus devaneios. Resolvi cortar, mesmo assim, ainda restam 17, espero que me possam perdoar. Embora contado no pessoal é pura ficção)


Já foi há tantos anos que é difícil ser certo na data, sei que foi em Outubro de um qualquer ano de algumas décadas passadas, o tempo estava frio e seco.

As rodas dos carros e as ferraduras das muares no piso do basalto tomavam conta de todos os barulhos.

Na casa a azáfama era abafada pelos sons dos regressos do campo, e pela água que fervia ao lume. As mãos nodosas, de uma parteira, lavadas com sabão azul-e-branco, deram origem a um leve vagido de alguém que se preparava para a vida.

-É um rapaz exclamou, a curiosa, enquanto com panos molhados, em água morna, o ia limpando dos restos da difícil chegada ao mundo.

-É um rapaz, voltou a exclamar a mulher, enquanto poisava o embrulho no lençol salpicado do sangue da vida. Parece que ninguém reparou e o desabafo da parteira perdeu-se na rapsódia de sons perdidos no fim de um dia de Outono.

****
O pouca-terra, pouca-terra, do velho comboio era, de vez em quando, quebrado pelo som estridente de um apito que se ia perdendo em espirais de fumo branco.

Parava nas estações com um ranger metálico de travões e espessas camadas dos vapores da água quente da caldeira. As pessoas iam saindo e entrando arrastando malas de cartão amarradas com fortes fios de sisal entrançado, enquanto outros iam abrindo as asas a cestos de vimes vermelhos, donde sacavam um naco de pão que chiava, quando a navalha o ia “arretalhando” em grossas fatias que o pedaço de chouriça ia tingir do vermelho de pimentão.

O senhor da frente apontou-me o pão e uma rodela da chouriça que me ia derretendo os olhos e deixando-me um salivar guloso na boca.

Olhei, de lado, esperando um milagre mas os ares sisudos responderam e, eu, percebi.

Era noite quando chegou, a estação era enorme, um homem com uma lanterna na mão fazia sinais enquanto o comboio, num frenesim de freios e fumo ia deixando a marcha.

Olhei as pessoas na estação, os rapazes aperaltados com casacos de xadrez cintados, camisas brancas e laços coloridos, calças de fazenda da cor do casaco acabando em golfe sob as meias de xadrez.

Olhei-me na camisa desbotada, onde uma velha gravata demasiado grande dava um ar desconfortável ao enrugado colarinho e às calças de cotim, sobras de umas pernas de uma adultas, recuperadas, seguras por um suspensório igual, que cruzava o peito entre dois botões.

Olhei a figura, triste, ainda ontem me julgava um perfeito dândi.

******

Foram dois anos difíceis, as consequências da guerra, a falta de quase tudo, o racionamento que atingia de forma violenta os mais vulneráveis.

O contrabando imperava, os mais afoitos iam engrossando a carteira à custa do café, do azeite e de tudo que fosse útil e difícil de arranjar.

Apesar de tudo sobrevivi, agora mais afoito, curtido na arte e no engenho do desenrascanço, na subtileza de encher a barriga com a broa que os vizinhos, perante um olhar suplicante, repartiam com o adorável rapazinho. 

*****

A mudança foi dolorosa, não pelo abandono, mas pelo desconhecido, pelo espaço que ia perder, pelo retrocesso, pelo desconforto de voltar a perder o mundo que tinha construído.

Quando deixei a casa não tive coragem para olhar para trás, queria levar na memória os dois anos que fizeram a passagem de menino a rapaz. 

Tinha acabado de fazer sete anos.

Agora a estação não me causava admiração, conhecia cada canto, cada homem que ali trabalhava, sabia o número dos comboios, os horários, donde vinham, para onde iam, eram parte da minha própria vida.

Vivi dois anos repartido entre a escola e a estação, era o único conforto que a vida me dava, o soar da corneta nas partidas o balouçar da lanterna num sinal que o maquinista respeitava.

Era acarinhado, podia entrar nas máquinas e sentir o fascínio do monstro de ferro, o cheiro do coque a arder na enorme caldeira e, isso, era algo que ainda hoje não sei explicar.

Era importante, entre aqueles tisnados que gastavam algum do seu tempo, com um miúdo que amava os comboios.

*******

A mobília, uma cama, um divã e uns poucos de trastes velhos foram despachados numa camioneta grande, as malas com aquelas roupas que já faziam parte da própria pele, foram amarradas com as mesmas guitas e estampados uns grandes rótulos brancos com os nomes, não percebi porque, mas só podia ver e ficar calado. É tão difícil crescer!

***** 

Foi a viagem mais triste da minha vida, na memória apenas existiam as imagens de tudo que deixava.

A escola, a horta, os amigos e os comboios que já faziam parte de mim mesmo.

Foram algumas horas num banco de madeira, os campos e as povoações passavam como um filme, as pessoas paravam para olhar as carruagens que seguiam indiferentes no deslizar elegante no ferro dos carris.

Era já noite quando chegamos ao destino, as luzes da cidade deixaram-me boquiaberto.

Fomos num eléctrico de bancos corridos, que tal como os comboios patinavam nuns trilhos, mas não eram a mesma coisa.

Ficamos a morar mesmo ao fundo de uma travessa, ali acabava a cidade, depois eram campos e hortas.

Era uma casa estranha, a janela ficava em cima do telhado, os tectos eram baixos do lado e depois iam crescendo e no meio terminavam em ângulo. Chamavam-lhe águas-furtadas. Um quarto grande, ao fundo fazia um canto e foi ai que ficou o meu divã. De noite tinha que ter cuidado quando me levantava, pois o tecto estava mesmo ali, mas depois de algumas cabeçadas consegui habituar-me.

À tarde, quando saia da escola, ia brincar para um terreiro que existia, mesmo ao dobrar da esquina, um campo de terra batida, onde diziam, que antes faziam a feira, agora eram onde os rapazes jogavam à bola, ao pião e às correrias para descarregar esta revolta, que eles não sabiam, mas estava dentro de todos.

*****

A tarde estava linda, calor mas não exagerado, eu tentava acertar com um berlinde numa cova quando ela apareceu. Devia ser da minha idade, muito magra, cabelos compridos atados com um totó de cada lado. Era muito bonita, mas tinha uns olhos ainda mais tristes que uns que eu costumava ver no meu espelho.

Ficou por trás de mim observando a pouca habilidade, depois não se conteve e disse:

-Não devias por o dedo assim, faz assim, e mostrou a posição.

Experimentei e não era que o raio da rapariga tinha razão! O bilas deslizou e aterrou certinho dentro da cova.

Olhei-a bem de frente e sem querer dar parte fraca respondi:

-Este berlinde é novo e ainda não me habituei!

Sorriu e tinha um sorriso lindo, fazia duas covinhas nas faces que lhe davam um ar, quase angelical.

Pegou-me na mão e, antes que tivesse tempo de falar disse:

-Anda vamos para ali apanhar joaninhas, e arrastou-me até um tufo de flores amarelas. Como te chamas? Eu sou a Bina, sou Carolina mas gosto mais de Bina. Moro além no pátio que fica na esquina da drogaria do senhor Mota. Conheces?

Não se calou mais, falou na mãe que saia de madrugada para a fábrica, do pai que não trabalhava, dormia toda a manhã e depois ia passar o resto do dia na Taberna do Galego.
Tinha um irmão, mais velho, fugiu de casa e disse que um dia a vinha buscar, mas nunca mais apareceu. O pai era mau, chegava bêbedo e batia na mãe e nela, por isso antes dele chegar enrolava-se nos lençóis e fingia estar a dormir. Quando fosse grande ia ser enfermeira e ia morar numa casa com janelas e com uma casa de banho, ia casar com um homem que não fosse bêbedo e levava a mãe com ela.

Por fim ficou calada, olhou-me, pareceu-me ver uma pequena lágrima mas, se calhar, era impressão. Respondi então:

-Sou o Albano, moro na travessa, naquela casa que tem águas-furtadas.

Brincamos toda a tarde, esquecemos as agruras, sentiram momentos de felicidade.

Quando o Sol começou a cair no horizonte, Bina olhou-me com tristeza.

-Tenho que ir embora, a minha mãe vai chegar. Amanhã estou aqui outra vez. Agora somos namorados. Não somos? Os namorados têm que se encontrar todos os dias. Deixou-me um beijo na bochecha e partiu numa corrida desajeitada.

No outro dia chegou antes de mim, quando me viu correu e deitou-me os braços ao pescoço, num sinal de alegria

-Pensava que já não vinhas! Fiquei com medo. Hoje até me lavei com sabonete para cheirar bem. Tu gostas que eu cheire bem, não gostas?

Antes que eu pudesse responder continuou:

-Ontem a polícia foi a minha casa, foram os vizinhos que os chamaram, o meu pai bateu na minha mãe e eu tive que fugir, foi para a esquadra e ficou lá toda a noite. Agora vai ficar bom alguns dias, mas depois quando se esquecer volta tudo ao mesmo.

****

Ouvi um dia a minha mãe dizer que muitas vezes não são as pessoas que falam, são os nervos. Eu acho que hoje não era a Bina a falar, eram os nervos.

Corremos todos os caminhos, apanhamos amoras maduras no meio das silvas que nos arranharam os braços.

Descobrimos uma velha cabana abandonada, era de uma horta que já ninguém amanhava. Estava velha, o tecto quase não existia, as paredes estavam boas, mas as janelas eram dois buracos por onde entravam e saiam os pardais numa alegre chilreada.

Bina estava encantada, para ela, este barracão era um palácio, era o nosso cói.

-Sabes, disse ela, podíamos mudar para aqui.

Fui obrigado a dar uma gargalhada.

-Tonta, não vês que não tem telhado!

Ficamos até que o dia começou a cair.

*******

As férias da escola não tardavam, o ano correu-me bem, as notas davam-me, em casa, sossego para puder gozar alguma liberdade.

Bina, não estudava, fez a quarta classe e acabou, mas como ela dizia:

-Eu gostava de ter ido para o liceu, mas isso é para as meninas ricas e para os rapazes.

Olhei-a com discordância

-Não digas isso, todos deviam estudar, os teus pais é que não se importam contigo! Se não estudares como vais ser enfermeira?

Chorou agarrada a mim, sentia as lagrimas a molharem-me o rosto e o arfar daquele pequeno corpo contra o meu. Tentei acalmar, mas não sabia o que fazer, muito menos o que dizer. Ficamos assim, nem sei quanto tempo, até que os soluços foram morrendo devagar.

*****

Lembro como se fosse hoje, era quinta-feira, nesses dias não tinha aulas de tarde e podíamos começar mais cedo as nossas brincadeiras.

-Sabes, disse ela, nós somos namorados mas nunca brincamos a isso. Eu sei como é, pois quando a minha mãe esteve no hospital eu estive em casa da minha tia Isaura e espreitei a minha prima Amélia e o namorado e vi como eles faziam. Eles gostavam pois faziam todos os dias, e davam gritinhos de contentes. Eu vi tudo, espreitei por cima da porta, a casa da minha tia tem portas com uns vidrinhos no alto e eu de pé numa cadeira vi tudo. Eles despiram-se um ao outro, depois davam muitos beijinhos em todo o lado, a minha prima fazia festinhas na pila do Tó e ele chupava as maminhas da Amélia, depois rebolavam na cama fazendo aquilo que a gente sabe.

Podemos fazer o mesmo, também somos namorados, eu não tenho maminhas mas não faz mal, fazemos de conta. Agora temos a nossa casa. Queres, não queres?

Fiquei em pânico, já tinha falado muitas vezes com os colegas na escola, já tinha dito que tinha feito para me armar em sabido, mas de verdade, não sabia nada. Agora não podia dar parte fraca.

-Eu quero! Mas só temos 12 anos, não é cedo?

-Somos namorados a sério, dizia Bina, já podes mandar em mim, mas não me batas. És bom e eu gosto muito de ti. Um dia a minha vizinha Alexandra levou-me ao cinema a ver um filme, não sei o nome, mas lembro-me que a rapariga do filme dizia para o rapaz que o amava muito, eu perguntei à minha vizinha o que queria dizer isso e ela explicou-me que era gostar mais do que tudo, por isso, Albano eu amo-te, não sei ainda bem o que isso é, mais gosto de ti mais do que tudo.

Vão passados 15 anos e estas últimas palavras continuam gravadas no meu cérebro.

****

Na segunda-feira o terreiro estava deserto, nada de Bina, estranhei porque nunca tinha faltado, mas por vezes os pais arranjam coisa para fazermos e não temos outro remédio. Amanhã ela vem!

Não veio e fiquei apoquentado, estaria doente?

O melhor, mesmo, era ir espreitar ao pátio, podia ter sorte e que alguém me soubesse dizer onde estava Bina.

Encontrava-se quase deserto, apenas uma velhota a fazer renda sentada num banco á porta de uma casa pintada de amarelo.

Torcendo as mãos de acanhamento, fui-me aproximando e perguntei:

-Senhora sabe onde está a Bina?

Olhou-me de forma estranha, olhos piscos, boca desdentada, antes de perguntar:

- E quem és tu rapaz?

-Bom, balbuciei, sou um amigo, costumamos brincar juntos.

A velhota, tapou a boca com a mão, como para esconder a falta dos dentes, antes de responder:

-Não vais brincar mais com a santinha, já nos deixou. Se sabes rezar, reza por ela, não precisa porque é um anjinho, mas mesmo assim reza por ela.

Baixou os olhos, enfiou as agulhas nas linhas e continuou, como se eu nunca tivesse estado ali.

*****

Soube mais tarde o que aconteceu, contou-me o senhor Mota da drogaria, o pai chegou a casa mais bêbedo do que o costume, começou a malhar na mãe, Bina foi acudir e, ele, com um machado matou as duas.

******

Adoeci gravemente, febres altas, delírios e uma grande confusão. Os médicos não atinavam, diziam que eram sezões. Lembro-me através de pequenos raides de lucidez de me porem, na testa, rodelas de batatas cruas embebidas em vinagre, apertadas por um lenço para me baixarem a febre, enquanto me obrigavam a tomar quinino.

Um dia, de repente, acordei bem, tinha fome, apetecia-me peixe frito, eu, que detesto peixe.

Voltei às aulas mas andava abstracto, não me conseguia concentrar, ouvia mas nada ficava. Bina não me saia do pensamento. Onde estaria agora? Seria verdade que havia céu para os bons como ela, ou era apenas uma treta como dizia o meu tio Elói!

A minha madrinha disse-me, um dia, que quando as pessoas morrem nasce uma estrela no céu. Eu tento perceber mas há tantas estrelas que mais uma, eu não consigo notar.

Hoje fui ao terreiro, fui visitar a nossa cabana onde nos despíamos e fazíamos aquelas coisas que os namorados devem fazer, como ela dizia. 

O terreiro estava deserto e a cabana estava tão vazia e tão triste que as lágrimas me saltaram, deitei-me no chão e então, verdadeiramente, todo o meu desgosto desabou, desabafei todas as minhas mágoas, blasfemei contra o Deus que levou uma santa e deixou um assassino que foi capaz de tirar a vida que ele próprio tinha concebido.

Neste momento fiz o meu luto, enterrei dentro de mim o desgosto, reneguei o Deus que me ensinaram, bom e justo. Foi ai que deixei de ser criança e que nasceu o homem.

Faltava-me voltar ao pátio, queria sentir pela última vez o cheiro do sabonete.

O pátio estava tão triste quanto eu, apenas um cão lazarento dormia à sombra de um telheiro. A casa amarela estava lá mas, da velha, apenas o banco continuava encostado à parede.

Não sabia qual fora a sua morada, farejei como fazem os cães mas o cheiro do sabonete há muito se perdeu na cova funda onde agora repousa.

*****

Jurei nunca mais voltar ao terreiro, nunca mais passar pelo pátio. Já tinha lavado dentro de mim aquelas recordações.

Quando a minha mãe me andava à drogaria, em demanda de lixivia ou sabão amarelo, eu andava mais três quarteirões para evitar passar pelos locais que a vida (mais a morte) tinha estigmatizado dentro de mim.

Às vezes, nos momentos depressivos, penso se não devia arranjar maneira de um dia fazer ao pai da Bina o mesmo que ele fez, mas depois percebia porque é que eramos diferentes.

Esqueci.

****

Entrei para a Faculdade, senti-me um estranho em roupas de feira, entre rapazes onde as marcas faziam a diferença. Mas foi um puro engano, fui recebido como igual, não senti discriminação.

Não foi difícil a adaptação, o mundo era outro, mas a mentalidade também.

****

Acabei o curso, sou médico há três anos.

Mas há momentos em que ponho a pensar como foi possível uma rapariga aparecida do nada, filha do infortúnio, ter mudado a minha vida de um forma que ainda hoje, vivo na sua recordação, sinto as suas emoções, penso nos seus sentimentos, vejo o seu corpo franzino pleno de energia, os seus olhos tristes chispando querer, a sua bondade contagiante e a sua necessidade de dizer, de falar como se percebesse que lhe iria faltar o tempo para dizer tudo.

*******

Há muito que não via um dia assim.

O vento, a chuva, o trovejar constante e o frio intenso mantinham as pessoas recolhidas.

Quando bateram à minha porta estranhei, num dia destes não esperava visitas, mesmo de vendedores. Olhei pelo visor e nem queria acreditar, embrulhada numa capa de plástico rosa, estava a Zulmira.

-Entra mulher, que fazes num dia destes na rua?

Olhou-me num olhar negro brilhante de névoas, lagrimas saltando em turbilhão.

Tentou falar mas as palavras ficavam presas nos soluços.

-Tem calma, tira a capa e senta para acalmares!

Segurei-lhe o ombro e encaminhei-a para um sofá.

Respirou fundo, quase um lamento tirado de dentro do peito. Tomou fôlego, esfregou os olhos e deixou as mãos deslizarem pela face antes de falar:

-Albano, preciso da tua ajuda, não sei que fazer, só te conheço a ti na cidade, estou desesperada.
Irrompeu, novamente, num choro convulsivo, o peito arfava como as máquinas a vapor dos velhos comboios, os ombros subiam e desciam ao ritmo dos soluços. Eu, não sabia o que fazer. Fui buscar um calmante e um copo de água.

-Vá toma isto, ficas mais calma e depois já podes falar.

Tomou a capsula, olhou-me com tanta súplica que não lhe perguntei mais nada.

-Albano não me preguntes nada, deixa-me ficar hoje na tua casa, posso dormir, mesmo aqui, no sofá.

Dei-lhe uma pequena pancada no ombro, acalmei-a, antes de lhe dizer:

-Ficas no quarto de hóspedes, fica calma que eu não te pergunto nada.

Calculei que um amor tinha acabado.

****** 
Conheci a Zulmira no liceu, criamos uma grande amizade, estudávamos juntos, saímos muitas vezes apenas pela companhia, pois como ela me confessou não sentia atracção física pelos homens, apenas apreciava estar comigo porque nunca sentiu avanços da minha parte.

Acabamos o liceu e seguimos rumos escolares diferentes mas mantivemos sempre uma proximidade, a maioria das vezes através da Internet.

Um dia telefonou-me a dar a notícia, estava feliz, tinha encontrado uma amiga, estavam juntas e muito felizes. Queria combinar um jantar, gostava que eu conhecesse a companheira.

Ficamos assim.

****
Há coisas difíceis de explicar, são sentimentos que andam recalcados dentro de nós, quase tentações que não sabemos explicar.

Sai da travessa há 10 anos, andei uma vida, tirei um curso e tentei, todos os dias, em todos os momentos esquecer aquela mágoa que se encontrava colada dentro de mim.

Tive uma noite de pesadelos, acordei num sobressalto, sentia como se a Bina estivesse ao meu lado de mão estendida à espera da protecção que eu não lhe consegui dar.

Tomei a decisão, depois de todo este tempo ia voltar aos sítios onde tinha jurado nunca mais tornar.

Pela primeira vez na minha vida não ia de eléctrico, ia levar o meu carro.

Parei na esquina da travessa onde morei, a casa das águas-furtadas, mantinha-se tal como a conheci, onde existiu o terreiro era agora um largo com uma retunda com prédios a toda a volta.

Tudo tão diferente que, pensei se seria o mesmo lugar, mas não havia duvidas.

Fui procurar o pátio, tinha a sensação de que já não deveria existir, decerto, já teria dado lugar a alguma grande construção.

Estava quase na mesma, a casa amarela tinha perdido o brilho da cor, estava desbotada e com as portas pintadas de verde, as outras pareciam que tinham parado no tempo, tal e qual como as lembrava da última vez em que aqui estive.

Olhei na esperança de ver alguém aparecer, mas a sorte não estava no meu lado. Ganhei coragem, toquei a campainha da porta verde. Nada, ninguém respondeu.

Olhei em redor antes de desistir e tive sorte, em frente alguém assomou á janela a tentar saber quem tinha ido inquietar a calma do velho pátio.

Aproveitei:

-Desculpe minha senhora, preciso de uma informação!

Respondeu-me com maus modos:

-As pessoas daí chegam tarde.

Respondi:

-Pode ser a senhora a ajudar, só bati a esta porta porque, há anos, conheci uma senhora que fazia renda aqui à porta, foi só por isso.

-Oh homem, a dona Efigénia já morreu há muito tempo, Deus lhe tenha a alma em descanso.

Anui com um gesto de cabeça antes de continuar

-Sabe, morei aqui ao lado e costumava brincar com a Bina. Lembra-se dela?

-Se lembro, quem não se lembra das pobrezinhas, tanto sofreram que estão com certeza no céu.

O malvado que tão mal as tratou, esteve preso meia dúzia de anos e quando o soltaram, ainda, teve o desplante de voltar para aqui como se não fosse nada com ele, mas saiu-se mal, o pessoal deu-lhe tal tareia que se não tivesse chegado a polícia tinham dado cabo dele. Foi uma pena os chuis terem chegado, alguém os chamou!

Agora, ouvi dizer, mora com uma irmã lá para a Beira.

-Em que terra? Sabe?

-Espere que eu vou perguntar ao meu Zé.

Voltou com o nome do homem e da localidade escrito num papel que me deu. Meu dia de sorte.

- E aqui, a minha cabeça já não dá para fixar. Mas para que ser saber?

-Só para matar saudades da Bina, respondi, com um sorriso dependurado na boca.

Olhou-me com estranheza.

Agradeci e procurei o carro.
  
*****

Por vezes pensamos que são coincidências do destino, mas não, somos nós que as procuramos.

Nada na vida aparece por acaso, o acaso não existe, nós somos o acaso, nós fazemos com que o acaso aconteça.

Eu queria ver o homem que foi capaz de tal crueldade e, que sem o saber, acabou por moldar o meu destino.

Numa manhã, bem cedo, meti-me a estrada e só parei no local para onde queria ir.

Entrei num café, estavam dois homens à volta de uma mesa, numa interessante conversa sobre os resultados desportivos da véspera.

Ao balção, uma mulher, ia passando de forma maquinal, um pano na pedra que o revestia.

Pedi um café, antes de perguntar se sabiam dizer onde morava a irmã do José Bebiano.

Olhou-me estranhamente, não seria normal fazerem tal pergunta mas, amavelmente veio á porta e indicou-me uma rua ingreme.

-Sobe aquela rua, quase no fim vai ver uma casa de pedra com três 
degraus, é ai que ela mora. Não pense em levar o carro, não consegue lá chegar sem ser a pé.

Agradeci e meti-me ao caminho, a mulher tinha razão, era impossível meter um carro nesta espécie de batatal. Hesitei muito antes de bater à porta, pensei muito a sério mas a teimosia prevaleceu.

A senhora que me atendeu, devia ser a irmã, tinha um ar bondoso e deu-me confiança para continuar, olhou-me quase como se me conhecesse:

-Não esta enganado? Será mesmo esta morada que procura.

Fiquei um pouco sem jeito, mas abanei afirmativamente a cabeça antes de responder

-Queria ver o senhor Bebiano, julgo que é o seu irmão!

Não mostrou qualquer admiração, mandou-me entrar

-Deve ser da Assistência por causa do internamente, só tenho medo que já não venham a tempo, ele não deve passar de hoje, pelo menos foi o que disse o doutor Inácio.

Quando entrei no quarto o meu ódio morreu, o castigo já tinha chegado. Zé Bebiano estava no fim, uma cirrose hepática estava a encarregar-se de fazer aquilo que eu tinha pensado. O fígado estava a ser vomitado pelo sujeito, o destino estava a fazer o que o meu pensamento há muito queria.

Se calhar, pensei, há mesmo um Deus!


20 comentários:

✿ chica disse...

Pelo que lim vi ser lindo!!Vi até catarem joaninhas nas flores e depois mais um pouco, a polícia chega....

Salvei e depois leio aos poucos.Não quero perder! abraços,chica

Gina G disse...

É uma história bonita. Seria melhor com as tais 56 páginas que o Manuel encurtou para 17... Teríamos tempo para nos apaixonarmos pelos personagens.

Percebo que a blogosfera não 'goste' de textos compridos, eu própria evito-os. Mas que tal o Manuel publicar as suas histórias em capítulos? Tenho a certeza que os seus leitores (eu incluída, claro) seguiriam com vivo interesse.

Beijinhos

✿ chica disse...

Voltei pra ler e te digo que me encantei com tudo. Bina tão menina já queria brincar, como adulta e parecia saber que não teria tempo depois. Triste fim pra ela e sua mãe.

Lindo final para esse monstro que teve o castigo merecido!!
Muito lindo, como sempre! Li em duas etapas e foi ótimo!!

abração,chica

Parole disse...

Maravilhoso te ler, Manuel, seja quantas páginas forem.

Há acontecimentos que nos marcam para o resto da vida e pessoas que fazem o mal sem pensar no sofrimento que causam aos outros.A punição ajudou-o a por um ponto final na história que ele, mesmo depois de adulto, não conseguia digerir.Uma história belamente contada e coerente.

Parabéns, querido.Amei!

Beijinhos.

rosa-branca disse...

Ai amigo Manuel, nem que fossem mais 100 páginas eu ia ler na mesma. Assim não vale...então não é que molhei o teclado do computador? Linda a sua história e muito triste. Calças de cotim...havia o cotim azul e o cotim militar. Fiz tantas meu amigo. O meu avô era pedreiro e usava as de cotim militar. Talvez afinal haja um Deus... Eu questiono muitas vezes. Adorei. Beijos com carinho

Janita disse...

Valeu a pena, Manuel!
Fez referência que é totalmente ficção, é verdade, mas só consegue escrever sobre sentimentos, carências e amores, quem já os viveu a sentiu.
Não sei se o pai da Bina já estaria a pagar pelos seus horrendos crimes, mas foi muito bom que o jovem Dr. Albano o tivesse visto moribundo.
Eu também não tenho a certeza se Deus existe, mas quero muito, muito, acreditar que sim!
Um beijo.

Vivian disse...

Olá,Manuel!!

Nossa!Quando penso que não posso mais ser surpreendida,eis que sou novamente!Mergulhei na história de tal maneira que nem vi passar o tempo!Nem pareceu 17 páginas!
É difícil não ficar emocionada e profundamente comovida com esta história.Vi a violência de perto.A sorte é que meu padrasto e minha mãe brigavam entre si.Ele nunca encostou um dedo em mim e na minha irmã.E no final não foi tão horrível...cada um seguiu seu rumo e hoje eles conversam normalmente.
Mas sabe, você é um grande escritor meu amigo, um texto que envolve, escrito com tanta força, tanta sensibilidade, que emociona profundamente.És tão verdadeiro que vejo os personagens, são reais,possuem vida.Obrigada por tão valiosa partilha!!Beijos e meu carinho sempre.

AFRICA EM POESIA disse...

Manuel
Beijinhosssssssssssss


o poema é apenas...poesia... eu estou quase bem...


mas ...não me sinto no meu melhor...

.......................

o teu conto é lindo eu se fosse meu já tinha editado um romance... deixa a preguiça e começa a trabalhar

Magia da Inês disse...

°`♥✿✿⊱╮
♡¸¸.•

Amigo, como você teceu tão bem a trama... fiquei esperando um final escabroso e você coloca a justiça divina em ação.
Adoro suas tramas... parecem novelas da vida real.
Boa semana!
Beijinhos.
Brasil
¸.•°`❤✿⊱╮

Flor de Lótus disse...

Manuel querido!Volto depois com calma para ler o seu conto que pelo que li aqui nos comentários é bastante interessante.
Um ótimo domingo!
Beijosss

SOL da Esteva disse...

Ficção! Ficção?
Manuel, isto é uma história de Vida! (bem podia ser o relato de um conjunto de situações verídicas).
Assim, Amigo, as histórias vestem-se de interesse da primeira á última linha.
Parabéns.

Abraços


SOL

Smareis disse...

Oi Manoel,
De pouco a pouco você pode ir colocando as 56 páginas. Acho que todos que te visitam adoram te ler. Seus relatos e suas historia sempre são rechedas de detalhes, recordações e lembranças bonitas, que nos fazem viajar nos seus textos.

Gostei muito desse retalhos que você espalhou aqui.
É dificil não emocionar com esses relatos.
Lembrei de minha infância, também adorava apanhar joaninhas. Como cheira maus esse bichinho, mas são lindinhos.

Adorei o conto

Existem fatores na nossa vida que nos marca profundamente.

Grande abraço e ótima semana!

Sandra Botelho disse...

Amigo eu talvez não leria tudo de uma vez, mas se vc postasse uma pagina por ves, nos iriamos vir aqui sempre e ler tudinho, pois é como todos, simplesmente maravilhoso. Bjos achocolatados

JP disse...

Olá Manuel,
Valeu a pena! Trata-se de uma história bonita, e talvez haja mesmo um Deus....

Abraço

Sonhadora disse...

Meu querido Manuel

Como sempre ler-te é um desafio na memória do tempo.
Realmente há recordações que por mais tempo que passe ficam marcadas em nós para sempre...adorei.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Luís Coelho disse...

Bom dia Amigo
Hoje não consigo ler. Voltarei mais logo.
Gosto do teu estilo e da clareza das figuras literárias.
Fica bem.

BlueShell disse...

Excelente---desde o parto à morte do óio! Grata pelo carinho nesta minha Ausência forçada...
Bj

Luís Coelho disse...

Foi hoje que puxei a cadeira, acendi a luz e comecei a leitura.
Uma pequena parte da dureza da vida em muitas casas portuguesas em 1900 e anos seguintes.
Pobreza e muito alcoolismo.
Maus tratos e uma paciência estóica para suportar tudo sem reclamar...
Como eu conheci tantos iguais aqui na aldeia...
As pobresinhas ainda diziam:
- Temos de ter paciência...a vida é assim...

Marcas que nos ficam pela vida toda.

Guma Kimbanda disse...

Amigo Manuel,

Eu venho para o ler. As razões já as conhece.
Quantas páginas tivesse o conto, quantas leria.
Sendo extenso o texto e numa primeira visita não conseguisse disponibilidade para ler, o que faria, seria voltar com tempo útil em outra oportunidade.

Meus parabéns, está um primor, imagino o conto completo.

Kandandos a atravessar tanto mar...
Inté meu amigo

SDaVeiga disse...

Fico à espera de ver publicadas as 56 páginas, porque ía adorar conhecer mais da Bina!
A estrela que nasceu no céu deve ser bem forte, tão forte como a lembrança que ele tem dela! :-)
Ainda bem que há justiça no mundo, por muito que ela tarde, pois assim ele não teve que chegar ao momento de perceber que não o mataria mesmo.

Adorei e espero honestamente que publiques o conto.
Já sabes, se quiseres uma revisora... ;-P