terça-feira, 21 de maio de 2013

O Padre









-Mamã gostas do senhor padre Isidoro?

-Gosto, é boa pessoa e muito amigo das  crianças.

-Sabes mamã que já tou chateada com ele?

-E porque Clarinha?

-É chato com os meninos! 

-Se calhar os meninos não se portam bem!

-Portam pois, portam-se muito bem mamã!

-Se se portam bem porque é que ele é chato?

-Está sempre com um ao colo e a gente não gosta de estar ali sentados.

-Nunca estão satisfeitos, quando a dona Otília dava a catequese,  diziam que era uma mal disposta. O senhor padre, porque as meninas se queixavam, tomou ele por sua conta essa tarefa e, agora é chato porque é carinhoso? Vocês não sabem o que querem, valha-me Deus!

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O padre Isidoro apareceu, qual Dom Sebastião, numa nevoenta manhã de Novembro, o povo estava no adro da Igreja para o receber, com a solenidade e respeito que tão desejado personagem merecia.
Parecia dia de festa. A simpatia e delicadeza, do vigário, facilmente conquistaram os corações dos paroquianos, um pouco desiludidos com o padre Moreira que se acabou de reformar, rabugento, com preconceitos e incapaz de se adaptar a abertura da Igreja aos tempos modernos. Era um pouco inquisitorial, arreigado a princípios dogmáticos, sem compreender que a evolução faz parte da vida.

Foi uma autêntica revolução, a missa deixou aquela monotonia monocórdica, a guitarra acompanhava os cantos solenes, a juventude começou a animar as cerimónias.

A catequese, quase um castigo para as crianças, deixou de ser um momento tedioso. A catequista, dona Otília, foi mandada em paz.
Agora o padre Isidoro tomava a seu cargo essa missão.

O padre ensinava, fazia jogos, organizava passeios e mantinha um dinamismo que os miúdos adoravam. Só achavam que o padre era carinhoso demais e estrafegava os meninos, tornando-se chato.

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Tinha começado o mês de Julho, muito calor e grande euforia.

A costureira, da aldeia, não tinha mãos a medir, os vestidos para as meninas que iam fazer a comunhão solene, tinham que ficar prontos. As mães andam num corrupio para os seus rebentos, poderem brilhar nos vestidos brancos, bordados.

O padre Isidoro juntou na Igreja todos, os que iam confirmar o baptismo, era preciso ensaiar a cerimónia, para tudo bater certo e para os meninos ficarem preparados e saberem os lugares a ocupar.

Correu bem, saíram da Igreja qual bando de pássaros, em alegre chilrada, a caminho das suas casas.

Começou a entardecer, dona Mafalda, começou a ficar preocupada, Clarinha já devia ter regressado do ensaio, eram cinco horas e ainda não apareceu.
Meteu os pés numas sandálias e foi a caminho da Igreja.
Estava fechada, bateu na porta da sacristia mas só o silencio lhe respondeu.

A preocupação começou a tomar conta do seu pensamento, não era a primeira vez que a rapariga lhe pregava uma partida desta. O ano passado, mais ou menos por esta altura, meteu-se a caminho da Coutada, com uma pequena caixa e a ideia de apanhar um grilo, para a gaiola que estava pendurada num prego da marquise.

Foi uma tarde de agastura, e quando a encontrou. não se aguentou sem lhe dar uma grande nalgada naquele rabo.

-É para aprenderes, gritou no desespero.

A noite estava a cair e o raio da rapariga sem aparecer, foi ao posto da guarda já lavada em lágrimas.
O sargento Acácio mandou uma patrulha ajudar os populares que se ofereceram para participar nas buscas.
Voltaram quando o Sol já tinha desaparecido, no horizonte, e a noite já ia caindo.

Na manhã seguinte, todos voltaram ao terreno. Vasculharam todos os recantos, não esqueceram a ribeira, que nesta altura do ano, estava quase seca, foi tudo em vão, nenhum sinal da Clarinha.

Nuvens negras começaram a povoar a cabeça daquela gente, o temor tomou conta de todos, o pior começou a pairar nos pensamentos.

Foi então que a voz de Mafalda ecoou no silêncio:

-Foi o padre, a minha filha bem me avisou e eu não a quis ouvir!

O povo agitou-se, olharam-se como se vissem pela primeira vez. Um sururu tomou a praça, os ânimos exaltaram-se e uma onda de homens, tisnados pelo sol, tomou o caminho da Igreja.
O sargento Acácio disparou um tiro, para o ar, e o povo, como por encanto, estacou.

-Mas afinal o que se passa aqui! Gritou a autoridade.

-Foi o padre, é pedófilo, senta as crianças no colo, foi ele, só pode ter sido ele! Gritou Mafalda.

O sargento olhou-a de alto a baixo, segurou-lhe o braço e perguntou:

-Tem alguma prova disso, ou quer ser cúmplice de um linchamento?

O povo acalmou e aos poucos foram abandonando a praça.

****

O padre foi investigado e ficou provado nada ter de suspeito, no dia do ensaio, saiu muito depois das crianças. Foi confirmado pelo sacristão e por alguns fiéis que estavam na Igreja, a Clarinha saiu para rua, com os restantes companheiros.

Ficou desgostoso, tão triste, incapaz de encarar quem tão mal o tratou. Fez a mala e desapareceu daquela terra sem vontade, sequer, de olhar para trás.

*****

Em Agosto, o Chico Brotoeja, um pobre diabo, meio lerdo, que passava os dias acomodado, num mocho, à porta da tasca do Basílio, lembrou-se de perguntar ao taberneiro:

-Oh mestre Basílio, porque será que o homem do carro azul nunca mais apareceu?

-Qual homem do carro azul? Perguntou, de maus modos, o taberneiro.

-O que foi casado com a dona Mafaldinha, a que mora nas casas do João da Nora!

-O divorciado que abalou para Lisboa? Inquiriu Basílio.

-Esse mesmo, mestre Basílio, esse mesmo! Gritou o Chico.

-Porra que ideia a tua! O homem vazou há anos e agora vens com essa do carro azul. Ele nem carro tinha!

-Não tinha mas agora tem! Eu vi-o outro dia quando levou a menina.

-Menina? Qual menina?

-Qual menina, qual menina! Qual menina havia de ser? A filha deles, a Clarinha!






13 comentários:

✿ chica disse...

Muito bom, tema que mexe om pedofilia, que ninguém suporta. Lindo final! abração,chica

Sónia DaVeiga disse...

És mesmo mau!
Fizeste tudo para o homem parecer pedófilo e, afinal, foi o pai que veio buscar a miúda!
Duas coisas más numa história só é demais homem!

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Gosto de te ler mas desta vez só me parecia pedofilia.
Eles não são capados como se dizia antigamente.
Homens de carne e osso. Pecadores maiores que os restantes.

Não percebi a história e pelo comentário pareceu-me que a criança abalou com o pai.

JP disse...

A pedofilia é um tema chato. Quando mete Igreja, mais chato se trata. Mas aqui não era bem isto, pois não?

Abraço
(já tinha saudades)

AFRODITE disse...


E dos Contos da Montanha de Torga vim no teu rasto até este conto.
Digo-te que foi impossível parar de ler... fiquei presa ao enredo!

A pedofilia é um tema muito polémico porque nos enoja, nos magoa e fere o que temos de mais sagrado... os nossos filhos!

Quanto ao conto, com um final à Hitchcock, gostei de o ler apesar das pontas soltas e pormenores que ficaram por dar... porque para bom entendedor, meia palavra deve bastar.


Tudo de bom... e fica a promessa de voltar.
(^^)

Mary disse...

Nossa que alivio, o coitado do Padre nada tinha a ver com o sumiço da Clarinha. Achei que iam encontrar ela violentada e morta na igreja

Um conto que prende o leitor!

Bjo Manuel!

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

Como tem passado?

Agradeço os comentários que deixou nos meus dois blogues.

Pois, a Pedofilia está na "moda" e ao mais pequeno sinal, pensa-se, de imediato, nela.

A Clarinha foi levada pelo pai, como também acontece em muitos casos, quando há casais que não se entendem, divorciados ou não.

Bom fim de semana.
Beijos da Luz, com estima.

Janita disse...

Há pessoas tidas como "lerdas" que vêem com maior lucidez aquilo que os supostos espertos não enxergam.

Este seu texto poder-se-ia chamar: aquilo que nem sempre é o que parece!!
Quantas vezes se fazem juízos precipitados e se condenam inocentes?

Um abraço, Manuel.

quem és, que fazes aqui? disse...



Manuel, estive uns dias de blogue fechado. Regressei.

Quanto ao texto... imprevisível o desfecho, como sempre.

Beijo

Laura

Janita disse...

Olá Manuel! Será que o meu comentário foi parar à caixa de Spam?

Comigo já tem acontecido isso.

Agradeço que confirme, pois vejo um comentário da Laura com a data de hoje e eu já aqui estive há um ou dois dias.

Abraço.

Janita

SOL da Esteva disse...

Sempre magníficos os fechos dos teus Contos!
...Assim se criam os conceitos e preconceitos. Já não se pode ser atencioso e gentil!...


Abraços


SOL

Vivian Fernandes de Goes disse...

Olá,Manuel!!

Minha nossa,meu amigo! Que susto!!!
Um conto perfeito,nos fez acreditar num suspeito e nem era ele!Muito bom!!!!
Um julgamento apressado nunca é bom conselheiro, né?!
Beijos e meu carinho!

Rita disse...

Bom dia!!!
Ai que alivio saiu do sufoco
um susto e tanto mas valeu ler e gostar
Deixo um abraço de bom final de semana
Bjuss
Rita°º✿°º✿