terça-feira, 3 de março de 2015

Ti Alfredo






Todos o tratavam por mestre Alfredo, mas nunca me habituei e para mim era, e será sempre, o Ti Alfredo. Forma maIs carinhosa. O mestre era um pouco o continuar duma profissão onde, diziam que era exímio, mas um pouco impessoal para quem fazia da vida uma festa.

Começou, quase com o nascer dos dentes, na oficina do pai e ali ficou até que as mãos o atraiçoaram e deixaram de obedecer. Artrite! Disseram os médicos, talvez seja mas eu acho que não é bem isso, talvez seja inveja dos deuses porque aquelas mãos faziam milagres, segundo diziam.

******

Foi numas férias, de verão, em que nas noites de calor me sentava, com o meu avô, à porta da casa para aproveitar a ligeira aragem que, às vezes, aparecia para amenizar o calor do dia.

As pessoas, que retomavam do trabalho, passavam e deixavam um:

-Boa tarde! Arrastado no compasso das botas que entoavam no empedrado. 

Para um citadino tudo era estranho, todos se conheciam, e cumprimentavam como se fizessem parte da família.

Pois foi num desses serões que o homem apareceu, era conhecido do meu avô, amigo de longa data, talvez, amigos, desde sempre.

Olhou-me com ar interrogador.

-É o meu neto, disse o avô. Está de férias e gosta muita cá da aldeia!

Depois pediu-me para ir  buscar uma cadeira para o mestre Alfredo. Obedeci, com agrado, gostei do homem e estava curioso e, além disso, era mestre.

Olhei e escolhi um local onde o piso estivesse mais nivelado, coloquei a cadeira e disse-lhe:

-Pronto senhor Alfredo aqui está a cadeirinha.

-Qual é a tua graça? Perguntou-me.

Fiquei sem saber o que responder, para mim até achava que não tinha muita graça mas,  o meu avô, percebeu a minha timidez e veio em meu auxílio:

-Não entendestes o mestre Alfredo? Quando perguntou a tua graça queria saber como te chamas!

Muito intimidado respondi:

-Sou Marco! Peço desculpa, senhor Alfredo, mas não sabia que graça era o mesmo que nome.

Reparei melhor no homem, tinha uns olhos muito vivos e um leve tique que o fazia franzir com frequência a testa.
Alto e muito magro, mas o que mais me impressionou foram as mãos, muito deformadas, mal as podia abrir.
No resto parecia boa pessoa e engraçado no falar, e foi com muito espirito que me respondeu:

-Sabes Marco que, graça e nome, não são a mesma coisa mas é como se fossem. Aqui o Ti Alfredo vai explicar. Antes, os senhores importantes, eram tratados de vossa graça, por isso agora quando perguntamos qual é a sua graça estamos a fazer a pessoa importante. É só isso! Percebes?

Abanei a cabeça em sinal de concordância, enquanto fui pensando em voz alta:

-Já percebo porque é que o avô o chama de mestre. Foi professor, não foi?

Agora foi o meu avô a responder:

-Foi professor mas não como tu pensas, foi mestre na profissão que escolheu.

-Ah....respondi, o que é que fazia?

-Nada de especial, respondeu. O teu avô, grande amigo, exagera um pouco. Eu fazia uma espécie de casas, nada importante, mas fazia bem e com muita arte. Trabalhava a madeira, de forma muito especial, fazia em relevo desenhos onde deixava transparecer, um pouco, a personalidade, a profissão ou até os sonhos do futuro morador. Sabes Marco, abusei e o empurrar, constante, do formão acabaram por fazer o resto, os ossos das mãos foram deformando e o resultado é este.

Mostrou o que restava, não era bonito de ver, os dedos estavam como ramos secos e enrugados.

Estava impressionado, mas não sabia que dizer, arrisquei em laia de consolação:

-Pois é pena mas deixou muitas pessoas felizes, com as casas que lhes fez!

Pareceu-me sentir um sorriso, descolorido, mas deve ser confusão minha. Mas ouvi:

-Pois é Marco, não sei se ficaram felizes, ou não, porque nunca ninguém se queixou!

Agora vi bem, o homem olhou e sorriu para o avô.

Depois foi um desenrolar de histórias, sobre coisas e pessoas que eu não conhecia. 


Deu-me o sono, pedi licença e fui-me deitar.

******

Ainda tinha oito dias de férias e, começava a ficar ansioso com o aproximar do fim. Era sempre assim, quando o tempo começava a fugir. Havia uma angústia que se apoderava de mim, só desejava que as horas fossem mais longas, que o Sol, apesar de impiedoso, não deixasse chegar a noite.

O serão, feito à porta, a ver quem passava e, a escutar, as histórias do Ti Alfredo, cheias de peripécias, coisas rocambolescas e, penso eu, muita invenção.

Não acreditava em tudo, acho que ele inventava para me manter entusiasmado, mas já tenho doze anos e percebo quando é verdade ou é inventado.

E ele inventava muita coisa. Mas tinha graça, lá isso tinha!

Os dias passaram sem quase dar por isso, um aperto no coração dizia-me que depois de amanhã me iriam meter na camioneta  da carreira com destino a Lisboa.

Era sempre assim, o motorista, ainda parente da família, tomava conta de mim, até à chegada onde alguém me iria esperar.

Foi mesmo na véspera, o meu avo chamou-me de lado, estava um pouco transtornado, nunca o tinha visto assim.
Segurou-me pelos ombros para me dizer:

-Não sabia se te devia dizer ou não, tive muitas dúvidas, uma parte queria mas outra dizia-me que não. Mas acho que és um rapaz, muito forte e muito inteligente, e não te quero enganar, por isso vou-te contar.
O Mestre Alfredo morreu, esta noite, ainda chamaram o médico mas nada havia a fazer, já era muito velho e estava muito doente.

******

Foi estranho, não senti nada de especial, se era muito velho e estava doente era natural.

-Obrigado avô por me contar! Respondi. Eu gostava dele mas só o conhecia de agora, devia ser uma boa pessoa, além de ser um mestre. Eu vou pensar sempre nele, como Ti Alfredo, acho que ele gostava.
Só é pena porque agora já ninguém vai fazer as casinhas bonitas, nunca vi nenhuma, mas acho que deviam ser mesmo muito lindas.

Pareceu-me ver um sorriso, muito apagado, no semblante sempre sisudo, do meu avô, antes de me dizer:

-Sabes que ele, agora, vai numa das casinhas bonitas, como dizes? Antes de ficar com o problema, nas mãos, ele ainda fez a casinha para a sua última viagem. Tinha-a guardado debaixo da cama.

******

Na altura não percebi bem, mas quando vinha na viagem foi como se uma luz se acendesse na minha cabeça. Senti um arrepio a percorrer-me o corpo e deixei escapar:

-Poça o homem fazia caixões! Sou mesmo parvo!


Tive sorte, estavam todos a dormir, ninguém ouviu o meu desabafo.




14 comentários:

Maria Luisa Adães disse...

Manuel

Meu bom amigo, sempre amável e eu agradeço muito sua visita.
Tenho estado desde Dezembro no Brasil e amanhã, dia 4 Março, às 21:30 do Brasil, 24:30 de Portugal, entro no avião direto a lisboa! Não podia estar mais do que 3 meses por aqui. Esta é a minha história!

Quanto à sua, essa das tais cazinhas
se transformarem nos caixões que o tal senhor fazia, foi de arrepiar, mas tão bem escrita, como apanágio seu, me fez rir. Muito bem contada.
O amigo escreve muito bem a esse nível e é uma boa companhia a sua amizade de que gosto muito.

Agora me despeço até ao nosso próximo encontro virtual e nessa altura, com a graça de Deus, estarei uma vez mais em Portugal por mais uns tempos.

Nunca sabemos se voltamos...

Graças por o encontrar e obrigada pela sua presença e sua gentileza.
Abraço grande,

Maria Luísa

✿ chica disse...

Quando começo a te ler, (deixo sempre para uma hora calma) sinto-me viajando!

Tão boa a sensação! Dessa vez fui até ao lado do teu avô, do Ti Alfredo e pude escutar as conversas ao fim de tarde. E que profissão a dele.preparava a casinha sem volta pra todos.Era justo que a sua estivesse prontinha... ADOREI! abraço,chica

✿ chica disse...

Quando começo a te ler, (deixo sempre para uma hora calma) sinto-me viajando!

Tão boa a sensação! Dessa vez fui até ao lado do teu avô, do Ti Alfredo e pude escutar as conversas ao fim de tarde. E que profissão a dele.preparava a casinha sem volta pra todos.Era justo que a sua estivesse prontinha... ADOREI! abraço,chica

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Aqui, no centro da cidade, perto da Santa Casa de Misericórdia que, por sua vez é bem perto do São João Batista - campo santo - há muitos fazedores dessas "casinhas derradeiras", inúmeros Ti Alfredo!

Há muito, não "ouvia" perguntar: "Qual a sua graça?"...era assim mesmo, antigamente, quando se queria saber o nome de alguém.

Pra variar, adorei a sua crônica, Manuel. Um beijo!

P.S. Está lá, a sua resposta sobre a Aldeota...

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Dizer que és um Escritor é recorrente. Mesmo em Goa continuo a pensar que deves publicar um livro - já que não seja novela ou romance do que, aliás és capaz, pelo menos de crónicas. Mau, de crónicas das tuas teclas?

Não sei bem, mas tenho a impressão de que já listo noutro lado...

Abç

Fê blue bird disse...

Viajai no tempo e senti todas as palavras como se as vivesse.
Gostei muito do seu texto.

beijinho

dilita disse...

Olá Manuel

Este conto não foge à regra, muito interessante. Apreciei, gostei muito.

Desta vez " adivinhei" o desfecho antes de lá chegar, mas isto foi excepção, não o habitual.

Grata pelas suas palavras no meu birras, e pela força;- ás vezes tenho mêdo...
Abraço.
Dilita

Helena Medeiros Helena disse...

Manuel, meu querido amigo: mais um dos teus deliciosos contos, mesclado de delicadeza no trato entre as personagens e um humor finíssimo. No decorrer da narrativa dava para perceber que se tratava de um "fazedor de caixões", mas encerrar a narrativa com a surpresa do garoto foi mesmo uma tacada de mestre. Gostei muito, aliás, como sempre aprecio os teus escritos, a tua sensibilidade nas narrativas.
Também apreciei muito o vídeo, uma música bela, porém nostálgica, uma voz lindíssima!
Que te cheguem sorrisos nas asas dos anjos para enfeitar os teus dias.
Com carinho,
Helena

Helena Medeiros Helena disse...

Manuel, meu querido amigo: mais um dos teus deliciosos contos, mesclado de delicadeza no trato entre as personagens e um humor finíssimo. No decorrer da narrativa dava para perceber que se tratava de um "fazedor de caixões", mas encerrar a narrativa com a surpresa do garoto foi mesmo uma tacada de mestre. Gostei muito, aliás, como sempre aprecio os teus escritos, a tua sensibilidade nas narrativas.
Também apreciei muito o vídeo, uma música bela, porém nostálgica, uma voz lindíssima!
Que te cheguem sorrisos nas asas dos anjos para enfeitar os teus dias.
Com carinho,
Helena

CÉU disse...

Pois é, o tio Alfredo lá se foi. É normal que para um garoto, e ainda por cima de férias, e vivendo na cidade, não entenda muito bem certas coisas.
A ingenuidade é "irmã" da pureza.

Tudo de bom!

Mirtes Stolze. disse...

Boa noite Manuel.
Como é bom vim aqui e saborear as suas escritas. Gostei muito, consegue nós fazer viajar nas suas historias.
Um lindo fds.
Beijos.

SOL da Esteva disse...

Confesso, Manuel, que consegui ser tão ingénio quanto o Marco. "Sou mesmo parvo"!
Como sempre, Amigo, um Conto com História.
Gostei. Parabéns.


Abraços



SOL

São disse...

E o livro, para quando?


Abraço e bom fim de semana

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Aqui "tá-se bem"
Corre uma aragem fresca e neste fim de tarde recordamos as pessoas e as coisas que nos construíram a felicidade dos dias.
Era aquele tempo em que se aprendia a dizer - OBRIGADO
E também. - POR FAVOR
e ainda - DESCULPE

Isso dos caixões fica para outra vez.