segunda-feira, 9 de março de 2015

As musas










Não me apetece escrever.

Tento, começo mas as ideias embotam e apenas resta um vazio.

Por vezes há uma que começa a brotar no meu cérebro, parece ir bem mas é ilusão, não tarda a ideia é apenas isso, uma ideia, que morre antes de germinar.

Foi ontem, talvez não fosse ontem, se calhar foi há mais dias, que comecei a imaginar a paixão, de uma pobre plebeia, por um príncipe loiro de fino bigodinho, que corria a galope num belo cavalo de crinas ao vento.
Mas foi um fogacho, o príncipe, afinal era um velho gordo, com um hálito capaz de exterminar um enxame de moscas.

A ideia, como podem ver, era boa mas os personagens resolveram aliar-se e tornar inglória a minha, já, pobre imaginação.

Penso, será cansaço? Mas ainda há muito pouco tempo as coisas fluíam como a água brota numa nascente, forte, fresca e cristalina.

De repente secou, a mente entrou numa espécie de greve intelectual, nada de tramas, comédias ou divagações sobre amores, mais ou menos possíveis.

Um deserto, não vale a pena tentar, basta um arremedo e os ouvidos entram num zunido, uns tinnitus, o cérebro se encolhe, os pensamentos se retraem e, a imaginação, fica tão obtusa como a do governante que está à frente deste país.

Já pensei que, possivelmente, é por imaginar, normalmente, moças de seios fartos, lábios carnudos e olhos com reflexos de magia, mas não, não era isso, são mesmo os fusíveis que fundiram.

Tentei imaginar uma cena com senhoras já matronas, com sonhos já apagados nas memórias dos tempos, maridos sentados no sofá na espera do descanso que não tarda.

Fui ardiloso, pensei que fui, mas puro engano, a escuridão manteve-se nem uma luzinha brilhou.

Por vezes olho o céu na esperança de um estrela despertar a minha inspiração, mas apenas um firmamento negro, pois as estrelas, tal como eu, também andam escondidas.

Foi ontem? Se calhar já foi há mais dias, mas pouco interessa para o caso. Fui espreitar a janela para tentar perceber se o frio já tinha desistido e vi uma loira.
Que espectáculo, cabelos abundantes espalhados pelas costas, em suaves caracóis, uma calça de licra, bem justa, delineava na perfeição uma bunda capaz de ressuscitar um morto.
Fiquei especado à espera de admirar o resto, imaginava já o farto busto e a doçura de um rosto angelical. Era agora, estava a voltar-se mas antes o não tivesse feito, pelo menos tinha mantido a minha imaginação ocupada. Mas não! Voltou-se, mesmo, para matar em definitivo a mina esperança. Era um homem, feio como um bode, barba rala, uma argola no nariz e borbulhas a salpicar aquela obra, já de si, tão imperfeita.

Não vale a pena, vou desistir e esperar o amanhã.

Mas o amanhã pode ser já hoje, por vezes acontece, as coisas dão a volta e a esperança renasce.
Está a acontecer, vem saltitante num doce bailado de sensualidade, as mamas erguidas, como lanças apontando aos céus, os cabelos de azeviche em dança demoníaca de tentação, os olhos rutilantes, iam hipnotizando quem tivesse a bênção de os olhar, os lábios lascivos eram morangos que aguçavam o apetite das bocas sequiosas.
Dizer que era linda era uma banalidade, pois ia para além do terrestre, só podia ser uma obra de um demónio, para tentar quem tivesse a leviandade de a olhar.

Eu estava no caminho, julguei, era o alvo daquela aparição que se aproximava de mim.
As pernas tremiam-me, o coração pulava numa autêntica doidice, a minha boca já sentia o sabor dos morangos, daqueles lábios. Estava tão próxima que fechei os olhos para tomar maior o encanto. Fiz mal!
Passou por mim e não parou.
Olhei desolado, a aparição foi cair nos braços doutra mulher, feia, varonil e desinteressante.
Deram as mãos e desapareceram enlevadas, cúmplices, nos carinhos e felizes nas intensões.

Desisto, não vale a pena, as musas só favorecem os poetas.




17 comentários:

Mirtes Stolze. disse...

Bom dia Manuel.
Se isso é falta de inspiração, imagine quando estiver inspirado rsrs. Não consegui terminar a leitura sem muito rir, imagine admirar uma mulher e depois perceber que é um homem rsrs. Uma linda semana meu amigo.
Um forte abraço.

Bell disse...

Inspirações dos poetas e escritores.

Um lindo dia pra vc =)

Smareis disse...

Oi Manuel!
Hoje você caprichou nos detalhes risos.
Essa aparição é meio complicada kkk.
Lendo-te imagino se forem por de faltas de inspiração, ideias, imagino quando estiver inspirado. Teu texto sempre é atilado. Tuas histórias deveriam ser publicadas. São excelentes.
Deixo um beijo e desejo de uma excelente semana!
Tem postagem por lá, te espero!

Lúcia disse...

Mesmo quando a inspiração não chega e as musas são inalcançáveis,o resultado é uma excelente crônica!

Boa semana, um beijo...

CÉU disse...

As musas nunca existiram, nem existem, nem para os poetas, nem para quem o não é, e muito menos no "Moulin Rouge" (aí, são mais deusas/meretrizes), mas faz bem ao cérebro e não só, pensar e desejar, e vocês, homens, são todos iguais, felizmente.
O que existe, sim, é a enorme vontade que vocês têm, para que elas surjam nas vossas vidas, assim como que num passo de mágica, por uns minutos/horas, dando à vossa imaginação, tudo a que qualquer mortal "tem direito". Satisfeito o "desejo" voltam para a "oficial", e raramente lhes contam essas "aventuras" visuais, e não só, porque a maior parte das vossas mulheres não saberia compreender essas atitudes. É uma pena, acrescento. A revolução das mentalidades leva séculos a fazer-se, mas vão-se dando já bons passos.

Este texto está tão engraçado e com tanta imaginação, que, por mim, pode continuar com esta temática, muito mais leve, real e descontraída.

Eu sei que as suas intenções são as melhores, ou seja, quer oferecer-nos momentos de leitura bem humorados e descontraídos. Et voilà, conseguiu.

Sonhe! Assim, o mundo "pula e avança".

Dias felizes e imaginativos.

Gina G disse...

O Manuel escreveu o seu melhor texto de sempre. Outros virão, claro.

Beijinhos

✿ chica disse...

Manuel,tu arrasas sempre e a inspiração não te deixa nunca!Ainda bem! Ganhamos nós! abração,chica

Flor de Lótus disse...

Olá, Manuel!Ah não nem vem coisa que não te falta é inspiração, quanto as musas acho que elas são só para os poetas mesmo,na vida rela elas não são tão musas assim,kkkk.
Beijosss

SOL da Esteva disse...

Olha que não, Manuel! Olha que não.
Os Poetas sofrem com os mesmos fusíveis queimados e ilusões que se esvaem. Crê!
Mas, o que interessa é a dissertação,magnífica,sobre o que nos falta de veia, quando se esvai o "sangue novo" duma ideia genial e atractiva.
Continuo na minha: os milagres são acontecimento das vontades. Bem o consegues.Parabéns.


Abraços



SOL

CÉU disse...

Ora, e o fim de semana, já espreita.

Bom fim de semana, soalheiro, de preferência!

Abraço.

Mirtes Stolze. disse...

Boa noite Manuel.
Passando para lhe desejar meu amigo, um lindo final de semana.
Um forte abraço.

Helena Medeiros Helena disse...

Meu querido, adorei a tua "falta" de inspiração! Pudessem todos os escritores ter essa tua facilidade de expressão, essa imaginação fértil que sabe produzir contos, crônicas como esta, texto que dá vontade de nem parar de ler. Tu és, meu amigo, um grande escritor! Desses que deveriam ter livros publicados para atingir um público maior. Bem mereces!
Que te chegue um final de semana de sorrisos e estrelas a iluminar o olhar,
Helena

Helena Medeiros Helena disse...

Meu querido, adorei a tua "falta" de inspiração! Pudessem todos os escritores ter essa tua facilidade de expressão, essa imaginação fértil que sabe produzir contos, crônicas como esta, texto que dá vontade de nem parar de ler. Tu és, meu amigo, um grande escritor! Desses que deveriam ter livros publicados para atingir um público maior. Bem mereces!
Que te chegue um final de semana de sorrisos e estrelas a iluminar o olhar,
Helena

dilita disse...

Olá Manuel
Atrasei-me outra vez para comentar, não para visitar, porque eu ando sempre à espreita...
(tenho andado adoentada, e a disposição falha.)
E o que vou eu dizer agora, que estes amigos ainda não disseram?! Digo que o Manuel está sempre a surpreender-nos com a sua capacidade crescente e diversificada, neste mundo de estórias e crónicas, e esta última é a prova.
Já se percebeu que gostei muito, e quem não gosta?- Não há.
Abraço, e boa semana.
Dilita

São disse...

Não está inspirado?!

Ora , ora...

Também nunca percebi porque razão se preferem as imitações aos originais, mas respeito quem o faz :)

Boa semana

Manuel disse...

Brisa Petala deixou um novo comentário na sua mensagem "As musas":

OLÁ AMIGO
Nossa como vc escrve bem. Imagina tendo mais inspiração.Que na sua semana não exista doença, tristeza, susto e raiva.
E que seus dias sejam preenchidos por amor, carinho, alegria e gentileza.

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Publicada por Brisa Petala em navoltadotempo a 18 de março de 2015 às 00:10

SOL da Esteva disse...

Voltei a querer saber se a inspiração nasce num dia especial; como hoje esse é um Dia Especial, Dia do Pai, poderia ser que o carinho dum filho pudesse despertar novas ideias.

Abraços


SOL