sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Medo






  

A noite estava muito fria e as ruas escuras quase desertas.

Não gostava mesmo nada de andar, na rua, nestas condições mas foi o trabalho que encontrou, na cozinha de um bar. Trabalhava muitas horas mas o ordenado compensava e era bem tratada pelos patrões.

Era difícil  passar a maior parte do dia fora de casa, longe da Ritinha, mas não tinha outro remédio, o pai bazou, mandava uma mesada para ajudar a filha, mas não chegava e tinha que ser ela porque à filha nada havia de faltar.

Antes de ir para o trabalho, deixava a menina no colégio e à tarde a vizinha, dona Rosalinda, ia buscar o neto e trazia a Ritinha. Era uma vizinha tão boa que nunca lhe conseguiria pagar tudo o que fazia por ela, nem uma mãe seria tão boa e tão prestável.

Tinha todos os dias, este trajecto, e nunca se sentiu assim tão insegura, e com tantos pensamentos negativos para as sombras que apareciam nos recantos das ruas. Tinha o sonho, de ainda, um dia conseguir juntar dinheiro para comprar um carro, mesmo velho. Desde que andasse! Fazia a viagem mais segura e, chegava mais cedo, a tempo de estar mais um bocadinho com a filha.

Apressou, um pouco os passos, mas foi pior, ficou com a sensação que alguém a seguia e também tinha aumentado o andamento. Olhou para trás e ninguém, nem vivalma, na rua, estava próxima do largo onde havia um café e havia sempre pessoas, mas com este frio se calhar estavam recolhidas.

Tinha que deixar este medo, afinal já fazia este trajecto há tantos dias, sem problemas, e tantos outros ainda ia ter pela frente e a ideia do carro, era isso, apenas uma ideia que se calhar nunca deixaria de o ser.

Ufa! Finalmente o largo, o café estava aberto, pelo menos tinha a luzes acesas. Ia entrar, não precisava mas ia, tinha que acalmar, comprava um chupa-chupa daqueles que deixam a língua colorida, a Ritinha adorava e, sempre acalmava os maus pensamentos que a assolavam. Se calhar foi por causa daquela notícia no jornal, do homem que perseguiu a ex-mulher e a tentou matar, mas disso estava livre ele é que se pirou, sem dar cavaco, e não ia aparecer de certeza. Tinha lá uma finória que o mantinha de rédea curta.

Este caminho, durante o dia, era fácil, até tinha transporte mas o ultimo autocarro era as 8 horas e a essa hora ainda estava a trabalhar.

***

O marido foi, ainda é, o grande amor da sua vida, conheceu-o num fim do ano na casa da Natércia, foi uma coisa que não sabe explicar, o coração saltou como se fosse uma mola, ficou numa agitação que nunca tinha conhecido, não sabe bem porque, ele é normal, tem um sorriso lindo e um bigode muito fininho por cima da boca, se calhar foi o bigode mas tem visto tantos homens com bigode e nenhum a perturbou dessa maneira. Ficou agitada o resto da noite até que, a Natércia, percebeu e perguntou:

-Que se passa Joana? Houve algum problema?

-Não querida, exclamou, estou bem! Quem é aquele tipo ali de bigode cinéfilo?

Natália percebeu e, com um sorriso cúmplice, disse:

-É o Beto, eu vou-te apresentar!

Corou desde as pontas do cabelo e só fui capaz de dizer:

-Que vergonha, não faças isso!

Mas ela fingiu não a ouvir, pegou num braço do Beto e apresentou:

-Beto! Quero apresentar-te a minha melhor amiga, a Joana.

Tinha um sorriso bonito e, aquele pequeno bigode, dava-lhe um ar romântico que a deixou com borboletas na barriga.

Falaram muito, nada de importante, mas falaram nos anseios, nos sonhos, nos planos e no futuro.
Quando ele a convidou para se encontrarem não ficou surpreendida, afinal era o que mais desejava.

Foram seis meses, de namoro intenso, e quando ela lhe disse:

-Beto, estou grávida!

Ele ficou nas nuvens, a alegria transbordou dos seus olhos, agarrou-a com muita ternura, e sussurrou-lhe aos ouvidos:

-Vamos casar já, não quero o nosso menino, ou menina, filho de pais solteiros.

Foi um casamento simples, família e os amigos mais chegados, Joana teve que se beliscar para ter a certeza que não estava a sonhar, mas era verdade, ia ser mãe e estava ao lado do homem da sua vida. Ela estava, totalmente, feliz.

Iam ter uma menina, era o que os dois desejavam, já tinham escolhido o nome, ia ser Rita.

******

Joana apressou um pouco os passos, afinal já não faltava muito, mais 15 minutos e estava em casa, enquanto caminhava todos esses pensamentos fervilharam na sua cabeça e, incriminava-se porque foi ela a responsável pela separação, era a única culpada, tinha que viver com isso.

Quando a Rita nasceu, sentiu que tinha conseguido, da vida, tudo o que desejava, mas esqueceu que o amor é um pouco como as flores, tem que ser regado para se manter viçoso
.
Descuidou-se, vivia para a filha e esqueceu que, também, tinha um marido.

Aquelas pequenas coisas que tornam as mulheres mais femininas deixaram fazer parte do seu dia-a-dia, a filha era o mais importante, para o marido deixou de ter tempo.

-Joana, dizia o Beto, hoje podíamos ir jantar fora e depois ao cinema, a minha mãe ficava com a Ritinha. Que dizes amor?

-Não, não pode ser! Não deixo a menina, pode acontecer qualquer coisa, vai tu ao cinema que eu fico com a nossa filha.

Beto não disse nada, amuou e ficou o resto da noite a olhar para a televisão.

A pouco e pouco algo foi desaparecendo, havia amor, mas a paixão não era suficiente para o alimentar, o diálogo passou a ser monocórdico, monótono cheio de ambiguidades.

Quando iam para a cama ela apenas levava o cansaço e adormecia, com olhos meio abertos e ouvidos à escuta, não fosse a Ritinha acordar.

*******

Foi na terça-feira, quando ia com a filha ao pediatra, consulta de rotina por causa dos dentes, que encontrou a Natércia que já não via há tempos, ficaram felizes eram amigas.

Natércia pegou na menina e não deixou de comentar como estava linda e crescida.
Parecia querer dizer algo mas estava ou, parecia estar, um pouco receosa, por fim atreveu-se:

-Que pena o teu casamento não ter resultado, eram um casal tão bonito e pareciam tão felizes!

-E somos! Exclamou Joana. Porque dizes isso?

-Se calhar falei de mais! Esquece amiga!

Deu-lhe um beijo, rápido, e desapareceu avenida abaixo.

Joana ficou apreensiva, não percebeu, mas entrou no consultório com a frase a martelar-lhe a cabeça, havia alguma coisa que precisava esclarecer.

O Beto chegou, às 9 horas, deu-lhe um beijo seco e perguntou:

-Posso por a mesa para o jantar?

-Não é preciso, já fiz isso, respondeu Joana, mas talvez me possas explicar porque é, que a Natércia me disse que era uma pena, o nosso casamento não ter resultado?

Beto pareceu ficar desconfortável, tentou coordenar ideias, ganhar coragem antes de responder:

-Ainda bem que aconteceu, assim podemos resolver de vez a nossa relação. É verdade! A Natércia viu-me com alguém, só é pena eu não ter tido a coragem de te dizer, podes chamar-me cobarde, mas não sou. Vou deixar esta casa, não aguento mais a nossa maneira de viver, não esquecerei os meus deveres para com a Rita, mas casei para ser fez e já não me sinto.
Vou arranjar as coisas de que mais preciso e vou embora. Desculpa, talvez a culpa seja minha, mas não consigo mais.
Encheu duas malas e uma mochila. Saiu pela porta por onde tinha entrada.
Joana não conseguiu chorar, foi tudo tão rápido.

*****

Não gostou deste reviver de memórias, sabia que tinha perdido o marido e agora, sabia também, que fora a única culpada, ele tinha razão, a esposa e amante que jurara ser, tinha esquecido que o amor é para repartir.
********

Começou a ficar preocupada, faltava pouco, mas na esquina, ao cimo da rua, estava um homem encostado à parede, com este frio a esta hora não lhe parecia normal. Não lhe apetecia voltar para trás e, dar uma volta enorme mas, estava com muito medo, se soubesse que alguém ia aparecer esperava, mas com este frio e a estas horas era muito difícil, as pessoas estavam recolhidas.

Ficou como paralisada, estática, numa espera nem sabe bem de quem.

Olhou para todos os lados e, nem réstia, só uma luz acesa, num terceiro andar do prédio, junto à esquina, se houvesse alguma coisa, decerto, se gritasse alto, alguém iria acudir.

Continuou a medo, quase terror, que aumentava à medida
que se ia aproximando.
O vulto mexeu-se e, vinha na sua direcção, pensou começar com um berreiro, mas o estranho acalmou-a:

-Joana, sou eu. Tenho tantas saudades tuas, será que ainda pudemos ter uma segunda oportunidade?  
Não consigo esquecer-te! Será que me podes perdoar?

-Oh Beto! Meu amor, não peças perdão, fui eu que falhei como mulher, como amante e como companheira mas aprendi e não vou esquecer esta lição.

Pegou-lhe no braço, esqueceu todos os medos e com carinho convidou-o:

-Anda meu amor, vamos para casa. Temos tanto a festejar!




19 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia Manuel
São os pontos altos e os baixos da vida de todos os casais.
As pessoas escondem-se e perdem a capacidade de se enfrentar e colocar na mesa os problemas assumindo os fracassos e as vitórias.

Sónia da Veiga disse...

Lindo! :-)
O medo, a frustração e a tristeza a terminarem em felicidade e reencontro com o amor! :-)
Beijinhos e bom fim-de-semana! :-)

✿ chica disse...

Muito lindo e o final bem feliz e sugestivo! abração,chica

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Manuel disse...




De: Henrique ANTUNES FERREIRA
Data: 5 de Setembro de 2014 23:18:34 WEST
Para: manuelpenteado@netcabo.pt
Assunto: [navoltadotempo] Novo comentário sobre O Medo.

Henrique ANTUNES FERREIRA deixou um novo comentário na sua mensagem "O Medo":

Manelamigo

Como vês já cá estou. E, como sempre, com muito prazer.

Mas antes de coentar tenho de te dizer por alíneas:

*******
******, etc....

E agora vou ao conto:

Mais uma demonstração do excelente prosador que és. Mas, bondoso de mais... Se fosse a escrevê-lo não terminava assim; é muita felicidade junta. Areia em demasia para a minha caminheta...

De qualquer forma é excelente. Um dia se me deixares escrevo umas "coisas" para aqui...

Abç



Publicada por Henrique ANTUNES FERREIRA em navoltadotempo a 5 de Setembro de 2014 às 22:46

Bell disse...

Isso acontece tanto, a mulher qdo foca em um papel muitas vezes foca tanto que esquece do outro.
Homem não entende e por vezes busca atrações na rua.
A mulher sempre cansada e exausta.
Isso é a vida de muita gente.
Supera quem permanece junto as crises, pq tudo é momento e tudo passa.
Um ótimo fds =)

Evanir disse...

Com enorme saudades e deixando
para trás os dias tensos
pelos quais estou vivendo.
Quem disse que amigo não sente saudades
quer seja presente ou virtual.
O importante é as portas abertas
para eu entrar e deixar meu carinho
e agradecimento de alguma forma.
Que seu final de semana seja dos mais felizes,
que meu carinho acaricie se doce coração.
Beijos e carinhos
Evanir.
È amigo situações que pode acontecer sim e nas melhores famílias.

Helena Medeiros Helena disse...

Vim ao teu espaço movida pela admiração que senti com a defesa que fizeste num determinado blog, quando um visitante anônimo fez um comentário indelicado com relação à postagem do autor. Muito louvável a tua atitude.
Fiquei a passear por entre teus contos e tua prosa chegou-me de forma muito agradável, principalmente pelas histórias bem conduzidas, com enredos que permeiam o cotidiano e sentimentos e emoções que fazem parte dos relacionamentos.
Com um tempo maior quero visitar teu outro espaço.
Deixo sorrisos e estrelas junto da minha admiração e respeito,
Helena
(http://helena.blogs.sapo.pt)

São disse...

Todos os casais têm pontos altos e baixos, mas há uma coisa que eu não consigo ultrapassar : a mentira!

Aliás, foi mesmo por isso que , ao saber que o meu marido tinha uma amante, pedi o divórcio.

E é irreversível uma situação - seja qual for o tipo de relação e com quem for - em que eu perca a confiança: não há como acreditar na pessoa novamente.

Até posso continuar a relacionar-me com a dita , mas a confiança é um sentimento que não permite quebras.

É como se alguém muito querido nos oferecesse uma jarra de cristal da Boémia e esta , infelizmente, tivesse caído ao chão , partindo-se...e nós colamo-la e ninguém dá por isso, porém está partida e nós sabemos isso!!

Peço desculpa pelo tamanho.

Quanto ao conto, gostei como sempre :)

Bom fim de semana

AFRODITE disse...


Gosto de histórias com finais felizes... talvez por ser uma romântica! :))

Beijinhos Manuel, bom Domingo
(^^)

SOL da Esteva disse...

Um Conto com história dentro. O modo como articulas as situações vão-nos conduzindo a tentativas vãs de adivinhar o desfecho.
Não havendo participação efectiva na partilha do Amor, algo esmorece e abranda o "fogo que arde sem se ver"...
Por resultado, desta vez, o medo era infundado; a felicidade voltou.
Bom final.

Abraços


SOL

Janita disse...

Conto realista de tantos casais dos dias de hoje.
O amor é como qualquer ser vivo tem de ser alimentado e acarinhado senão fenece ou esmorece.
A Joana fez o que muitas mulheres fazem após a maternidade, esquecem-se da sua condição de mulheres e companheiras.
Outras vezes é o contrário, são os maridos que se afastam...por outras razões!
Gosto muito destas suas últimas histórias, Manuel, embora saiba que na vida nem tudo acaba bem.
Ó, se sei! Mas sonhar é preciso!!

Até o vídeo me emociona e enternece.
Perdóname é, sem dúvida, a canção
mais apropriada e como eu gosto de a ouvir...!

Um abraço.

Magia da Inês disse...

。°°。✿⊱。
És um mágico com as palavras... eu esperava um desfecho de filme de terror... sinceramente não esperava um final feliz!
Bom mês de setembro!·..✿✿
♪♬♫°。 Boa semana, amigo!
Beijinhos.✿°.•

Vanuza Pantaleão disse...

Esses pequenos grandes dramas do cotidiano dos casais, como sabes narrá-los com propriedade.
Abraços, Manuel!

Mirtes Stolze. disse...

Boa noite Querida Manuel.
Hoje passo só para lhe agradecer pelo seu carinho, suas palavras me fizeram um grande bem. Por motivo maior não consigo ler agora a sua postagem, não vou fazer comentários antes de ler direitinho, mas amanhá eu volto e faço questão de ler e comentar.
Ate manhã, uma feliz noite.
Beijos.

© Piedade Araújo Sol disse...

esta teve um final feliz.

uma historia simples e que pode ser a de qualquer casal.

gostei.

:)

Mirtes Stolze. disse...

Como prometido agora vim para ler a historia, como sempre muito bem escrita. Muitos casamentos se acaba pois a mulher esquece os seus deveres de esposa, que no meu ponto de vista é se manter bonita, descansada rsrs, muitas se entregam afazeres domésticos, com os cuidados com os filhos, e o tempo que sobra estão cansadas. Para um casamento durá tem que ocorrer muito dialogo e um tempo reservado para os dois. Que bom que no seu conto ela teve uma segunda chance.
Um lindo fds.
Abraços.

Carmem Grinheiro disse...

Olá amigo Manuel, vim retribuir os votos de bom fim-de-semana e não podia ir sem me deter nos seus escritos.
Este seu conto mostra um outro lado da vida de casal, que nem sempre corre bem, apesar do amor mútuo.
Mas inspira-nos que tenha optado por uma segunda oportunidade, invocando um final feliz.
abç amigo

Vivian disse...

Olá, Manuel!

Bela história! Com um final feliz! Sempre a surpreender.
No começo logo imaginei que seria de terror...rsrs
Não gosto muito de ruas escuras e desertas...lembram sempre algo de assustador...

*Vou aos poucos me atualizar na leitura dos teus contos.
Sempre um prazer ler-te!

Beijos e meu carinho!