quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Na Bruma





Foi há tantos anos que por vezes a memória já se perde na bruma do tempo.

Sei, porque há coisas que nunca esquecemos, que num gelado dia de Janeiro, Maria Angelina, descobriu que esse atraso não era normal. Não foi a primeira vez que o coração se sobressaltou, que a cabeça girou no receio de ser desta vez que o caldo se ia entornar.

O seu Tónio estava no serviço militar e só vinha a casa ao fim de semana, mas com uma fome danada, e depois era o fim do mundo. O que valia era a casa ser paredes meias com uns vizinhos, um pouco moucos, e que já não davam fé do reboliço que ia por aqueles lados.

Ela bem lhe pedia para ter cuidado, mas quem conseguia suster o saciar desses prolongados jejuns?

Agora andava preocupada, já eram dias a mais e aquela gaita não havia maneira de aparecer.

Tinha vergonha de ir à farmácia pois aqui todos se conheciam e o falatório não ia tardar.

Foi à vila e os receios passaram a ser uma certeza, estava grávida e, como lhe disse a farmacêutica, grávida e bem grávida.


*******

Maria Angelina andava num misto de alegria e tristeza, dividida entre a prazer e a dúvida, entre o desejo e o não querer.

Havia no seu peito uma angústia que não sabia explicar, ser mãe e não adivinhar qual seria a reação do Tónio. Estava convencida que ia ficar feliz, ele, gostava tanto de crianças.

Mas entre o gostar e o querer vai uma distância que por vezes é maior que o nosso pensamento. Ela recordava, as conversas longas, nas noites frias de Inverno, entrelaçados e aconchegados nos lençóis, quando lhe falava em casamento e filhos, mudava o assunto, acariciava-lhe o peito e, fingindo ironia, ia acrescentando que estas lindas peças não podiam ser estragadas pelas bocas gulosas de um bebé.

Ela, na altura, ria-se pensando que o seu Tónio queria apenas elogiar a firmeza do peito mas agora, essas palavras faziam eco no seu pensamento e tornavam penosa esta espera, esta incerteza.


*****

Chovia copiosamente na noite, dessa sexta-feira, quando a porta estremeceu com as batidas anunciadoras da chegada do nosso militar, pingando como esponja encharcada.

-Vai já tomar um banho quente antes que te constipes, disse Maria Angelina.

O homem deu uma gargalhada e perguntou:

-E então o meu beijo? Primeiro o beijo depois o banho.

Voltou, embrulhado na toalha, para o calor do lume que crepitava na lareira, mas o rosto da namorada estava estranho, fechado, escuro e impenetrável.

Timidamente perguntou:

-Que bicho te mordeu cachopa? Estás tão sisuda!

Ela trincou o lábio para não chorar, queria parecer forte, era difícil, mas a coragem veio ao de cima:

-Estou grávida, estou prenha !

O homem mudou de cor, levantou-se num ápice e gritou:

-Tu grávida? Estás maluca, como podes estar grávida? Com quem andas metida enquanto eu marco passos no quartel?

A mulher saltou do banco de atiçador em riste, os olhos metiam medo e soltando todas as forças que encontrou, dentro dela, gritou:

-Desaparece daqui antes que eu me desgrace e acaba com a vida do maior patife que se cruzou na minha vida. Sai, saia depressa, porque eu tenho nojo de te ter na minha presença!

Vestiu a farda encharcada, remordeu impropérios e saiu para a negrura da noite.

***

Quando saiu de casa ainda os galos não tinham cantado. Não chovia, mas um vento frio parecia cortar as orelhas. Maria Angelina não queria testemunhas daquele abalar matutino, quase marginal, esgueirou-se, com duas malas nas mãos, colada às paredes das casas desertas, não queria que os vizinhos, que a conheciam, se apercebessem deste desertar madrugador.

A camioneta, que fazia a ligação à automotora, saia do largo da feira às seis e meia da manhã, depois era só apanhar o comboio e partir para bem longe da terra que a viu nascer.

Tenho feito, há pouco tempo, 25 anos nesta aldeia perdida nos contrafortes da serra. Daqui viu partir a mãe consumida pela maldita doença que lhe corrompeu as entranhas e, pouco depois, o pai que se refugiou na bebida até que um dia o encontram pendurado no velho castanheiro.

Carpiu o desgosto, chorou no silêncio da casa deserta, até que os olhos secaram quando as lagrimas lavaram toda a dor que carrega na alma.

****

Nunca mais tinha sorrido até que um dia o Tónio, aperaltado, numa farda de militar, se lhe perfilou na sua frente e entre risos fez continência e lhe perguntou se a podia acompanhar a casa.

Deixou-se escoltar e voltou a sorrir, a vida passou a ter novamente algum significado.

Entregou-se aquele homem, o primeiro na sua vida, de uma forma tão intensa que ela própria não sabia explicar, vivia cada momento como se o mesmo fosse o ultimo, bebia as suas palavras, alimentava-se da seiva dos loucos fins-de-semana, dos sonhos, das promessas sussurradas nos momentos de paixão. 

E agora via que, afinal, tudo era uma mentira!

*****
A camioneta começou a sua marcha lenta pela sinuosa estrada, deixando um rasto de fumo negro, Maria Angelina olhou as poucas luzes que assinalavam a aldeia que se ia diluindo á medida que o veículo ia descendo no caminho da vila.

Maria Angelina deixou cair uma lagrima, não de despedida, pois sabia que um dia ia voltar, mas para libertar a vingança que lhe ia dentro do coração.

Quando a automotora partiu sentiu como se vida tivesse acabado aqui, para retomar quando chegasse à cidade que a esperava na imensidão do desconhecido.

****

Estávamos no final de uma amena tarde de Setembro quando o pequeno Ricardo deu a entender ao mundo que tinha acabado de chegar, Maria Angelina recebeu nos braços o filho que carregara no ventre durante, quase, 9 meses.

Era tão pequeno e tão frágil mas não podia negar, era a cara chapada do Tónio.

*****

Os dias correm tão ligeiros e tão metamorficamente que, quando olhamos para o lado, já os meses se transformaram em anos e os cabelos brancos teimam em despontar nas têmporas.

O Ricardo estava um rapaz que era o enlevo da mãe, ladino e de uma esperteza que a deixava, por vezes, sem o poder de resposta para algumas perguntas do filho. Hoje quando chegou do colégio olhou a mãe e perguntou:

-Porque é que eu não tenho um pai como os outros meninos?

Ficou perplexa e embora já esperasse, há muito, essa pergunta engasgou-se antes de responder

-O teu pai foi fazer uma viagem muito grande e não sabemos quando volta!

-Mas, mamã, ele podia telefonar, ou não gosta de nós?

-Gosta muito de ti e um dia ele telefona. Agora vai lavar as mãos para lanchares!

Para Maria Angelina o pai do Ricardo era, apenas, uma má recordação do passado que tinha alimentado no ódio até ao dia, que esperava próximo, pudesse destruir a vida de quem destruiu a sua. O desejo de vingança estava a germinar ao longo destes sete anos, em cada dia que passava mais se enraizava o desejo de acabar com a existência do malvado, que numa noite tinha enterrado todos os sonhos que o seu coração albergara.

****

Estava tudo planeado na sua cabeça, ia acabar com o desgraçado mas, antes, queria que ele conhecesse o filho e pudesse ver que o retrato não precisava de provas de paternidade.

Ia, passados estes anos, voltar à aldeia.

A automotora há muito que foi desactivada, agora havia uma camioneta até à vila e, depois, um táxi para a povoação.

******

Ricardo acordou, quase, de madrugada e foi enroscar-se na cama da mãe, estava agitado e ansioso pela viagem de camioneta, nunca tinha andado e, a promessa de talvez puder conhecer o pai provocava-lhe um misto de medo e satisfação, não sabia explicar mas era um sentimento bom e, ao mesmo tempo, mau.

A mãe tinha-lhe dito:

-Sabes filho, o teu pai não te conhece e a mãe não sabe se ele gosta muito de ti, nunca te viu e é natural que se tenha esquecido, mas não te preocupes, se ele não gostar eu gosto pelos dois.

Ao moço isso causava alguma confusão, pois ele também não conhecia o pai e, apesar disso, gostava muito dele.

Maria Angelina tinha preparado a viagem cuidadosamente, sabia que o Tóino acabada a tropa tinha voltado à terra e estava a tomar conta dos negócios do pai, que era um pequeno agricultor e, também, dono do café que ficava no largo da Igreja, mesmo no centro da aldeia.

Levava na mala a pistola, embrulhada num lenço, e no coração o ódio suficiente para fazer o que tinha que ser feito.

Ia apresentar o filho, depois deixaria a criança na casa da Dona Marcolina, vizinha de toda a vida, voltava ao café e descarregaria a pistola, no malvado, até que toda a raiva deixasse o seu coração. Não era fácil, mas tinha que ser feito, tinha que limpar a honra.

*****
Quando o táxi os deixou no largo da Igreja, muitas caras se voltaram para aquela mulher que com uma criança nas mãos se encaminhava para o café, muitos pareciam conhecer, mas as memórias estavam baralhadas.

Àquela hora o café estava quase vazio, ao balcão um homem ia, vagarosamente, limpando umas chávenas que depois alinhava na máquina do café.

Tóino olhou a mulher e a criança, primeiro com dificuldade pois a contraluz não o deixava enxergar bem, depois com os soluços a embargar-lhe a voz gritou:

-Amor onde tens andado? Voltei no outro dia de manhã para te pedir desculpa, depois corri todos os sítios conhecidos, possíveis e impossíveis, para te encontrar mas ninguém sabia de ti. Esse é o nosso filho? É lindo! Vamos recuperar o tempo perdido, vamos criar o nosso menino!

Maria Angelina voltou a sorrir, esqueceu ao que vinha, afinal Tóino foi o primeiro e único homem na sua vida.










19 comentários:

Bloguinho da Zizi disse...

Ai quantas histórias parecidas acontecem todos os dias neste nosso mundo.
A tua criatividade me levou longe a relembrar algumas que ouvi e outras que presenciei.
Beijinhos

Catita disse...

Por momentos acreditei mesmo que ela fosse mata-lo e, no fundo, momentos de loucura e desespero todos nós temos. Uns mais do que outros

✿ chica disse...

Que linda história ,cheia de tramas e ao final, a felicidade!! abração,chica

quem és, que fazes aqui? disse...


Como sempre, cenas da vida real. Muito bem descritas!

Beijo

Laura

Janita disse...

Esta bonita e bem contada história mais parece um conto de Miguel Torga. Adorei!
O mal de muitas mulheres é serem precipitadas demais.
Teve sorte a Maria Angelina de, passados tantos anos, ainda ir encontrar o Tónio à sua espera...
Um beijo, Manuel!

BlueShell disse...

Oh, Manuel...como tinha já saudades de aqui vir. E que bom ter vindo.
Li, reli...adorei. À primeira pensei também que ela iria concretizar o seu desejo de vingança, alimentado pelo passar dos anos.Mas o final surpeendeu-me, e ainda bem.

Gostei do modo como intercalas o passado e o presente. gostei da profundidade psicológica que dás a Angelina.
gostei do modo como descreves os seus medos...numa aldeia escondida na serra.
O meu beijo e os meus parabéns meu amigo querido,
Bshell

Vivian Fernandes de Goes disse...

Olá,Manuel!!

Ah!Meu amigo, como estás romântico!!!!E me surpeendeu sobremaneira!! Um final feliz!Apesar do desencontro, uma segunda chance de felicidade!LINDO!!!
E que felicidade esta doce surpresa!Já aguardava o pior...rs
Ao mestre deixo meu imenso carinho e admiração!Beijos.

Poesia Portuguesa disse...

Ainda há estórias com finais felizes!
Gostei muito!
Um abraço

AFRICA EM POESIA disse...

Manuel
Achas?

com aquela carta ...morro de susto .
se me aparecia no escuro eu morria mesmo---


beijos

rosa-branca disse...

Olá amigo Manuel, por momentos tive medo do final, mas deixou-me emocionada. Maravilhoso meu amigo e volto a dizer que adorei. Beijos com carinho

Magia da Inês disse...


¸.•°✿⊱╮
°✿ Olá, amigo!

Parabéns!!! Adorei a história!!!

Bom fim de semana!
Beijinhos do Brasil.°✿
♫•*¨*•.¸¸✿✿¸¸.•*¨*•♫

Centelha Luminosa disse...

Boa tarde meu querido e mui inspirado contista das minhas preferências!! rss..

Tu tens o poder de me prender aos teus contos, do início ao fim!

Um conto de amor, permeado com muitos sentimentos humanos, como a paixão, o afeto, o carinho, o amor maternal, sexual, mas também, a raiva, a decepção, e por fim, a surpresa de se perceber e aprender que não se pode fazer escolhas na vida, levados pelo primeiro impacto de uma situação. Mas, mesmo assim, tendo o personagem Tónio uma reação contraditória, e depois pelo impulso do momento, a Angelina ter partido, algo ficou registrado e aprendido: quando o amor é forte e verdadeiro, nada há que o destrua. Nem o tempo.

No mais, meu amado Manuel, como já te disse, sou tua admiradora e tenho aprendido contigo, algumas coisas sobre a arte de escrever contos. Devagar, chegarei lá.

Abraços da amiga de sempre!
Lu...

Maria disse...

Às vezes a precipitação leva-nos a agir sem pensar.
A sua Angelina foi precipitada duas vezes. A Iª quando não esperou que o Tóino caísse em si. Sofreu e fez sofrer o filho. A 2ª, querendo vingar-se, sem pensar no mal que ia fazer ao filho.
O Amor leva por vezes a atitudes loucas.
Felizmente acabou bem.
Gostei de o ler. Senti muita sensibilidade e uma grande tristeza, que aliás, confessa no seu perfil.
Um dia destes, passo cá.
Maria

Luís Coelho disse...

Uma história como muitas outras vividas nas serranias deste nosso país de vales profundos e de escarpas nuas.

Uma trama bem conseguida o que leva a uma leitura atenta.

Tudo é bom quando acaba bem...

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Meu querido Manuel

Como sempre uma bela estória e ainda por cima com um final feliz, e eu adorei ler.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Mary disse...

Olá Manuel!

Eu fui lendo cada verso, mas me preocupei muito com o final,achei que ia acontecer uma coisa bem trágica. Que bom que terminou assim,e o castigo dele já foi ter ficado esses anos todos sem noticias dela e do seu filho.

Lindo final, me emocionei!

Se quiser passar no meu blog será um prazer.

Bjos

SDaVeiga disse...

Vá lá, ao menos esta vingança teve um final feliz!!! :-)

Ainda bem que li primeiro o acima e só depois este, para sentir que terminei em beleza e parto daqui mais feliz! :-)

Bom fim de semana e bom fim-de-semana! :-)

SOL da Esteva disse...

Um belo Conto, Manuel, a atestar que o Amor sempre prevalece sobre a vingança.
Parabéns, Amigo.


Abraços


SOL

Mary disse...

Passando para te desejar uma linda semana.


Bjos