domingo, 2 de junho de 2013

Marcas







Tentou abrir os olhos mas, a dor aguda que o percorria, apenas lhe deixou entrar uma confusão de luzes, barulhos e sons que não conseguia compreender. Havia uma espiral de claridades azul, girândola que lhe atravessava as pálpebras cerradas.

Queria falar mas as palavras ficavam perdidas num emaranhado de confusão, que não sabia explicar.

Não sentia o corpo, estava leve, num levitar doce e tranquilo.

Viu o pai, chamava-o de joelhos na areia molhada da praia. Correu para os braços, fortes, que abraçaram com amor o seu corpo ainda tão frágil.

Era tão criança a correr, atrás da bola que o pai atirou para longe. Correu molhando os pés na água que se espraiava na areia.

Ao longe a mãe sorria.

Viu-se a receber o canudo da formatura, a mãe tinha os olhos molhados das lágrimas, de satisfação, pelo seu menino. A Laura, estava ao lado e, sorria com tanto amor, que lhe apetecia deixar a formatura e correr para os seus braços e, beijá-la com todo o amor que sentia.

Lembrou o dia do casamento, sentiu-se ridículo naquele trajo de cerimónia. A Laura estava deslumbrante, tão radiosa.

Sentiu-se a levitar, numa doçura e, numa tranquilidade como nunca sentira antes.

Era uma música diferente, sons que nunca antes escutara, uma harmonia, que o embalava como se flutuasse num mar de pétalas perfumadas.

A luz avançava devagar, num salomónico de luzes suaves, que o levavam enleado em reflexos de rostos que conhecia mas de que se não lembrava.

Depois………... foi  o silêncio.

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Jornal Correio da Manhã do dia 24 de Dezembro.

Mais um grave acidente ceifou uma vida na flor da idade e deixou outra em estado muito grave.
João Gomes, um jovem de 23 anos, quando chegou ao Hospital já era cadáver, a sua esposa Laura Gomes está em observação com prognóstico muito reservado.
Segundo testemunhas do acidente, pode ter sido o excesso de velocidade e o estado do piso, devido ao mau tempo, os causadores do grave despiste que originou mais uma tragédia na véspera do Natal.
As autoridades pensam que............

               



18 comentários:

Ana D. disse...

Agora recuei à história de uma amiga minha. Perdeu o pai num acidente de automóvel quando ainda nem tinha nascido, a mãe estava grávida e sobreviveu. Tinham mais ou menos essa idade. Eu também estou a caminho dos 23 e senti um arrepio imediato, pode tudo estar a correr bem, mas de um momento para o outro tudo pode terminar.
É com textos assim que reflito sobre a vida e penso que realmente temos que aproveitar todos os dias como se fossem os últimos.

Beijinhos

✿ chica disse...

Puxa, que lindo, triste, emocionante! Já de volta, curti bastante o filhão que já chegou bem na Inglaterra, abração,chica

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Relatos reais do que se vai passando/acontecendo diariamente nas nossas estradas.
Existem casos em que não sobrevive ninguém... a vida é cruel...

rosa-branca disse...

Meu amigo, também ninguém devia de perder a vida na flor da idade. Com este texto o meu jardim ficou orvalhado. Infelizmente há tantos acidentes e a nossa juventude se vai sem dar por isso. Obrigado por regar o meu jardim que teima em secar. Beijos com carinho

JP disse...

A vida tem esses ciclos....essas curvas. Umas mais perigosas, outras nem tanto.....no fim sobrevive sempre o silêncio.

Abraço

Pérola Irregular disse...

Uau. Sempre me surpreendo quando venho aqui ler um conto seu.
O som do piano acompanhado com a leitura, proporciona uma harmonia incrível.
Dizem que quando estamos perto da morte, podemos nos lembrar dos momentos mais intensos que vivemos. Acho que foi isso o que pude perceber, lembrou-se dos momentos que mais lhe marcaram, com a família, a esposa, na formatura. Como um flashback de recordações antes que tudo tenha um fim, se é que tem, vai saber.
Enfim, encantador como sempre, Parabéns pelo texto!
Beijos!

quem és, que fazes aqui? disse...


Devo andar deprimida, Manuel, porque, ultimamente, me dá sempre um nó no coração...

Beijo

Laura

Smareis disse...

Olá Manuel,

Depois de um tempinho ausente cá estou de volta.
A vida tem essas passagens, deixa marcas, e como deixa!

Beijos e ótima semana!

✿ chica disse...

Vim rapidinho responder: É porque tua criança ainda está dentro de ti. Isso é lindo e nunca nos podemos perder dela,né? abração,chica

LUZ disse...

Olá, estimado Manuel!

24 de Dezembro do ano passado? Pura invenção, ou associação de ideias?

Mais um texto de dor, de perda.
Nem sei o que lhe hei de dizer.

Aguardemos, então o parecer das autoridades.

Beijos da Luz, com amizade.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Acabo de postar uma resposta lá na nossa Travessa que aqui transcrevo:

Desculpa o mau jeito, mas isto incha, desincha e passa, como dizem os militares. Tá tudo inspilicado.

Estou a preparar ambos os dois... personagens principais numa ida ao Brásiu pra investigar um caso fdp, ou seja e por extenso filho da pauta, ops,puta.

Alias, já comecei a escrever a primeira parte, pois o conto alarga-se e tem segunda. Penso assim, aumentar o çuspêçório, digo, o suspense...

Depois verás...

Abç

Henrique

______

NB - a ideia do livro com os contos do ORA AGORA, VIRA, já se alojou no cristalino bestunto. Sequência seguinte: Procurar uma editora: Editora que pague: A tempo e horas...

Plize, uóte simes iu abaute dis aidia? Tel mi,oançe more, plize.

SOL da Esteva disse...

Manuel, meu Amigo

Contos, assim relatados, misturam-se na realidade com tal veemência,que, sem querermos, acabamos por nos afundar neles os no que deles emana.
Parabéns, Amigo.
Gostei, particularmente deste.


Abraços


SOL

http://odeclinardosonhos.blogspot.com disse...

O pior é que a cada dia que passa essa é uma realidade cada vez mais constante nas nossas estradas...
Gostei bastante Manuel!!!!
bjs
anacosta

Rita disse...

Olá boa tarde !!!
Um conto muito bem colocado
eu gostei muito parabéns...

Abraços de bom final de semana
Bjuss
Rita!!!!!
(¯`v´¯)
`·. ¸.·´
☻/
/▌

Magia da Inês disse...

¸.•°❤❤⊱彡

Isso me entristeceu... porque é isso mesmo que acontecesse todos os dias.
Bom fim de semana!
Beijinhos do Brasil°º✿♫
°º✿
º° ✿♥ ♫° ·.
¸.•°✿✿⊱彡

Flor de Lótus disse...

E ai vida é assim meu caro Manuel um intervalo entre o ir e o partir,a morte é uma das poucas certezas que temos na vida.E ela pode vir assim tão inesperadamente e nos levar sem aviso prévio por isso devemos viver intensamente cada minuto que temos.
Um forte abraço.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Estória magnífica como todas as outras e sempre fazes (e sabes fazer). Pela minha parte, façarei mais coisas na nossa Travessa. Este propósito não serve de desculpa para o não vir cá há algum tempo.

Mas isto não quer dizer que te tenha abandonado - muito longe disso!

Abç

Henrique

Vivian Fernandes de Goes disse...

Olá, Manuel!!

Que saudades meu amigo!!!!
E que belo conto!!!De uma beleza poética ímpar!!!Comoveu-me profundamente!
Beijos! Meu carinho e admiração sempre!