terça-feira, 2 de abril de 2013

Um milagre?








Vou fazer um pequeno interregno, volto em Maio. Vou sentir a vossa falta!

Era estranho, esquelético, com uns tiques que incomodavam.
Levantava o olho direito franzindo o canto da boca, fungava como um cheirador de rapé, e olhava as pessoas de través.

Diziam, os mais antigos, que foi um rapaz normal vítima de uma assombração, não obedeceu as regras do além e foi castigado por forças ocultas, mas isso era o que se dizia, um pouco, a medo. As pessoas tinham receio de falar em coisas que iam para além da sua própria imaginação, factos em que as forças do além se sobrepunham ao conhecimento das pessoas.
 Dona Inácia, na sabedoria dos seus 90 anos, contava que tudo tinha a ver com umas marcações de terras, parece que avô do Libório tinha desviado uns marcos e, de forma indevida, tomou para si terras que não lhe pertenciam, quando chegou a hora de se apresentar ao criador foi recambiado para desfazer o mal que tinha feito.

Uma tarde, continua dona Inácia, estava o pobre Libório agarrado à rabiça do arado, quando avô, qual alma penada, se lhe apresentou aparecido do nada, com voz cavernosa lhe ordenou a troca dos marcos.
 Obedeceu no medo que o tolhia e fez tudo o que lhe mandou sentindo um tremor que o inibia. Acabada a tarefa o avô, naquela voz do além, ordenou que enquanto ia desaparecendo não devia olhar para trás para nunca se arrepender. Mas o terror era tanto que o pobre rapaz apenas olhou de soslaio, o que enxergou ninguém sabe, apenas ficou como agora se vê, alheio, como se estivesse sem estar.

Anda pela aldeia por entre as gentes como se não fizesse parte delas, vagueia pelas ruas nos seus tiques, passando indiferente à caçoada dos rapazes, olha algo que, possivelmente, apenas ele vê.
****
Agosto quente, ainda agora se tinha levantado a manhã e já as pessoas andam num desconforto de roupas coladas ao corpo, com uma vontade enorme de se encostarem no agradável trabalho de não fazer nada.

Mas é apenas vontade, pois o dever chama e há muito que labutar.
Todos têm que dar a sua ajuda, no sábado começam as festas em honra da padroeira e, os filhos da terra, começam a alegrar as ruas, com as falsas pronúncias de um francês com sotaque transmontano.

Chegam em carros que regalam a vista e dão aquele ar de prosperidade, que por vezes, não passa de um faz de conta, num carro alugado para esconder as dificuldades que sentem no dia-a-dia.

Nas tabernas as malgas do verde, matam a secura que o calor deixa na garganta e, com alegre verborreia, entoam de forma ensurdecedora.

No largo da Igreja, o som dos martelos ultimavam o palanque onde iriam desfilar todas as atracções, guardadas, para dar brilho às festividades.

Sábado, logo pela manhã, o troar dos foguetes anunciavam aos quatro cantos da aldeia, o início de uma semana de folguedo, musica, bailes, cantares, largada de vacas e, a culminar, a procissão que iria dar o toque religioso para os pagadores das promessas pelas graças recebidas.

Á tarde o largo regurgitava, não havia espaço para mais ninguém, Libório parecia alheio, mas tinha garantido um lugar na fila da frente. O olhar distante parecia procurar algo que estava para além da imaginação, não soltava uma palavra, não mostrava qualquer afecto, estava ali como se não estivesse.

O mestre da banda, com a batuta, deu umas pancadas na estante da pauta, os músicos alinharam os instrumentos de forma, quase, cerimoniosa. O mestre do alto do seu poiso, olhou os seus músicos e sentiu o nervosismo dos mais novos, com um leve sorriso deixou a mensagem, era hora de começar.

Primeiro os violinos naquele melodioso lamento, depois os metais encheram a praça de magia, os acordes tomaram conta dos sentidos e a emoção encheu os ares, apoderou-se de todos e conseguiu, com o fascínio da música, passar despercebida as limitações destes amadores.

Quando a banda silencio algumas lágrimas bailavam nalguns olhos mas o milagre deu-se depois.

Libório que há cinco longos anos não botava uma palavra, que passava os dias num alheamento total, num quase autismo, saltou de repente, bateu as palmas, olhou o mestre e gritou:

-Mais uma vez, toquem mais uma vez!

****

Hoje, os mais cépticos, dizem que foi a magia da música.
Os outros, dizem que foi um milagre da santa padroeira



18 comentários:

ana costa disse...

Milagres existem... "e mau olhado" também!!!
Vá-se lá saber o que aconteceu ao pobre do homem!!!!
Gostei mais uma vez da tua escrita, e que a musica opera verdadeiros milagres em almas sensíveis é uma realidade
bj

quem és, que fazes aqui? disse...


Pois alguma coisa aconteceu no interior de Libório.

Terão sido os marcos que o demarcaram ou ele próprio se terá distanciado deles?

Beijo

Laura

JP disse...

Pois foi....ou um ou outro.

Hoje é dia do autismo. Será isso?

Abraço Manuel
(Que tudo corra bem. Ficamos à espera)

Ana D. disse...

Nós é que vamos sentir a sua falta.
Mas ficamos à espera ;)

Um beijinho
(catita)

✿ chica disse...

Magia da música ou milagre nem importa.

Vale mais uma linda história que li aqui!

abração e vais tirar umas férias?

Coisa boa!

No início da primavera, tudo é melhor: menos gente, melhor atendimento ,onde quer que seja que vás!

abração, aproveita muito e se fores ao mar, lembra da joaninha que adoooooooooooooooora mergulhar!rs

Tudo de bom,até a volta! chica

Sónia DaVeiga disse...

Bom interregno e até ao teu regresso! :-)

Vou relendo os teus escritos para me entreter na tua ausência! ;-)

Beijinhos e fica bem!

LUZ disse...

Olá, querido Manuel!

Como está?

"Serviço combinado com a CP", como costumamos dizer?
Também irei parar com os meus dois blogues, por falta de tempo.

Então, o Libório? Podem ter sido as duas coisas, milagre ou a magia da música.

O íntimo de cada um, é muito complexo.

Tenha um agradável descanso.

Beijos da Luz.

PS. quanto aos pensamentos "tortuosos", ainda bem, que existem, porque são tudo, menos TORTURA. São o oposto e aquela saia...!!!

Janita disse...

Acreditar na magia da música não é cepticismo, Manuel! Também ela opera milagres!

Então, até Maio. Cá o esperamos, desejando que os motivos sejam os melhores para si.

Um abraço.

Vivian Fernandes de Goes disse...

Olá,Manuel!!

Ah! Como gosto de tuas histórias!!! As mistériosas são minhas favoritas!
Milagres há para quem acredite neles...pra mim a própria vida é um milagre!
*Sentirei sua falta!Mas aproveite.Que consigas descansar.
Beijos e meu carinho,meu estimado amigo!

Rita disse...

Bom descanso, estaremos te esperado
Bjuss de boas férias
Rita!!!

Magia da Inês disse...

º° ❤♫°
Olá! Como sempre um belo conto... eu esperava um final trágico mas ficou ótimo esse final feliz.
Bom domingo!
Boa semana!

°º♡♡♫
°º♡ Beijinhos do Brasil.
º° ♡ ❤♫°

rosa-branca disse...

Olá amigo Manuel, linda história que adorei como sempre. Talvez a música o despertasse da letargia em que se encontrava. Já sinto a sua falta, mas que seja, o descanso do guerreiro. Beijos com carinho

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia amigo
Gosto do seu estilo de escrever pintando cores e descrevendo situações airosas e agradáveis á vista e ao ouvido como essa da Banda no coreto.

Milagre, milagre, só se o Libório ficou bom da cuca...

SOL da Esteva disse...

Manuel, meu Amigo

Sempre o imprevisto final. É bom que assim se "fechem" os Contos.
Dizem que não há bruxas, fantasmas e maus olhados, mas, parece que a música despoletou a "cura" do Libório. Ou não...


Abraços



SOL

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

O Libório, claro, era um doente mental, protagonizando um comovente conto, cuja apoteose foi um "milagre" que a música vem realizando ao longo do tempo...
Não é à toa que "escolas especiais", direcionadas a portadores de deficiência mental, como o autismo, utilizam,a Musicoterapia, como um aliado pedagógico.

Você é mestre, neste gênero!
Um beijo, Manuel.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

És o maior!

Abç

H

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Catarinamiga

Hoje não faço qualquer comentário pelo motivo que se segue:

Venho informa-te que estive muito doente. No sábado passado, inesperadamente, perdi a fala, perdi a consciência, perdi os movimentos.Fui ao Hospital de Santa Maria, felizmente puseram-me em bom estado, tal como podes ver através deste comentário.

Logo que possível, por carta desenvolverei a tremenda ocorrência.

Diz-me na Travessa o que sabes disto, sff. Muito obrigado

Qjs

Ludmila disse...

..Me sinto uma péssima amiga por sumir sem deixar rastros. Mas hoje curiosamente eu li algo no fundo do carro de um desconhecido que me fez por horas vagar nesse cantinho.. Quanta Saudade! Gostaria de saber como você está, o que tens feito, saber sobre você, matar a saudade enfim. Por favor manda seu e-mail para mim. Luddmilaferreira@gmail.com
Não poderia deixar de comentar seu lindo texto, o que me deixa mais feliz é poder passar por aqui e sentir a mesma sensação de felicidade de antes. Muitas Muitas Saudades! ^^