terça-feira, 9 de setembro de 2014

Mais um cigarro?









Começou a subir as escadas, pareciam muitas e as pernas começavam a sentir umas guinadas que as deixavam hirtas. Parou um bocadinho, encostado ao muro. Tinha o peito ofegante e o ar parecia que lhe ia queimando o peito.

Era do tabaco, ele sabia, maldito vicio. Já tentou algumas vezes mas não é fácil, esteve dois meses, sonhava com o cigarro, e um dia não aguentou mais, acabou de almoçar e vai disto, um cigarrito.


A primeira passa não soube bem, mas depois foi um prazer que o invadiu, até lhe pareceu que as ideias ficaram mais claras.

Agora estava a sentir os efeitos. Sentou-se num degrau, tirou a cigarreira e enfiou um no canto da boca, quando o fósforo o fez crepitar sentiu os pulmões serem invadidos, por aquele prazer inebriante e, parece que, as forças voltaram para o resto da subida.


Voltou à tarefa, parecia difícil, os degraus aparentavam estar mais empinados e, o efeito do cigarro não valeu de nada, as pernas continuavam hirtas e o peito, parecia pequeno para tanto cansaço.

Finalmente chegou ao fim, dobrou-se com as mãos apoiadas nos joelhos, boca aberta num arfar de peixe fora da água, mas não aguentou muito nessa posição, as pernas cederam, os braços perderam o apoio e, por instinto, defenderam a cara antes de tombar no empedrado da calçada.
 

*******

Foi um casal, ainda jovem, que lhe acudiu e o ajudou a sentar num degrau.

Devagar, muito mesmo, a cabeça deixou de girar, a névoa desapareceu dos olhos e conseguiu um sorriso muito ténue, antes de agradecer:


-Muito obrigado pelo apoio e ajuda!

Foi a mulher, muito nervosa, que sugeriu:

-Acho que devíamos chamar ajuda e ir ao hospital, teve sorte porque os braços protegeram a cara. Vou ligar para o 112!


-Não, respondeu aflito, não vale a pena, já estou bem, foi do esforço de subir esta escadaria. Estou bem, muito obrigado!

Agora foi o homem:


-Fica bem? Com a saúde não se brinca. Telefone a algum familiar, nós temos que ir.


-Muito obrigado, respondeu, estou totalmente bem. Deus lhe pague o vosso cuidado.


O casal afastou-se, iam olhando para trás, até que desapareceram na esquina.


Deixou-se estar sentado no degrau, apoiou as costas na parede e meteu na boca um cigarro, calmamente foi fazendo espirais de fumo até que o ultimo morrão caiu. Só depois se levantou e se meteu ao caminho, faltava pouco, a paragem do autocarro era já ali.

*******

O jovem casal ficou apreensivo, aquela imagem do homem a deslizar como boneco articulado e ficar estatelado como um morto, no duro da calçada, ficou a bailar nas suas cabeças, mas seguiram em silêncio.


A mulher rompeu a calma:

-Não me sai do pensamento o pobre homem, pensei que estava morto, nem calculas como fiquei, tive medo.

-Sabes o que me fez lembrar, disse o homem, o meu tio Xavier, morreu numa cena dessas. Baixou-se para arranjar os sapatos, baldou de frente e quando deram por ele tinha lerpado.

-Pois, disse a mulher, fomos uns inconscientes deixamos o homem à sua sorte, devíamos ter pedido ajuda, se o homem morreu somos, moralmente, responsáveis. Vamos voltar ainda pudemos ir a tempo.

-Mas vou fazer o que? Agora já passou!

-Eu vou, disse a mulher!

Voltou numa correria, era perto, mas do homem nada, tinha desaparecido como por encanto.

-Pois, suspirou a mulher, ou conseguiu ir embora ou alguém o ajudou.

Que mal procedemos, a culpa é tua que estás sempre apressado e não pensas nos outros. És tu e só tu! Às vezes penso como, ainda, encontro paciência para aturar as tuas madurezas egoístas.

-Mas que conversa é essa, gritou o homem, que culpa tenho eu que o velho tenha batido com os queixos no chão, se calhar estava bêbedo!

-És mesmo bruto, sibilou ela, não tens mesmo sentimentos, nem sei como consigo aturar todo esse egoísmo. Nem sei se consigo e, nem sei, se quero conseguir!

-Mas isso é uma ameaça, gritou ele, pensas que és uma santa quando não passas de uma convencida, dando sermões quando não tens moral para abrir a boca. Falas, falas e nunca te vi pegar na carteira para dares uma esmola a um pobre.

-Isso foi de mais, já estou farta de ti, nem sei como te tenho aturado, vai para o raio que te parta!

Empinou a cara e desapareceu, rua abaixo, fazendo ruído com os saltos, dos sapatos, na calçada.

Ainda se ouviram as ultimas palavras:

-Finalmente livre deste aborto!

*******

Malefícios do tabaco?

Talvez!

Afinal não faz só mal à saúde!




22 comentários:

Janita disse...

Não, obrigada!
Deixei de fumar há dois anos e o único malefício que me aconteceu foi ter engordado sete quilos...coisa pouca!!

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

NOTA PRÉVIA: Nos maços de cigarros até vem impresso a letras gordas e negras O TABACO MATA; não vem O TABACO MOE... rrrsss

Posto isto que terei para dizer? Tecer encómios? Bajular? Bater palmas? Nada disso.

Tenho apenas de dizer que este é mias um excelente texto que podes colocar na tua panóplia. Ponto

Abç

Há uns tempos que não me retribuis visitas e comentários; é só para anotares rrrsss

dilita disse...

Olá Manuel!

Vim para agradecer as suas visitas no meu Birras, e os comentários. Gosto da sua opinião de pessoa sabedora, e quando achar que deve censurar, faça-o: eu fico agradecida.

Agora sobre os seus contos, que hei-de eu dizer? - Que os aprecio muito.
A todos, todos! E, A Nega, em especial...

Abraço.
Dilita

rosa-branca disse...

Amigo Manuel, o cigarro foi a gota de água...ou talvez não, pois quando está cheio, não leva mais. Adorei o seu conto. Obrigado pelo carinho no meu canto, mas estou mesmo zangada...com a vida e não sei se voltarei a escrever. Beijos com carinho

rosa-branca disse...

Amigo Manuel, o cigarro foi a gota de água...ou talvez não, pois quando está cheio, não leva mais. Adorei o seu conto. Obrigado pelo carinho no meu canto, mas estou mesmo zangada...com a vida e não sei se voltarei a escrever. Beijos com carinho

✿ chica disse...

Eu nunca fumei, nem saberia! Não suporto nem o cheiro dele!Ainda bem aqui em casa ninguém fuma!

Lindo teu texto, mais uma vez! abração,chica

Obrigadão pela visita lá no novo filho. Por lá ,comn o nome diz, só aos domingos!

Ricardo Santos disse...

Estou a começar aqui a visitar este Blogue, porque alguém me disse da qualidade dos textos, mas gostaria de fazer uma sugestão. É possível colocar a letra do texto, maior.

São disse...

Fumei desde jovem , mas nunca muito - excepto no período do divórcio.

Depois a minha garganta começou a ter uma tossinha irritante , não só pelo tabaco mas também por factores profissionais...e eu deixei de fumar.

Agora só muito, mas mesmo muito , ocasionalmente fumo.

Bom resto de Setembro :)

M D Roque disse...

Perdeu-me por mais de 20 anos. Consegui tirá-lo de mim há 6 anos e 11 quilos. :)
Gostei de ler.
Um abraço. D

http://acontarvindodoceu.blogspot.pt

© Piedade Araújo Sol disse...

muito interessante e gosto sempre do fim.

nunca fumei nem espero fazê-lo.

bom fim de semana.

beijinho

:)

Vivian disse...

Olá, meu amigo querido!!!!

Saudades imensas!
Muito obrigada por sempre lembrares de mim!

E que belo texto, que vejo!
Está cada dia melhor!
Meu único vício, se é que se pode chamar assim, é a leitura...do cigarro nunca cheguei perto.
Deixo minha admiração e estima.
Espero que você e sua esposa estejam bem.
Beijos.

Mirtes Stolze. disse...

Oi Manuel.

Todos os vícios são destrutivo, o cigarro na minha opinião é ainda mais letal. Perdi vários familiares por causa desse Habito negativo. Um texto muito bom,mostrado as magelas das consequências do fumo.
Estou usando o note escondida em um leito de hospital em unidade fechada, rsrs, por esse motivo estou visitando durante a madrugada.Obrigada pelo carinho.
Um lindo fds

María José Collado disse...

Manuel, a través de tu comentario he llegado a tu blog. He leído algún relato. Te sigo y volveré para leer más cosas. Un saludo.

Magia da Inês disse...

·..✿✿。°
Que história bem elaborada, hem?
Será o cigarro responsável pelas rusgas do casal?!
Tens razão: cigarro só faz mal mesmo.
Ótimo domingo!!!

Boa semana!
Beijinhos.·..✿彡
°。✿⊱。。

SOL da Esteva disse...

Qualquer "cigarro" (ou "cigarra") mói a paciência dum santo.
Mistificas e desmistificas os seus malefícios.
...Mas estava longe de prever tal final.
O cigarro, afinal, mata ou afasta o que de menos bom nos acompanha.
Parabéns, Manuel.


Abraços


SOL

Evanir disse...

Manuel..
Li atentamente sua postagem certamente daqui levo uma lição,
que sera passada a outras gerações.
O fumante tem a falsa ideia que o nervoso tem cura através do fumo.
Uma postagem significativa e emocionante ..ou seja uma lição de vida saudável.
Um Domingo abençoado.
Abraços..
Evanir.

Vera Lúcia disse...


Olá Manuel,

Gostei da música, que tem um ritmo bem agradável e contagiante.

O cigarro traz seus malefícios, seja para quem fuma ou para quem esteja por perto, aspirando a sua fumaça. Contudo, os viciados em nicotina precisam de muita força de vontade para abandonar o cigarro. Os fumantes, geralmente, só largam o cigarro quando algo de grave ocorre com sua saúde. Ainda cometo esse pecadilho, embora fume pouco e esteja absolutamente ciente das consequência do fumo.

Pior foi que o casal que socorreu o fumante acabou entrando em conflito, numa discussão inútil, que reflete bem a falta de sintonia entre eles. Com certeza, não foram separados pelo cigarro, mas pela intolerância ou porque nada mais os unia.

Gostei muito da leitura. Você escreve de uma maneira leve e envolvente.

Agradeço-lhe a visita. Já o vi nos blogs da amiga Vivian, motivando-a nos escritos dela. Os textos do meu blog não são meus, mas escolhidos de acordo com o objetivo do blog, que é conduzir à reflexão, além de publicar mensagens de otimismo e esperança. Sinto-me bem sendo útil de alguma forma através do meu espaço, sem contar que as mensagens nele publicadas também são úteis para mim.

Espero revê-lo em meu recanto. Será um prazer interagir com você.

Abraço.

Mirtes Stolze. disse...

Boa noite Maunuel.
Vim lhe desejar um lindo e abençoada semana meu amigo, a minha filha mandou lhe dizer que você é muito educado, concordo com ela rsrs.
Um forte abraço.

Flor de Lótus disse...

Oi,Manuel!Nunca fumei e ainda bem,mas parece que todos humanos tem algum tipo de vicio sem eles parece que não conseguimos viver, cada um é viciado em algo diferente...
Uma ótima semana!
Beijossss

Vieira Calado disse...

Minha 1ª visita.
Em face do que li, penso voltar!
Saudações poéticas!

Mirtes Stolze. disse...

Boa tarde Manuel.
Eu lhe respondi la no meu espaço.
Obrigada meu amigo pela sua amizade.
Beijos.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Poisé...O tabaco mata que se farta.
Eles bem avisam mas ...O vício...
Deixei de fumar em 2003
Estou bem, mas as sequelas são muitas.