sexta-feira, 1 de março de 2013

O último abraço






Acordei com a intensidade da chuva a fustigar as inseguras persianas das janelas, o vento soprava de forma irregular como se estivesse apostado em arrancar tudo à sua passagem.

Levantei-me a custo, as articulações reagiam, sempre, a todos os movimentos com uma dor aguda e persistente. Acendi uma lanterna e tentei com os pés encontrar os chinelos, mas foi difícil a procura, as pernas não me obedeciam. Por fim lá consegui. Agora o problema era aquela, difícil, tarefa de sair desta posição e ficar de pé, encontrar a bengala e conseguir arrastar as pernas até a janela para baixar, totalmente, as persianas de forma a não baterem tão intensamente.

Na cama ao lado, Odete, dormia tão calma e tão serena que me deixou admirado, normalmente respirava com dificuldade e um ressonar cavo acompanhavam o sono difícil, hoje não, estava num sossego que me reconfortou. Ia ter cuidado para não lhe perturbar o sono.

Somos casados, vai fazer 65 anos, sempre compartilhámos a mesma cama mas, agora, as nossas maleitas obrigaram a duas camas, de forma a um, não incomodar o outro, com as voltas e o mau estar nocturno. Não gostamos muito mas compreendemos, que era o melhor para aproveitar as poucas horas de descanso, que a dores nos proporcionavam.

Finalmente, venci a batalha, estava numa vertical periclitante mas estava o suficiente para conseguir chegar à janela e puxar bem abaixo as persianas.

Olhei, outra vez, a Odete estava tão serena. As rugas sulcavam-lhe o rosto mas mantinha, ainda, aqueles traços que a tornavam, para mim, tão diferente, naquela doçura e serenidade que me enchiam o coração. Se calhar o que sentimos agora é já apenas amizade, mas no meu decrépito coração mora, ainda, um amor tão intenso que me tolda a vista quando penso que, um dia, a morte nos vai separar. Não acredito noutra vida, sempre me habituei a encarar a morte como o fim de uma longa caminhada, depois o descanso total.

A luz da lanterna orientou-me embora a luminescência, dos relâmpagos, fosse suficiente para guiar os meus passos.

Cerrei as persianas, conquanto tremessem com a fúria do vento, amortecerem o barulho o que seria suficiente para a Odete não acordar. Felizmente, ela, tinha um sono pesado, que juntamente com aquela remessa de comprimidos a deixavam num torpor doce e tranquilo, embora com um sono agitado.

Voltei para a cama, Odete, continuava na mesma posição, de quase beatitude.
Apalpei-lhe a testa estava gelada, é natural aos 85 anos, o sangue já não nos aquece o corpo da mesma forma, e ela, coitadinho estava tão magrinha que maior dificuldade tinha, ainda, para manter o pouco calor que lhe restava.

Não penso voltar para a minha cama, vou ficar junta da Odete, vou-me agarrar com força para lhe dar algum do, pouco, calor que me resta.

Enrosquei-me, como fazíamos quando éramos mais novos, numa espécie de conchinha aconchegante.

Colei o meu corpo e abracei-a com carinho, alisei-lhe o cabelo e senti o gelo do seu corpo invadir o meu.
Firmei-me com a força que me resta e disse-lhe de mansinho ao ouvido:

-Vá querida, vamos descansar os dois como fazíamos antigamente!
Depois adormeci profundamente.


****

Dois dias depois, os bombeiros, arrombaram a porta. Continuavam abraçados.
Nem a morte foi capaz de os separar!




17 comentários:

JP disse...

Há um filme que saiu agora, assim com este tema, "Amor".

Bem pintado, como sempre.

Mas Manuel, é melhor consertar as persianas:))

Abraço

✿ chica disse...

Morrer assim não é de todo mau!! Lindo conto, como sempre!! abração,ótimo fds! chica

Bloguinho da Zizi disse...

Esse é um grande final pra uma vida a dois, onde o carinho, o respeito e o amor vencem a idade.
Tocou fundo Manuel!

Gratidão

Beijinhos

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Mais um bonito e afetuoso conto, por si inventado.

65 anos, é muito tempo, mas o amor está já enraízado.

O fim foi triste, mas foi para ambos.

Bom domingo.
Beijo da Luz, com amizade.

quem és, que fazes aqui? disse...


Sabe que fiquei triste com este conto? Só porque...

Beijo

Laura

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Que abraço e mortes tão serenos!
Seria bom, que com todos os casais amorosos e longevos assim acontecesse!
Gostei Manuel, penso como o narrador: tudo termina aqui...na vida terrena.

Beijos,
da Lúcia.

Mary disse...

Um conto muito lindo, e com um final muito triste.

Um bjo meu amigo manuel.

Rose disse...

Nossa... Que bom que o amor foi o marco dessa história. Deixa-nos reflexões... Adorei! Sigo por aqui e voltarei. Abração!

Eduardina disse...

Gostei do seu conto.Felizes as personagens que criou, pois viveram juntos, e não tiveram de enfrentar o amargor da solidão e a saudade um do
outro.

Rita disse...

Boa noite!!!
Hoje estou te visitado para deixar
uma bela frase, com todo meu carinho!


"O amor só é lindo, quando
encontramos alguém que nos
transforme no melhor que
podemos ser"

(Mario Quintana)

‎(¯`v´¯)
.`•.¸.•´

Manuel disse...

Janita deixou um novo comentário na sua mensagem "O último abraço":

Se por um lado me senti profundamente triste, por outro senti um certo alívio.
Depois de uma vida em comum durante 65 anos, já eram uma só pessoa. Juntos e agarradinhos partiram para onde quer que seja, mas unidos até ao fim. E o que é mais importante: sem sofrimento!
Parabéns, Manuel! Este tocou-me bem no âmago. Muito lindo!

Beijinho.

Maria Alice Cerqueira disse...

Boa tarde prezado amigo
vim lhe desejar uma santa semana!abraço fraterno!
Maria Alice

SOL da Esteva disse...

Manuel, Amigo

Conseguiste dar-me uma comoção que já não sentia há tempos. Este nó na garganta quer dizer que mesmo sabendo ser um Conto, a intensidade emocional extravasou.
Bom! Sempre consegues.


Abraço



SOL

ana costa disse...

Final lindo para uma não menos linda vivência de amor...
Beijo amigo e um bom fim de semana

Vivian Fernandes de Goes disse...

Ah!Meu amigo...Conseguiste me deixar sem palavras!

Só posso dizer que fiquei com os olhos marejados e o coração cheio de ternura.
Lindo!
Beijos e meu carinho!

Magia da Inês disse...

¸.•°♡♡

Brilhantemente escrito... um amor doce e eterno.
Bom fim de semana!
Beijinhos.♡°•.¸

¸.•°♡♡°•.¸

SDaVeiga disse...

Tristemente lindo.