sábado, 13 de dezembro de 2014

Um milagre









Não sabia explicar porque mas, havia algo que o tornava diferente.

Sempre foi assim, já em rapaz achava brutas e despropositadas as brincadeiras dos outros rapazes.  Aquele jogar à bola era uma brincadeira violenta, com palavrões e ele não gostava nada dessas coisas, desses palavreados.
Sofreu um pouco, os outros rapazes chamavam-lhe  menina mas não se importava, até gostava mais de brincar com elas, eram mais educadas e tinham brincadeiras mais sossegadas. À apanhada, ao jogo da macaca ou então faziam jantarinhos, coisas que os deixava felizes mas sem precisar de correrias, de brutalidades e algazarras.

Hoje fazia 19 anos e ia entrar para a faculdade e, achava que a felicidade, tal como a pensava, nunca tinha feito parte das sua existência, tinha momentos, muito poucos, que sentia, não propriamente felicidade mas, talvez, um pouco mais de alegria.
Quando a mãe, nos momentos,  em que a doença, lhe permitia alguma lucidez, com aquela voz sumida e arrastada o chamava para o seu lado, lhe afagava  o rosto e quase em sussurro lhe dizia:

-Bélinho, estás um belo rapaz, tal e qual o teu avô que Deus tem!

Depois caia na letargia em que vivia há muitos anos.
Os médicos não sabiam explicar porque, ela era normal, muito alegre e tão carinhosa e, de repente teve assim como que uma espécie de AVC, foi para o hospital esteve lá, muito tempo, e saiu tal como está.
Uns dizem que foram os médicos, outros acham que foi mesmo assim e nada podiam fazer e, até havia, quem falasse em bruxedos e espíritos e todos esses disparates.
Mas ele ia ser médico e estudar a doença da mãe até descobrir a cura!

A mãe era a vida do pai, aquilo era um amor, uma paixão que deixava as pessoas admiradas com tamanho apego do casal. Ele achava que muitos tinham inveja de não conseguirem uma harmonia igual.
A mãe deixou de ser o que era, mas parecia  que sentia o mesmo porque ele via que os olhares, dela, mesmo distantes, brilhavam mais quando o pai estava presente.

O pai já não era o pai, quando a mãe adoeceu lutou, foi a todos os médicos, queria ir ao estrangeiro, mas quando se convenceu que apenas um milagre a podia salvar abraçou-se à fé como naufrago a uma tábua.
Passava horas na igreja, aprendeu a rezar, acendia velas, foi a Fátima e, desconfiam, que até bruxas e curandeiras consultou. Tudo! Até que a fé morreu  e foi como se ele, também, morresse.

Entrou numa espécie de depressão, esqueceu os negócios e ficava longas horas falando com a mãe, numas ladainhas que só ele percebia e, quem sabe, talvez, a mãe no recôndito da sua ausência também percebesse.

************

Era muito novo mas continuou a fazer o que a mãe lhe tinha ensinado, a cumprir, a ser bom menino e a continuar a ser obediente e respeitar o que a Laura dizia. Assim o fez.

A Laura era a empregada, há muitos anos, quando ele nasceu já estava na casa, a mãe dizia que foi ela que o criou e ele gosta muito da Laura.
É rechonchuda, bonacheirona e sabe tantas coisas da vida. Nunca casou, diz ela,  que não quis  mas que teve muito pretendentes.

O pai, o tio Ernesto e um sócio têm uma Empresa que faz casas, estradas e outras coisas assim, quando a mãe adoeceu o pai esqueceu o trabalho e essas obrigações todas, mas o tio tomou conta de tudo, como se o pai estivesse lá e as coisas continuaram na mesma, nada lhes faltou.
Às vezes o tio vinha, aqui, a casa, via como estavam e falava dos negócios com o pai. Ele parecia dar atenção mas, quem o conhece, sabe que ele ouvia mas não descodificava nada. Apenas abanava a cabeça, apertava a mão do tio e dizia:

-Mano, tudo o que fizeres está certo! Obrigado por seres o nosso anjo da guarda!

Depois davam um abraço e soltavam algumas lágrimas. Um beijo na testa da mãe e, alguns dias notava, lá muito no fundo dos olhos, um sorriso de alegria.

Depois, ia falar com a Laura e queria saber tudo, o que estava bem, o que faltava e essas coisas, queria que tudo estivesse como dantes.
Apertava o sobrinho, contra o peito, queria saber da escola, como ia, como se sentia e todas essas coisas e acabava sempre com a mesma frase:

-Estuda e faz-te engenheiro para tomares conta dos negócios, o teu pai não pode e eu, qualquer dia, fico velho!

Ele  sorria, só podia fazer isso, não lhe queria dar o desgosto de lhe dizer que ia ser médico para curar a mãe.

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Estamos no Outono, os dias cinzentos escurecem os nossos pensamentos, anda há trás anos, na Faculdade de Medicina, adora o curso mas à medida que o tempo passa, mais se convence que já aprendeu muito mas, que nada sabe.
Os mestres são diferentes, de grande eloquência mas, alguns, muito teóricos e ele deseja a prática, não tem tempo, a mãe continua no seu mundo e o pai definha numa resignação total, já não tem forças para enfrentar a vida. Parece que desistiu!

Anatomia é muito difícil mas é o mistério que  procurava, sim o corpo humano é um mistério, uma máquina complexa que funciona como um enorme computador que dá ordens e faz com que cada acto seja a consequência de uma vontade, se algo falha, nesse perfeito maquinismo, há um desencontro e o anómalo passa a fazer parte do conjunto.

Aqueles impulsos eléctricos, do cérebro, não podem ter nada que lhe altere o caminho, tem uma sequência lógico, manipulados por qualquer Deus imaginário que, quando se distrai, faz que estas doenças, como a da mãe, se instalem e se quebre o mecanismo, é ai que o mecânico, ou seja o médico, tenta descobrir qual a engrenagem que descontrolou o engenho, quase perfeito.

Sabia que era muito bom aluno, os mestres têm elogiado o seu trabalho e empenho, dizem que é muito aplicado e inteligente.
Mas, não é só a inteligente que o move, também a vontade e a necessidade.

O tio Ernesto, que parecia o mais saudável de todos morreu, no princípio do Inverno, um aneurisma.
O primo, fez a vontade ao pai e acabou, no ano passado, engenharia e tomou, com o engenheiro Themudo, o outro sócio, conta do negócio e está tudo a correr muito bem.

Agora a Empresa chama-se Anselmo, Ernesto, Themudo Técnicas de Engenharias, Lda,. É do primo, da tia, do pai e do engenheiro Themudo.
Passaram uma procuração, ao primo Ricardo, o pai não está capaz e ele não tem tempo, mas a família é muito coesa e as coisas estão a correr muito bem.

Ainda falta muito para acabar a Faculdade, escolheu neuropsiquiatria, são mais alguns anos e mais o  estágio, mas vai conseguir!
Tem pesquisado muito e, está  certo que, vai por a funcionar o circuito que em algum lado se perdeu.

A Laura estava tão velha que, foi necessário arranjar uma senhora para a ajudar, não queria e, pela primeira vez, teve que de se impor.
Ainda choramingou, com soluços e com as mãos como em oração disse-lhe:

-O menino, que eu criei com tanto amor, agora faz uma coisa destas. Arranja uma qualquer e bota-me no lixo como um trapo velho!

-Oh querida Laura, não penses  nisso, tu és da casa. A pessoa que vem é para estar sob as tuas ordens e fazer o que tu disseres, tu vais ser a dona da casa e estás para cuidares da mãe e do pai. Ficas com mais tempo para eles. Tonta, és mesmo tonta!

Pareceu ficar mais tranquila mas notou-lhe uma certa angústia.

Aos domingos gosta de ficar um pouco mais na cama mas, hoje passou uma noite com muita inquietação, uma espécie de premonição, o que aliás, lhe estava a acontecer com frequência.

Levantou-se e fui espreitar os pais. A mãe parecia acordada e sentiu que o olhou, o pai parecia dormir profundamente mas notou alguma lividez o que, nele, não era natural. Passou, com muito carinho, a mão pela testa e ficou numa espécie de pânico, apalpou a jugular  e o pai tinha partido.
Finalmente encontrou o caminho que há muito desejava.

Faz hoje três meses que o pai morreu, a mãe está a ter umas reacções que o animam, olha para todos e sorri e, há tanto tempo que não sorria.

Ontem, então, aconteceu um verdadeiro milagre. É a Laura que lhe dá as refeições, colher a colher na boca, mas a mãe pegou na colher e, como um bebé desajeitado, foi levando o comer à boca e sorria. Os olhos tinham um brilho diferente.

Hoje estendeu-lhe a mão e fez o gesto de se querer levantar, agarrou-se ao seu braço e com muita timidez caminhou num passo titubeante.
Mas caminhou e sorriu.

Voltou a sentá-la na cadeira. Com voz tremulante perguntou pelo pai.

Ficou em pânico, não lhe queria dizer a verdade mas, também, não lhe queria mentir.
Parece que se apercebeu, colocou as mãos como se põem para rezar e abanou com a cabeça, assim com quem diz:

-Está com Deus!

******

Parece que foi ontem que o pai partiu e, afinal, já passaram anos.

Acabou o curso, é cirurgião de neuropsiquiatra, está a trabalhar no Hospital principal e, sabe, que já ganhou muita reputação.

Casou com a Judite, colega de curso. A mulher tinha enveredado pela pediatria, o que veio a propósito, pois tem dois rapazes, o João e o Tiago, gémeos e tão parecidos como duas gotas de água.

O seu grande objectivo foi alcançado, a mãe já não parece a mesma, é autónoma, adquiriu a independência que tinha perdido, já sai orgulhosa, com os netos até ao jardim.

O problema da mãe, embora grave, foi mal diagnosticado, foram-na tratando como se tivesse Alzheimer quando, afinal tinha um Glioma no tronco cerebral. Felizmente benigno!
Foi operada, ele esteve presente.

Quem os conhece, família e amigos, dizem que foi um milagre, que houve um santo que se apiedou e intercedeu junto de Deus.

Acredita que sim, mas tem a certeza que deu uma grande, diz mesmo, enorme ajuda.

Deus deve ter feito a sua parte mas, sem ele, nunca teria conseguido.








18 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Ora aqui está o exemplo de uma estória bem contada, salpicada aqui e acolá de lágrimas escondidas, de sentidos dissimulados e de desassossego que não é, no entanto, o do Pessoa.

Já to disse Manelamigo que tens de te abalançar a mais altos voos: uma novela ou mesmo um romance. Tomas-lhes o gosto e ganhas asas e sais do ninho das escritas pequenas, mas muito bem feitas.

Mas não podes esperar que te empurrem. Tens de ser tu a a empurrar-te...

Abç

Mirtes Stolze. disse...

Bom dia Manuel.
Uma bela historia, que me tirou lagrimas, fiquei emocionada, ate porque a minha historia familiar tem muitas coisas parecidas, eu tenho uma irmã que de uma hora para outra ficou com a mente parada , ela passava horas no mundo dela que não temos acesso, um dia quando a minha mãe partiu ela melhorou bastante, o que eu acho disso? A minha mãe como espirito nós ajudou nas nossas dificuldades, ate hoje depois de anos sinto que a nossa mãe amada, com o seu amor infinito por nós intercede junto ao pai por nós. Já lhe disse repito você é um excelente escritor.
Um lindo domingo.
Beijos.

Smareis disse...

Boa tarde Manuel!

Uma história muito bem composta. Fiquei emocionada lendo, é assim que sinto sempre que te leio ... Suas histórias sempre tem muita realidade, muitos fatos que acontece dentro das famílias.
Realmente foi um milagre dessa mulher, diagnóstico errado acontece muito. Alguns são fatais. O importante é que tudo deu certo no final. Deus é justo, o milagre acontece para mostrar o quando Deus é maravilhoso, misericordioso.
Gostei muito Manuel, seus relatos sempre maravilhosos. Você é um ótimo Escritor, deveria publicar um livro.
Vou fazer uma pausa no meu blog por alguns dias, preciso organizar minhas idéias.
Que nesta noite especial de Natal todos os seus sonhos se realizem, que Deus continue abençoando você e toda a sua família nos anos seguintes… Feliz Natal, Feliz Ano Novo!
Um punhado de sorriso e um beijo no coração ☺!

Palavras disse...

Olá meu caro,

como sempre mais uma história de emocionar. O que curou a mãe foi o amor que ele sentia por ela. Estou certa que sim!

Meu caro vim deixar-te um abraço e desejar-lhe boas festas e um 2015 repleto de saúde, paz e alegria de viver! Que voce continue nos agraciando com suas doces e ternas histórias!

grande abraço

Leila Rodrigues

SOL da Esteva disse...

Comove-me. Comoveu-me.
História de vida, com vida e objectivos precisos.
Há quem diga que os impossíveis se fazem de imediato, mas os milagres demoram (sempre) um pouquinho mais.
Boa narrativa... como sempre.


Abraços


SOL

Mirtes Stolze. disse...

Bom dia Manuel.
Vim lhe desejar que nesta semana a se abrir feito as flores na primavera, desejo-lhe as melhores coisas desta vida e que os anjos de Deus estejam ao teu lado! Uma semana abençoada.
Abraços.

Magia da Inês disse...

.✿✿ミ
Você é demais!!! Histórias tão humanas e cativantes! Adoro tudo que você escreve.
╭✿╯Bom início de semana!
╰✿╮Beijinhos do Brasil.° ·.

São disse...

Se Henrique permitir, concordo com o que escreveu!

Bom serão :)

fernando disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carmem Grinheiro disse...

Boa noite amigo Manuel,
Bom conto com final feliz.
Retrata bem as mazelas que vêm sem que contemos, e que meio sem explicação, toldam a vida duma família inteira.
Seu conto vem ainda, por o dedo na ferida de muitos "maus diagnósticos" que nos cercam e que ainda contribuem para piorar o que, já de si, é mau.
Muito bom.
Abço amgo

fernando disse...

fernando disse...
Hisória Bem Narrada. Com .

Concordo com HAF. Acrescentando: Asas, mas Asas de Condor!

Ic


Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Com tantos excelentes e inusitados contos e romances publicados, dentro de pouco tempo já teremos uma imensa obra! Que fértil imaginação criativa você possui, Manuel! Está sendo meu escritor preferido...
Beijo

fernando disse...

Conto bem narrado. Com .

Concordo com HAF. Acrescentando. Asas, mas Asas de Condor!


Jc

Maria Luisa Adães disse...

Olá Manuel

Sabes que me encontro no Brasil
e te desejo Natal Feliz!

Emociona o que nos contas e és na realidade, um amor de pessoa.

Ainda vou tentar escrever sobre o Natal,
mas aqui o tempo é muito preenchido e estou em falta para muitos, mas tu...
és por hoje e sempre alguém a quem muito estimo! Boa Noite Amigo, Boa
Noite Portugal!

Maria Luísa

Helena Medeiros Helena disse...

Meu querido amigo: tudo já foi dito pelos amigos que tanto querem ver um livro teu publicado. Junto minha voz a deles, e espero um dia ter a alegria de ver postada aqui a notícias de que, finalmente, darás luz a um rebento, onde centenas de outras pessoas poderão ter o prazer que aqui temos de te ler em tão geniais contos ou romances.
Que esse dia não demore, meu amigo, é o que desejo!
Que o restinho da semana seja de sorrisos ao dia e estrelas no teu sonhar,
Helena

Gracita disse...

Uma história tão real que me comoveu tal a firmeza de objetivos do jovem rapaz. Quem acredita e tem fé traça metas e persevera na conquista do objetivo. Uma bela lição!
Um abraço
Gracita

Janita disse...

Uma história bem ao seu jeito, Manuel!
Rica em pormenores, bem escrita, comovente e tão semelhante às histórias que grassam por esse mundo fora.
Tudo se encaminhou para que o Bélinho - diminutivo de que nome? - se formasse no Curso que o ajudaria a salvar a mãe.

Sabe, Manuel? Eu acho que sem uma força superior à sua vontade (dele) a mãe não ficaria curada!
O rapaz foi o instrumento da vontade de Deus, mas isto sou eu a falar; o escritor é o Manuel!

Um beijo e o desejo de Bom Natal!

Janita

Evanir disse...

Guardo os pequenos detalhes desse
ano caminhando a seu lado,
em minha memória e no meu coração ,
tens um lugar eterno e especial
onde guardo nossa amizade.
Obrigada..Obrigada de todo coração..
Você é tão especial que deixa marca no coração,
quando ausente sinto saudades.
Preciso demais da sua companhia...
A vida é uma grande escola ,
onde plantamos e se escolhermos boas sementes,
certamente vou colher as mais belas flores.
E fazer dessas flores que dei o nome de amizade,
as mais belas e perfumadas no jardim da minha
existência.
Um abençoado final de semana.
Um santo Natal para você e sua belíssima família.
Carinhosamente.
Evanir.