sábado, 9 de março de 2013

Pesadelo







 



Era um crepúsculo diferente, no colorido de um Sol que desaparecia, apenas a contraluz das gaivotas, davam um ar de vida.

Maria do Amparo, tirou os óculos escuros, o Sol há muito deixara de a encandear, e foi sentar-se na esplanada, o dia estava tão linda que ir para casa era o que menos lhe apetecia.

Ia ficar só mais um pouco, não podia atrasar-se muito, pois a mãe não estava tranquila quando demorava mais um bocado.
A velhota não era assim, mas desde que o pai morreu, tornou-se obsessiva, não lhe dava um momento de folga.

Controlava-lhe as horas de uma forma que a sufocava.

Hoje, para esta saltada à beira mar, teve que inventar uma urgência no escritório, mas mesmo assim, ainda, perguntou:

-Trabalho ao sábado, Maria do Amparo?

-Sim mãe, tenho que ir!

****

Andava cansada, no emprego eram simpáticos, mas havia alguma monotonia e, parecia-lhe que as colegas, não lhe perdoavam por ser nova e bonita, ela tinha esse sentimento, era perfeita.

Não era muito alta, mas Deus tinha distribuído tudo, nas doses certas e de forma segura.

Tinha uma beleza simpática, serena onde a doçura do sorriso ajudava a sua parte.

Hoje, sábado, apetecia-lhe passear. Gostava de percorrer, em passadas lentas, o caminho à beira mar e depois sentar-se na esplanada com um gelado, um imenso gelado, de chocolate e baunilha, com muito chantilly, mas mesmo muito!

Esperou o sorvete, enquanto os seu olhar percorria os restantes companheiros deste fim de sábado.

Na sua frente, um homem não desviava os olhos, Maria do Amparo fingia não reparar, mas na verdade até estava a apreciar esse interesse.

O tipo era, pensava ela, um pão, cabelo preto num estudado desalinho, olhos castanhos muito intenso e um sorriso cativante, debaixo de um fino bigode.

O doce ia desaparecendo, em colheradas lambidas, de forma um pouco libidinosa, pois a língua ia afagando de um modo sensual o colorido gelado, enquanto pelo canto do olho espreitava a forma, gulosa, como o homem a olhava.

Estava a gostar, há muito que andava esquecida dela própria, a mãe absorvia-lhe o tempo e cerceava-lhe, de certa forma, os sentimentos.

Se calhar o sujeito só estava curioso, ela sabia que despertava apetites mas, provavelmente, era apenas o gosto pelo olhar.

Terminou a guloseima, estava tão boa que se pudesse comia outra!

Começou a preparar-se para o regresso, quando o cavalheiro, se aproximou, sorriso rasgado e, quase, num lamento:

-Vai já embora, agora que arranjei coragem para me aproximar? Fique mais um pouco, ainda é cedo e a tarde está tão linda!

-Bom, disse Maria do Amparo, tenho mesmo que ir!

O homem não desarmou:

-Tem carro, ou posso levá-la a algum lado?

Maria do Amparo sentiu um formigueiro a subir o corpo, um dilema tomou-lhe conta dos sentidos, por um lado agradava-lhe a ideia e a companhia, o comboio a essa hora não era muito agradável, mas o bom senso martelava-lhe a cabeça, não devia aceitar boleia de estranhos.

O homem estava na expectativa, mas parecia ter adivinhado os pensamentos.

-Sabe menina, não tenha receio, pode confiar, eu deixo-a onde quiser, mas primeiro deixe-me apresentar, sou Miguel Lopes, advogado e, sorriu, bom rapaz!

Os dois diabinhos continuavam na sua cabeça, naquela luta do aceito, não aceito e, um tinha que vencer.

Maria do Amparo aceitou o convite.

*****


Começou um romance, primeiro devagar, encontros fortuitos, passear de mãos dadas, jantar à luz de velas e uns beijos, fortuitos, que faziam corar de prazer Maria do Amparo.

Um dia, foi numa quinta-feira, Miguel naquela voz rouca que a entontecia, perguntou:

-Vamos fazer um fim-de-semana diferente?
Os meus pais têm uma casa de férias em Sesimbra, podíamos aproveitar para ficarmos juntos. Que dizes?

-Mas, pergunto Maria do Amparo, vou conhecer os teus pais?

O homem pareceu mostrar algum incómodo, cofiou com o dedo o fino bigode. Limpou, com um leve pigarro, a garganta antes de responder:

-Amor, os meus pais estão em Évora, eu vivo com a minha irmã, mas um dia vou juntar toda a família para te apresentar. Quero que eles fiquem a conhecer a minha linda namorada, a mulher da minha vida!

-Bom! Suspirou ela, eu acho que, ainda, é muito cedo! Mas, tá bem, vamos!

*****

O tempo foi passando, cada dia se sentia mais apaixonada.
Bendita a hora em que aceitou aquela boleia, estava feliz e hoje estava radiosa, tinha um cheiro a pêssegos frescos. Pegou com mais força, do que o habitual, na mão do namorado. 
Havia felicidade no seu olhar, mas notava-se algum receio na voz.

-Sabes amor que vamos ser pais!
-Que estas a dizer mulher? Gritou Miguel. Perdestes a cabeça? Queres dar cabo da minha vida? Eu não vou ser nada disso e tu, se quiseres, podes ser mas não contas comigo!

Voltou a costas e desapareceu.

Maria do Amparo quis chorar mas nem uma única lágrima chegou aos seus olhos. Mordeu, de desespero, os lábios. 
******

Miguel, apareceu no dia seguinte mas, pelo semblante carregado, ela percebeu que algo estava mal. Não tinha aquele sorriso que a cativava, o fino bigode parecia, apenas, um traço inexpressivo naquele rosto, hoje, tão diferente do habitual.

Nem sequer lhe deu um beijo, limitou-se a dizer:

-Os meus sentimentos são verdadeiros, o resto é uma mentira pegada. Não sou Miguel Lopes, não sou advogado, não sou livre, tenho mulher!
Se quiseres vais tirar essa criança, que não tem culpa, continuas a ser a minha namorada, até que eu um dia eu seja livre, depois pensamos na nossa vida.

Teve sorte, ela tinha apenas uma revista na mão, mas mesmo assim sentiu a força a golpear-lhe a cara, sentiu nos olhos a saliva, quando ela lhe cuspiu no rosto e ouviu o martelar, nos tímpanos, da raiva das palavras:

-Desaparece canalha! Desaparece! Desaparece, antes que te arranque os olhos, com as minhas próprias mãos!


*****

Maria do Amparo nunca mais quis saber, desse homem que era falso, em tudo, até no nome.

Ia viver a vida, a vida como sempre vivera, mas agora tinha uma missão muito delicada e muito difícil.

Tinha que esconder uma gravidez, sabia quão difícil ia ser, o corpo ia perder as formas, muitas transformações que precisava disfarçar, com roupas mais largas e apropriadas.
Queria passar a gravidez sem ninguém saber. Em casa ia ser mais difícil, mas tinha que conseguir!

O pior período seria no Inverno e, nessa estação, era mais fácil disfarçar o corpo, trajes mais grossos iam ajudar.

Pelas contas, dela, devia acontecer no princípio de Dezembro, tinha que preparar tudo, ia marcar férias, ninguém podia desconfiar, a criança nunca ia aparecer, sem parto não havia bebé, sem bebé não tinha havido parto.

Tinha que ser inteligente, calculista e não se deixar levar por sentimentos, tinha que esquecer essa coisa do instinto maternal.

Era só um momento, depois acabava, um recém-nascido não chega a sentir a vida. 

Tinha que ir preparando, dentro da cabeça, todos os detalhes, tinha que inventar a coragem que lhe faltava, carregar e disfarçar uma gravidez, ter um parto sem ajuda e longe de tudo e todos e, por fim, fazer desaparecer uma criança que, para o mundo, nunca nasceu.
Só esperava que Deus compreendesse, o suficiente, para a perdoar.

A mãe não suspeitava da verdade, mas estava preocupada com a filha.
Estranhava porque andava sempre agoniada, de manhã era um castigo para se levantar, não deixava ninguém entrar no quarto e, até no corpo, sempre tão jeitoso, se notava um grande descuido.
Agora a mania de férias em Dezembro. Sim no Inverno, com tanto frio queria ir para a aldeia, para uma casa que era dos avós!

E foram, mesmo, para a aldeia.

A casa era enorme, estava fria e algumas teias de aranhas enfeitavam os cantos.

Uma vassoura, dois troncos e um molho de chamiços fizeram a transformação.

Agora já havia conforto.

Maria do Amparo tinha tudo preparado, havia uma cabana ao fundo do quintal, que em tempos foi usada, pelo avô, para recolher a mula. Estava limpa e com as paredes caiadas.

Num dos lados, improvisou uma espécie de tarimba, com umas velhas passadeiras.

Foi lá, também, que ao canto cavou uma cova, guardou a terra numa caixa, depois ia precisar.

Juntou, num saco, o que julgou precisar sem esquecer um pano branco, que iria servir de mortalha, pensou num saco mas, o plástico, levava muitos anos a ser corrompido.

Agora era aguardar, não faltava muito tempo, já ia sentindo os sinais da aproximação, pelo menos era o que tinha lido, a barriga descaída,  necessidade constante de urinar, o feto não mexia tanto e algum corrimento. Tinha que estar preparada.

Dia 8 de Dezembro, seis horas da manhã, umas grandes contracções avisaram da hora, enrolou-se num cobertor e sem fazer barulho, raspou-se a caminho da cabana.

Deitou-se no canto que tinha reservado, as dores eram mais constantes e rebentaram as águas.

Muitas dores, força que não queria perder. Soprava como se tivesse uma vela para apagar e, de repente, o filho foi mostrando a cabeça, depois os ombros e por fim estava todo cá fora.

Estava exausta, pegou na criança, ia acabar o que começou.

Ganhou coragem e limpou-o com o pano que ia servir de sudário.
Depois, olhou-o nos olhos e perdeu a coragem.
Embrulhou-o no cobertor, encostou-o contra o peito. Não ia fazer mais nada, o seu menino era tão bonito!

Levantou-se a custo, sempre com a criança junto ao coração, entrou no quarto da mãe e gritou:

-Mãe, preciso que me ajudes a criar o teu neto! Ajudas mãe?
É tão lindo o nosso menino! Olha para ele! Olha!







16 comentários:

Catita disse...

Ufa, por momentos cheguei mesmo a pensar num final mais dramático. Espero que tenha tido o apoio da família, afinal também ela foi enganada e às vezes recebemos mais apoio das pessoas que menos esperamos. De qualquer forma, a criança não tem culpa de nada e merece todo o amor e carinho.

Que belo texto amigo Manuel e obrigada pelas palavras que me vai deixando. Quanto ao cantinho pequenino, lá ficaram memórias de um passado bom, mas alguns acontecimentos menos bons levaram-me a seguir um outro rumo.

Bom domingo. Beijinhos

quem és, que fazes aqui? disse...


Ando uma lacrimejante ambulante. O que quer, Manuel?

Emociono-me. Deve ser da idade!

Beijinho

Laura

(temi o pior)

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Que Maria do Amparo mais ingénua!

Apetecia-lhe, não é? Pois, é normal e natural, SÓ QUE, e aqui reside ou não, o bom senso da mulher, há que conhecer, lidar e depois, se valer a pena, avançar.

O homem, nestes casos, quase sempre fala mentira e filhos desse envolvimento, nem pensar.
Isto é lei, quase.

Celebrou-se na sexta-feira, O DIA INTERNACIONAL DA MULHER, com o qual não estou de acordo.
Conheço e ensino o facto histórico, que lhe deu origem, mas eu quero ser RESPEITADA E AMADA, também no dia 9,10,11,12... e por aí adiante, ou seja, em todos os dias do ano.

Voltando ao seu conto, que é bem real, pois muitas "Marias dos Amparos" continuam a cair no conto do vigário, porque não sabem pensar e equacionar os factos.

A MULHER TEM DE CONSCIENCIALIZAR-SE E ADOTAR OUTRA POSTURA NA VIDA PARA SE VALORIZAR.

IGUALDADE, NÃO! COMPLEMENTARIDADE SIM!

Além do mais, os métodos contracetivos já foram inventados há muito tempo (a pílula no século XVIII, por exemplo) e, portanto há que usá-los.
Perservativo, eles não gostam. A história é sempre a mesma, sobretudo se já têm mais de 40 anos.
Os "meus" miúdos, alunos pré universitários, já não dizem isso e andam com eles na carteira, no bolso, como andam com o telemóvel, porque a qualquer momento, e como dizem os brasileiros, pode "pintar clima" e para o homem, sempre assim foi e continuará a ser, o que interessa é o momento, o alívio, e depois, "ala que se faz tarde" e quem fica com a CHUVA TODA, é a estúpida da mulher.

Fala-lhe uma mulher que não quis ter filhos e que nunca usou qualquer método contracetivo, mas não sou "santa". Escolhi, na altura, que EU QUIS, o "altar", que me pareceu ser o melhor.
Se a situação se alterar, cá estou eu para pensar e agir, em conformidade.

Com o desenrolar da ação, sempre esperei que a Maria do Amparo, não fosse cometer a barbaridade de enterrar o feto, e assim aconteceu.

Bem, o conto irá ter continuação.

Estou com imenso trabalho na escola, ou seja, o normal, o natural nesta época do ano letivo, e os meus olhos precisam repousar do computador, daí não ter publicado nada, esta semana, nos meus blogues.

Feliz domingo.

Um beijo da Luz, com amizade e estima.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Um final feliz, no amparo da mãe. História comum a tantas outras, pela ingenuidade da mulher, mas com um enredo bem interessante. Fiquei surpresa, com o desfecho. Muito bom, bonito e, corajoso, o gesto da moiçola sonhadora...

Boa semana, Manuel.
Beijos

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Duas mulheres e um bebé.
Uma história cativante.
Quantas foram as que tiveram esta coragem de assumir o filho na primeira hora...?

✿ chica disse...

Que lindo! E, por certo, após passado o susto, a vó ficou feliz e foi tomar conta de tudo que o pequeno precisava. E assim, foi.........

Adorei! abração,chica

Janita disse...

Que alívio!
Sofri até ao fim, e quando fez referência ao dia 08 de Dezembro, dia em que nasceu o meu neto que tanta felicidade me trouxe, fiquei com os olhos rasos de lágrimas.
Tudo está bem quando acaba bem e, na vida, há sempre lugar para um filho, mesmo sem pai!

Tem de maneirar com estes contos, Manuel...olhe que o meu coração não suporta tanta emoção.

Um abraço e boa semana.

LUZ disse...

Boa noite, estimado Manuel!

Como está? Menos cansado, porque o fim de semana é para relaxar e esquecer os afazeres, de toda a espécie.

Ora, agora sem "Pesadelo", estamos mais leves e com noites em lençóis de cetim branco, a vida desliza melhor, não para a Maria do Amparo, mas para outras, menos ingénuas.

A propósito de lençóis de cetim, não sei se já dormiu neles ou não, mas, digo-lhe, por experiência própria, que não prestam para nada. Só servem para fazer vista e decorar, mas para amar não são os mais aconselhados.

Tenha uma boa semana.
Beijo da Luz, com amizade.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

E dizes tu keu escrevo bem; tu, verdade,verdadinha, escreves muito melhor.

Mais um magnífico texto!

Já agora, pergunta a quem és, que fazes aqui? se deve ser da idade? veio-me logo à cabeça de cima, que a de baixo, pois, adiante.

Foi aquela em que um senhor foi ao médico e disse-lhe: Doutor, insinuam que sou esquizofrénico... Deixe-os falar... Mas, já agora qual a razão de pensar, porque lho dizem, que é esquizofrénico?

Olhe, Doutor, a minha mulher anda a enganar-me. Eu todas as manhãs apalpo a testa para ver se me está a crescer alguma coisa; depois, quando estou a barbear-me miro cuidadosamente o espelho e não me estão a nascer coisas tipo cornos... Será por falta de cálcio???


Abç

H

SOL da Esteva disse...

Manuel, meu Amigo

Dramático quanto baste.
Infelizmente existem muitas Marias do Amparo, sedentas de Amor e repletas de Sonhos.
Este teu Conto tem muitas facetas educativas.Cabe a cada Maria do Amparo, sabê-las retirar deste teu magnífico texto.
Parabéns renovados.


Abraços


SOL


Rose disse...

Emamuel, conheço uma história parecida com essa, mas depois de tantos encontros e desencontros o cara se separou e assumiu a amante, que não sabia da farsa dele e se casaram. tem uns 25 anos juntos. Que bom que Deus iluminou a pobre maria do Amparo e ela seguiu seu instinto materno. parabéns pelo conto, muito bom! beijinhooooo!

Fê Blue bird disse...

Quantas mulheres não foram assim enganadas...
Felizmente acabou bem.

beijinho

Bloguinho da Zizi disse...

Manuel
Lá fui eu às lágrimas.
Olhar nos olhos do filho fez toda a diferença.
Existe algo mais forte que causa uma grande mudança em muitas das nossas vontades.
Mais uma vez me vi envolta em teu conto.
Gratidão

SDaVeiga disse...

Não há nada mais belo que o primeiro olhar dos nossos filhos! :-)
Lindo conto, que surpreende face ao título que tem! :-)

Bom fim-de-semana!

ana costa disse...

Sempre esperei que o seu coração de mãe a fizesse optar por ter a criança...
Sou contra qualquer modo de por termo ao bem mais precioso que é a vida...
fiquei contente com o final
beijo amigo e bom fim de semana

Vivian Fernandes de Goes disse...

Ah!Que susto!!!!
Ainda bem que ela desistiu!!!Infelizmente existem tantas que não tem coração e levam a cabo os planos...

Beijos,meu amigo!!!
Desculpe a demora!Mas sabes que não te esqueço!