domingo, 2 de dezembro de 2012

Uma história de amor?








Maria Alzira considerava-se a moça mais infeliz do mundo e chorava pelos cantos a sua tristeza.

Era filha única de um casal que parecia feliz, mas apenas parecia pois a mãe Maria Emília sofria com a amargura da filha e compreendia pois na sua juventude sentiu, igualmente, essa forma de se julgar marginalizada.
O pai, José Coxo, como era conhecido na aldeia, nasceu com um problema numa perna e ficou com uma dificuldade para a vida.

Quando era moço os outros rapazes mangavam com ele, pois com aquele andar balanceado era impossível ficar despercebido.
Às vezes disfarçava, tentando andar com um pé no passeio e outro na rua, para dar a impressão que o bambolear era fruto do desnível, mas todos o conheciam e continuo a ser o Zé Coxo.

Fez esforço para não arranjar conflitos e todos o aceitavam e aos poucos foram esquecendo a diferença, mas só a diferença, porque o nome esse ficou.

As raparigas respeitavam-no e, algumas até se atreviam a dançar com ele nas festas, pois apesar do seu problema era um exímio dançarino, rodopiava como nenhum ao compasso da valsa, e o deslizar dos seus pés, ao som de um tango, tinham quase magia.

Mas a festa eram cinco dias e acabada, os bailes passavam a fazer parte do passado.

Ele bem que tentava, um namoro, mas todas fugiam com aquelas frases tão fáceis de inventar. Desculpa mas tenho compromisso, ou, não penso em namoros sou muito nova ou até desculpa mas não fazes o meu tipo.

Ele sabia que era por ser manco daquela malvada perna, que quis crescer mais do que a outra.

Apenas uma rapariga parecia mostrar algum interesse a Maria Emília, mas era tão feia que até ele, mesmo coxo, tinha esperança de arranjar melhor.

A natureza tem destas coisas e um dia sem saber bem como, aconteceu, Era namorado da moça mais feia do povoado e, talvez, de todas as terras em redor.

Com o passar dos tempos, com o trato e o carinho Maria Emília começou a parecer-lhe menos feia. Bonita nunca a achou, mas menos feia sim.

Era feliz com ela, sentia-se bem, nunca notou qualquer olhar para a sua enfermidade, muito pelo contrário, sempre o considerou como dos homens mais bonitos da aldeia. E diga-se, em abono da verdade, se não fosse aquela dissimetria das pernas podia ser considerado um bonito homem.

Acabaram por casar, foi uma bela cerimónia e o princípio de um relacionamento feliz. Zé gostava da mulher e nem já notava que fosse menos bonita. Maria Emília já nem se apercebia que o marido andava um pouco desengonçado.

Casaram em Setembro e na véspera de Natal pegou nas mãos do marido, encostou-as à barriga e disse-lhe:

-Zé olha aqui a tua prenda de Natal. Estou grávida!

******

Foram meses de alegria e expectativa. Seria um rapaz ou uma rapariga?

Zé olhava a mulher, e dizia:

-Sabes? Gostava que fosse uma menina, assim doce como tu!

Maria Emília sorria, imaginava uma criança a correr naquela casa.

-Eu gostava que fosse um rapaz, dizia com receio na voz.

-Se for uma menina que seja bonita como o pai e se for um rapaz que traga as duas perninhas parelhas!

Depois riam a bom rir com a felicidade estampada no rosto.

*******
 

Foi em Julho, estava uma manhã quente, quando Maria Emília gritou para o marido:

-Zé vai chamar o Doutor Óscar, está chegando a hora!


Era uma menina, foi um parto difícil e demorado, mas acabou por correr tudo bem.

Olhavam os dois fascinados para a filha, ainda estava um pouco congestionada.
Não parecia uma bebé muito bonita mas nestas idades mudam muito. As perninhas, essas, eram perfeitas, o doutor Óscar garantiu que era uma criança saudável e sem defeitos.

-Vai ser Maria Alzira, Maria como tu e Alzira como a minha mãe. Não te importas? Perguntou Zé.

-Gosto do nome, vai ser então Maria Alzira! Exclamou a mulher.


******

Maria Alzira foi uma criança feliz, cresceu numa família que sempre transmitiu os valores do comportamento e da educação.

Muito inteligente. facilmente se foi apercebendo que o espelho não mente.

Olhava-se e não percebia porque a achavam feia, tinha uns olhos muito pequenos, uma boca demasiado grande com lábios muito finos, pestanas ralas e pouco visíveis enquanto as sobrancelhas fartas quase se juntavam no meio dos olhos.

Mas, pensava, o que tinha isso de especial?
Era só a cara, que representa uma percentagem mínima do total?

Tinha umas mãos lindas, dedos longos com unhas bem desenhadas, pernas altas e bem torneadas e uma cintura no sítio certo. Um par de mamas que eram a inveja das outras raparigas e prendiam os olhares dos rapazes. Eram certas, rijas, empinadas e terminando em dois pequenos botões de rosa.

*****

A animação chegou à vila - sim a aldeia agora já era uma vila - as ruas estavam enfeitadas, a música percorria todos os recantos enquanto os festeiros faziam o peditório para ajuda nas despesas.

A população tinha duplicado com a chegada dos filhos da terra, imigrados por esse mundo fora e que, nesta data, voltavam para matar saudades.

Às portas das tabernas e cafés, os grupos davam um ar de animação e alegravam o negócio.

Logo pela manhã os foguetes acordavam os mais preguiçosos.

Hoje, às 10 horas, era a primeira noite de baile no pavilhão da Sociedade recreativa.

Era um acontecimento e a oportunidade para os mais jovens, tentarem uma aproximação aos eleitos dos seus corações.

A sala estava cheia, o conjunto “Brothers” começou os primeiros acordes na afinação dos instrumentos.

Os homens iam-se distribuindo pelas bancadas de madeira e as mulheres procuravam, no lado contrario, lugares nas cadeiras alinhadas.

Havia muita animação, os pares redopiavam ao som do barulho que a música deixava no ar.

Maria Alzira, num bonito vestido rosa, com um decote que sem ser generoso, deixava contudo perceber o orgulho da rapariga, olhava com interesse e alguma expectativa e esperava um convite, para poder sentir o calor de um par nas voltas de uma dança.

No tablado, em frente, estava um jovem que ela não conhecia. Não era da terra. Provavelmente amigo de alguém, ou forasteiro de terra próxima, mas a verdade é que não sabia quem era. Era bonito, vestia com algum requinte. Tinha uma expressão doce, rosto moreno bem delineado, o cabelo negro em desalinho nos suaves caracóis distribuídos de forma quase displicente, davam-lhe um encanto que obrigava as raparigas a olhar uma vez e mais uma, na esperança de um convite para a dança, mas ele continua de olhar passeante como se nada de especial lhe prendesse a atenção.

Maria Alzira pensou. E porque não? Se os homens iam pedir as mulheres porque não o contrario?

Se bem o pensou melhor o fez, chegou perto do jovem e perguntou:

-Aceita bailar comigo esta dança?

O rapaz pareceu surpreso, mas levantou-se e foi dizendo:

-Gostava muito, mas só se for a menina a conduzir.

Ela segurou-lhe a mão, enlaçou-o nos braços e partiram embalados no barulho daquela música.

-Não o conheço! Não é de cá? Perguntou.

-Sou filho do Severino e Ana Galhardo, filhos da terra, mas nasci em França para onde os meus pais imigraram há cerca de 25 anos.

-Dança muito bem! Porque quer que seja eu a guiar a dança? Perguntou a rapariga.

-Ainda não percebeu? Sou cego, respondeu.


Dançaram toda a noite, e nas noites seguintes.
Felizes e esquecidos das belezas e limitações.
Falaram da vida, dos anseios, das pessoas e das coisas e conversaram, também, das coisas do coração.


Quem sabe se não começou aqui uma linda história de amor!

 


 

26 comentários:

nikita disse...

O verdadeiro amor é assim mesmo!
Acredito que pode acontecer desta forma, porque não!?

Gostei tanto de ler esta história. Por aí encontramos histórias semelhantes e, é bonito.

AFRICA EM POESIA disse...

deixo a mimha poesia.
amanhã ouve o dia seguinte na Sic e diz-me alguma coisa


pode ser que para a semana seja





A amizade é uma coisa
Que chega e muitas vezes vai.

É difícil ficar... é difícil estar
Mas... olhamos e sabemos...

Sabemos que o amigo
És mesmo tu...

Que esperas por mim
E me levas contigo...

Não me deixas chorar
Pois choras por mim...

Estás sempre alerta
A qualquer hora me acodes...

E em todo o momento
Mesmo que não estejas...

Eu sei que estás...
Porque te sinto... AQUI!...

LILI LARANJO

AFRICA EM POESIA disse...

deixo a mimha poesia.
amanhã ouve o dia seguinte na Sic e diz-me alguma coisa


pode ser que para a semana seja





A amizade é uma coisa
Que chega e muitas vezes vai.

É difícil ficar... é difícil estar
Mas... olhamos e sabemos...

Sabemos que o amigo
És mesmo tu...

Que esperas por mim
E me levas contigo...

Não me deixas chorar
Pois choras por mim...

Estás sempre alerta
A qualquer hora me acodes...

E em todo o momento
Mesmo que não estejas...

Eu sei que estás...
Porque te sinto... AQUI!...

LILI LARANJO

quem és, que fazes aqui? disse...



Uma estória ternurenta e que me emocionou.

Ando assim. Deve ser do tempo natalício.

Beijinho

Laura

Flor de Lótus disse...

Bom dia,Manoel!Belo conto para o amor não há empecilhos nem preconceitos quando se ama verdadeiramente.
Beijosss

✿ chica disse...

Que bom que tudo pode acabar bem.LINDA!! abração,ótima semana,chica

SDaVeiga disse...

Uma história de amor com toda a certeza! :-)

Quem disse "o Amor é cego", tinha toda a razão! :-)

Beijinhos e boa semana!

Evanir disse...

Estou bem afastada ,mais as saudades que sinto
chega dói meu coração.
Por meio dessas poucas palavras estou
passando para deixar meu carinho,
e dizer de uma forma ou de outra vou fazer
de tudo para jamais ser esquecida.
Foi para uma comemoração junto de todos
amigos e (as) foi colocado no ar A Viagem desse
Natal de 2012.
Deixei na postagem um mimo caso gostar fica
a vontade para trazer para seu blog.
Um abraço carinhoso tenha certeza
minha amizade é absolutamente e Sinceramente
verdadeira.
Carinhosamente,Evanir..

rosa-branca disse...

Amigo Manuel, deixou-me comovida com a sua história e se bem o conheço ela vai ter continuação. O amigo não nos ia deixar, sem um final a seu jeito, para este par maravilhoso. Fico em pulgas para ver a continuação. Adorei meu amigo. Só mesmo o Manuel para nos deixar assim agarrados à leitura. Beijos com carinho

LUZ disse...

Olá, Manuel!

Julio Iglesias, emoldurou o seu conto. Linda e sensualíssima voz!
Mas, "El amor",é assim mesmo.

Obrigada por ter vindo espreitar o meu blogue, e ter deixado umas palavrinhas.

Foi muito interessante o desafio, entre mim e a Rosa.
Os seguidores do blogue dela e os dos meus, (tenho dois) têm sido muito amáveis e sinceros. Não tem havido aquelas "guerrazinhas" e rivalidades. Bonito, mesmo.

O seu conto deve ser baseado na vida real, não será?
Maria Emíla, José "Coxo", Maria Alzira e o tal rapazinho francês, que estava no baile, são personagens perfeitas, reais.

A narrativa está muito bem escrita, não enfada, aquando da leitura, e muito bem pontuada. Nota 19, "menino" Manuel.

Tenha um resto de boa semana.
Um abraço da Luz.

Parole disse...

Que história linda e bem contada, Manuel.Li encantada.


Beijinhos.

AFRICA EM POESIA disse...

Manuel
um beijinho e obrigada pela visita.
eu gostei da entrevista mas não me surpreendeu pois sei o que pensa e está numa situação complicada é apenas a opinião de um adepto intranquilo. vamos esperar..


um beijinho para ti

AFRICA EM POESIA disse...

A tua história é linda demais- comoveu-me muito a vida é mesmo isto,aqui há muita realidade...e muito Amor
para ti um beijo

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Historias de vida e vidas com história.
Acontecimentos que nos fazem pensar que a beleza do amor não está apenas e só no nosso corpo ou expressão do nosso rosto.

Um amor verdadeiro vai mais além e faz-nos ver aquilo que a maioria não vê nem sente.

Edilene disse...

Que saudades desses teus enredos envolventes! Estava sem internet! Gostei muito! O amor é assim mesmo!
Um abraço: Edilene

Rain disse...

OLá Manuel! Emocionei-me com esta história. Que interessam predicados ou defeitos se deveríamos todos ver com os olhos do coração? Lindissimo, muito bem escrito. Obrigado por este bocadinho de magia. Bom resto de semana meu amigo.

Magia da Inês disse...

✿ °•.¸
Olá, amigo!

Já diz o ditado: o amor é cego, surdo e mudo porque vem do coração.
Ótimo conto, resgata a essência da vida.

Bom fim de semana!
Beijinhos.
Brasil
✿ °•.¸¸.•°♡⊱╮╮

Smareis disse...

Oi Manoel,
Quanta beleza de alma nesse relato.Me emocione e sorri ao mesmo tempo de sua criatividade. Um pé no passeio e outro na rua, para dar a impressão que o bambolear era fruto do desnível.Eu conheci um senhor que usava esse mesmo artificio pra camuflar a sua limitação.
Gostei do final da história, muito bem construído esse remate.


Deixo um grande abraços!
Ótimo fim de semana!

Clique-Refletindo com a Smareis

Mary disse...

Olá Manuel, mais uma linda historia. Adoro TODAS.

Obrigada meu querido amigo poeta, te adoro.

bjos no coração.

Janita disse...

Mais uma linda estória Manuel, que de certeza terminou numa bela história de amor!
Adorei! Tanto, que, se me permitir, vou terminar assim:


"Quem sabe se não começou aqui uma linda história de amor e que a Maria Alzira deixou de andar triste e chorosa pelos cantos da casa..."

Gostei, especialmente, porque me fez lembrar o Al Pacino no filme "Perfume de Mulher".

Um beijo, Manuel.


SOL da Esteva disse...

Um Conto muito enobrecedor do Amor.
Costuma dizer-se que o Amor é cego e despido de discernimento. Na verdade, o Amor é um sentimento profundo e sério.
Um belo trabalho, Manuel.


Abraços


SOL

Evanir disse...

Estamos a poucos Dias do Natal
agradeço seu carinho no decorrer de mais um ano ,
que esta chegando ao Fim.
Só tenho que agradecer a Deus por sua amizade,
agradecer acima de tudo Deus por ter preservado
minha vida por mais um ano.
Em meio a tantos obstáculos passando
por cada um deles movida pela fé e esperança de Dias melhores.
E para encerrar o Ano com chave de ouro coloquei
mais um livro em sorteio no meu blog.
Para participar basta ser seguidor colocar o selinho de participação que esta na postagem do meu blog
manter seu blog atualizado pelo menos 8 dias no Dia do sorteio.
Conto com sua participação.
Uma abençoado final de semana beijos no coração,Evanir..

Centelha Luminosa disse...

OLá querido Manuel, meu contista preferido!

E digo preferido sim, porque teus escritos , além de muitos bons, tem metáforas que me encantam revelando a alma persipcaz do autor, como no caso deste, que expressa sua sensibilidade em nos dizer que o amor é cego. Contudo, penso que os cegos usam a segunda visão,muito mais do que os que a possuindo, não sabem enxergar, e aos cegos, ela é exercitada continuamente, lhes possibilitando ver a alma do outro.

Feliz Natal, meu querido amigo!

Beijos da Lu...

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Meu querido amigo

Como sempre arranjas uns finais lindos e inusitados para as tuas histórias que eu gosto tanto de ler, porque os lugares e as coisas me fazem lembrar tempos passados.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Rita disse...

Bom dia de domingo!

A beleza de tudo isso é o poder
das suas mãos que faz toda diferença
Parabenizo, elogio e deixo um abraço
com todo meu carinho, pela linda história de AMOR.
Bjuss
Rita!!

Vivian Fernandes de Goes disse...

Olá,Manuel!!

Que bela história!!!!!Adorei!
Acredito que o amor sempre acha um jeito!
Senti saudades meu amigo! Desculpe minha demora.
Beijos e meu carinho sempre!