quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Doce vingança.....



O (Tem uma bolinha)



Quando ela lhe apareceu, naquela “lingerie” vaporosa, sentiu um fogo a percorrer-lhe o corpo.
As pernas altas, enfiadas numas meias de ligas e o corpo nu, apenas envolto num trapo vermelho, totalmente transparente, eram um doce pecado.

Sentiu o sangue subir à cabeça e algo se alterou no seu corpo.

Atirou a mulher para cima da cama, desenvencilhou-a daquele empecilho e deixou as mãos percorrerem aquele corpo ardente, que ia gemendo aos sentidos de uns afagos, quase de veludo, descendo devagar, deslizando na cintura, acariciando a anca e terminando numa afago nos joelhos, depois, subiu lentamente das coxas ao rabo, acarinhando suavemente a nádega. 

Ela apenas gemia numa espera desesperada, ele continuava em enlevos, deixando a língua percorrer-lhe a boca, entrar os ouvidos e descer, lascivamente, até dois bicos túmidos, num corpo ardente e impaciente em sentir o marido dentro dela.

Tomou a iniciativa e puxou-o, para lhe sentir o peso e levou a mão na procura do que mais desejava.

O marido sentiu a mensagem, largou e mulher e gemeu:

-Desculpa! Mas não sou capaz!

Depois chorou em desespero.

A mulher transpirava raiva, vermelha como a “lingerie” que estava abandonada no chão frio.

Olhou o marido, olhos brilhando de frustração e raiva, com ódio na voz gritou:

-Desgraçado, incapaz! Quarenta anos e acabado, é a segunda nega numa semana, ou estás morto, ou as putas com que andas, já te tiraram a tesão. O que tu precisas e estás a pedir, é um belo par a ornar-te a testa.

-Desaparece! Deixa-me em paz! Ou sais tu da cama ou vou eu!

O homem desapareceu. A mulher completou-se em contorções e adormeceu profundamente.

****

Raimundo fugiu para a sala, enroscou o corpo nu no sofá e chorou, chorou convulsivamente, até que o desespero e o ódio se acalmaram no seu corpo.

Era a segunda vez, nunca tinha acontecido, na primeira foi a uma consulta de andrologia, o doutor Fagundes fez-lhe testes, descansou-o, era uma situação de stress, de ansiedade, cansaço, excesso de trabalho.

Devia acalmar e, com a ajuda da companheira, tudo ia voltar ao normal.

Aquela frase, ajuda da mulher, gritava-lhe aos ouvidos
... ajuda da companheira,
                            …ajuda da companheira,
                                            … ajuda da companheira,
não valia a pena, a mulher não sabia o que era ajudar. Egoísta, esperava tudo e não dava nada!
Começou a odiar quem, até agora, foi o amor da sua vida.

Vestiu um fato de treino, fez a barba, massajou o rosto, verteu uma boa porção, de Carolina Herrera 212, nas mãos, esfregou no pescoço e alisou os cabelos.

Espreitou o quarto. O monstro dormia profundamente.

Desceu à garagem, foi buscar o escadote e atou, à trave central do tecto, uma corda, deixando-a pendurada com um nó de corrediça na ponta suspensa.
Arrumou cuidadosamente o escadote, voltou à cozinha, desfez alguns comprimidos num copo de água, engoliu com uma careta, lavou o copo, limpou e guardou-o no armário.
 Voltou à cave, com um pedaço de um pau deu alguns golpes na nuca, até notar sinais de sangue e alguns cabelos agarrados, deitou o pau para um canto, escondido, da garagem.
De seguida, agilmente e à força de braços, percorreu a trave até ao local da corda, a custo, passou a cabeça no laço e, quando enfiou o pescoço, largou as mãos. 

Apenas um pequeno gemido, um estremecer e um corpo, num leve balanço.

******

Narcisa acordou com a claridade que trespassava as persianas, olhou o lugar do marido e lembrou-se que devia estar a dormir no sofá. Era para aprender!

Foi espionar.
Não estava na sala, nem na cozinha, nem em lado nenhum. Safado! Se calhar foi dormir com alguma cabra, mas não percebia para que, o gajo já não dava nada.

Foi espreitar o carro, parecia estar na garagem. Desceu, entrou e viu um corpo balouçando, suavemente, na trave do tecto. Era o marido, roxo, língua pendurada ao canto da boca.

Subiu em pânico e ligou para o 112.

-Não mexa em nada, disseram do outro lado da linha.

Demoraram 45 minutos. Uma ambulância e um carro da polícia.

A mulher soluçava, o corpo tremia-lhe em ligeiras convulsões.

Os paramédicos olharam o corpo e abanaram a cabeça:

-Nada a fazer!

Os guardas selaram o local, montaram guarda e ficaram a aguardar, o médico-legista e a polícia judiciária.

Demoraram algum tempo.

O médico calçou umas luvas, subiu a uma cadeira e observou, minuciosamente, o corpo.

Olhou os agentes e observou:

-Já está morto há mais de oito horas, apresenta sinais de ter sido agredido. Podem mandar descer o cadáver só depois, na autópsia, posso adiantar mais alguma coisa.

Os agentes examinaram cuidadosamente todo o local, fotografaram, guardaram indícios.
Encontraram o pedaço de madeira com vestígios de sangue e com alguns, cabelos agarrados.

O agente mais velho, olhou o colega e comentou:

-Este gajo não tinha asas, não há nada que pudesse estar debaixo dos pés para se pendurar, tem ferimentos na cabeça, ou muito me engano ou foi assassinado. Vamos mandar recolher o cadáver e aguardar o resultado da autópsia. Mas tenho poucas dúvidas!


*****

Oito horas da manhã, Narcisa é acordada com fortes batidas na porta. Vai, meia estremunhada, espreitar. São dois homens que mandam abrir.

-Mas quem são os senhores? Pergunta.

-Policia Judiciaria, abra depressa! Gritou um dos homens.

Abriu-a, tentando tapar o peito com o roupão. Um dos agentes segurou-lhe um abraço e disse-lhe:

-Tem que nos acompanhar! Está detida por suspeita na morte do seu marido.

Ela ficou sem saber que responder, apenas murmurou:

-Posso ir vestir-me?

****

Foi interrogada e por mais que clamasse a sua inocência, não conseguia demover os agentes que insistiam:

-Era melhor dizer quem é o seu cúmplice neste crime, o juiz vai levar isso em conta e, sempre pode, ter uma pena mais leve.

A mulher chorava e insistia:

-Eu amava o meu marido e não lhe ia fazer mal, ele suicidou-se.

O agente respondeu com sarcasmo:

-Pois, já sabemos isso! Mas… as evidências e a autópsia dizem outra coisa. A senhora não fala, mas nós, vamos explicar. Primeiro, deu-lhe uma bebida com uns calmantes e quando ele adormeceu com a ajuda, se calhar de um amante, uma pancada na cabeça para ele não acordar. Depois, os dois, penduraram o desgraçado pelo pescoço. Não deve ter sido fácil, ainda eram 70 e tal quilos!

Tinham tudo bem estudado mas, esqueceram um pormenor, pequeno mas importante, ele para se enforcar precisava de um banco ou de um caixote. Não tinha asas!

****

Foi condenada a 18 anos, apesar de jurar a sua inocência.

E desta vez estava, mesmo, inocente!

Mas isso, só nós sabemos!









21 comentários:

JP disse...

Manuel,
O que eu mais gostei foi da bolinha vermelha.....:)

Alguns andam por outras paragens nas tequilas:)

Abraço

Maze Oliver disse...

Fantástico seu conto!Não entendi como ele chegou até a corda! Mas vou ler novamente!Um grande abraço!

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Tá bom amigo. Virou policia criminologista ?

Bem escrito e com duas partes distintas, Gostei da parte erótica.

Suicídio só para os fracos e malucos.

A andropausa é um problema muito grave e começa a fazer-se sentir em homens cada dia mais jovens.

É fundamental a colaboração do casal. O sexo começa na cabeça de cada um.

Esta história é seria demais para se brincar com o tema.

Nikita disse...

Amigo Manuel,
Belo conto, excelente!
Evoca questões muito importantes da vida de um casal e que por falta de diálogo não se resolvem.

Também gostei da forma como fez toda a descrição, o que já não me surpreende, afinal, contos são uma especialidade do meu amigo :-)

Beijo

Bloguinho da Zizi disse...

Pensei que só as mulheres se vingavam, mas estou a ver que me enganei.
Esse foi caprichoso nos detalhes.

Enquanto lia parecia que estava assistindo a cena. Que desfecho. Perfeito!

beijinhos

Mary disse...

Nossa!!!!

Ele foi muito mal com ela.
E por esses dois graves erro ele com certeza está queimando no fogo.

Pelo suicídio e por deixar vestígio que a incriminava, mesmo ela sendo inocente.

Não havia motivos pra tanto, ela só achou que ele a traia.
Normal pensar isso dos homens.


Muito real e bem detalhado, deu até raiva dele e pena dela.

Ou será que fiquei com raiva do autor hehehehhehehe!! Brincadeira !
Essa é a missão do autor, provocar sentimentos em quem o lê.


Bjos meu querido!

ana costa disse...

Apesar de romanceado e de uma forma burlesca, abordas-te aqui um assunto bastante sério e que afeta muitos casais que, por vergonha ou ignorância,não chegam sequer ao conhecimento médico....
Mas gostei....
bj

SOL da Esteva disse...

Manuel, meu Amigo

Eis um Conto que dava para desenvolver um grande Argumento cinematográfico.
Seria um Policial (estes já não têm bolinha) que tratava os Perfis psicológicos de quantos estão para toda e qualquer situação, mesmo que seja uma iníqua vingança.
Só cada um sabe!...


Abraços


SOL

Rita disse...

assunto serio, texto bom,e um homem meio malzinho né,mas gostos de ler
Gosto do sei jeito bjão
Tenha um bom finalzinho de tarde
Bjuss
Rita!!!!

Catita disse...

Não podia deixar de cá vir agradecer as palavras que sempre deixa no meu cantinho. É verdade que com o tempo vamos ganhando algum carinho por pessoas deste "mundo" e como ja tantas vezes disse, só mesmo quem tem um blog sabe a importância que o mesmo tem e das pessoas fantásticas que temos oportunidade de conhecer. O Manuel foi uma delas e já acompanhou fases importantes da minha vida :)

Beijinhos

AFRICA EM POESIA disse...

REcebi o beijinho e aguardo a Assembleia Geral e. e lá estarei em Lisboa...

beijinho para ti.

LUZ disse...

Bom dia, estimado Manuel!

Vamos até à praia (por sinal, não aprecio)?
O dia está LINDO, SEM NEBLINA e temperaturas muito agradáveis.

Bem, digo isto para aliviar a minha triste alma. Não suporto tempo, assim.

Li, o seu texto já há uns dias, como sempre bem escrito, e parece "coisa", que já conhecia, mas, olhe, que há casos iguais.

Começou com tanto fulgor, e depois, suícidio.
O homem, todos os homens ainda não perceberam, que há determinadas "doenças", potencialidades, que vão perdendo com a idade.
Atualmente, temos casos destes, cada vez mais cedo, desconhecendo-se alguns dos motivos.

Temos de mudar mentalidades. É um trabalho que leva séculos, mas temos, é preciso.

E depois, tem pouca inteligência, porque dizem sempre o mesmo: tens outro. Valha-me Deus!

Conto que daria um filme, meio romântico, meio policial.

Então e o seu desgosto? Quem lho causou?

Resto de dia feliz.
Beijo, com amizade.

Magia da Inês disse...

Que sujeito malvado, hem?
Até para morrer ainda encontrou uma forma de vingar-se!...
Como tu escreve bem!!!!
Bom fim de semana!
Beijinhos do Brasil.
¸.•°✿✿♡⊱╮╮

✿ chica disse...

Puxa, sempre surpreendendo!Lindo!abração praiano,chica

rosa-branca disse...

Amigo Manuel, confesso que gostei da história, mas quando comecei a ler estava longe de imaginar tal desfecho. Mente diabólica a do Senhor Raimundo. Não podia ter resolvido o caso doutra maneira. Tenho horror...pavor... ás condenações injustas. Ela foi injusta ao tirar conclusões precipitadas, mas ele foi longe demais(no meu ver). Bom fim de semana e beijos com carinho

quem és, que fazes aqui? disse...


Manuel, GOSTEI. Não esperava o desfecho que foi, sem dúvida, bolinha vermelha!

Bom fim de semana e um beijinho

Laura

Parole disse...

Impressionante sua criatividade, Manuel. Pensei que ele, depois de todo humilhado e perfumado, iria à caça meter um par de guampa na esposa insensível, mas não... Como sempre magistral!

Beijinhos, querido e bom fds.

Palavras disse...

Olá meu caro,

adoro suas histórias porque nunca seguem o padrão.
Coitado do homem, não precisava ir-se, pois que um problema desse se resolve com verdade e cumplicidade.

Grande abraço

Leila

Flor de Lótus disse...

Oi,Manuel!ela era e não era inocente ela não tinha o matado,mas ela tinha boa parcela de culpa por ele ter se suicidado.
Uma ótima semana!
Beijossss

Portal de blogs teia disse...

Parabéns, gostei muito do seu espaço, tem muito assunto interessante.
Estarei sempre por aqui.
Até mais

Mary disse...

A vingança nunca é doce!

Você já assistiu um filme que trás como titulo "A doce vingança?"

As senas são fortíssimas!

Um bjo e obrigada pelo carinho das visitas.