sexta-feira, 22 de março de 2013

In illo tempore






Já vão passados trinta anos mas raro é o dia em que as recordações não me atormentam. Não porque me sinta responsável mas, mais, por não ter tido talento para resolver aquele estranho caso. 

A justiça divina, na altura própria, foi-se encarregando de dar seguimento, ao que os homens não conseguiram. 

Todos os protagonistas já fazem parte do passado, apenas resto eu, possivelmente, fui poupado para poder dar a conhecer tudo o que aconteceu naquele tempo.

*****
Foi numa tarde de inverno, o tempo estava seco, mas o frio era muito, quando fomos chamados aquele, luxuoso, apartamento no bairro da Lapa.

Estávamos habituados a cenários onde a violência deixa marcas, mas este era diferente, a violência era implícita, não se via mas estava tão presente, que se sentia.

A idosa estava num sofá, tinha um feio buraco negro na testa, a roupa rasgada deixava à vista uma mama velha, encardida e pendente. como um trapo molhado. Os olhos, vítreos, deixavam ver, ainda, uma expressão de terror.

A sala, luxuosa, mobilada num estilo clássico, mostrava gavetas desarrumadas e os conteúdos espalhados pelo chão.

Eu e o meu colega, agente Meireles, fomos destacados para este caso, que se afigurava difícil.
Mesmo, muito difícil!

A vítima era uma conhecida figura da sociedade, mulher de muitos amores e desamores, segredos e alguns escândalos à mistura.

Tinha 73 anos e estava a sair de um casamento controverso com um jovem 43 anos mais novo, acusando-o de infidelidade com uma jovem, empregada dum SPA, que costumavam frequentar.

Os peritos da criminologia fizeram uma busca minuciosa na procura de pistas e indícios, fotografaram o que havia para registar, procuraram impressões digitais, muito embora, naquela época a dermatoglifia não tivesse o mesmo alcance de hoje.

A desarrumação era total, mas não deram pela falta de nada, dava a impressão que o assassino procurou algo, que não se sabia se encontrou.

Agora havia um árduo trabalho em interrogar, todos, os que na nossa óptica, pudessem ser suspeitos.

******

Acabei o curso de direito, curso que fiz quase por imposição familiar, o meu pai era advogado e todos me marcaram, tinha também que ser advogado. Nunca me imaginei num gabinete e, quando tive a possibilidade de concorrer à polícia não hesitei, fui em frente e a minha licenciatura foi um factor determinante.

Comecei em trabalho de gabinete, mas não tardou estava, onde queria, no terreno.

Muitos casos se tinham deparado no nosso caminho mas este, tinha todos os ingredientes para se tornar, quase um acontecimento, havia motivos passionais, invejas, herdeiros desesperados pela seu quinhão e, ódios. Muitos ódios!

A Dona Josefa Malapico, assim se chamava a defunta, não era flor que se cheirasse. Habituada a uma vida de ociosidade e ostentação, considerava-se o centro de um mundo onde todos os outros, eram peças secundarias.

Esperámos o resultado da autópsia e para nossa surpresa a morte tinha sido causada por asfixia, alguém lhe tinha colocado uma almofada na cara, depois encenaram a violência, terminando com um tiro, de ódio, à queima-roupa, no cadáver.

A morte deve ter ocorrido entre as três e as seis horas da madrugada.



A lista de suspeitos era enorme e tivemos que estabelecer prioridades, embora na nossa mente o ex-marido da vítima, Samuel, estava na fila da frente.

Havia, naturalmente, Elisa a empregada do SPA, o sobrinho e a sobrinha, a secretária, as duas empregadas da casa e o motorista.

O primeiro a ser interrogado foi o viúvo. Era o maior beneficiado, herdeiro e, único, candidato a receber um milhão, do seguro da vítima.

Estivemos duas horas à volta dele, jurava que desde que a mulher o expulsou não tinha voltado a casa, ela tinha-o proibido, apenas lhe telefonou duas vezes e estava convencido que o ia perdoar e aceitar de volta, aquela coisa com a Elisa foi uma fraqueza, ele gostava da mulher, não dizia que havia amor, era difícil mas tratava-a bem, dava-lhe respeitabilidade, carinho e protecção.
Desde que estava separado, ficava no seu apartamento de solteiro. Não tinha testemunhas, dormia sozinho.
Na noite anterior, dizia, tinha ido a uma pizzeria, depois para casa, viu um filme na televisão, não se recordava do nome, adormeceu no sofá até cerca das 3 horas e só depois foi para cama, teve conhecimento do acontecido quando a empregada, a Susete, telefonou a contar a grande desgraça.

Não acreditámos em muito do que nos relatou e agora teríamos que tentar confirmar, ou contrariar, tudo o que nos disse.

Também podia ser verdade, o que nos contou, e ter um cúmplice a quem tenha encomendado o trabalho. Mas havia um pormenor que contrariava essa hipótese, este crime tinha indícios de ódio e um assassinato por encomenda, em regra, era feito de forma simples.

As duas empregadas tinham saído à hora habitual, oito da noite, e regressado, como todos, os dias às 10 da manhã.

Rosa foi directa à cozinha aprontar o pequeno-almoço da senhora, enquanto Susete foi preparar a mesa, foi aí que se lhe deparou tamanha desgraça.
Chamou a colega, telefonou para a polícia e para o senhor Samuel.
As duas deixaram de ser suspeitas, os seus álibis eram perfeitos, tinham estado nas suas casas com os maridos e filhos.
O motorista nunca foi suspeito, estava há cinco dias no hospital, operado a uma hérnia discal.

Falamos com a secretaria, ia duas vezes por semana reunir, com a dona Josefa, estabeleciam as prioridades, escolhiam e confirmavam os convites para os diversos eventos. 
Nada levava a desconfiar, pensavam reunir nesse dia, às 16 horas, tinha falado com a senhora na véspera por volta das 17 horas a confirmar e não notou, na dona Josefa, qualquer alteração.

Passou a noite em casa o que foi confirmado pelos pais e irmãos. 

Restava interrogar a presumível amante do Samuel e os dois sobrinhos.

A empregada do SPA, jurou que nunca teve qualquer intimidade com o senhor Samuel, apenas as massagens a que tinha direito.
Sabia que ele dizia que sim, mas era mentira, ele bem tentou mas ela nunca lhe deu azo.

Tinha, confessava, ódio a dona Zefa, não tinha pena do que lhe aconteceu, era uma mulher má e possessiva, tinha conseguido que a despedissem do gabinete com o escândalo que arranjou a acusá-la, de andar a desviar os maridos das outras. Mas Deus fez justiça!

Tinha provas e confirmamos, passou a noite em casa com o namorado.

Faltavam os sobrinhos, filhos de uma irmã e de um cunhado, da dona Josefa, falecidos num acidente de viação.
Marcelo era o mais velho, rapaz de muitas tatuagens e piercings. Trabalhava numa loja de informática, não via a tia há mais de um ano e não lhe tinha qualquer amizade, não estava à espera de ajudas ou heranças da megera.

Prometeu à irmã, na hora das morte, ajudar e proteger os sobrinhos mas foi apenas uma promessa que nunca cumpriu, se não fossem os avós paternos teriam sido criados ao Deus dará.
Para ele, não fazia parte da família.

Vivia na outra margem com uma companheira, apanhou a camioneta das 20 horas, os parceiros habituais de viagem podiam confirmar, assim como a namorada e os vizinhos.
E, era verdade, batia tudo certo!

Por fim ouvimos a sobrinha, Eulália, moça muito cativante, sorrido sedutor e de palavra fácil.
Adorava, dizia ela, a tia Zefa porque era uma mulher de muita visibilidade, muitos conhecimentos e que conseguia abrir algumas portas. Tinha-lhe prometido um casting, tinha a certeza que lhe ia conseguir o acesso a uma carreira. Sim, tinha a certeza, que a tia lhe ia conseguir um papel numa novela.
Era verdade que teve uma discussão, com ela, quando soube que ia casar com aquele tipo de 30 anos, um aproveitador da fragilidade de uma mulher de 73 anos.

Mas foi uma coisa de momento e até foi a única pessoa da família que esteve na cerimónia, embora confrangedora, um jovem bonito, cheio de energia a casar com uma mulher onde as plásticas já não conseguiam disfarçar a erosão do tempo.

Mas se a tia era feliz, ela tinha que apoiar, pois queria o que fosse melhor.
Tinha passado, como sempre, a noite em casa.
Tinha que se deitar cedo para manter a frescura do rosto, a beleza tem que se cultivar.

Além disso, perguntou:

-Acha que uma pessoa frágil, como eu, conseguia sufocar alguém na cama e depois carrega-la para um sofá para lhe dar um tiro? Isso é trabalho para um homem e forte.

*****

Fizemos o nosso trabalho, transcrevemos os interrogatórios, as diligencias, as confirmações possíveis e entregamos o nosso trabalho mas, sempre, tive uma sensação de que algo não batia certo.

Bem! Depois, os advogados e os juízes, iriam esmiuçar e tirar conclusões.

****

O processo levou anos a ir a julgamento, entre adiamentos, recursos e todas aquelas habilidades dos causídicos arrastou-se por três longos e penosos invernos.

Samuel, dado a fragilidade das provas, foi condenado apenas a sete anos de prisão.
Cumpriu dois, um dia foi encontrado, na cela, enforcado com um pedaço de tecido enrolado como se fosse uma corda.

Morreu sem nunca admitir culpa, sempre gritou a sua inocência.


***

Vão passados trinta anos, o meu colega Simões já não faz parte deste mundo, um aneurisma levou-o aos 53 anos.

Eu estou reformado há três meses, mas este caso de "a morte da jet-set", como nós o baptizamos, tem-me perseguido todo este tempo.

Sim! Só agora que o tempo passa por mim, sem eu ter onde o gastar, é que se fez luz no meu espirito.

Agora que tudo prescreveu e que o bom Deus já se encarregou, com a justiça divina, numa “overdose” de heroína eu descobri que Eulalia, tinha sido o carrasco da tia Josefa.

Nunca dissemos, em nenhum relatório constava, por isso só quem estivesse implicado podia saber.

Lembram-se da frase "Acha que uma pessoa frágil, como eu, conseguia sufocar alguém na cama e depois, carrega-la para um sofá para lhe dar um tiro?"
Só quem estivesses implicado o podia saber.

Logo, foi ela, só ou com ajuda, mas foi ela a criminosa!


21 comentários:

✿ chica disse...

Puxa! Instigante e sempre maravilhoso,Manoel! Gosto de te ler, ver das ideias enroscadas para de repente, um final noa agradar. Sempre! abração,chica e um lindo fdsemana!

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Como tem passado?
Já tinha saudades suas!

Pois, mais uma história, fruto da sua crativa imaginação, mas, desta vez, coitada da Sra. D. Josefa.

Ora então, pessoas mais velhas, não podem/devem casar com pessoas muito mais novas?
Se fosse o contrário, já a sociedade encarava o facto, de forma positiva.

Pois a sobrinha Eulália, que matou a tia, deveria estar interessada no marido da mesma, mas não era preciso chehar a tanto.

Tenha um resto de noite feliz, tal como um bom fim de semana.

Beijos da Luz, com estima e amizade.

rosa-branca disse...

Olá Manuel, obrigado por regar o meu jardim...está a precisar...Talvez como choveu que se consiga aguentar. Adorei meu amigo e não perdi pitada. Ela realmente deu as pistas todas, mas... mais vale tarde que nunca. Bom fim de semana e beijos com carinho

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Um caso intrincado e sempre com bastantes questões que se arrastaram no tempo.

Será que esta foi a verdade...????

Gosto de ler estes apontamentos.

Um abraço. Bom fim de semana.

Bloguinho da Zizi disse...

Um belo roteiro para um filme policial.
Perfeito!
Tens o dom.
Beijinhos Manuel

LUZ disse...

Bom dia, querido Manuel!

Como está?

Quero que esteja melhor que o tempo, porque já não dá para suportar estes dias chuvosos, frios e tristes.

Eu bem pus um girassol num grande céu azul, no cabeçalho do meu blogue, "Luzes e Luares", mas nem assim, a Primavera resolveu chegar.

Agradeço os dois carinhosos comentários, que deixou nos meus dois blogues. Gostou mais do que publiquei no Luzes, eu também. Foi feito diretamente do teclado para os blogues, assim, em poucos minutos. Não tinha mais tempo.

A próxima semana estarei de férias escolares.

Tenha um bom sábado, ou façamos, por tê-lo, com amor.

Beijos da Luz, com estima e amizade.

Catita disse...

Um inocente foi condenado. Quantos casos destes não teremos na nossa sociedade???

Mary disse...

amigo, obrigada pelos elogios feitos ao blog..

eu AMEI a história, super intrigante, não consegui deixar de ler antes de saber quem era o culpado.. roteiro para um bom livro policial!!!

beijos mil e ótimo domingo..

quem és, que fazes aqui? disse...


Há casos que só com o tempo se resolvem. Este, como sempre muito bem narrado, foi um deles.

Fugir das mulheres angelicais! :))

Beijo e bom domingo.

Laura

Magia da Inês disse...

✿✿彡 °•.
Simplesmente amei!!!!
Desconfiei o tempo todo da Eulália... queria ser atriz e foi, né?
Bom domingo!
Boa semana!
Beijinhos do Brasil.✿✿彡 °•.
✿✿彡

Janita disse...

Desta vez tivemos uma estória policial muito bem narrada e apesar do "parece impossível", tudo é possível!
Não havia provas incriminatórias suficientes que indiciassem como culpada a sobrinha, mas essa frase bem esmiuçada teria certamente levado a polícia a conclusões mais evidentes.

Agora, rébébéu pardais ao ninho!
Mais um erro judicial que levou à condenação de um inocente.:)

É uma história portuguesa, concerteza!!

Um abraço, Manuel e parabéns pela sua excelente e imaginativa escrita.
Janita

ana costa disse...

Olá Manuel, para ela o crime perfeito, uma vez que conseguiu enganar todo o mundo, para ele um erro judicial que o leva à cadeia como tantos que devem acontecer por aí...
Bem vindo amigo, e com uma bela obra para assinalar o seu retorno!!!!
beijo

Rita disse...

Bom dia!!
Um texto que deixa a gente com boca aberta
expressa bem nas palavras, a gente
descobfia e acerta ah essa Eulalia
Deixo um abraço com carinho
Rita!!!!

SOL da Esteva disse...

Magestático, Manuel!
Continuas a deixar a cereja no cimo da fatia final do bolo.
Naquele tempo... Pois!
A idade não perdoa, mas dá sabedoria e maturidade.
Mais um Conto, daqueles.
Parabéns e Boa Páscoa.


Abraços



SOL

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

E dizes tu keu escrevo bem?... E tu? Mal? Muitíssérrimíssimo Bem. Ganda cena. Bué da fixe!
Viste o textículo sobre os testículos? E quanto aos ólicos? Comentas? Sim!!!!!!!

Páscoa Feliz (???)

Abç

H

Vivian Fernandes de Goes disse...

Olá,Manuel!!

Nossa, meu amigo! Sempre surpreendente!! Vi toda a cena!Construção perfeita.

Feliz Páscoa! Que seja de paz e amor!
Beijos. Meu carinho e admiração sempre!

Evanir disse...


Que, na Páscoa, nossa fé seja revigorada pela
certeza de que Cristo ressuscitou e está entre nós.
O sentimento de Páscoa não termina,
ele sinaliza um novo começo da primavera
e a vida marca nossa amizade.
Feliz Páscoa Deus abençoe
tremendamente sua vida.
Beijos na alma carinhos no coração.
Evanir..

rosa-branca disse...

Amigo Manuel, passei para lhe desejar uma Páscoa muito feliz. Beijos com carinho

Magia da Inês disse...


¸.•°♡♡彡
Feliz Páscoa!
Com muita paz e harmonia no coração, na família e com todos seus amigos!!!
Beijinhos de sua amiga
do Brasil.
¸.•°♡♡彡

LUZ disse...

FELIZ, SÃ VERDADEIRA, SANTA E REDENTORA PÁSCOA, estimado Manuel.

Beijos da Luz, com muita estima.

Mary disse...

amigo passei pra desejar uma Feliz e Abençoada Páscoa.. beijos mil..