domingo, 9 de dezembro de 2012

Esmeralda








Todos lhe chamavam Esmeralda, não sabia se pelo verde dos seus olhos ou se para esquecerem aquele nome horrível com que a baptizaram, Epifania, como se esse nome se pudesse dar a uma criança.

Pois Epifania, perdão Esmeralda, era uma moça roliça, farta de carnes, seios altos e volumosos.

Não era bonita, tinha uma pele borbulhenta, sobrancelhas fartas e desalinhadas, boca de lábios finos e muito pouco sensuais mas, os olhos de um verde intenso, faziam esquecer os pormenores em que Deus foi menos generoso.

Nasceu de uma família abastada, foi educada dentro de valores morais muito rígidos mas a rebeldia foi sempre a sua bandeira.

Nunca se vergou, nunca aceitou os namoros que os pais de forma um pouco sub-reptícia lhe iam tentando impor, pois sabia que eram apenas os interesses que estavam em jogo.

Houve, apenas, um momento em que sentiu algum sentimento, mas em verdade, foi mais uma simpatia pois o moço Lino, filho do Elói, era de uma delicadeza extrema e com coragem suficiente para lhe confessar:

-Sabes Esmeralda, nunca te podia fazer feliz, pois sou, ninguém o sabe, mas sou gay.
Epifania, digamos Esmeralda, gostou da frontalidade e da coragem.

*****

O ano estava a acabar, o frio mantinha as pessoas no aconchego dos lares, as chaminés fumegavam pois, as lareiras, eram o único conforto das inóspitas noites de inverno.

Os preparativos do Natal já eram uma constante, às portas arranjos de flores ou pequenos pais natal, pendurados nas janelas, davam aquela magia que contagiava e fazia luzir os olhos das crianças, antevendo no sapatinho o brinquedo que tinham pedido.

Os pais de Esmeralda a quem a idade não tinha tirado, ainda, o gosto pela magia da época gostavam das ceias com muita família à volta da mesa da consoada.

Eram apenas três e um Natal com três gatos-pingados não é Natal, pensava o senhor Matias, pai de Epifania, alias, Esmeralda. Este ano vai ser diferente – pensou - vamos passar a quadra a Trás-os-Montes.

Ao jantar, embora já tivesse a ideia bem assente na cabeça, perguntou à mulher e à filha:

-O que me dizem sobre uma ideia que me anda a bailar na cabeça, passar o Natal com o Gustavo e a família?

A mulher sorriu com agrado:

-Boa ideia, combina com eles. E tu Esmeralda o que dizes?

-Estou já desejando que chegue o dia, exclamou a filha!

Gustavo era o irmão mais velho de Matias, casado com a professora Margarida e pais de cinco filhos, dois rapazes e duas raparigas.

No Natal reuniam toda a família, incluindo cunhados e os sobrinhos que ainda não tinham constituído família. Todos os anos insistiam com Matias mas, com o comodismo que lhe era peculiar, ia adiando de ano para ano, mas desta vez parece que, finalmente, vão estar todos juntos.

******

Foi um momento lindo, toda a família à volta da mesa, o bacalhau, o polvo e o peru eram os reis.

Entre o barulho dos talheres e o tilintar dos copos as conversas cruzavam-se em recordações do passado e, os mais novos, em coisas do coração.

Esmeralda estava fascinada, nunca tinha sentido esta magia de um Natal em família.
Os primos foram uma novidade e eram tantos, desde os filhos do tio até aos filhos e filhas de cunhados dos tios, mais distantes, mas numa comunhão de família tão emotiva.

Depois da refeição, pequenos grupos continuavam as conversas começadas à mesa.

Esmeralda estava encantada e não conseguia deixar de olhar Simão, filho de uma das cunhadas do tio Gustavo. O moço, enquanto ia mordiscando um coscorão, sorriu aos olhares da prima, enquanto com um gesto aconselhou:

-Come, estão óptimos!

Esmeralda ruborizou, sentiu um frio bom na barriga, as pernas ficaram sem forças e o coração parecia querer saltar de dentro do peito.

Sorriu, teve a sensação do sorriso mais parvo da sua vida, pois nunca se tinha sentido com tanta falta de jeito.

Afastou-se um pouco, sem nunca deixar de o olhar, queria disfarçar mas não conseguia, estava, de verdade, fascinada.

Aproximou-se da Mafalda, continuando com o olhar preso, mas disfarçando comentou:

-Simão é mesmo lindo e eu nem o conhecia  !

Mafalda deu uma pequena gargalhada.

-Lindo? É o que tu dizes! Ele é um borracho que vai partindo corações e é um desperdício.

-Desperdício! Insistiu Esmeralda, está comprometido ou tem defeito?

Mafalda apercebeu-se do entusiasmo da prima e brincou um pouco com o embaraço.

-Não prima. É perfeito e comprometido para toda a vida.

Esmeralda fez beicinho, o verde dos olhos estava mais intenso. Não se conteve e deixou sair:

-Oh Mafalda! Vives fora da realidade, nos tempos que correm não há casamentos para toda a vida e muito menos namoros eternos. Onde se viu isso?

-Pois, respondeu a prima, aqui é diferente.

Simão casou para toda a vida e, mesmo os casamentos como o dele podem ser desfeitos, mas não acredito que neste caso aconteça.
O Simão é padre.

Esmeralda não se conteve:

-Sorte a minha! Vida de merda, só me aparecem um Linos maricas e um Simão padre!

Será que EU tenho que mudar?








 

15 comentários:

✿ chica disse...

rsssssssss...Muito bem contado e surpreendente como sempre! Escolhas!!!abração,chica

Mariazita disse...

Hoje venho convidar-te a visitar o meu blog
HISTÓRIAS DE ENCANTAR
, onde, excepcionalmente, acabo de publicar um post.
Desde já fico muito grata.
Beijinhos

PS - No próximo dia 14 haverá post novo em A CASA DA MARIQUINHAS

Pérola Irregular disse...

Hahahahahaha adorei o conto! Bem humorado e gostoso de ler.
Você possui um talento e tanto para a criação dos seus personagens, são todos muito criativos. Gostei de verdade!

Beijos!

Parole disse...

rsrsrs

Coitada da Esmeralda... Não deu sorte! Mais um excelente conto, Manuel.Adorei!

Beijinhos.

SDaVeiga disse...

Ora que acho que os padres deviam poder casar e, assim, a Esmeralda já podia tentar a sua sorte! :-)

Não sei que vídeo tinhas para nós, mas o Youtube cortou-se. Volto mais tarde a ver se já dá.

Beijinhos e bom Natal em família à volta de mesa farta e com muita alegria! :-)

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Que bem que conta histórias! Delicio-me. Estou pior que as crianças, ao ouvirem os pais ou os avós contarem contos, para adormecerem.
Segundo me disse, tudo é "cozinhado" na sua cabeça, mas que cheiro e paladar!

A Epifania, ou melhor a Esmeralda, como graciosamente diz, estava com azar. Ora surgia um homossexual, ora um padre. Acho mais fácil de mudar e convencer, o que era Padre.

Gostei muito da história, porque é arejada, com linguagem corrente e até é meiga, no conteúdo.

Obrigada por me ter visitado e "espiolhado" os meus poemas/textos.

Beijinho da Luz, para o seu amigo fofinho.

Já lhe vou desejar as Boas festas? Não, a gente, ainda se fala, antes.

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Na voltas do tempo, esqueci-me de falar do vídeo. Lindíssima a canção e não menos guapíssimo el chico. Ele e Carminho cantando, "una sola palabra" (isto deve estar um espanhol, de truz)! Gosto muito.
Bom gosto, sim "menino" Manuel.

Beijinho da Luz.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Encontros e desencontros nas consoadas natalícias.
Uma história encantadora a dar brilho a uma consoada em família.

Existe um contraste acentuado entre a beleza e o desejo de ser feliz.
Parece que ela até era bonita dos olhos mas não os tinha bem orientados

Se um era gay ... o outro já estava comprometido...

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Como vai? Com este frio, tiritamos.
Vou pôr a minha foto no painel do seu blogue, para saber quando publico. Agora, só para o ano, se Deus quiser.
O meu nome verdadeiro é Emília.

Beijinho da Luz.

Janita disse...

Realmente, há pessoas que já nascem predestinadas a não ter sorte no amor!
Coitada da Esmeralda que só lhe saíam duques...pelo menos safou~se a noite de Consoada.
Também acho que Natal só tem encanto se passado com a reunião da família e se for numerosa, tanto melhor. De preferência com crianças!
Um beijo.

Janita

SOL da Esteva disse...

Encantas-me, Amigo.
Os teus remates finais são de arrasar.
Por isso tomo os cuidados necessários para não me aperceber dos desfechos.Sabe sempre melhor.
Parabéns por mais esta "esmeralda" de Conto.


Abraços



SOL

Mary disse...

Uma linda historia.

Bjos com carinho meu querido Manuel.

Magia da Inês disse...

★ ♫♫

Sem sorte mesmo!
Pobre gaja!
Bom fim de semana!
Beijinhos.
Brasil

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Rain disse...

Querido amigo foi com alguma tristeza que reparei que já não consto na sua lista de amigos. Tenho pena mas isso não me impede de o admirar e comentar e se não se importa continuarei a visitá-lo.Aproveito para lhe deixar um beijinho e desejar um muito bom Natal. Boa semana

Vivian Fernandes de Goes disse...

Que decepção para a Esmeralda!!!rsrs
Nem sempre as coisas saem como gostaríamos...faz parte.
Um conto com um humor bem peculiar!Gosto do seu senso de humor,meu amigo!
Beijos!