sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Dona Chica








Ia a escape rua acima, lenço na cabeça e curvada pelo peso da idade. 

Passou por mim como cão por vinha vindimada, se eu não lhe tivesse bradado, tenho a certeza que nem me via.

-Credo! Gritei, onde vai com essa pressa toda?

Parou, endireitou o corpo com esforço e só depois respondeu:

-Nem te vi, ia tão encismada nos meus pensamentos, que nem dava por ti.
Vou à pressa chamar a dona Chicha para ir benzer o Justino, marido da Perpétua. O raio do homem está com cobranto, não faz outra coisa que não seja abrir e fechar a boca, está com um bochechar que dá dó!

-Não será quebranto e bocejar? Emendei eu.

-Seja isso, retorquiu, a verdade é que o homem tem que ser benzido contra o olhado! Não sabemos se são invejas ou se foi apanhado pela lua! A gente não sabe dessas modernices, sempre foi cobranto e vai continuar a ser cobranto!
Não posso perder tempo, vou depressa não vá a velha Chica sair!

E lá abalou ladeira acima.

Não tardaram mais que 15 minutos e ai vinham as duas, braço dado, num tagarelar cheio de sussurros.

Aproximei-me, estava curioso e, com vontade de assistir ao tratamento do Justino, fui-me insinuando e tratei de meter conversa com as duas:

-Não se importam que vá com vossemecês? Aproveito para ver como está o amigo Justino!

-À vontade homem, disseram as duas, quase, em uníssono.

***


O homem estava mesmo mal, estendido num canapé, olhos parados, corpo tapado com uma grossa manta de ramagens amarelas.

Dona Chicha, ajeitou duas tigelas, uma com água e outra, mais pequena, com azeite.

Começou uma reza, enquanto com a mão ia fazendo cruzes, sobre a água, ia molhando um dedo no azeite e deixava cair algumas gotas que, quase por milagre, desapareciam no líquido.

Repetiu a operação por três vezes, depois, meteu os dedos no líquido benzido e fez umas cruzes na testa do doente.

Deu o trabalho por terminado e exclamou, com muita convicção:

-O pobre coitado estava na última, isto são grandes invejas, não tarda fica melhor!

Eu, um pouco à parte, estava preocupado com o Justino, estava num estado que metia dó.

Aproximei-me e tentei segurar-lhe a mão que pendia num lado da manta e, não tenho dúvidas, o desgraçado está morto e bem morto. Não acredito que uma benzedura o traga de volta.

Olhei as mulheres, sentadas em estado de velório, e gritei:o
-Chamem as autoridades, o Justino está morto!

Parecia que uma mola tinha disparado, ergueram-se e, quase em coro, rogaram:

-Deus lhe guarde a sua alma!

Dona Chicha ajeitou o lenço na cabeça, persignou-se e foi saindo enquanto, numa ladainha, ia murmurando:

-Estava apanhadinho de todo, cobranto muito
forte! 
Chamaram-me tarde de mais! Se fosse, um bocadinho, mais cedo ainda o tinha salvo!
Deus sabe que tinha!
Oh se tinha!
Já livrei tantos!


17 comentários:

✿ chica disse...

Adortei essa história e até Dona Chica nela,rsrs
Muito boa e essas coisas acontecem!! abração ,chica

Rita disse...

¨`*• (¨`•.•´¨) ♡ .•*
Olá bom sábado a você!

Nessa minha visita deixo meus elogios
minha gratidão,por ter amizade tão bonita como a sua....Parabéns pelo post que é muito bom
Abraços com todo meu carinho
Bjusss eternos a dona Chica rsrsr
Rita!!!!
¨`*• (¨`•.•´¨) ♡ .•*

rosa-branca disse...

Olá amigo Manuel, obrigado por ser um jardineiro tão eficaz. A rosa anda desencantada com a vida e está a ponderar fechar (ou dar umas férias) por um tempo o jardim. Maravilhoso o seu conto e aquela história das benzeduras eu lembro-me que as velhótas faziam isso. Cheguei a assistir e ai de mim se desse um sorriso. Coitado do Justino já morto e ainda sofria de mau olhado. Adorei como sempre. Beijos com carinho

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Obrigada, pelo seu comentário.

Mais uma história cheia de imaginação e realidade, simultâneamente.
Desta vez, não houve sucesso, ou seja, não teve um final feliz.

Antigamente, acho que era assim, que procediam.

Bom Domingo.
Beijo da Luz, com amizade.

Centelha Luminosa disse...

OLá meu amado Manuel, boa tarde !!

Além do que eu amo a sua forma e estilo de contar histórias, admiro a tua criatividade. Que nos prende a atenção e nos surpreende ao final...

Aqui pelo meu Brasil, pelo interior, tinhamos muitas benzedeiras. Creio que não há mais...Foi-se o tempo delas. Minha querida mãezinha que já partiu, também o era. Benzia de tudo, e tinha bons resultados...rss, mas que eu saiba, nunca teve uma experiência igual a da dona Chica!! (risos)

Muito bom quando tu apareces lá no Sementes Preciosas. Me deixas feliz!

Beijos da Lu...

Evanir disse...


Carinhosamente venho desejar um feliz e abençoado final Domingo.
Uma semana de Realizações. sonhos realizados,
pois a vida é um constante recomeçar.
Beijos paz e luz,Evanir.

quem és, que fazes aqui? disse...


Terá sido o quebranto que lhe causou a quebra ou ele já estava quebrado?

Beijo

Laura

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Gostei da crónica. Conheço muitas parecidas .
Não morreram pelas rezas nem pelas cruzes.
Morreram com doenças na alma e de penúria e muito sofrimento.

SOL da Esteva disse...

Sempre precioso o teu contar!
Apreciei o relato e associei a outros tempos em que a "coisa" funcionava assim.
Nem o berimbau...


Abraços


SOL

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Como tem passado?
Muito trabalho, não é verdade?
Tenho sentido a falta das suas palavras.

Já digeriu o poema que eu escrevi?
Então, vamos ver o produto final.

Boa noite, em harmonia.
Beijo da Luz.

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Meu querido amigo Manuel

Como sempre voltei no tempo e lembro-me bem que na minha terra também havia uma benzedeira dessas, e até para uma dor de cabeça a chamavam.
Lindo como sempre ler-te.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Janita disse...

Olá, Manuel.
Isto dos quebrantos causados pela inveja ou seja lá pelo que for, quebram qualquer pessoa!

Eu, tenho certas ocasiões em que me apetecia ir até à Capela de S. Bento fazer uma benzedura...

Santa e abençoada imaginação a sua, Manuel!

Um beijo.

Janita

Bloguinho da Zizi disse...

Que delícia de história!
Quando criança queria ser benzedeira de quebrantos. Achava algo especial ver que a pessoa chegava mal e saía melhor.
Mas pobre do Justino, esse quebranto foi dos bravos.
Pobre Dona Chica que não teve tempo de o livrar do mal.
Abraços e beijinhos Manuel

Vivian Fernandes de Goes disse...

Bom dia,Manuel!!

Sabe, meu amigo, cresci ouvindo estas histórias, todas contadas com muita seriedade pela minha avó e nós(eu e minhas primas acreditávamos em tudo!)Não que hoje eu desacredite...mas é diferente.Conservo minha fé,mas sei que tem coisas que não tem jeito...
Lembro que quando eu era bem pequena minha vó nos levava em uma benzedeira...ela me punha medo...e curiosidade!rs
Mais uma história contada com maestria! Beijos e meu carinho!

Magia da Inês disse...

º° ✿彡
Olá, amigo!
História antiga... "Apanhado pela lua" eu não conhecia.
Infelizmente, isso ainda acontece em muitos cantos esquecidos por todos...
Bom fim de semana!
Beijinhos do Brasil.
✿ °•.¸
¸.•°♡⊱彡

Rita disse...

Bom dia de segunda feira, vim deixar
um abraço desejar uma bela semana
E que seu feriado seja cheio de alegrias
Agradeço sempre sua amizade que adoro
Bjusss com carinho
Rita!!!!º° ✿彡

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Gostei tanto do seu comentário!
É verdade. Quem escreve, diz o que lhe apetece, e o que não lhe apetece, e depois, desculpa-se com a poesia.
Acho que tem de renovar, "limpar" esse seu coração e depois, logo se vê.

Se não for um devaneio ou outro, de vez em quando, sufocamos.
Diga o que pensa, de forma decente, porque, como diz o outro: perguntar não ofende.

Um beijo, com estima, da Luz.