domingo, 12 de outubro de 2014

A Vida - parte 3













Tinha uma esperança secreta, mas era apenas uma esperança, encontrar o filho, sabia que era difícil porque ele não queria ser encontrado.


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Ninguém sabe o que está para acontecer, e mesmo aqueles que pensam que as coisas só acontecem porque tem que suceder, são apanhados na rota do destino.

Joana nunca pensou que quando aquele rapaz, com ar de bebé crescido, um pouco desengonçado a olhou, ela, fosse sentir aquele tremor que quase a deixou paralizada.

Todos os dias o notava no liceu, muitas vezes se cruzaram mas, parece que o Deus das coisas, nunca tinha deixado que se notassem um ao outro.

Hoje foi diferente, os olhos entraram nos olhos e algo de estranho aconteceu, Joana tentou baixar o olhar, mas Maurício não deixou fugir o momento:

-Como te chamas? Todos os dias nos atravessamos, acho que já há um ano, mas sou um distraído.
Sou o Maurício e tu?

Ela tentou não corar, fez um leve abanar no cabelo que, sem o saber, tornou o momento mais sedutor.
Tentou vulgarizar o momento, mas não se saiu nada bem.

-Sou a Joana! Acabou por dizer.

-Joana, exclamou Maurício! Adoro esse nome, sempre disse que se um dia me apaixonasse, seria por uma Joana.

Ela ficou, quase, sem jeito e num manear de corpo que tinha tanto, de desajeitado como de mágico, virou-lhe as costas e tentou desaparecer, mas não foi suficientemente convincente.

-Desculpa Joana, gritou Maurício, eu não queria ser parvo, mas juro que é verdade! Se me deixares, e prometeres que não vais gozar, eu vou contar.

Ela estava a gostar de esta abordagem, o rapaz era simpático e, tinha um ar tão descontraído que a cativava.

Olhou a cara de bebé crescido, sorriu e pediu para explicar melhor.

-É assim, disse ele, quando me apaixonei pela primeira vez, estava na quarta-classe, e sabes por quem? Sei que não sabes! Mas foi pela minha professora que se chamava Joana.

Depois, quando me explicaram, que eram normais estas paixões e me fizeram perceber que era, apenas, a consequência da admiração do aluno, eu prometi, a mim mesmo, que se um dia tivesse uma namorada, a sério,  ela tinha que ser Joana.

-És mesmo parvo e, não sou tua namorada! Concluiu Joana, com uma pequena gargalhada.

Maurício não se conteve, puxou os cabelos para trás, com os dedos, como se fossem um pente  e, com um sorriso de simpatia, concluiu:

-Por enquanto Joana, por enquanto!

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Foi o princípio de um amor, não uma paixão, porque as paixões são efémeras, foi mesmo de um amor.

Eram tão diferentes mas completavam-se, de tal forma, que um parecia adivinhar o pensamento do outro.

Ela era uma rapariga pragmática, determinada e com objetivos bem definidos na vida. Queria ser médica, queria estudar e ser psiquiatra. Sabia o quão difícil seria e, não tinha a certeza, se os pais poderiam e estariam dispostos a esses sacrifícios. Quando fosse para a faculdade, se o conseguisse, ia tentar arranjar um part-time. Não ia ser fácil, mas ia lutar e estava determinada a vencer.

Maurício tinha uma filosofia de vida diferente, era um sonhador, acreditava que as coisas aconteciam porque era esse o destino e, se assim estava escrito, era só esperar para acontecer.
O facto de ser filho único, de pais abastados, também ajudou a esse sentimento de um certo facilitismo. Nunca precisou de lutar muito, pelos desejos, pois o dinheiro fazia acontecer.

Tinha a sensação de que as coisas surgiam porque, o destino, assim o tinha determinado.

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Mas o entendimento era perfeito, ele gostava da determinação, e do querer, da Joana, ela adorava a ternura, a delicadeza e a forma  descontraída como encarava a vida. Para ele estava sempre tudo bem.

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Era delicado, talvez um pouco imaturo a contrastar com a forma cautelosa como, Joana, encarava todas as situações.

Um dia, encarou Joana e com aquela naturalidade que lhe era habitual perguntou:

-Joana, podíamos casar! Nós amamo-nos e eu quero estar contigo para o resto da minha vida.

Joana deu uma daquelas gargalhadas, que só ela sabia soltar, de forma tão espontânea.

-Maurício, onde anda o teu juízo? Casamos, ficas na casa dos teus pais e, eu na dos meus, encontramo-nos ao fim de semana e ficamos na mesma. É isso?
Ou, então, deixamos os nossos cursos e vamos trabalhar? Nunca mais cresces!

Maurício corou, naquele ar de bebé crescido e admitiu:

-Tens sempre razão! Ainda bem que, entre os dois, há uma cabeça para pensar. 

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Não era fácil, Maurício, queria que o namoro fosse mais que a simplicidade que Joana lhe atribuía, era apenas um namoro à moda antiga, saídas ao cinema, passeios pelas avenidas, centro comerciais, tardes nos cafés ou umas idas a qualquer espectáculo.

De vez em quando um beijo, quase à sucata, e nada de avanços.

-Somos apenas namorados! Dizia Joana.

Maurício ficava na dúvida, se esse fugir, era por causa de uma mentalidade retrograda que já não fazia sentido, ou porque ela não estava certa dos sentimentos.

A reacção que tinha, quando ele tentava ser um pouco mais ousado não era normal, as raparigas de agora estavam abertas a um relacionamento diferente, não agiam como se o sexo fosse um tabu, que ficava reservado como ementa principal no casamento.

Isso já não se usava e, pensava Maurício, ela andava a passar o tempo apenas pelo conforto que ele lhe proporcionava.

*******

Foi em Julho, estavam de férias, os dias magníficos convidavam a uns dias na praia, ele sugeriu irem passar, um fim-de-semana prolongado ao Algarve, os pais tinham lá um apartamento.

Joana pareceu interessada o que deixou, o rapaz, num total reboliço.

-Então está combinado, vamos na sexta-feira, exclamou o rapaz?

-Mas, perguntou ela, os teus pais já estão lá e tem acomodações para todos?

-Estava a pensar irmos os dois, disse Maurício com alguma hesitação.

Joana no seu jeito, meio a sério meio brincar, deu uma gargalhada sonora e com sarcasmo sussurrou:

-E que mais querido! Também queres que comece a tomar a pílula?

Voltou as costas como se nada tivesse acontecido e acrescentou:

-Não posso ir, não tenho fato de banho!

E foi andando com um sorriso provocador.

*****

Joana era uma menina que pouco tinha a agradecer à vida, a mãe vivia num mundo de remorsos que ninguém conhecia, não era uma mulher azeda, pelo contrário, era muito doce, mas não tinha emoções, parecia estar sempre à espera de algum milagre.

O pai, já tinha 62 anos quando ela nasceu, foi como se lhe tivessem dado uma boneca, ficou embevecido, vaidoso mas sem saber, bem, o que fazer.
Até tinha receio de lhe pegar. Era tão frágil!

A menina cresceu, nada lhe faltou, teve muito amor, mas sem a alegria que molda a personalidade, alimenta a alma e adoça o espirito.


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Pouco sabia dos seus antepassados, as origens perdiam-se no mutismo da mãe, que já tinha esquecido as raízes e na memória do pai que, aos 12 anos, ficou órfão e foi criado por uma velha prima até que aos 15. Depois veio para Lisboa e por cá ficou.


A mãe era de uma aldeia próxima de Castelo Branco e, segundo uma confidência da madrinha, foi casada com um sapateiro que um dia a abandonou, foi então que conheceu o pai, um caixeiro-viajante e, não sabe porque se apaixonaram, porque a mãe é muito bonita e jeitosa e o pai nem por isso.
É muito mais velho e apenas tem,  como beleza, a sua enorme bondade. 

Dizem que se enamoraram, amor à primeira vista, dizem eles, porque ninguém acredita.

Para a mãe foi o conforto económico de um homem, que embora muito mais velho, era carinhoso e sabia dar-lhe a atenção que nunca teve.

Para o pai era como que um alimentar do alter-ego, ter conseguido uma mulher, na plenitude da vida, ainda capaz de lhe satisfazer o seu maior desejo, dar-lhe um filho.

O resto tem sido um viver de faz de conta, uma mãe acomodada, que passa pela vida, como se ela não existisse, pensa que a mãe tem um segredo que a consome mas o qual, não quer, ou não pode, partilhar.

Um dia, afoitou-se um pouco mais, e perguntou ao pai:

-A mãe carrega, com ela, um segredo ou um desgosto que não quer compartilhar, sabes qual é pai? 

O pai fez uma longa pausa, longa de mais para ser verdadeiro, antes de responder:

-Sabes filha que o único segredo, da tua mãe, é o grande amor que tem por nós. Não penses nisso Joana!

Joana mais se convenceu de que algo, muito importante, lhe estava a ser escondido.

********

Joana hoje só tinha aulas, na faculdade, na parte da tarde, mas precisava consultar um artigo, sobre Rita Levi–Montalcini, pelo que resolveu ir mais cedo, para passar pela biblioteca.

Saiu numa paragem do autocarro, antes da Univerdade, para passar na livraria, precisava comprar o livro “Elogio da Imperfeição”, para preparar um trabalho.

Mas pensou mal, a livraria estava fechada  para almoço, da 13 as 15, ela sabia mas a cabeça, por vezes, tem estas falhas.
Ia ficar para outro dia.

Meteu os pés a caminho da faculdade e, em boa hora, olhou pela montra do café "O Caloiro".

Nem queria acreditar, na mesa mesmo encostada ao vidro o Maurício e, uma amiga comum, a Lisete, estavam no maior à vontade, entre caricias e beijos, totalmente alheados de tudo e todos os que os rodeavam.

Ficou sem saber, mesmo, o que fazer. As emoções, os sentimentos, o amor-próprio e o orgulho tomaram conta dos pensamentos.
Não sabia o que fazer, era uma luta entre o bom senso e a vontade.

Podia seguir e fingir que não viu nada?
Entrar e fazer uma pequena, ou grande, fita? Mas isso, não estava no seu feitio.

Imperou o bom senso. Foi simples e civilizada.

Entrou no café e, com a maior calma do mundo, cumprimentou o casal e desejou:

-Meninos...continuem a divertir-se, aproveitem que eu vou fazer o mesmo!

Maurício, tentou, mas a voz não lhe saiu muito bem, tentou, mas as palavras soaram a falso:

-Joana, isto não é nada foi só......, mas não teve tempo para concluir, Joana foi mais rápida:

-Não te preocupes! Agora já podes ir de férias para o Algarve.







(Ainda falta um pouco para acabar, só me falta decidir o destino destas personagens.)









18 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia Manuel
Nesta oferta, o texto escrito, está muito do teu pensamento distribuído pelas personagens.
Os encontros e desencontros,a paixão e o desejo, as dificuldades para se chegar ao fim.
Votos de uma boa semana.
Que São Pedro feche um pouco as torneiras...A chuva parece que veio para ficar...

✿ chica disse...

Já imagino o final, pois a cena foi bem mostrada e entrei bem no sentimento da Joana! Gostei! abração, linda semana,chica

Carmem Grinheiro disse...

Olá meu caro Manuel.
Vim agradecer-lhe por passar sempre pelo "lado do sol" e deixar sempre uma palavra amiga.
Mudanças repentinas na vida, e nem o tempo nem a cabeça dão para tudo.
Mas as coisas estão retomando o rumo e regresso por estes dias.

Um abço amigo

Maria Luisa Adães disse...

E assim terminou aquele amor verdadeiro nela, mentira nele!

Ela com dignidade o abandonou e ele era um idiota que a não merecia!

Conheço um caso semelhante! Ela era brilhante e ele era para esquecer, como pessoa...mas foi difícil esquecer. coisas da mocidade!

Vai continuar ou ficamos por aqui?

Grata por o encontrar nos "7degraus

Maria Luísa

Maria Luisa Adães disse...

Se quer saber o destino das personagens eu na minha opinião, ele é um idiota que não vale nada e ela merece quem a ame de verdade!
Espero!

Maria Luísa

Maria Luisa Adães disse...

Se quer saber o destino das personagens eu na minha opinião, ele é um idiota que não vale nada e ela merece quem a ame de verdade!
Espero!

Maria Luísa

Janita disse...

Há aqui uma coisa que interliga estes episódios: O filho que a mãe procura mas que não quer ser encontrado!
Como o destino é caprichoso e os escritores ainda mais, eu auguro que o Maurício é o filho, e, como nada acontece por caso, a Joana é irmã e por isso o namoro deles foi sempre à moda antiga e tudo vai acabar a contento da mãe triste, do filho, provavelmente, adoptado e a Joana uma médica consciente, responsável e feliz.

De qualquer modo, o final é o Manuel quem o vai criar.
Ai, quem dera que assim nós pudéssemos planear e concretizar os nossos finais de vida...:)

Parabéns! Vá com calma que isto de pensar no que o povo gosta, não é fácil.
Nunca podemos agradar a gregos e a troianos.

Abraço e fico a aguardar pacientemente! :)

Janita

São disse...

Fico esperando....

Bons sonhos :)

Bloguinho da Zizi disse...


Cá estou a espera do desfecho!

Adoro o que escreves... fico presa às imagens da história.

Aguardo ansiosamente!

Beijinhos

Magia da Inês disse...

✿✿彡。°
Sensacional! Agora tem que ficar mais emocionante!...

Ótimo dia com tudo de bom!
Beijinhos.
°。✿⊱。·..

Smareis disse...

Oi Manuel!

Já estava com saudades de ler suas histórias.
Estive ausente a alguns meses por isso demorei aparecer. De volta!
Adorei a história, os personagem, vou estar acompanhando os últimos capítulos.Vamos ver o desfecho do casal.

Abração!

Helena Medeiros Helena disse...

Este terceiro capítulo veio aguçar em teus leitores a vontade de saber logo a continuação de tão bela história.
Sei que tua prodigiosa imaginação há de criar um final digno da tua criatividade.
Fico no aguardo.
Sorrisos e estrelas nos teus caminhos,
Helena
(http://helena.blogs.sapo.pt)

Mirtes Stolze. disse...

Boa noite Manuel.
Cada fez mais intrigante, só espero que eles não sejam irmãos, seria tão triste, que o que a mãe dela esconde seja o passando de um filho que foi embora, e o destino o colocar próximo da mãe,mas apaixonado pela meia irmã.
Enfim pela sua excelente criação vamos esperar o próximo capitulo.
Um lindo final de semana.
Um forte abraço.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Há por aí muitas Joanas e esta retrata-la bem. Uma vez mais teces como uma aranha habilidosa uma teia que nos prende até ao fim.

Com tantas partes e tão bem escritas que tal um romance? Tenho a certeza que para ti não vai custar nada. E um livro é sempre um... livro.

Fica feita a sugestão; mai nada... rrrsss

Abç

Mirtes Stolze. disse...

Bom dia Manuel.
Vim lhe desejar um feliz domingo.
Com muitas alegrias.
Quando editar o seu livro, pois tem tudo para ser um sucesso, me avisa, quero ser as primeiras a ler rsrs.
Um forte abraço;

SOL da Esteva disse...

Mistério que permanece e se adensa na continuação da narrativa.
Não te vou dar palpites (dos meus) para não estragar as surpresas que tens para nos dar.
A "coisa" promete.
O Algarve será a solução?
Estou a gostar.


Abraços


SOL

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Ando tão ausente, desse mundo virtual, que deixei passar essa parte 3, tão importante, para pegar o fio da meada, seguindo a leitura...Ainda bem que fica aqui registrada...Uma Vida, cheia de fatos a se desenrolar, e para completar uma "traição"...Vou lá, na outra fase, saber como Joana administrou a cena do flagrante!
Um abraço, Manuel!

fernando disse...

Parte III

Vai devagar, mas vai indo. Os Olhos não dão para mais.

Parte III tão boa como as anteriores Ou talvez melhor; tem um pouco de tudo :

.Humor em algumas passagens.

Poesia e Boa: - sem alegria que molda a personalidade, que alimenta a alma e adoça o espírito.

Suspense: o mistério e o segredo da Mãe.

Dramático: - Não te preocupes! Agora já podes ir de férias para o Algarve -.

O romance (a partir de agora. Já não é Novela) continua bem narrado em detalhe, sem ser chato. O Português continua claro e simples, nas Culto.

O problema é. Se o Romance for Publicado; me pergunto. Será que a Mocidade, vai entendê-lo?! O que está em Modas são os Palavrões!

Bom Fim de Semana.

Jc