quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Um livro de capa amarela







Há uns tempos que sente um certo desconforto, não é propriamente um dor, mas um mau estar, um adormecimento que o deixa numa total apatia. Quer e tenta, mas parece que o corpo se nega como se tivesse ausente.

Um dia destes tem que ir ao médico embora, pense, que é apenas cansaço, tem trabalhado de mais.

Ainda se tivesse apetite, mas não consegue tolerar a comida, o estômago rejeita como se não tivesse espaço para o quase nada que ingere.

Este fim-de-semana, que há tanto tempo deseja, vai ficar na cama até que o corpo a rejeite, vai dormir como se o acordar não existisse.

Afinal foi como nos outros dias, acordou às mesmas horas e com as mesmas dores no corpo, ainda tentou voltar-se para o outro lado e fechar os olhos, mas de nada valeu, o mau estar ganhou. Ia tomar banho, se calhar fazer a barba, bem precisava e, sair assim um pouco ao deus dará. Primeiro um pequeno-almoço na pastelaria do Hermenegildo, tinha uns croissants recheados com chocolate a que não sabia e, não queria resistir, só tinha dúvidas se acompanhava com uma grande chávena de café ou, se calhar, um bom copo de sumo de laranja. Bom, logo via!

A pastelaria, o que não era normal, estava quase vazia, apenas um casal idoso no canto mais afastado e na mesa, ao pé da montra, uma mulher, linda! Totalmente absorta nas paginas de um livro de capa amarela. Cabelos negros, graciosamente disposto em suaves caracóis caídos pelos ombros.

Puxou uma cadeira, propositadamente, com algum ruído e resultou. Tirou os olhos do livro e brindou-o com um sorriso que lhe paralisou o pensamento, lhe deixou uma tremedeira nas pernas, mas, felizmente, não lhe tolheu a voz:

-Bom dia menina, com esse sorriso vou, de certeza, ter um dia muito especial.

Agora ela não sorriu, deu uma cristalina gargalhada, e com o voz mais doce que alguma vez ouviu, respondeu:

-Graças a Deus, espero bem que sim!

Tinha sotaque num português, açucarado, do Brasil, olhos gaiatos numa cor indefinida, entre avelã e verde, pareciam mudar a cor consoante a expressão, mas era linda. Tinha que insistir, não podia perder a oportunidade que o destino lhe estava a oferecer:

-Sabe, insistiu, para o dia ser perfeito só preciso que me deixe sentar, ai, ao pé de si a tomar o meu pequeno-almoço.

-Oi, não seja por isso! Pode tomar o seu café da manhã à vontade, a mesa é grande!

Era linda e alem disso, muito simpática.

Começou a ficar sem jeito, a forma simples e despretensiosa como encarou a sua ousadia,  a maneira como arrumou o livro fez antever que ia ser companhia.

Sentou-se, olhou o livro da capa amarela, obra antiga de Pearl S. Buck, A Promessa, não era muito normal nas mãos de uma menina que não devia ter mais de 25 ou 26 anos. Aproveitou o livro para alimentar a conversa:

-Esse romance é muito antigo, é curioso estar a ler essa obra.

Pareceu ficar com um leve rubor na face o que ainda acentuou mais o seu encanto, fez um leve trejeito com a boca antes de responder:

-Eu não sei mesmo quem é esta escritora, mas estava lá na estante do meu avô e a capa amarela me atraiu. Estou gostando mesmo, é uma história de um jovem chinês, mas passado há muito tempo, mas muito bem escrito.

Bebeu as palavras, deixou a música do sotaque invadi-lo numa doce dormência.

-Então está a deixar esfriar o café? Perguntou com um sorriso trocista.

-Oh….gaguejou, os seus olhos fazem-me esquecer do resto!

Depois ficou arrependido, afinal mal a conhecia e estava a arriscar de mais. Teve  sorte, ela achou graça e sorriu:

-Obrigada, mas agora é hora de tomar o seu café.

Foi assim que começou, numa manhã que pouco ou nada prometia e, de repente, um livro de capa amarela transformou no principio de tudo, como se o passado fosse apenas uma leve recordação.

Saíram os dois, naturalmente, como dois amigos de há muito.

Era portuguesa nascida, algures no Alentejo, foi para o Brasil tinha dois anos e por lá ficou 22, era, como dizia, meia-meia, coração dividido.

-É um pouco complicado, sabe?

-Não sei, disse ele, mas temos o dia para falar e contar tudo para eu perceber.

Foi linda a gargalhado que ela soltou, antes de dizer:

-Bom! O dia todo é demais, um tempinho podemos aproveitar, pois estou gostando da companhia.
*****

Seguiram avenida abaixo, risadas, pequenos e casuais toques de mão. Uma cumplicidade que parecia grande mas, era apenas feita de um disfarçar de emoções, de uma atracção que queriam disfarçar.

Sentaram-se na esplanada à beira mar.

Ele estava a ordenar as ideias, um pouco sem jeito, as coisas estavam a ir tão depressa que se sentia desconfortável nas palavras.

-Então, continuou ela, me chamo Carolina, nasci numa pequena aldeia perto de Beja e, não sei porque, nunca me contaram, os meus pais se desentenderam e a minha mãe pegou em mim e abalou para junto de um irmão que trabalhava no Brasil, voltou  a casar e foi assim que cresci, estudei e vivi sempre na Bahia.

-Há dois anos, o meu padrasto, teve um acidente e morreu, mamãe ficou muito abalada e resolvemos voltar para Portugal.

-Eu gosto de Lisboa, estou a preparar a tese do mestrado e sou advogada estagiária numa sociedade de advogados.

-É tudo, sou assim, descontraída, gosto de conviver e tenho pena de não conhecer o meu pai, mas a mãe sempre escondeu.

Ele estava fascinado, a forma alegre como se expressava  toda a doçura nas palavras e, sobretudo, a naturalidade como desnudava um pouco da vida perante um, quase, desconhecido.

Tinha que compartilhar, devia ser sincero como ela estava a ser.

-Pois, eu, sou uma espécie de desenraizado!

-Credo! Exclamou ela, que é isso de desenraizado?

-É uma forma de dizer, pois, sou alguém que com 23 anos ainda não se encontrou. Acabei, este ano, o meu curso de biologia e não tenho projectos nem ambições, sou saudável mas sinto-me doente, apático, quase inútil.

-Quase como tu, não conheci o meu pai, foi embora tinha eu dois anos, diz minha mãe.

-Parece que nunca voltou e, confesso, ninguém sentiu a sua falta.
A minha mãe, advogada como tu, foi capaz de ser uma maravilhosa mãe e, só em pequeno, senti a falta de um pai, depois habituei-me e não dei pela falta. Temos muito em comum e se Deus quiser podes ser a minha musa inspiradora para a minha existência e, finalmente, ter um objectivo.

-Isso é uma declaração? Ainda nem sei o teu nome e já sinto uma espécie de galanteio!

Ele corou, mas gracejou:

-Foi de propósito, pensei que tinhas notado que tenho cara de Horácio!

-Horácio? Gosto mesmo tá?

-Ainda bem que gostas, porque foi mesmo uma declaração.

As horas passaram tão rápidas que quando deram por isso estavam na hora das despedidas.

-Amanhã então me telefona? Perguntou Carolina. O meu nome, é mesmo, Carolina Beldroega, não é muito bonito mas é muito original.

Horácio pareceu surpreendido com o nome, fez uma cara estranha e não se conteve:

-Como é mesmo o teu nome?

-É mesmo Beldroega tal como o meu pai, está na minha cédula, filha de Joaquim Ezequiel da Silva Beldroega e de Maria Constância Matos.

Horácio não parecia feliz, deu-lhe um leve beijo na face e foi saindo:

-Ok, eu amanhã telefono!

********


Saiu correndo a caminho do carro, as lágrimas queriam romper mas ia mordendo os lábios para não chorar, ele sabia que nunca iria telefonar.
No seu bilhete de identidade o nome do pai era, também e exactamente, Joaquim Ezequiel da Silva Beldroega.

Não podia ser coincidência, não, não, não há coincidências assim.





14 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia Amigo
Hoje puxei a cadeira e vim para a praça ouvir-te nesta história.
Um história simples mas com as cores que lhe deste ficou mais encantadora.
Um jeito próprio que tens de fazer estes trabalhos.
Estamos em fim-de-semana.
Um abraço.

Maria Luisa Adães disse...

Bom trabalho, tal como vai sendo, em tudo que apresenta.

E aquele final, parece uma alusão ao destino que nos traz encontros inesperados!

Beijos,

Maria Luísa

✿ chica disse...

Puxa, que fascinante isso! E coisas assim acontecem mesmo! Muito legal te ler, por isso, vi entrando tua postagem ontem à noite, mas só agora pude ler e degustar! Valeu! abração,chica( E ele devia telefonar e saber mais, aproximar-se da meia-irmã... Comigo aconteceu. Apareceram vários meio irmãos. Os conheci, matamos a curiosidade e depois nada mais,nunca mais nos procuramos. Eram mais 2 moças e 2 rapazes, filho de um pai que também não conheci. Complicado,né?
Mas não significam nada, não fomos criados juntos...

Bell disse...

A vida por vezes traz pessoas que não vão ficar muito tempo, e leva algumas de quem a gente ama.

Vai entender esse ciclo todo rs...

Mirtes Stolze. disse...

Boa tarde Manuel.
Como gostaria que postaste mais , pois a suas historias são fascinantes, consegue escrever historia que acontece , em algo fictício. Sempre fico da duvida é real rsrs. Gosto muito de ler as suas postagens. Nesse caso seria uma boa oportunidade de conhecer a meia-irmã.
Um feliz final de semana.
Abraços.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Que bela estória! Muito bem escrita, muito bem gizada,dá-me prazer de a ler. Como sempre.

Encontros inesperados ou encontros desnaturados? Coincidência? Quiçá. Mas que tem um final descoroçoante, tem.

Bom fim de semana

Abç

São disse...

POis, muito interessante...

Beldroega é, como decerto sabe, uma erva comestível e que no Alentejo, nos duros anos da ditadura ( e se calhar agora ta,ném na ditamole)era o alimento , em forma de sopa, de muita gente...

Bom domingo.

Vanuza Pantaleão disse...

Bom dia, amigo!
Li atentamente e com muito gosto tua narrativa. um rapaz angustiado, sem rumo, desenraizado como ele bem disse. Um encontro casual e aparentemente bom, mas o final é surpreendente, não acabou bem. E por que teria que acabar bem?
Afinal, na vida real essas coisas também acontecem.
Um grande abraço, Manuel!

SOL da Esteva disse...

A História é simples, passível de, num qualquer lugar, poder ser real.
Horácio nem imaginava que a sua maleita se "passava" com a voz adoçicada duma Carolina que acabou por descobrir ser sua meia irmã.
Dramas que acontecem e a tua forma de os descreveres deixa o rasto duma verdade que se transforma em Conto.
Parabéns, Manuel

Abraços



SOL

Janita disse...

Assim de repente fiquei baralhada!
Tenho um meio-irmão do lado paterno que não conheci, adoro os livros da escritora norte americana que cresceu e estudou em Xangai, e o primeiro livro que li dela foi "A Carta de Pequim", tão raro quanto "A Promessa" e de capa amarela também!
Ainda o Manuel diz que não há coincidências?

O meu irmão já faleceu há uns anos sem que eu tivesse a felicidade de o ter conhecido.
Apesar de sermos Alentejanos, não somos Beldroegas...mas Serranos!

Às vezes a realidade consegue ser ainda mais insólita do que a ficção.

Um abraço, Manuel!

Palavras disse...

Olá amigo,

O amor está no ar!!!!

O amor pode estar em qualquer canto, basta ter olhos para vê-los.

Grande abraço

Leila

Evanir disse...

E tenho a felicidade de ter amigos que cuidam
de mim.
As visitas que recebo são presentes de Deus
para minha vida. são vocês que me dão alegria para continuar
e a certeza de que nem tudo no mundo é igual.
Que mesmo quando atravessamos o oceano
com nossas mensagens de amizade ,
temos a certeza do dom de falar
através do tradutor todas as línguas.
Isso serviu para unir Países e muitas gerações.
Agradeço o carinho do seu voto. Deu tudo certo.
Sagrei-me vencedora do 9º Pena de ouro.
Nada poderia dar errado quando se leva paz
e amor e uma amizade infinita.
Feliz e abençoada semana
carinhosamente.
Evanir

Carmem Grinheiro disse...

Bom dia Manuel.
Seus contos cativam.
Por acaso este parecia-me ir levado para algum mal súbito, e de repente, foi levado para a descoberta duma irmã e o susto da revelação.
E veja lá, que coincidências dessas existem de verdade, meu caro.
abç amigo

© Piedade Araújo Sol disse...

um conto deveras interessante.

e pode muito bem ter acontecido.

boa inspiração.

:)