terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A Candidata








Ramiro olhou a rapariga e não se conteve:

-A gaja e boa como o milho!

Não querendo entrar em brejeirices sou obrigado a concordar, de facto, a rapariga era de fazer perder a respiração.

Longilínea, torneada e com tudo a que uma mulher tem direito.

Os cabelos negros, emolduravam um rosto angelical, olhos de cor de avelã, lábios carnudos e um sorriso como o sol a nascer numa manhã, radiosa, de primavera.

Era, de facto, boa como o milho!

Mas voltando, como sói dizer-se, à vaca fria, a exclamação de Ramiro não passou despercebida, Lúcia captou a mensagem, sorriu, pensou responder mas acabou por fingir não se ter ouvido. Não convinha!

Não era a primeira vez que se apercebia de galanteios parvos e, embora lhe balançassem o ego, entristeciam-na a forma babosa.

Teve que fazer de conta, passou pelo galanteador e apresentou-se à menina, que estava na secretaria, ao fundo da sala. 

Esperou a atenção e perguntou:

-Será que estou no local certo? Sou Lúcia de Sá e fui convidada para uma entrevista!

A recepcionista, olhou-a com um sorriso tranquilizador, sorriu e indicou-lhe uma cadeira antes de responder:

-Sente-se por um momento, o doutor Marcelo está a atender outra candidata e, a seguir entra a menina.

Sentou-se com uma elegância estudada, puxou delicadamente a saia sobre os joelhos, que rodou de forma a ficar composta e elegante.

Esperou, precisamente, doze minutos.

Quando entrou, no gabinete, não pode passar sem deixar um bruaá de admiração, nunca tinha visto nada assim, ou melhor, viu em filmes mas isso era surreal. Aqui era verdade.

Uma sala, para ai, com 50 metros quadrados, paredes forradas em tecido almofadado, ao meio uma secretaria enorme, com montes de papéis, escrupulosamente alinhadas e protegidos por pisa-papéis em cristal colorido.

O fulano que estava no outro lado daquela secretaria, doutor Marcelo, era um tipo esquisito, macilento, dedos enegrecidos pelo tabaco, olhos encovados por detrás de uns óculos sem aros.

Lúcia ficou perfilada, do lado de cá da secretaria, numa atitude estática e expectante.

Finalmente o homem levantou-se, estendeu um mão marcada pela nicotina e apontou uma cadeira.

Abriu uma pasta, leu atentamente uns papéis, de vez em quando, olhava a rapariga e maneava a cabeça, voltava a ler as folhas. Por fim, arrumou meticulosamente a pasta e perguntou:

-É casada? Aqui no seu currículo não faz qualquer referência!

-Achei que, para o caso, não seria relevante! Respondeu Lúcia.

O homem ajeitou os, invisíveis, óculos antes de replicar:

-Neste caso é importante, muito importante! Precisamos de alguém com muita disponibilidade de tempo, desocupada para viajar.

Uma senhora casada, muito legitimamente, tem obrigações que podem ser obstáculo a essa disponibilidade. Só por isso!

Lúcia, brindou-o com um sorriso capaz de derreter um coração, mas o homem nem sequer o notou, e voltou à entrevista:

-Bom! A doutora Lúcia, olhou o papel a confirmar o nome, Lúcia Pimentel tem uma boa formação académica, uma belíssima presença, não tem muita experiência mas, com a formação que a Companhia proporciona, não lhe será difícil!

Eu vou aconselhar a sua contratação! Num prazo de 15 dias será, novamente, convocada para uma conversa com o seu futuro chefe, assim espero!
Estendeu a mão numa despedida.

++++++

Quando respondeu ao anúncio, não sabia bem ao que estava a candidatar-se. Era vago.

Dizia apenas:

"Empresa líder na sua área, admite profissionais com formação académica superior nas áreas de Design, Gestão ou Ciências Sociais.
Responder com "cv" detalhado para....."


Lúcia, tinha acabado um mestrado. Entrar no mercado de trabalho era a prioridade. Mandou dezenas de "cv" para todas as Empresas que poderiam, eventualmente, estar interessadas, mas o tempo ia passando e nenhuma resposta.

Estava a ficar com uma certa frustração e, emigrar não estava no seu horizonte, não queria deixar a família.

Tinha um curso superior, com um mestrado em sociologia e, relações de trabalho, dominava além da língua materna, também, inglês e alemão.

Não tinha, evidentemente, experiência profissional mas considerava-se inteligente, de fácil adaptação e com capacidade para assumir qualquer cargo, na sua área.

A entrevista não correu mal, gostaram do "cv", parece que, tirando o parvo da “boa como o milho”, deixou boa impressão pelo aspecto e pela apresentação.

*******

Estava nervosa, quando aquele Dr. Marcelo a atendeu, nem sequer perguntou quais as funções que, em caso de admissão, iria desempenhar. Possivelmente, esperava, um cargo que lhe desse um acesso rápido a um lugar na chefia.  

Ia aguardar!

******

Passaram 10 dias, quando lhe telefonaram a marcar a segunda entrevista. Pareceu-lhe ser, a menina da recepção, que a convidou para amanhã às 16 horas.

Chegou antes da hora, aproveitou para olhar melhor e tentar saber qual a actividade, apenas uma frase se destacava nos, diversos, painéis espalhados na entrada. 

Temos nas nossas mãos o futuro, queremos repartir com todos. Iremos ao vosso encontro.

Não lhe acrescentou muito, dirigiu-se à mesma menina que a mandou esperar, na mesma cadeira. Hoje não ouviu nenhum galanteio, apenas olhares!

Pegou numa revista, era da própria Empresa. 

Um organigrama, com um Presidente no topo da árvore, depois ramificações com directores e Chefes de departamentos, disposto por uma ordem que lhe pareceu um pouco confusa. Um dia, quando já tivesse uma palavra na estrutura, iria propor uma reformulação desse quadro, para um mais consentâneo com as novas realidades dos mercados.
Bom, mas isso seria depois!

Desta vez esperou um pouco mais, quase 20 minutos, para a mandarem entrar naquela imensa sala.

Hoje havia dois personagens, um homem grande, demasiado gordo, encaixado na cadeira, com os braços a ocuparem grande parte da secretaria, ao seu lado, de pé, o fuinha do piropo.

O homem grande, estendeu uma mão sapuda num cumprimento mole e desajeitado. Olhou a moça de alto abaixo, mas fez de forma casual, antes de se apresentar:

-Sou Jaime Ventura, director do departamento comercial e este, apontou o cromo, é o senhor Ramiro Parente, coordenador dessa área.
Somos, julgo que já deve saber, espero que o nosso director de recursos humanos, Dr. Marcelo, lhe tenha explicado na primeira entrevista. Como ia dizendo, somos uma Empresa vocacionada para o bem-estar das pessoas e temos uma gama de produtos que tornam, mais fácil o dia-a-dia de cada um. Mas aqui o Ramiro irá, depois, fazer uma apresentação mais detalhada.
Estamos dispostos a considerar a sua admissão, como deve compreender, faremos um primeiro contrato e, bem…,depois logo se verá!

Lúcia estava expectante e, um pouco, incomodada pelo olhar aparvalhado e baboso do tal Ramiro, não sabia como poderia, algum dia, trabalhar com tão triste figura!

-Mas, perguntou, qual vai ser o meu papel nesta Empresa?

-Vamos lá chegar! Disse, um pouco agastado, o Dr. Jaime. Vamos por partes! Nós trabalhamos por objectivos e os ganhos podem ser grandes. Num bom mês, pode fazer 5.000 Euros, ou mais!
Tem sempre garantido, um ordenado mínimo nacional, subsidio de deslocação, quando estiver fora e comissões graduadas em função, dos valores dos negócios que conseguir fechar.

-Mas, insistiu Lúcia, quais vão ser as minhas funções? Ainda não me disse!

O homem estava vermelho com o desplante da catraia, queria parecer calmo mas a rapariga era irreverente e ele não gostava disso. Acalmou antes de responder:

-Mas o doutor Marcelo não lhe explicou?

Lúcia abonou a cabeça e confirmou:

-Não disse e eu esqueci de perguntar!

Bateu com a mão, repetidamente, na testa e falando, com ele próprio foi dizendo:

-Ele deveria ter explicado e a menina devia ter perguntado! É assim que as coisas devem funcionar!

-Tem razão, disse Lúcia, eu devia ter perguntado mas, estava tão nervosa e, não perguntei!

Deu duas pancadinhas, com os nós dos dedos, no tampo da mesa, largou um pequeno suspiro, antes de continuar:

-Vai bater à porta das pessoas, demonstrar o nosso equipamento e conseguir contractos. Quanto mais, melhores comissões!

Lúcia levantou-se de forma lenta e estudada, não descruzou as pernas como uma "Sharon Stone", mas fez furor. O gordo parecia um besugo enraivecido e o Ramiro, desorbitado, parecia um cão uivando à lua. 
Lúcia olhou-os e teve pena de tanta tristeza. Foi saindo mas eles ainda a ouviram:

-Preferia ir lavar escadas, que ir vender trastes com um cromo desses, atrás de mim!

Deus me livre!

Bateu com a porta e foi respirar o ar puro da rua.



22 comentários:

Gina Gg disse...

O lado mau da beleza estonteante...

JP disse...

Há certos atributos que servem para certos oficios....

Nos tempos que correm não é uma atitude inteligente recusar um trabalho:)

Abraço

✿ chica disse...

Que bom que ela se deu por conta.Certamente o trabalho não seria dos "melhores" ...Lindo conto! E esses homens assim, melhor longe!
abração,chica

Bloguinho da Zizi disse...

Eu, faria o mesmo que ela fez...
Abusados esses homens, rsrsrsrs

Bom dia meu amigo!
Que estes novos tempos tragam mais alegrias ao nosso povo português.

Abraços e beijinhos

LUZ disse...

Olá, Manuel!

Já tinha lido o seu texto, ontem à noite, e fartei-me de rir.

Uma pergunta: já comeu milho? Eu, nunca, assim, diretamente. Já comi broa de milho, que não me diz, rigorosamente, nada, em termos de paladar, mas já comi.
Claro, nós gostamos é do "nosso" pão, já sabemos.

Por que usarão, vocês, homens, esta expressão? Tenho de pesquisar, porque terá, decerto, a sua razão de ser.

A história está muito bem escrita, muito bem narrada, e até parece, como sempre lhe digo, real. Casos haverão, que são como este.

A saia da menina da imagem, está perfeita, ou seja, entre as nove as dez, mas poderia ter escolhido uma mais visível, menos "apagada". Provavelmente, não encontrou outra. Bem, tinha sempre alternativa: Sharon Stone, a cruzar as pernas, como refere, aliás, no seu texto.

Beijo da Luz, com estima.

PS: evidentemente, e se Deus quiser, estaremos aqui, mais um ano, para continuarmos esta amena cavaqueira.

SDaVeiga disse...

Ganda mulher!
Abaixo os cromos! :-)

Um 2013 cheio de boas resoluções! :-)

Mary disse...

É bem certo que, ela merecia uma coisa melhor por ter uma boa formação,
Curso superior e mestrado!!
Na certa tbm é que...ela achou que sua beleza iria lhe favorecer, ela queria mesmo era desfilar com o chefinho em ruas de ouro e cristal.

Muito bem narrada!

Obrigada pelas suas visitas sempre carinhosas no meu blog.

Magia da Inês disse...

✿✿ °•.¸

Ah... que ingrata!
Emprego está difícil... kkkkkkkkkk!!!

░B░O░M░

░D░I░A░ !!!

º° ♪♪✿

Janita disse...

Este é o retrato de muitas jovens licenciadas que têm de sofrer vexames em entrevistas fajutas efectuadas por entrevistadores babosos e parvos, que não querem competência e sim aparência "boa como o milho".
Fez ela muito bem em lhes virar as costas, e não me parece que a moça fosse convencida ou presunçosa, já que preferia lavar escadas a andar de porta em porta, a vender sabe-se lá que bodega, com um traste atrás dela!
Para descontrair, adorei os boleros ouvir!:)
Adoro as voz do Julinho, mas estas mesmas canções na voz de Nat King Cole, são qualquer coisa de fantástico!
Parabéns Manuel, por mais um conto bem realista e a habitual boa música.
Um beijo. Bom 2013!

Janita

AFRICA EM POESIA disse...

Ma nuel
Meu amigo ...voltei...

neste novo ano desejo o melhor do mundo e...


Novo Ano
Nova Vida
Nova Esperança...
Novo Recomeçar...

E neste Ano

Eu quero
Nova vida
Nova Esperança
Novo Renascer...


um beijo (espero um melhor 2013... o 2012 cansou-me muito...)aguardo a Assembleia geral extraordinária...

beijos verdes

ana costa disse...

retrato vivo de muitas entrevistas para se conseguir um emprego...
retrato vivo também de uma sociedade aonde se estão perdendo valores...
Gostei muito do seu blog!
Parabéns

Rita disse...

☆ ¸.•´¯`•.¸☆..•.✿.☆
Boa tarde !!
Voltando para minhas visitas, espero
que vc tenha começado um bom ano de 2013
Foi ,é e será sempre gratificante para mim sua amizade, e presença no
meu Cantinho, e dizer que acho divino
o que vc faz,é muito bom ver, ler maravilhas postadas e encher nosso dia de alegria
Abraços com todo meu carinho
Bjuss
Rita!!!
☆ ¸.•´¯`•.¸☆..•.✿.☆

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Tenho aqui um cesto a transbordar de palavras e agradecimentos, com laços multicolores.
É, inteirinho, só pra si.

Obrigadaaaaaaaaaaaaaa!

Adoro viver e estou, permanentemente, apaixonada.

Beijo da Luz.

Palavras disse...

Olá meu caro,

em tempos difíceis, a procura faz com as demandas mudem...
Um apena!

Grande abraço e obrigada pelo carinho no Palavras

Leila

lucia bezerra de paiva disse...

A menina Lúcia sabia bem o que a esperava...Como toda Lúcia que conheço, é bastante decidida...
Quanto ao milho, comi toda uma espiga, cozida, numa viagem que ao sertão do Ceará. Adoro, milho cozido ou assado na brasa.

Gosto de suas crônicas, Manuel.
Um abraço,
da Lúcia

Rain disse...

Querido amigo! Às vezes mias vale ser menos bonita ou menos "vistosa" infelizmente é a realidade. Mas a Lúcia esteve à altura. Adorei. Um espectacular conto como já nos vem habituando. Um beijinho com amizade um resto de bom Domingo e uma boa semana!

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Vamos dar a volta ao tempo?
Aqui, está cinzento. E aí? algum sol, ainda.

Passei porque tinha vontade de conversar consigo, saber como está e desejar-lhe uma boa semana.

Beijo da Luz.

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Meu querido Manuel

Infelizmente os nossos jovens licenciados normalmente apanham com esses baldes de água fria.
Como sempre uma história muito bem contada.


Um beijinho com carinho
Sonhadora

Palavras disse...

Meu amigo,

fiz um texto par você. Me passe um email para eu te encaminhar.

Grande abraço

Leila

Rain disse...

Meu amigo é com muita amizade e carinho que lhe ofereço este selo (que está no meu blogue) e também me foi oferecido. Beijinho e boa semana!

Flor de Lótus disse...

Oi,Manuel!Feliz 2013 que esse seja um ano repleto de realizações e conquistas.
Belo conto, grande mulher!
Uma ótima semana!Beijossss

Guma Kimbanda disse...

Olá caro amigo Manuel.

Passando para agradecer as suas visitas que sabe não dispenso e muito me honram e embora fora do tempo... mas espero que sempre a tempo desejar um ano com muita saúde e a boa disposição que nos permite ler os seus contos.

Um forte e estreito kandando com admiração