quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Cliente







Quando entrou no café deu uns bons dias tão sonantes que todos os clientes levantaram a cabeça um pouco surpreendidos. Não era habitual, os fregueses deixavam sempre uma saudação envergonhada, tão tímida que quase não se ouvia à talanqueira da porta.

Este foi diferente, entrou desempoeirado, franco e com um sorriso de dentes alvos que contagiavam.

As mulheres miravam à socapa e pensavam, gato jeitoso!

Os homens, com algum despeito, sussurraram:
-Deve ser bichona!

Indiferente, com um sorriso nos lábios e um olhar observador percorreu os lugares vazios, eram muitos, e foi sentar-se de costas para a montra de forma a poder observar bem todo o espaço.

Colocou cuidadosamente, na cadeira ao lado, uma pequena pasta preta e alguns livros encadernados.

Dona Matilde aproximou-se num misto de simpatia e admiração e, aclarando a voz, perguntou:

-Em que posso servir o senhor?

-Tiago, respondeu, sou Tiago e queria uma torrada mas com doce.
Pode ser?

-Pode, respondeu dona Matilde, mas só tenho de abóbora, morango e tomate!

Rasgou ainda mais o sorriso, deixando brilhar uns dentes brilhantes de não fumador:

-Pode ser de tomate, é o meu preferido!

Dona Matilde encaminhou as suas tairocas para a cozinha, ia caprichar no serviço, afinal não eram todos os dias que tinha clientes tão charmosos.

- Ai! Fosse ela mais nova e mais magra, suspirou!

*****

Tiago Payne Castro nasceu numa aldeia perdida nos contrafortes da serra, filho de pai português e mãe sueca.

O pai conheceu, em Estocolmo, a mãe uma artista que se sentia encurralada no bulício de uma grande cidade e, tal como o pai, sonhava com o bucolismo e a paz que se respira no campo.

Compraram uma pequena quinta num local onde, nas noites de inverno, ainda se ouvia o uivar dos lobos, As lareiras crepitavam nos dias frias e o tempo corria de forma suave, calma e desprendido da maldição dos horários que condicionam e oprimem.

A mãe passava os dias no improvisado atelier, onde nasciam as pequenas obras que depois mandava para um agente que as comercializava em muitas cidades da Europa.

O pai, de uma pequena cabana, fez o seu escritório com vista sobre a serra, dizia ele, que lhe dava mais inspiração, e ia matraqueando numa velha Remington Rand os livros e os artigos que mandava para jornais e revistas.

Tratavam da horta com o mesmo cuidado com que cuidavam da vida, sem pressas, mas com amor e gratidão por tudo o que ela lhes dava.

Nada de riquezas, mas o suficiente para o conforto e a bem estar de uma liberdade.

*****

Foi num entardecer de Maio, as tardes já não estavam tão frias e o vento soprava mais ameno. Estavam os pais sentados no alpendre bebendo uma bebida amarela, Tiago, tinha três anos, estava a brincar junto ao tronco do velho carvalho, tentando com um pequeno pau contrariar um carreio de formigas.

De repente ouviu o reboliço, abaixou-se e espreitou ao longe. Eram três homens que chegaram num carro. O mais alto, com uma espingarda, disparou sobre os pais, os outros entraram a correr em casa e começaram a acarretar coisas que punham no porta-bagagens. Depois fugiram deixando uma nuvem de pó na quietude da paisagem.

Tiago esteve longas horas num total torpor, misto de medo e de impotência.

Foi na manhã, do dia seguinte que o homem, que vendia os queijos. se deparou com a chacina, dois corpos num charco de sangue seco.

Da criança nem o mais pequeno rasto.

*****

Foi um pastor que alertou as autoridades, tinha avistado na encosta da serra um rapaz com ar selvagem, cabelos enormes e desgrenhados, ar encardido e com uma agilidade felina. Os cães ainda tentaram a perseguição, mas o rapaz rugiu com um animal e desapareceu no meio do mato e das fragas.

Fizeram uma batida, homens e animais esquadrinharam todos os recantos, andaram pelos sítios onde os lobos se acoitam durante o dia mas os caminhos eram difíceis e perigosos, pelo que ao cair da tarde desistiram sem notarem qualquer indício de rapaz, muitos pensaram que o pastor estava com visões ou andava brincar com coisas sérias.

No dia seguinte, com a ajuda de especialistas, voltaram a esquadrinhar todos os recantos, e a sorte esteve presente, numa gruta no meio de uma ninhada de lobos uma criança dormia.

Estava imunda e receosa, com dificuldade entendia o que lhe diziam, não consentia a aproximação e rosnada de forma agressiva sempre que alguém tentava deitar-lhe a mão. 

Para a tia foi fácil descobrir quem era a criança logo que viu as fotos, nos jornais, era o Tiago o seu sobrinho que tinha desaparecido na chacina de há três atrás.

Tomou conta da criança, foi difícil, reagia mal, comia de forma desordenada, atacava rangendo os dentes e com os dedos retesados como garras.

A pouco-e-pouco o carinho, a ternura e a paciência da tia Carmem fizeram o milagre.

Tiago passou a ser, de novo, uma criança calma e pacífica. Recuperou a faculdade de falar, começou a sentir-se bem com o conforto e as recordações surgiam naturalmente.

Lembrava-se do homem mau, dos tiros e dos dentes que brilhavam quando se ria.

Depois, quando acordou, estava deitado junto de três irmãos-lobos com quem aprendeu a mamar na mãe que ia e vinha trazendo a comida.

Quando via os homens fugia para junto dos irmãos, tinha medo e lembrava o pai e a mãe deitados no chão, com todo aquele sangue, e o homem com uma espingarda a deitar fumo e a rir fazendo brilhar aqueles dentes amarelos.

*******

Cresceu, estudou e aprendeu a ser um homem.

A tia partiu com o mesmo sorriso que sempre lhe conheceu. Antes de fechar os olhos pediu-lhe:

-Meu filho vou partir mas vou andar sempre perto de ti, não te esqueças de respeitar e honrar a memória dos teus pais.

Ele só abanou a cabeça, as lagrimas não o deixaram falar.

A tia deixou-lhe uma pequena fortuna, um curso e muitos ensinamentos.

Ela nunca soube, ele, nunca lhe contou que o ódio que sentia dentro dele nunca o conseguiu apagar.


******

As torradas estavam razoáveis mas o doce estava óptimo.

Ficou a sorver o café em pequenos goles enquanto ia mirando os pequenos grupos, esperava ver os sorrisos, queria descobrir um esgar onde brilhassem dois dentes de ouro.

O rosto, se calhar já não se lembrava bem, mas o cheiro e o sorriso naquele trejeito, de dentes cintilando, estava bem registado no seu pensamento. Nunca o esqueceu.

*****

Percorreu todas as localidades, andou por cafés e tabernas olhando e farejando como um cão, mirou bocas, espreitou caçadores.

Perguntava de forma discreta, como se apenas fosse uma pequena curiosidade, sobre quem gostava de usar dentes desse metal.

*****

Já estava um pouco cansado, algum desconforto e frustração mas um desejo enorme de continuar.

Mas desistir, isso nunca!

Era um domingo solarengo, embora a temperatura estivesse baixa, à porta das casas, os mais idosos, ficavam ao sol para aquecer os doridos ossos.

Tiago, naquela forma encantadora que sempre usava, meteu conversa com um simpático e desdentado velhote que com a agilidade, que os dedos ainda lhe permitiam, ia deitando um pouco de tabaco numa mortalha que depois enrolava e passava pelos lábios para selar o cigarro.

-Nunca consegui enrolar um cigarro com essa facilidade, disse Tiago.

O idoso riu, um sorriso de dois dentes perdidos no fumo do cigarro que acabara de acender.

-Tem que praticar rapaz, só praticar.

Sentou-se ao seu lado.

-Não se importa! Perguntou.

Voltou a sorrir e abanou a cabeça em sinal de aprovação, enquanto ia deixando sair umas pequenas baforadas de fumo.

-Sabe, disse, porque não manda fazer uma dentadura?

Foi uma das gargalhas mais sonoras de que se lembra. Estava mesmo divertido, e foi um pouco engasgado que respondeu:

-Às tantas, ainda, vão dizer que devia por uns dentinhos de ouro como os irmãos Canazitas!

O coração pareceu querer saltar do peito, respirou fundo para disfarçar a ansiedade e perguntou:

-Quem são esses irmãos?

Não pareceu admirado com a curiosidade.

-São três maraus que vivem na casa amarela ao fundo da povoação. Bom, eram, porque o mais velho morreu o ano passado, alguém lhe deu um tiro. Os outros dois não são flores que se cheirem, maus caracteres.

Falou mais um pouco, despediu-se e fui procurar a tal casa amarela.

Deve ter sido amarela noutros tempos, agora era uma mescla de manchas num fundo que já foi dessa cor.

Ficou no carro o resto da tarde, na esperança de ver alguém entrar ou sair, mas a noite caiu e nada de movimentos.

Ia voltar tantas vezes que um dia iria ter sorte.
 

*****

O povo estava em alvoroço, os lobos nunca tinham chegado tão próximo do povoado.

Hoje, de manhã, tinham encontrado, o Zé e o Joaquim Canazitas, mortos junto ao curral da casa amarela.

Só podiam ter sido os lobos, tinham a gargantas dilaceradas por garras afiadas, olhos aterrorizados e a boca num esgar de sofrimento onde sobressaiam, nas gengivas despedaçadas, os dois dentes de ouro que tanto adoravam.







 







15 comentários:

SDaVeiga disse...

Tanta violência!!!
A Troika está-te a enegrecer mais ainda a inspiração homem!!! :-S

Mas foi uma trama bem conseguida.

E viva a tia Carmem! ;-)

Mary disse...

Manuel!

Obrigada pela visita!
pode deixar que vou estar sempre por aqui.
Meu objetivo é aprender sempre com quem tem a ensinar.

bjos querido

✿ chica disse...

PUxa, que maravilha!!

Do início ao fim me prendeste, pra ver o enredo. Adorei e que bom o final.Era necessário! abração,chica e parabéns sempre!

Bloguinho da Zizi disse...

A sede de vingança venceu.

Não desprendi os olhos do teu conto. Forte! mas quem numa situação dessas não teria esse pensamento? Vingança!
Não é o melhor dos sentimentos, mas como tantos outros existe no ser Humano. Uns manifestam enquanto outros......

Abraços Manuel

Vivian Fernandes de Goes disse...

Olá,Manuel!

Impressinante!Um final aterrorizante,que deixa um arrepio na espinha! Uma pena remoer o ódio, a vingança...são venenos para a alma.Impossível sair em paz depois de uma atitude tão drástica!
*Sou fascinada pelos lobos,desde pequena!São animais incríveis.E claro a história de Rômulo e Remo nunca saiu da minha cabeça...rs
És um escritor maravilhoso meu amigo,e digo com toda minha sinceridade.
Beijos e meu carinho sempre!

quem és, que fazes aqui? disse...


Muito bom, sinceramente, Manuel!

Parabéns. Um dos melhores contos que tenho lido!

Beijo

Laura

BlueShell disse...

Bom dia Manuel. Em primeiro lugar quero agradecer os elogios ao meu humilde blog.
Em segundo lugar dizer que tem aquqi mais um excelente conto: tanto pelo enredo como pela forma como intercala as várias sequências narrativas.
Perante a morte violenta dos pais Tiago fez o que" tinha de ser feito."
A sua segunda infância ,(já que a 1ª lhe fora roubada) com os irmãos lobos , e o sedejo de sangue, lhe estava lá, bem fundo vincado na sua personalidade.
"Só podiam ter sido os lobos, tinham a gargantas dilaceradas por garras afiadas,"!

EXCELENTE!
Abraço, BShell

anita sereno disse...

vim lhe desejar um bom fim de semana deixar um beijinho e um forte abraço seu blog esta maravilhoso visitando amigos desculpe a minha ausência

Mary disse...

Olá Manoel!

Já sou sua fã, pois gosto de contos, adoro a forma como cada um desenvolve uma historia.

Passa lá no blog quando desejar, te espero, bjos e excelente fim de tarde.

Parole disse...

De tirar o fôlego, Manuel!!! Um dos melhores, com certeza.


Beijinhos e bom fds.

Catita disse...

A vingança é um sentimento que poucos têm a capacidade de controlar.

Smareis disse...

Olá,Manuel!
Como sempre um conto espetacular.
Diante da situação Tiago fez o que o que era necessário.
Gostei imenso desse drama.

Grande abraço caro amigo.
Ótima semana!

Magia da Inês disse...

¸.•°✿⊱╮╮

Olho por olho, dente de ouro por dente de ouro, só funcionam bem em contos.
Boa semana!
Beijinhos.
Brasil
¸.•°✿⊱

rosa-branca disse...

Amigo Manuel, fiquei presa à leitura que enquanto não vi o final não descansei. Fez justiça o rapaz, pois não ia descansar enquanto o não fizesse. Foram os lobos...foi melhor assim, ele não merecia ser mais castigado. Um final muito justo que adorei. Beijos com carinho

SOL da Esteva disse...

Terá sido vingança ou justiça de irmãos de peito?
Sempre expectante, resisto não antecipar o final. Assim, sabe melhor o teu modo bem característico e maravilhoso de contar.
Parabéns pela tua Arte.


Abraços


SOL