quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Uma Vida – Parte 2











Voltou desiludido, quis cumprir a promessa, mas a mãe depressa se esqueceu e fez como sempre, escolheu o mais simples.


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Às vezes apetecia-lhe chorar, mas as lágrimas há muito secaram. Já chorou muito, lágrimas de raiva, de desespero e de impotência perante os entraves que o dia-a-dia lhe ia  colocando no caminho.

Foi o abandonar tudo e todos na procura de uma vida, de uma identidade, uma camioneta que o foi levando se lhe deixar ver o que deixava para trás, a fome que ia disfarçando na caridade alheia, o frio das noites tristes no adro de igreja, a solidão das dormidas numa tarimba do armazém entre ruídos, odores e medos que lhe tolhiam o pensamento e tornavam os sonhos em pesadelos.

Suportou tudo, cerrou os dentes na determinação de encontrar um rumo, sonhava em vencer e trazer a mãe para, finalmente, ter uma família onde o amor fosse possível.

Afinal não valeu a pena, a mãe mais uma vez, se arrimou a um confortável  comodismo, sem a coragem que torna as mães especiais.

Quando viu a casa, tão diferente, como se tivesse crescido, ficou desconfortável sabia que algo tinha acontecido, os pais não mudavam nada, nem na casa nem nos sentimentos.

Bateu à porta, apenas para confirmar, o resto já adivinhava.

O senhor Domingos, da drogaria, sempre o tratou bem, ia fazer uma visita, talvez lhe pudesse dizer alguma coisa.

A drogaria estava na mesma, o senhor Domingos vestia a velha bata, de cor já indefinida, não o reconheceu, quando entrou, ficou confuso, não lhe era estranho mas, não conseguiu descobrir.

-Como está o senhor Domingos? Perguntou.

Olhou-o por cima dos meios óculos, algo confuso, saiu detrás do balcão e mirou-o de alto-a-baixo. Julga que viu uma lágrima a saltar, abraçou-o como nunca o tinham abraçado, antes de desabafar:

-Oh rapaz como te havia de conhecer! A última vez que te vi eras um fedelho, desgalgado, cabelos desalinhados, de calções puídos e camisola da cor da minha bata e agora, quase um homem, de fato e gravata, cabelo bem assente, nem pareces o mesmo, só os olhos tem o mesmo brilho.

Vá! Conta-me tudo, mas não penses que te perdoo. Abalares sem te despedires desde teu amigo!

-Senhor Domingos não dava, teve que ser assim senão podia não resultar e um fracasso, para mim, ia ser muito penoso.
Deixei um bilhete a garantir, à minha mãe, que voltava para a levar mas não quis esperar. Eu sei que foi muito tempo mas, só agora, arranjei condições. E ela  abalou, não sei para onde!

O homem pensou antes de responder:

-As coisas não são como nós desejamos, o diabo está, sempre, detrás da porta. Depois de ires embora, ao teu pai deu-lhe a maluqueira e meteu-se à estrada, ninguém sabe para onde. Uns dizem que foi para Espanha, outros pensam que está em França e, até há, quem diga que se foi afogar no rio, mas não acredito, nunca encontraram qualquer cadáver. A tua mãe, viu-se sozinha e sem nunca ter trabalhado, o que havia de fazer, vendeu a casa e foi embora com o primeiro que lhe apareceu um tal, dizem, vendedor de maquinas de costura.
O que havia a pobre de fazer?

O Albino, parecia meditar, escutava e ao mesmo tempo ia fazendo, na sua cabeça um filme de tantos acontecimentos, a mãe não tinha esperado mas a culpa era dele. Podia ter escrito a pedir para esperar mas teve medo, muito medo, que o descobrissem e, o pai, lhe aparecesse um dia para o levar pelas orelhas. Teve que esperar pela maior idade e foi muito tempo, a mãe não teve culpa. Era ele, sempre foi ele a causa de todos os males, foi naquela maldita de uma certa sexta-feira, naquele dia frio e chuvoso, que tudo começou, não devia ter aberto os olhos para a vida.

O senhor Domingos deu-lhe um abraço e, com um sorriso, entregou-lhe um lápis Viarco:

-Toma leva contigo este  lápis! Sei que não precisas mas, a mim, fez-me bem recordar.

Apertou-o, com força, e voltou para dentro do balcão para esconder algumas lágrimas mais rebeldes.


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O regresso trouxe-lhe à lembrança uma quarta-feira, já distante, mas tão presente nas suas recordações.

Olhou, mais uma vez, para a povoação que se ia perdendo nas curvas da estrada, era a sua terra mas, tinha a certeza, que nunca mais iria voltar.


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Faz, hoje, 14 anos que se enfiou entre bobines, de papel, e se atirou numa aventura para o desconhecido, nunca esqueceu o dia, porque representa um marco na sua vida.

Não olvidou um único passo, lembra alguém, que um dia, lhe matou a fome com uma sandes de presunto, não esquece um homem gordo, que acreditou nele e lhe deu um lugar no balcão de uma reputada pastelaria, foi lá que cresceu, que recalcou os ódios, aprendeu a lidar com as pessoas, a saber fingir, a inventar um sorriso quando a fúria começava a aparecer.

Foi estudar, com ambição, tem um curso superior, não sabe bem para o que, mas foi o que lhe apareceu mais a jeito.

O patrão morreu, foi-lhe oferecida a gerência e uma quota na sociedade, não aceitou tinha ambições, que estava prestes a concretizar.


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A vida é difícil e, por vezes, temos que procurar caminhos para seguir em frente. Nem sempre por convicções, mas por calculismo, por ambição e pela necessidade de ir mais além.

Albino enquanto trabalhou, no café, soube bajular quem um dia lhe podia ser útil, não queria o resto da vida, a um balcão, para ele havia um mais longe, um mais além, se possível até ao topo.

Começou por se inscrever como militante num partido do poder, precisava criar raízes e conhecimentos.

Agora, que ia começar uma nova etapa, na vida, era a altura certa.

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Um dos administradores, do banco da esquina, homem influente na vida, e no partido, era assíduo e conversava muito, com Albino, já lhe tinha dito que quando estivesse formado tinha um lugar garantido, só não lhe disse onde e qual.

Pouco importava, viesse o cargo que ele se iria encarregar de trepar até ao topo, era assim que queria daqui para diante.

Quando a dona Gabriela, secretaria do senhor Administrador, lhe telefonou achou normal, há muito que o esperava.

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Começou como assessor, para as relações internacionais, não sabia o que ia fazer, mas não era importante, tinha um bom ordenado, boas condições e excelente visibilidade, afinal era mesmo isso o que lhe interessava.

Não parecia, mas era um cargo politico, houve alguma pressão do partido, mas de forma sub-reptícia para não ser muito notada.

Aníbal estava como, confessa, nunca pensou mas ainda longe, não esconde, daquilo que pretende.

Tem um gabinete enorme, com uma larga janela para a avenida, duas secretarias, lindas e competentes, que tudo fazem e lhes adivinham os pensamentos.

Marcam as reuniões, gerem a agenda, preparam as viagens, imensas pela Europa, com altas figuras do mundo financeiro.

Ainda não estava no topo, mas faltava pouco.


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Maria do Rosário tinha momentos em que os remorsos lhe afligiam o pensamento.

Pensava no filho que pariu e nunca teve, condenava-se pela falta de coragem, pelo medo e pelo laxismo a que se remeteu. Devia ter lutado por ele, devia ter feito a escolha certa mas não, foi pelo mais fácil, pelo mais cómodo.

Pensou que se o considerasse como um empecilho, iria reconquistar o homem com quem casou.

Não foi por amor, foi por libertação, pelo desejo de fugir à miséria, embora nesse tempo fosse feliz, não tinha nada, mas havia o amor da família. Muito amor!

Hoje vivia uma quietude, apenas aparente, pois estava com Albino, no pensamento, e com o medo de um dia se cruzar, com o filho, e não o reconhecer.

Sabia que foi ele, que um dia, se meteu à estrada e desapareceu na bruma do tempo mas tinha dito -"um dia volto para a vir buscar"- e, ela foi também embora e não esperou.

Não sabe se iria voltar, mas sabe que se voltou, apenas encontrou a ausência a que sempre o habituou.

Tinha 58 anos, um homem que a amava, porque ela, não possuía a certeza se correspondia, mas gostava disso, não tinha duvidas. Sonhava com o filho, de 28 anos, que já não conhecia, e agora a pequena Joana, que ia completar 15 anos.

Podia ser uma mulher feliz, mas era como ter tudo e faltar-lhe um braço, podia viver a vida mas, sentia-se, imputada de uma parte muito importante.

Tinha uma esperança secreta, mas era apenas uma esperança, encontrar o filho, sabia que era difícil porque ele não queria ser encontrado.


Continua se, eu,  tiver engenho e arte …




17 comentários:

Mirtes Stolze. disse...

Boa noite Manuel.
Para ser mãe é necessário, pensar nas necessidades e felicidades dos filhos, depois a propria, errar é humano, espero que no final ambos se encontre e se perdoei mutuamente. Afinal não tem amor mais forte do que o maternal.
Uma bela historia.
Amigo um feliz outubro com muitas alegrias e paz.
Abraços.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia amigo
Continuo a acompanhar esta história que me faz lembrar de tantos casos parecidos: Os filhos do Sapateiro, o sobrinho da Maria Rita e tantos outros que se apagaram da memória e do tempo.

As entradas do meu blogue estão normais, para mim. O antivírus instalado é dos melhores e penso que não existe nada de mal.
Agradeço o alerta e se houver mais alguma coisa agradeço que me informes para eu corrigir de imediato.

✿ chica disse...

Muito legal te acompanhar e tenho certeza virão mais capítulos.Teu engenho e inspiração são grandes! abraços praianos,chica

Helena Medeiros Helena disse...

Uma história muito bem contada e que retrata muitas vidas que a exemplo desta andam a entristecer mães desgarradas dos filhos que tiveram que abandonar, filhos retornando à terra natal e se sentindo um estranho. Vamos ver o desenrolar que me parece será excelente, levando em conta teu jeito único de contar uma história.
Sorrisos e estrelas para enfeitar teu caminhar,
Helena
(http://helena.blogs.sapo.pt)

SOL da Esteva disse...

Meu caro Manuel
Isto está a prometer uma história com sentido de vida.
Só espero que a Política, na sua estranha forma de "fazer" homens, não conduza as coisas para o lado mórbido e egoísta dos seguyidores deste meio de vida.
Cá te espero.


Abraços

SOL

Maria Luisa Adães disse...

Uma vida

Não é fácil de viver

Mas lutamos
Para viver

Essa mesma vida!

Obrigada por gostar de meus poemas. Para mim, é Uma Honra!

beijo

Maria Luísa

rosa-branca disse...

Querido amigo Manuel, em primeiro lugar muito obrigado pelo seu carinho lá no meu canto e não me agradeça. Eu é que agradeço, por ter amigos como o Senhor, que dão força para caminhar. Amei demais esta segunda parte do seu conto e espero que o Albino encontre a sua mãe. A vida real já é tão amarga e há tantos que gostariam de ter a sua mãe consigo...( e eu que o diga, que não a tive) assim fico à espera do reencontro. Beijos com o meu carinho sempre

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Uma vida, para ser contada, pode ser de uma "tacada" só ou, dependendo do contista, em duas ou mais partes. Já se tomou conhecimento do desenrolar de boa parte da interessante vida do Albino que, à cada leitura, mais empolga, fazendo com que se tenha a certeza que vem mais boa leitura...no próximo capítulo (que poderá ser o final - ou não!

Aguarda-se, Manuel!
Bom domingo!

dilita disse...

Boa noite Manuel

Grata pela visita no meu Birras.

Pôs em dúvida a leitura do seu conto por ser extenso... Eu li agora as duas partes, e ficaria a ler a 3ª parte se ela já aqui estivesse. O mesmo deve ter acontecido com as habituais leitoras e leitores do seu blog. A história é muito real,e a sua forma de escrever prende a valer.
Fico à espera do fim, será alegre? Desejo que sim.
Abraço, Dilita.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Mais um texto, mais uma batalha ganha. Não adianta dar-te os parabéns, porque a ser assim podias guarda-los numa pasta tsunâmica...

Abç

São disse...

Claro que tem engenho e arte....

Bons sonhos :)

Mirtes Stolze. disse...

Bom dia Manuel.
Passando para lhe desejar uma linda e feliz semana.
Um forte abraço.

Evanir disse...

Meu amigo Querido.
Estou passando para agradecer suas visitas que tanto bem me faz.
Como é bom quando encontramos um amigo de verdade.
Uma abençoada semana beijos no coração.
Evanir.

Magia da Inês disse...

。°°。✿⊱。
Comecei lendo essa segunda parte da história. Claro que tive que ir à primeira, tamanha curiosidade.
Você tem uma maneira leve e instigante de contar histórias... amo tudo que você escreve... tenho certeza que a continuação será surpreendente.

Bom fim de semana!
Beijinhos do Brasil°°。✿
。°°。✿⊱。

Helena Medeiros Helena disse...

Meu amigo, sem nova postagem como continuação do teu belo conto, estou deixando um punhado de sorrisos a brincar entre as estrelas para enfeitar a tua semana,
Helena
(http://helena.blogs.sapo.pt)

Mirtes Stolze. disse...

Boa noite Manuel.
Obrigada meu amigo, pelo carinho conosco, você como sempre com uma educação admirável.
Uma linda semana.
Nó meu aniversario de 60 anos, daqui a 19 anos, faço questão de lhe mandar o meu convite especial rsrs. A minha filha me disse que você foi o primeiro a ela colocar na lista rsrs.
Um forte abraço

fernando disse...

Parte II

Cheguei à Parte II.

A narração do Albino, em muitos lugares, corre paralela ao meu passado.Só, pêlos vistos, Abino atingirá o Topo, eu atingi o Sopé da Montanha. Mas não estou invejoso do Albino não. Não senhor.
Somente os que passaram pela Vida como Ele. Sabem entender e amar o Próximo.

- Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu:
Foi espectro de homem não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu. -

Francisco Octaviano

Meus Cumprimentos


Jc