sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A Vida - Final













Senti que me estava a alongar e a receptividade não era muita. Acabei um pouco antes, fugindo ao pensamento, pois precisava de mais, muito mais, para chegar ao que imaginei.


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-A minha mãe, porque o perdeu há 25 anos, fez o luto e não queria passar, outra vez, pelo mesmo.
O meu pai, não sei porque mas tinha ódio do filho do sapateiro, como dizia. Por fim, o Mauricio, meu ex-namorado que pensava que o tinha trocado por ele.


___________

Nada mudou na casa de Joana continuava, tudo, como se nada tivesse acontecido, não sabiam das declarações da filha e tomaram, como normal, o facto de a polícia judiciária ter insistido, em perguntas e em saber onde estavam entre as 8 da noite de quarta-feira e as 10 da manhã de quinta.
Era esse o período que os legistas, e a própria polícia, consideravam como provável, para o crime.
O doutor saiu, do ISSERS, pelas sete e meia e foi encontrado, às dez da manhã, do dia seguinte.

***

O Senhor Cordeiro ia passear, o seu velho beagle, e achou estranho a posição do homem, pensou abrir o carro mas teve receio, telefonou para o 112 e explicou tudo muito bem explicado. Disseram para não mexer em nada e para não sair, iam mandar uma equipa.


Cumpriram, mas esteve 43 minutos à espera, sim ele olhou para as horas quando telefonou, eram dez horas e vinte e dois e o carro, mais a ambulância, só apareceram as onze e cinco.
Não gostou nada da forma como o trataram, parecia que o tornavam responsável, perguntas e mais perguntas e ainda teve que os acompanhar para prestar declarações, foi isso que disseram, ficou farto e ali mesmo jurou que podia topar, um carro cheio de cadáveres que a sua boca não se abria. Dava a volta e fazia de conta que não tinha visto nada.

Nos interrogatórios, feitios no local, apenas descobriram que aquele carro, um belo BMW, não era a primeira vez que por ali parava.

A senhora, do Quiosque dos jornais, jura que era habitual, estacionar naquele lugar, aos fins do dia, e um casal sair com alguma cúmplicidade.


Algumas vezes, não muitas, o senhor ia comprar revistas e a companheira ficava junto  ao automóvel.
Desta vez não reparou, quando fechou o negócio, se o carro estava por aqueles lados.

Se lhe perguntarem como era a senhora, ia ser  difícil, era ao fim do dia e ficava sempre ao pé do carro, não dava para ver bem, era alta e parecia muito elegante, mas difícil para descrever melhor. E, também, não eram todos dias.

************

Joana agarrou-se aos estudos e, ao trabalho, quanto mais ocupada menos tempo para pensar nos acontecimentos. Queria esquecer, confessa que desconfiou dos pais mas tinha a certeza que não, ela era o seu melhor alibi, estiveram juntos toda a noite.

O trabalho no hospital era, totalmente, absorvente e tinha sentido algumas dificuldades na habituação, não no aspecto profissional, até tinha superado as espectativas, mas o lado humano era muito difícil.

Quando, pela primeira vez, teve de assistir ao tratamento dum menino mal tratado pelos próprios pais, foi difícil. Ou, então, aquela senhora em que as marcas de espancamento eram evidentes e não quis implicar, possivelmente, o marido garantindo ter caído numas escadas. Isso deixou-a a pensar e confusa.

Um dia, um jovem, não tinha mais de 18 ou 19 anos, depois de uma noite de copos se estatelou com a sua mota e tinha hipotecado o resto da vida. Ia ficar, se tivesse sorte, paraplégico e agarrado a uma cadeira de rodas, para o resto da vida. Ficou tão triste que, se não fosse o amor que sentia pela profissão tinha, ali mesmo, desistido.

Havia casos difíceis, mesmo muito difíceis de gerir, ficavam no pensamento.
Lembrava uma pobre mulher, esfaqueado pelo próprio filho, com a vida a esvair-se pelos fundos golpes no peito e que, apenas, estava muito preocupada com o seu menino, o assassino, que ia ficar sem ter quem cuidasse dele.

E as crianças, meus Deus, o drama de os ver sofrer, era o pior que lhe podia acontecer, perder na luta, pela vida de um inocente.

Os colegas, mais velhos, experientes, muito sabedores, iam dizendo que mesmo depois de muitos anos é sempre difícil, lidar com estes dramas, mas iam criando hábitos que ajudavam a encarar, a morte, como fazendo parte do percurso da própria vida.

Mas, no resto, lentamente, foi retomando as suas rotinas, a relação com os pais voltou ao normal, embora sinta que a mãe está mais fria, não que alguma vez lhe tenha sentido grandes emoções, mas estava diferente, um pouco desconfiada e calculista, era normal face aos acontecimentos. O pai voltou ao que sempre foi, como se nada tivesse acontecido.

Lembrava o irmão, todos os dias, mal o conheceu mas foi muito forte. Começou como veneração, misto de admiração e sentimentos que não sabia definir.


Quando o conheceu pensou - é este o que procuro - mal sabia que foi o princípio de uma mudança total.

Agora, pensava, que os desígnios de Deus eram tão poderosos que não deixaram que o pudesse amar, nem mesmo, como irmão.

Hoje estava uma mulher diferente, cresceu tornou-se mais adulta mas, ao mesmo tempo, sente que perdeu um pouco daquela ingenuidade que a tornava tão feliz.

****

Faziam, exactamente, seis meses que Albino foi encontrado no carro, não há precisão sobre o dia da sua morte, pode ter acontecido na quarta, ou na quinta.
Pelo que leu, não chegaram a nenhuma conclusão a única certeza, segundo os jornais, uma dose letal de morfina foi-lhe injectada no pescoço.


******

Nunca mais falou com a doutora Cândida, estava envergonhada, parecia mesmo ingratidão, afinal ela tanto a ajudou, mas o tempo, os problemas e uma certa dose de "deixa andar" fez com que os dias fossem passando. Mas ia remediar, hoje, ia telefonar.


-Olá Joana, ouviu do outro lado do telefone!

-Oh Cândida, espero que não esteja zangada comigo! Tenho sido tão descuidada. Não é desculpa mas o trabalho, no hospital, não me deixa tempo para nada. Mas juro que não me tenho esquecido de si!

Cândida foi pronta a sossegar:

-Eu sei, querida, e compreendo, é muita coisa para uma pessoa digerir, não estejas preocupada. Que me dizes a um almoço num dia destes?

-Gostava muito, disse Joana e, na quarta- feira, tenho o dia quase livre!

-Então, respondeu Cândida, podemo-nos encontrar no mesmo sítio. Que dizes?

-Obrigada Cândida, fico ansiosa por esse dia, lá estarei. Beijinhos!

******

Repetiram, como há meses atrás, encontraram-se, no mesmo café, e foram a caminho do pequeno restaurante, na travessa.

A ementa não variava muito, mas o peixe grelhado ficou na cabeça da Joana e repetiu, a doutora Cândida não ia com peixe e escolheu Carne à Bolonhesa.

-Sabe, disse Joana, temos andado à volta com  conversa e afinal não falamos, daquilo que, verdadeiramente, queremos!
Conheci mal, o meu irmão, sei que nunca o senti e tenho umas saudades, imensas, e uma pena enorme de não o ter abraçado. Deus não quis! A Cândida, que o conheceu bem, podia-me falar um pouco dele. Quero saber como era, os seus sonhos, sei que tudo o que me puder dizer, não o vai trazer de volta mas, fico a conhece-lo um pouco melhor.

A doutora Cândida pareceu ficar um pouco confusa, mas recuperou depressa e acrescentou:

-Mas que posso dizer mais, minha filha, era uma pessoa muito especial, amável, delicado e com muita consideração para com todos.
Muito exigente mas, ao mesmo tempo, de grande tolerância.
Comecei a trabalhar, com ele no banco, estava no início da sua carreira, mas desde logo nasceu uma admiração, posso dizer mútua, pois nunca mais dispensou a minha presença, de tal forma que, quando foi convidado para inaugurar o Instituto, aceitou com a condição de eu o acompanhar! E assim foi!
Estava previsto fazer parte, na próxima remodelação governamental, do executivo. Ia ser secretário de estado, não sei bem de que secretaria mas ia e, já me tinha dito, que contava comigo.
Tinha à frente uma grande carreira e, podes crer, que tinha um irmão que te iria amar muito.
Não te tinha ainda dito mas, vou ter a honra de seguir o projecto que idealizou, e ele, esteja onde estiver vai ficar orgulhoso. Vou ser empossada como directora do Instituto, serei eu a substitui-lo e a continuar a sua obra.

Joana não se conteve:

-Cândida, desculpe a pergunta, mas entre si e ele, a relação era estritamente profissional?

A doutora corou mas, rapidamente, se recompôs.

-Sabes, Joana, a nossa única preocupação devia ser descobrir quem o injectou com essa overdose de heroína! O resto, agora, já não importa!

-É verdade, disse Joana, mas não respondeu à minha pergunta!

-Pois, Joana, não respondi nem vou responder, pouco interessa sobre o que aconteceu ou o que poderia ter acontecido, nada acrescenta saber se a nossa amizade, era apenas no campo profissional ou se alguma vez, fomos um pouco mais além.


E agora vou devolver a questão:

-A nossa relação de amizade seria, ou será, diferente se eu e o teu irmão, algum dia fomos para a cama?

Joana não estava à espera da reacção, ficou desarmada e sem saber o que dizer, gaguejou,  na procura das palavras que teimavam em se enrolar na língua, por fim atreveu-se:

-Cândida não me julgue mal, não tive qualquer intenção além da curiosidade e, confesso, gostava muito de a ter como cunhada, mas gostava mesmo! Desculpe Cândida!

-Não gosto de lugares comuns, disse a doutora, mas agora vem a propósito dizer, que as desculpas evitam-se!

Levantou-se, de supetão, e muito furiosa foi acrescentando:

-Pensei que eras diferente mas o ADN é o mesmo. Passa bem!

Foi até ao balcão, pagou a parte da sua conta, e saiu porta fora sem sequer olhar para trás.

Joana não percebeu a reacção, mas ficou a saber aquilo que pensava. Eles tinham um caso!


********

Um ano vai passado e o assassinato, do doutor Albino Malcata, continua no mais completo mistério, para a polícia é um assunto encerrada, a não ser que algo de novo possa surgir.


Joana tem um enorme problema a roer-lhe a consciência, ela teve acesso ao relatório da autópsia e confirmou que a morte, do irmão, foi devida a uma overdose de “diacetilmorfina” ou seja de heroína.

Todos os meios de informação referiram overdose de morfina, talvez por má interpretação do nome técnico.


Mas a Cândida, quando foram almoçar,  referiu com muita convicção HEROÍNA.


Era estranho, foi a única a considerar heroína, quando todos erradamente falaram e escreveram morfina.

Coincidência? Só podia ser!

*******


A estação estava quase deserta, às 7 horas da manhã de um sábado, só algumas pessoas, bocejantes, esperavam alguém pelo comboio que estava com um ligeiro atraso.
Chegou as 7h e 33 minutos, num estridente roçar nos carris os freios que, a pouco a pouco, o foram imobilizando.
Houve algumas correrias de bagageiros, com carrinhos de rodas de borracha, na esperança de um serviço para um bom começo do dia.

Quando as portas das carruagens se abriram, os passageiros, começaram a sair numa dormência de quem passara, quase, oito horas sentado no banco dum comboio.

Os que tinham familiares, à sua espera, amontoavam-se numa algazarra de cumprimentos e perguntas, os outros seguiam puxando malas de rodas a caminho de uma longa fila de táxis.

Um homem, de pernas altas, e um pouco desajeitado, enfiado num sobretudo que lhe dava um ar de certa fineza, que as mãos nodosas desmentiam. Eram as marcas de uma longa vida de trabalho.


Era a mesma criatura que, há muitos anos atrás, numa sexta-feira, fria e chuvosa, estava sentado numa cadeira de buinho, com  as mãos a cobrir-lhe o rosto até que a mulher gritou:

-É um rapaz, um belo rapagão!

Era o mesmo mas, muito mais velho, o rosto vincado pelas rugas do tempo, o mesmo ar amargurado, com os cabelos fartos mas, agora, na cor da prata. O negro tinha desbotado há muito.

Tomou um táxi, não deixou por a mala no porta-bagagem, levou-a ao seu lado no banco. 


Deu indicações ao motorista, recostou-se e semicerrou os olhos até chegar ao destino.



******


Tinha ido, a salto, para França numa aventura feita de fome e de muita perseverança, foram 26 dias de caminhadas e boleias, desconfiadas, de alguns camionistas.

Passaram quase 30 anos desde que começou uma nova vida.


Em “Orthez” foi coveiro, a ocupação que mais o marcou, depois, muitos anos, mineiro, em "Nora Pas de Calais” e acabou, depois de muito porfiar, na sua profissão em “Combs-la-Ville”, próximo de Paris.

Não foi fácil, destruiu a mente, sonha todas as noites com os mortos que foi entregando à terra, nos pulmões, resta o DPOC que lhe marcou o que lhe resta da vida e, só, a sua verdadeira profissão lhe trouxe, alguma tranquilidade, aos poucos anos que ainda lhe sobram.

Nunca lhe perdoou, foi ele quem apareceu para acabar com a magia que tinha sonhado com Maria do Rosário.

Quando ela lhe disse que estava grávida não se conteve e teve que lhe dar uma bofetada, depois arrependeu-se e pediu-lhe desculpa mas exigiu que fosse deitar fora o intruso. Mas teimosa, como todas as mulheres, não quis.

Quando nasceu amaldiçou-o para sempre, mas o desgraçado parecia invisível, passava sem se deixar notar, vivia sem nada mas parecia ter tudo.


Um dia, o safado, desapareceu sem deixar rasto, foi como se a terra o tivesse engolido.

Foi um renascer de esperança, se calhar para ele e Maria do Rosário ainda havia uma hipótese.


Mas não! O rapaz tinha-a transformado, não era a mesma.

Não valia a pena, ia desistir,  fez uma trouxa e meteu-se ao caminho deixando o ódio a alimentar a vingança que o atormentava.


****


Um dia, um cliente habitual, um português pretensioso,  dono de uma loja das bebidas, entrou e estendeu-lhe um par de botas:

-J'en ai besoin pour demain...

Depois atirou-lhe um jornal português e perguntou:

-Queres ler, não tem nada de especial, mas já o li todo.

Foi nesse jornal que o ódio, que já andava um pouco escondido, voltou à tona. Quem diria que o amaldiçoado chegou tão longe, a bruxa da professora, tinha disso que ele podia ir longe. E não é que foi!

Na primeira página, em letras gordas, para quem as quisesse ler.

O ilustre doutor Albino Manuel Vicente Malacata foi empossado pelo ministro como presidente do recém-criado ISSERS, uma espécie de Instituto Superior nas áreas das novas tecnologias. Ao lado uma foto que lhe fez uma angústia como já não sentia há muitos anos. E eram os olhos, esses, não os esqueceu.Tal os da mãe.

Fechou o estabelecimento, entregou "les bottes", ao convencido do dono e, abalou a caminho  de casa, estava determinado, ia a Portugal acabar com a maldição.

Em casa pediu, à espanhola, com quem vivia há alguns anos:

-Preciso de uma mala, vou a Portugal acabar o que não comecei, volto breve!

-Llévame!

-Después! Entonces vamonos los dos, ahora no.


**********


Não foi fácil, não tinha plano e precisava de um.


Podia mandar uma carta a dizer que era o pai e que queria pedir desculpa. Era
 perigoso, ia deixar um rasto. 


Não, não dava!
Ia esperar tinha tempo.


****


Foi numa quarta-feira que, finalmente, o filho saiu sozinho e encaminhou-se para o BMW estacionado, alguns metros à frente.


Foi rápido e esperou junto ao veículo.

Quando o doutor se aproximou, olhou com estranheza o homem, mas mais surpreendido ficou quando ouviu:

-Então doutor Albino já não reconhece o seu pai?

Albino, observou o homem com atenção, aquela boca de cantos descaídos, o nariz grande e o olhar agudo estavam, ainda, na sua mente.
Era ou podia ser, de facto, o pai. Ficou sem palavras mas só perguntou:

-O que faz aqui passados todos estes anos?

-Sei que é tarde, disse o homem, é difícil mudar o passado mas pudemos, sempre, amenizar o futuro. Sei que és um vencedor, queria ver-te e, se possível, falar um pouco. Tenho muito pouco tempo e preciso voltar a onde pertenço.

Se me puderes levar e deixar, num lado qualquer, aproveitamos para nos conhecermos melhor, já que antes não o conseguimos fazer.

-Tenho pena, disse Albino,  mas vou para o Estoril.

O homem sorriu e acrescentou:

-É óptimo! Dás-me boleia e deixas-me na estacão dos comboios, falamos um pouco e depois cada um vai à sua vida. Quem sabe se não é a ultima vez que vamos estar juntos!

Aníbal não estava muito feliz mas anuiu:

-A estacão do Estoril serve para si? Se é boa vamos embora!

Foi uma viagem rápida, pouco falaram. O pai só quis saber como tinha chegado tão alto.


Albino explicou que trabalhou, sem nunca deixar de estudar. 


Teve sorte no emprego e nas pessoas que foi conhecendo.

O pai ouvia mas parecia distante e hesitante mas, sempre, perguntou:

-E a tua mãe?

Albino apenas lhe disse:

-Só há dois dias descobri que ainda tenho mãe e que está bem! Não a vi, nem sei se a quero ver, nem se ela tem algum interesse nisso.



****

Chegou ao Estoril, estacionou, num lugar vago. Era ali, onde estacionava com alguma frequência.
Depois, perguntou:

-Para o senhor está bem aqui?

-Muito bom!



****


Depois sentiu a picada, queria respirar mas o ar não chegava lá, queria gritar mas a voz morria na garganta.

O homem guardou a seringa. Limpou, com um lenço, em tudo onde tivesse tocado. Apagou as luzes e desligou o carro. Saiu e seguiu na direcção da estação dos comboios.

Tomou o primeiro que passou para Lisboa.
Parecia calmo no meio da confusão que lhe bailava na cabeça, os pensamentos entrechocavam-se, num misto de dever cumprido e uma agonia,  por ter que carregar para o resto da vida a imagem dos olhos do Albino, na agonia dos últimos momentos.


Teve que ser, não merecia outra coisa, agora só faltava Maria do Rosário, ainda pensou perdoar-lhe mas, não podia, tinha que a juntar ao filho, afinal foi por ele que ela o trocou.

Sabia que Albino não sofreu, ele estudou e sabia que ia ficar num estado de sonolência, depois o ritmo cardíaco e a respiração diminuiriam, ira perder a consciência. Seria, quase, como se diz, uma morte santa.

Agora para a cabra, da mãe, que mal se apanhou livre, se enroscou com o velho que impingia maquinas Singer, a prestações. 

E ele, que sempre, pensou voltar para a levar como se fosse uma princesa.

Tinha que estudar a melhor maneira de o fazer, mas ia encontrar uma forma, ou não fosse um Malcata.


******


Desceu no Cais do Sodré, não conhecia, já tinha ouvido falar das diversões daquela zona, não era homem dessas coisas, mas hoje, era noite para festejar e sempre ficava a conhecer. 

Afinal era como uma despedida, não tardava acabava a missão e voltava para a sua Yolanda, sabia que era feia como um sapo, mas fiel e muito carinhosa. Não a amava mas que importância tinha isso?


****


Atravessou a avenida, ia procurar um sítio onde jantar, já estava a sentir uma fome danada.

Era um restaurante modesto mas, as iscas, estavam boas e o preço era aceitável. Apetecia-lhe um cigarro mas estava, totalmente, proibido. Não podia!

Percorreu um pouco aquelas travessas, muitos bares e tanta animação, gostava de ir espreitar mas lembrou-se que os pulmões não o deixavam frequentar meios mais poluídos e, lá dentro, a atmosfera não devia ser convidativa.

Tinha ouvido falar no Bairro Alto, restava-lhe tempo para dar uma volta.
Ia saber como lá chegar.

Estavam na esquina três moços, ia perguntar:

-Desculpem interromper a vossa conversa, mas algum dos senhores me diz o melhor caminho para o Bairro Alto?

Olharam-se, como se se interrogassem com o olhar, até que o que parecia mais velho respondeu:

-Está com sorte vamos, precisamente, para esses lados. Se quiser pode ir connosco?

-Obrigado, disse Malcata, isso é mesmo bom. Mas não queria incomodar!



Meteram-se ao caminho, por uma travessa um pouco manhosa, os rapazes pareciam animados. De novo foi o mais velho a perguntar:

-Então o amigo não é de Lisboa?

-Não, respondeu, sou imigrante, vim tratar dumas coisas e volto breve.



Iam já voltar na esquina da travessa, quando, um deles, segurou-lhe o braço encostou-lhe uma navalha à garganta e com ar ameaçador exigiu:

-Passa para cá o guito, o relógio e o telemóvel, Mas depressa antes que a menina te degole.


Foi rápido a entregar os objectos, que um deles ia arrecadando.

-Agora despeja os bolsos, voltou a mandar o da navalha, saca tudo porque estou a ficar nervoso!

Malcata tremia, sentia o suor a escorrer e, as pernas, a perder as forças, queria salvar a caixa onde tinha a seringa.

Timidamente tentou uma mentira:

-Já dei tudo, só tenho esta caixa com a seringa para a minha insulina.

O outro tentou tirar a caixa, o desgraçado fez um esforço, Fez muito mal, a faca entrou-lhe duas vezes no peito e o sangue jorrou.



Sentiu o corpo dobrar-se, ouviu uns passos a afastarem-se em grande correria.


Tentou gritar mas, apenas, lhe saiu um suspiro. A vida acabara de se esfumar por dois buracos, feios, por onde o sangue escorria lentamente.


*******


Partiram, quase juntos, nunca se iriam encontrar.


A luz da alma, do inocente, não podia atenuar a escuridão do espirito do carrasco.









24 comentários:

dilita disse...

Olá Manuel

Os meus parabéns!
Gostei muito. Isto sim, vale bem ser editado em livro. Ainda não pensou nisso?

Grande abraço.
Dilita

✿ chica disse...

Parabéns,Manuel! Tua inspiração não cabe em poucos capítulos. è grande, imensa e sempre linda! Valeu te acompanhar! abração,chica

SOL da Esteva disse...

Parabéns, Manuel. Final em grande estilo. Fiquei completamente fora das "soluções" que preconizava para terminar este intrigante mistério.
O teu valor, como Contista, suplanta tudo. Vais no bom caminho.
Renovados Parabéns.


Abraços


SOL

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Parecem histórias de coisas más.
Dizia o mais antigos que outros espíritos ou coisas más se apoderavam dos outros e eram eles a transformarem.
-se em carrascos ou vítimas.
Uma história de contornos bastante macabros e maquiavélicos.

Pode vir a próxima??

Carmem Grinheiro disse...

Boa noite, Manuel
Final trágico.
Filho amaldiçoado do início ao fim, ninguém merece...

abç amg

lidacoelho disse...

Bom dia
Peço desculpa pelo meu comentário tão mal apresentado. Transcrevo-o para aqui rectificando as partes que me parecem erradas.

luís rodrigues coelho Coelho disse...
Parecem histórias de coisas más.
Diziam o mais antigos:
-Os espíritos maus ou forças do maligno apoderavam-se das pessoas e transformando-se naquilo que eram - demónios, levavam-nas a cometer estes e outros crimes.
Uma história de contornos bastante macabros e maquiavélicos.
Este homem não tinha razões para matar o filho um final desenquadrado.
Parece que apenas sobra a sombra do mal como justiça.

Magia da Inês disse...

·.✿✿ミ
Olá, amigo!
Desculpe-me pelo sumiço mas estava cansada e afastei-me da net.
Li apenas os dois primeiros capítulo e agora, o final...
Confesso que fiquei curiosa para saber da parte que perdi. Voltarei para ler o resto porque o trama da história impressiona!...

Boa semana!
Beijinhos do Brasil。♫° ·.
✿⊱

Sandra Botelho disse...

Perfeito como sempre!
Meu amigo as coisas não andam bem...Meu namorado esta piorando. Triste, muito triste!
Bjos no coração

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Quanta trama,quantas artimanhas,envolvendo personagens interessantes. Uma história policial, à altura dos grandes escritores nessa linha...que intriga! Esse final, foi surpreendente!Parabéns,Manuel. Agora,é imprimir em livro e mandar o convite para o lançamento.Eu vou! Vi a imagem da estação e bateu saudades de Lisboa!
Um beijo!

Smareis disse...

Oi Manuel, boa tarde!

Uma história intrigante, curiosa, que gostei imenso de ler, com um final sinistro e muito bem arquitetado. Coitado do Dr. Albino vitima do próprio pai.
Achei que o pai foi muito ruinoso, não precisava ter matado o filho. Mas também teve um final terrível. Lembrei-me dos assaltos aqui no Brasil.

Seringa maldita, tanto pra um quanto pra outro.

Manuel você é um fantástico contista. Suas histórias deveriam ser publicadas em livros todas elas são muito bem construídas.

Obrigada pela leitura!
Espero pelos próximos contos que virão por ai.

Deixo um beijo, muitos sorrisos e desejo de uma excelente semana.

Maria Luisa Adães disse...

Bem delineado e foi muito bom ser publicado.

Terminou
E a parte final me emocionou...

Partirem tão perto
e nunca mais se encontrarem...

Estou próximo da partida, para um local mais quente!

Beijo,

Maria Luísa Adães

Janita disse...

A vida final dever ter esses contornos. Seguirmos todos o mesmo caminho e nunca nos encontrarmos!
Belíssima e curiosa forma de vida!
Não posso deixar de lhe dar os meus sinceros parabéns, Manuel e, já agora, porque não passar todos estes contos para um livro?
Até já tenho o título:
"Coletânea de Contos Imprevisíveis".
Estou a brincar, mas só parcialmente!

Continue, Manuel! Parabéns.

Um abraço.

fernando disse...

Senhor Manuel Penteado.

Muitos Parabéns pela Narração: A Vida. E a Parte Final.

Como contista o Senhor Manuel segue a Tradição Portuguesa. Na Intriga, trama, suspense; está perto dos Ingleses. O seu desfecho Final Imprevisível. É até melhor que os filmes de Affred Hitchcock.

Tudo do melhor para Si e Para Seu Blogue!

Jc

Bloguinho da Zizi disse...

Gostaria imenso de saber qual seria o outro final que imaginaste. Do jeito que escreve nunca seria longo e sim muito bom de se ler.
Beijinhos

Smareis disse...

Oi Manuel,

Vim deixar um beijo e desejar uma excelente semana. Tem postagem ok?

Aguardando seus próximos contos.

Mirtes Stolze. disse...

Bom dia Manuel.
Nem preciso repetir que sempre consegue me surpreender rsrs. Pensava em todos, menos no próprio pai. Quanto a morte dele , a lei do retorno sempre acontece, talvez não dão rápido como foi nessa caso,mas há sempre justiça.
Amei acompanhar a sua historia; Estou já aguardando outra rsrs.
Um forte abraço.

Helena Medeiros Helena disse...

Sou uma pessoa que lê muito, e todo tipo de leitura sempre me agrada. É claro que apenas filtro os romances que nada vão me acrescentar, literatura vazia ou de conteúdo dúbio. E como sou adepta da boa literatura sei que uma grande história nem sempre tem um happy end, pelo menos como nós, leitores, gostaríamos que tivesse.
Por isso, meu amigo, ouso dizer que a tua história de final tão triste, trágico e inesperado, contrariou as expectativas dos que "adivinhavam" um final feliz.
No decorrer da leitura cheguei a considerar a D. Cândida como um dos suspeitos.
Como disse mais acima, os finais felizes nem sempre culminam um grande romance. E o teu, Manuel, entra nessa lista, pois o teu romance traz realmente uma grande história, e um final surpreendente sem nos apresentar amores bem sucedidos.
Trazes inesperadamente do passado uma pessoa com uma bagagem de ódio e revolta tão grande para tirar a vida de um personagem tão importante. Genial este desfecho! Pai e filho, cujas desavenças atravessaram toda a história de forma meio oculta, apenas delineada em algumas situações, se confrontando para de forma tão trágica (re)ligarem e desligarem seus destinos num ato tão insano quanto descabido.
Tão criativa a tua história, meu amigo, que se quisesses poderias ter alongado o enredo que, a mim pelo menos, não teria causado nenhum enfado ou impaciência.
Depois deste comentário alongado só me resta pedir desculpas por fazê-lo quase que tão prolongado quanto um romance (risos).
Fico aguardando outras publicações com o mesmo entusiasmo, admiração e amizade,
Helena

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Antes de tudo: foi com muito prazer, honra e alegria que te vi - em pessoa- pela primeira vez no lançamento do Crónicas etc.... Os Amigos verdadeiros são assim: prometem e cumprem, contra enxurradas, jogos do Benfas e outras contrariedades. Oxalá fossem todos como tu!

Prontos (sem s): agora só falta dar uns retoques, aumentar umas páginas - e já tá - temos novela! Eu bem te dizia... E se quiseres editor fla com o Zé Maria Ribeirinho e diz que vais da minha parte, que somos amigos e que até estiveste no lançamento do meu livro...

jose.ribeirinho@gmail.com
966 598 199


Como já deves saber vou apresentar a obra no Porto (e talvez em Coimbra) Sff avisa as ruas/eus Amigas/os naquelas cidades para que compareçam se quiserem e puderem. Obrigado

Abç

Como pensas que me saí na pele de orador?

Mirtes Stolze. disse...

Boa tarde Manuel.
Passando para desejar uma semana abençoada com muita paz.
Beijos.

Magia da Inês disse...

❀⊱•.
Bom tempo do Advento!
Bom início de semana com tudo de bom!!!
•.✿⊱
Beijinhos do Brasil.♪♬° ·.
❀✿❀⊱•.

São disse...

Música que desconhecia, mas muito adequada ao tema.

Ficamos esperando o próximo conto.


Boa semana lhe desejo :)

dilita disse...

Então, Manuel!?

Estou à espera de mais.....

Calado há tanto tempo, está doente?

Entretanto, eu tenho relido; não cansa.
Abraço e bom Domingo.
Dilita

Helena Medeiros Helena disse...

Olá meu amigo! Passando para ver se tinha uma nova postagem. Acredito que estejas às voltas com a correria dessa época de Natal onde tudo parece acumular. Aqui está sendo assim (risos), mas quando tenho um tempinho entre uma consulta e outra procuro fazer uma visitinha para um dos blogueiros amigos. Hoje deu-me de visitar-te, para deixar alguns sorrisos e um punhado de estrelas adornando a tua árvore de Natal que, se não existir fisicamente, há de estar iluminando o olhar da tua criança interior que eu adivinho esteja a sonhar com os brinquedos que o Papai Noel poderá trazer.
É uma época de magia, meu amigo, e vamos de alguma forma dar a nossa contribuição para que o Natal dos menos favorecidos seja um pouquinho melhor, e deixando de lado o exagero do consumismo dessa época do ano que eu, particularmente adoro, e deixando de lado também aquele velho pensamento de que não adianta sermos "bonzinhos" apenas nessa época, vamos focar as nossas atitudes em realmente fazermos algo de melhor por alguns dos nossos semelhantes. Fico com a consciência tranquila, pois durante todo o ano dou assistência a uma creche e um asilo, e aproveito o Natal para deixa-los mais felizes com os presentes, brincadeiras e comilança que promovo na maior alegria, misturando a infância e a velhice para que uns ensinem aos outros a alegria, a esperança, o sonho e a magia do Natal.
Desculpe o alongado do comentário, meu querido, mas fostes hoje o escolhido para a minha visita. Quem manda ser tão receptivo aos amigos? (risos)
Meu carinho de sempre,
Helena

Rita Sperchi disse...

Hoje vim deixar meu abraço pelo ano
todo que vc esteve comigo, agradeço seu carinho
vou sair de férias e volto em janeiro com meus posts
favoritos, espero que nossa amizade permaneça em 2015
Desejo um feliz Natal e um novo ano cheio de muita Paz

Aqui minha gratidão por tudo

└──●► *Rita!!